15/04/2018

Trump após o ataque à Síria: “Missão cumprida”

 

Os Estados Unidos demonstraram na noite de sexta-feira seu poder ao mundo, lançando em conjunto com a França e o Reino Unido um ataque aéreo contra o “bárbaro” regime sírio pelo suposto uso de gás de cloro contra a população civil da cidade de Duma, perto de Damasco. “Essa malvada e desprezível agressão não é obra de um homem, foram os crimes de um monstro”, declarou o presidente dos EUA, Donald Trump, em um discurso no qual prometeu manter a pressão até que a Síria abandone o uso de agentes proibidos. A represália, apresentada como um “golpe de precisão” contra alvos militares e centros de produção e armazenamento de armas químicas, ecoou além das terras sírias. Trump mostrou tanto à Rússia como ao Irã que os EUA, sob seu comando, não hesitam: abrem fogo. “Missão cumprida”, celebrou em seu Twitter nesta manhã.

Depois de seis dias de preparativos, Trump ordenou o ataque. Alguns dos alvos escolhidos foram um centro de pesquisa perto de Damasco, assim como um armazém e um posto militar, em Homs. “Nosso objetivo é promover uma forte dissuasão. Estamos preparados para manter a resposta até que o regime de Bashar al-Assad pare de usar agentes proibidos”, advertiu o presidente.

Consciente de que o tabuleiro sírio envolve mais de um jogador, Trump se dirigiu enfaticamente aos aliados de Damasco. “Pergunto ao Irã e à Rússia: que tipo de nação quer ser associada ao assassinato em massa de homens, mulheres e crianças inocentes? Nenhuma nação pode ter sucesso a longo prazo promovendo Estados falidos, tiranos brutais e ditadores assassinos. A Rússia deve decidir se continua seguindo a trilha escura ou se vai se somar às nações civilizadas como uma força de estabilidade e paz. Tomara que algum dia possamos nos dar bem com a Rússia, e inclusive com o Irã”, afirmou.

Trump, um isolacionista nato, sempre desejou retirar as tropas americanas do país − e na noite de sexta-feira, em plena ação militar, não escondeu isso: “Não nos iludimos, não podemos livrar o mundo do mal nem atuar em todos os lugares onde há tirania. Não há sangue americano suficiente para conseguir a paz no Oriente Médio. Poderemos ser parceiros e amigos, mas o destino da região está nas mãos de seu próprio povo”.

É um pensamento que o acompanha desde muito tempo antes de chegar à Casa Branca, e continua vivo nele. Há menos de duas semanas, no dia 3, Trump falou publicamente em abandonar o conflito e trazer para casa os 2.000 soldados americanos enviados à Síria. “Não conseguimos nada com isso. Não temos nada, a não ser morte e destruição. É horrível”, disse ele na ocasião. Quatro dias depois, tudo mudou. A população civil da rebelde Duma, segundo a versão americana, foi alvo de um ataque químico, que teria deixado pelo menos 60 mortos e centenas de feridos.

A agressão química ultrapassou a linha vermelha estabelecida há um ano, quando tropas sírias atacaram Jan Sheijun. Naquela ocasião morreram 86 pessoas, entre elas dezenas de crianças. As imagens de seus corpos fulminados pela ação cruel do gás sarin, um legado da era nazista, chocaram o mundo e ativaram o faro político de Trump. A represália foi imediata. Embora Moscou e Damasco, assim como agora, tenha negado sua participação na matança em Jan Sheijun, os EUA dispararam 59 mísseis Tomahawk contra a base aérea síria de Shayrat, na província de Homs.

Com essa ação militar, o presidente americano buscava também um ganho político. Se Barack Obama, com a promessa russa de retirada do arsenal químico, tinha descartado a ideia de intervir em 2013 após um ataque que matou 1.400 civis, Trump mostrava que com ele as coisas iam ser diferentes. O novo Governo estava disposto a atacar por muito menos.

