15/04/2018

Morte de Marielle completa um mês sem respostas

 

O clamor social pressiona investigadores a desvendar assassinato que comoveu o Brasil. Mas apuração caminha lentamente, enquanto polícia tenta juntar quebra-cabeça para encontrar responsáveis.O assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes completa, neste sábado (14/04), um mês sem respostas. O caso, que levou multidões às ruas no mundo todo para manifestar solidariedade e cobrar explicações, é tratado com absoluto sigilo pelos investigadores.

Nos últimos dias, uma nova execução e evidências encontradas pela equipe da Divisão de Homicídios (DH) da Polícia Civil do Rio e do Ministério Público (MP) estadual reforçaram as suspeitas sobre duas linhas de investigação, ligadas ao envolvimento de milicianos e colegas de Marielle na Câmara do Rio.

Policiais civis e federais que investigam o caso colheram digitais parciais em nove cápsulas encontradas por peritos no local do crime. As marcas podem ter sido deixadas pelo autor dos disparos ou o responsável por inserir os projéteis na pistola 9mm utilizada para executar Marielle e Anderson.

Entre o material analisado, havia um único projétil que não integrava o lote de munições UZZ 18, desviado da Polícia Federal. De acordo com investigadores ouvidos pelo jornal O Globo, trata-se de uma munição que integra um carregamento importado, com características especiais, semelhantes à de uma outra cápsula encontrada no caso de um homicídio que aconteceu no município de São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio.

Um dos agentes ouvidos pelo jornal afirmou que "há DNA de um grupo paramilitar no crime". Por estarem fragmentadas, as digitais não podem ser comparadas com a base de dados das polícias Civil e Federal. Entretanto, seria possível confrontá-las com as de um eventual suspeito.

A análise das cápsulas remonta a outros crimes praticados na região metropolitana. O uso de munição do lote UZZ 18 foi detectado em três dos 14.574 homicídios dolosos registrados no estado entre 2014 e 2017. As ações, que resultaram em cinco mortes, ocorreram em São Gonçalo, Niterói e na divisa entre os dois municípios.

Após a repercussão da notícia, o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, afirmou ter observado avanços nas investigações sobre os assassinatos de Marielle e Anderson. De acordo com o ministro, as equipes que trabalham no caso estão confiantes em identificar os responsáveis por ordenar a execução da vereadora.

"Houve um afunilamento das hipóteses. Quando converso com os investigadores, sinto que estão animados, confiantes em conseguir colocar na cadeia não só os que executaram, mas também chegar aos mandantes desse crime que chocou a todos nós", comentou.

Em 6 de abril, o comandante da intervenção federal no Rio de Janeiro, general Braga Netto, revelou avanços na investigação após reunião com o presidente Michel Temer. Na ocasião, demonstrou otimismo com o desfecho do caso nos próximos dias. Segundo o general, após ouvir o relato, Temer afirmou que a prisão dos assassinos da vereadora é considerada de extrema importância para o governo.

Nova execução

Com o objetivo de investigar a rotina de Marielle na Câmara Municipal do Rio, a DH da Polícia Civil tem intimado vereadores a depor sobre o caso. Até agora, oito já foram ouvidos, de um total de 14 chamados.

No domingo passado, dois dias após Marcello Siciliano (PHS) prestar depoimento por três horas aos agentes da DH, um líder comunitário que prestava serviços para seu mandato foi assassinado. Carlos Alexandre Pereira Maria, de 37 anos, era suspeito de ligação com uma milícia da Zona Oeste da cidade. Em seu perfil no Facebook, ele se identificava como "assessor parlamentar" de Siciliano. À imprensa, o vereador lamentou sua morte e frisou que se tratava apenas de um colaborador.

Entre os vereadores intimados pela DH, havia correligionários de Marielle, como Tarcísio Motta, candidato do Psol a governador no último pleito estadual, e adversários políticos. Siciliano se incluía no segundo grupo. Ele foi citado em um relatório da Secretaria de Segurança sobre a influência de milicianos nas eleições de 2014, quando se candidatou a deputado estadual, sem sucesso.

Amigo pessoal da vereadora, Tarcísio manifestou confiança nas investigações ao prestar depoimento na última quinta-feira. "Não temos nenhum elemento até o momento que desabone a atuação do chefe de polícia ou da DH. Não há nada que aponte para negligências ou morosidade proposital na apuração. Como éramos do mesmo partido e tínhamos intimidade, me fizeram perguntas sobre a atuação parlamentar da Marielle, a rotina dela e as atividades políticas", explicou.

Caso complexo

Ouvido pela DW Brasil, o deputado estadual Marcelo Freixo (Psol), com quem Marielle trabalhou por onze anos antes de se candidatar à Câmara Municipal do Rio, disse que o partido tem feito o possível para colaborar com as investigações.