Aquela intervenção foi um sucesso. Não morreu nenhum militar americano, nem russo, e os EUA eliminaram de uma só vez 20% da Força Aérea síria. Trump tinha obtido sua primeira vitória internacional. Durante meses, Bashar al-Assad sentiu o golpe e não usou o arsenal químico. Pouco a pouco, entretanto, à medida que a pressão dos EUA diminuía, foi voltando a usar gás de cloro em ataques seletivos contra os rebeldes. A Casa Branca o advertiu e seu então conselheiro de Segurança Nacional, Herbert R. McMaster, declarou que o efeito dissuasivo do bombardeio de Shayrat tinha se diluído.

O ataque a Duma, um reduto rebelde na periferia de Damasco, não só validou essa interpretação, como foi visto pela Casa Branca como um desafio à proibição de usar armas químicas. De pouco serviram os veementes desmentidos sírios e russos. Os Estados Unidos, a França e o Reino Unido concluíram que Damasco tinha cruzado o limite proibido.

O motivo pelo qual Assad voltou supostamente às velhas táticas ainda é objeto de debate. Mas quase todos os especialistas o vinculam com a declaração que Trump fez no início deste mês sobre sua intenção de retirar as tropas americanas. Se o presidente sírio viu nessa declaração um sinal de fraqueza e quis se aproveitar, continua sendo um mistério, mas aquilo de que ninguém dúvida é que a matança tenha aberto a caixa dos trovões.

Assim que foi denunciado o ataque sírio contra Duma, a Casa Branca pôs a máquina de guerra em andamento. Mas desta vez não atuou sozinha nem de surpresa. Anunciou previamente sua vontade de fazer o regime sírio pagar “um alto preço”, corresponsabilizou o presidente russo, Vladimir Putin, e mobilizou sua diplomacia para formar uma coalizão internacional. A Síria e seu grande padrinho, a Rússia, desgastados por desmentidos anteriores que resultaram ser falso, não conseguiram frear a ofensiva.

Com fortes aliados externos, sem oposição interna e sabedor de que a ação lhe garante um capital político que Obama perdeu com suas hesitações, pouco antes das 21 horas de sexta-feira em Washington (22 horas em Brasília), Trump deu a ordem de ataque. Cerca de cem de mísseis de cruzeiro Tomahawk foram disparados. Quase o dobro que no ano passado. Tanto o secretário de Defesa, Jim Mattis, como o chefe do Estado-Maior, James F. Dunford, assinalaram que a ofensiva se reduzia a uma só rodada de bombardeios e havia sido planejada para evitar atingir a população civil. A intervenção contou com apoio de bombardeiros B-1. O Reino Unido contribuiu com quatro aviões de combate Tornado GR4; a França, com duas fragatas e aviação.

Para justificar a ação, o alto comando americano insistiu em que, desde quinta-feira, não havia dúvida de que a Síria tinha usado gás de cloro em sua ofensiva contra Duma. A Casa Branca reiterou essa acusação e assinalou que dispunha de fotos com vítimas que apresentam ferimentos compatíveis com o uso de agentes químicos, relatos de médicos, dados de inteligência e testemunhos diretos.

“Desde a ofensiva de 7 de abril de 2017, registramos 30 incidentes separados nos quais a Síria usou armas químicas, incluindo um ataque com gás sarin em novembro. Rússia e Irã compartilham a responsabilidade pelas brutais ações do regime de Assad”, afirmou a Casa Branca.

Apesar da vontade de Trump de abandonar o campo de batalha sírio, a operação aumenta o envolvimento dos EUA e dispara o risco de escalada do conflito. No último ataque, a Rússia elevou a voz, mas deixou que a tensão esfriasse. Ajudou que Trump evitasse um choque direto com Moscou. Agora, a relação com Vladimir Putin se deteriorou. O presidente americano culpou diretamente o russo pelo que ocorreu em Duma e se mostrou furioso pela insistência do Kremlin em apoiar Assad. Ainda assim, deixou uma porta aberta para o diálogo. “Os Estados Unidos têm muito que oferecer, sua economia é a maior e mais poderosa na história do mundo”, disse Trump na noite de sexta-feira.