"Qualquer documento que eles precisem, qualquer pessoa que eles queiram ouvir, a gente acelera. Estamos sempre esclarecendo qualquer dúvida sobre os últimos passos da Marielle, documentos que ela tenha produzido, discursos", contou.

Freixo manifestou compreensão com a falta de soluções para o caso um mês após as execuções. "Um trabalho que estamos fazendo é o de segurar a nossa angústia, pois queremos que se resolva rápido, mas as investigações têm outro ritmo. O caso da Patricia Accioly, bem menos complexo, levou dois meses. O do Elias Maluco, seis. Estamos falando do caso mais complexo da história da DH", lembrou.

Por fim, o deputado manifestou confiança na equipe à frente da investigação. "Não temos a menor dúvida de que eles vão descobrir. A gente acompanha de perto e eu, particularmente, converso com os delegados. Não sei se eles estão perto de uma conclusão, mas estou vendo uma equipe trabalhando bastante, muito empenhada", disse.

Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes foram assassinados em 14 de março após a vereadora ter participado de um debate com mulheres negras no bairro da Lapa, região central do Rio. O crime aconteceu no Estácio, a poucos quilômetros dali, onde o carro foi alvejado por nove disparos, dos quais quatro atingiram a vereadora.

De acordo com correligionários e familiares, ela não vinha sofrendo perseguição no período que antecedeu o crime. Alguns dias antes, ela havia denunciado a violência do 41º Batalhão de Polícia Militar na favela de Acari, Zona Norte da cidade.

A política urbana que assassinou Marielle Franco

O assassinato da vereadora carioca Marielle Franco completa um mês amanhã (13). Não podemos deixar de repetir a pergunta – quem matou Marielle? – e de exigir uma resposta.

Para além de uma investigação séria, que aponte e julgue os culpados por este e tantos outros assassinatos de defensores de direitos humanos, a resposta a essa pergunta passa também por uma reflexão sobre quem foi Marielle e o que representa não apenas sua execução, mas também sua presença no cenário político-institucional da cidade do Rio de Janeiro.

Há pelo menos quatro décadas, a imagem de cidades partidas entre “centros” e “periferias” oferece um paradigma para descrever a segregação socioterritorial de nossos municípios. Entretanto, essa imagem não dá conta de apontar todas as dimensões dessa separação e, especialmente, da natureza da violência que perpassa essa configuração.

Nesse período, pouco avançamos para revelar que essas cidades têm cor e gênero, e que esses elementos não são secundários, “subordinados” ou consequências do que seria a clivagem principal entre bairros “ricos” e bairros “pobres”. E mais: embora também saibamos que há uma diferença permanente entre a presença – e a qualidade – dos serviços públicos nos distintos bairros da cidade, esta falta de equidade por parte do Estado vai muito além da ideia de “ausência”. Na verdade, trata-se de uma presença estigmatizadora, racista e violenta.

No Jardim Ângela, zona sul de São Paulo, por exemplo, 30% da população é formada por mulheres negras, enquanto no Jardim Paulista, elas são 4,92%. Os moradores do distrito da zona sul também têm a menor expectativa de vida da cidade, 55,7 anos, contra 79,4 anos dos que vivem na área nobre da zona oeste. A taxa de homicídios no Jardim Ângela foi de 19,83 pessoas a cada 100 mil em 2015, a quarta maior da capital do estado.

Em agosto do ano passado, o então recém-empossado comandante da Rota –  a tropa de elite da Polícia Militar de São Paulo –, afirmou, em entrevista ao UOL, que os policias que atuam no bairro dos Jardins se comportavam de maneira diferente daqueles que trabalhavam nas periferias da cidade. Essa fala sintetiza o dispositivo estigmatizador, racista e violento a que nos referimos acima. A existência – e permanência – de periferias e favelas é marcada, no imaginário das cidades e na realidade das políticas urbanas, como uma espécie de zona cinzenta, um território em suspensão sobre o qual não podemos – jamais! – afirmar se são provisórios ou permanentes, legais ou ilegais, detentores de direitos ou excluídos da ordem.

Não é inocente ou indiferente a imensa presença de negros neste lugar. Embora a escravidão tenha sido formalmente abolida há mais de um século, o racismo que a sustentou, e que foi a base de toda a ocupação colonial do país, está muito longe de ter sido superado. Desta forma se constitui a “bomba” do genocídio – cotidiano – que opera nos territórios populares: a combinação da  transitoriedade permanente desses locais e do estado de indefinição de sua inserção na cidade com a presença de uma população, não branca, cujas vidas valem menos.

O atual gatilho detonador desta bomba se chama “guerra às drogas”. Trata-se de uma estratégia seletiva contra o tráfico e uso de entorpecentes, que criminaliza territórios inteiros, fornecendo a justificativa para o tratamento diferente e reforçando a configuração desses lugares, bem como de seus moradores, como inimigos, sujeitos, portanto, aos mais diversos níveis de arbitrariedade, remoções e despejos violentos, destruição de casas e redes sociais de existência, e, no limite, ao encarceramento e à morte.

É exatamente isso que acontece todos os dias na Maré, de onde veio Marielle, mas também na Cracolândia, em São Paulo, e nas milhares de favelas, periferias e ocupações Brasil afora, onde, aliás, vivem a maioria dos moradores das cidades do país.

Evidentemente, esta política urbana racista e estigmatizadora contribui de forma decisiva para impedir uma parte da população – humilhando-a e subtraindo-lhe a humanidade (é disso que se trata o racismo) – de se constituir como sujeito político na esfera pública, de levantar sua voz e se fazer respeitar no mundo da política. Foi exatamente este o “crime” de Marielle, o que a tornou vítima de um assassinato covarde: ousar furar estes bloqueios e afirmar que ela e todas as meninas e mulheres negras moradoras dos territórios populares do Brasil podem, sim, elevar a voz e ousar governar o país.

O assassinato de Marielle expõe as contradições de um sistema que exalta a meritocracia e diz que a cor e a origem pouco importam diante do esforço individual. Alçar um espaço na vida pública não foi suficiente para impedir que ela fosse morta.

Antes de ocupar o cargo de vereadora na Câmara Municipal do Rio, onde fazia parte da comissão que monitorava a intervenção federal militar na cidade, Marielle atuou na CPI das Milícias, na Assembleia Legislativa, quando era assessora parlamentar do deputado estadual Marcelo Freixo. Passado um mês de sua morte, pouco se avançou na solução do caso. Mas a própria Polícia Civil do Rio de Janeiro vê indícios de que o crime teria sido realizado por pessoas treinadas, como policiais. Se isso se confirmar, podemos ver indícios de que é justamente através da ação de paramilitares que este recado é dado para todos que ousam lutar contra as estruturas de poder.

Sua morte, porém, não será mera estatística. As milhares de Marielles que puderam furar parte dos bloqueios e emergir como sujeito – graças, inclusive, a políticas de ação afirmativa e de redistribuição de renda que hoje estão sendo objeto de ataque feroz – não se calarão. Sua presença no espaço político nos fará, certamente, mexer naquilo que os projetos políticos até o momento não quiseram – ou não puderam – enfrentar.

Boulos diz que há escalada de violência na política

Ainda sem resposta para a pergunta "Quem mandou matar Marielle?", manifestantes amanheceram no Largo do Machado, na Zona Sul do Rio, para marcar um mês do assassinato da vereadora Marielle Franco. Guilherme Boulos, candidato à presidência pelo PSOL, partido da vereadora, chegou ao local às 7h, e alertou para o risco de escalada da violência nas próximas eleições.

"Quem prega a violência no lugar do debate tem conseguido impor sua pauta", disse, ressaltando que a maior homenagem à vereadora morta é o enfrentamento. "A criminalização das lutas sociais no Brasil vem de muito tempo e o que se fazia à noite, nos becos, está acontecendo à luz do dia. Há uma escalada preocupante de violência política", completou.

O deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) disse que o assassinato é um dos crimes mais complexos do Rio de Janeiro. Afirmou, porém, acreditar no trabalho da polícia. "Vamos cobrar que o Estado não pare. Temos respeito pelo trabalho da Delegacia de Homicídios (DH). Somos contra a federalização (das investigações). Precisamos apoiar, mas precisamos acreditar que estão investigando."

"No momento em que os políticos enfrentam uma grande rejeição, uma execução como essa bagunça a cabeça de todo mundo", disse o vereador Tarcísio Motta, do mesmo partido.

Ele ressaltou que o assassinato deu visibilidade às causas da vereadora, que atuava no campo dos direitos humanos e foi a quinta mais votada nas últimas eleições. "É muito triste que as pessoas tenham conhecido Marielle em um momento como esse", disse.

De acordo com Freixo, o "Amanhecer por Marielle" é a forma de responder à violência política mostrando que a luta da vereadora cresceu com a execução. "Nossa resposta é a do afeto. Queremos justiça e não vingança", completou.

 

Fonte: RacismoAmbiental/Deutsche Welle/Agencia Estado/Municipios Baianos

Comentários:

Comentar | Comentários (0)

Nenhum comentário para esta notícia, seja o primeiro a postar!!