A reação da Rússia e do Irã marcará o futuro da região mais instável do planeta. Um vulcão engolfado pela violência onde entram diariamente em choque os interesses das grandes potências. As bombas caíram. A Síria voltou a ser atacada. Pouco se conseguiu no ano passado, e ninguém sabe se a nova intervenção reduzirá o derramamento de sangue. Depois de sete anos de guerra, meio milhão de mortos e dez milhões de deslocados, a Síria se tornou uma terra escura para a esperança.

Propaganda russa: “O ataque químico é uma farsa, as crianças nuas tremem porque faz frio”

“A gravação do ataque químico na Síria é um boato. Talvez as crianças nuas e molhadas tremam porque faz frio. Algumas crianças talvez estejam inconscientes ou talvez estejam dormindo. Espero que as fotos das vítimas sejam só uma encenação e que não tenha morrido gente para fazer uma gravação. A ONG Doutores Suecos acusou os Capacetes Brancos de matar crianças para tirar fotos realistas.” Essa é a mensagem que a TV estatal russa divulgou depois que as equipes de resgate denominadas Capacetes Brancos denunciaram, no dia 7, um suposto novo ataque químico do Governo sírio na cidade de Duma, na região de Guta Oriental, que, segundo os socorristas, deixaram mais de 40 mortos e 500 feridos.

Não é a única versão difundida pela mídia russa sobre o que ocorreu no fim de semana passado na Síria. Segundo a equipe da União Europeia especializada em detectar e combater notícias falsas divulgadas pela Rússia através da Internet, Moscou lançou uma campanha de desinformação sobre o ataque químico supostamente perpetrado pelo regime de Bashar al-Assad, o qual levou os EUA, o Reino Unidos e a França a bombardear a Síria na noite de sexta-feira. Embora o ataque químico ainda não tenha sido confirmado, os Capacetes Brancos divulgaram nas redes sociais imagens de cadáveres amontoados e civis com sintomas de intoxicação por inalação de gases. O presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou que dispõe de provas que mostram a responsabilidade de Assad na matança. Já a equipe enviada pela ONU só neste sábado começa a fazer a investigação.

A versão do Kremlin é outra. Os meios de comunicação ligados ao Governo de Vladimir Putin difundiram três interpretações diferentes, segundo a equipe especial da União Europeia:

1. Ministério da Defesa: é uma montagem dos Capacetes Brancos

Segundo a TV Russia Today, o Exército russo não encontrou nenhuma prova de que tenham sido usadas armas químicas em Guta Oriental, e nem mesmo os especialistas médicos que visitaram os hospitais viram doentes vítimas de um ataque desse tipo. De acordo com um comunicado do Centro Russo para a Reconciliação da Síria, “os fatos demonstram que não foram usadas armas químicas na cidade de Duma, como disseram os Capacetes Brancos. Todas as acusações deles, assim como as fotografias que mostram supostamente vítimas de um ataque químico, não passam de outra farsa”.

2. Ministério de Relações Exteriores: é uma história inventada

Em um comunicado, o Ministério de Relações Exteriores da Rússia afirma que “continuam sendo divulgadas notícias falsas sobre o uso de cloro ou de outros agentes tóxicos por parte das tropas governamentais” sírias. O texto atribui a origem daquilo que chama de boato sobre “um suposto ataque químico em Duma” aos Capacetes Brancos, acusando-os de ter colaborado com “terroristas”. “Essas falácias, sem nenhum fundamento, têm o objetivo de eximir os terroristas de culpa” e tentam justificar intervenções externas, acrescenta a chancelaria.

3. Embaixador na ONU: objetivo é desviar a atenção do caso do ex-espião envenenado

O representante permanente da Rússia na ONU, Vasili Nebenzia, lamentou no Conselho de Segurança que os Estados Unidos não tenham interesse em comprovar se realmente houve ou não um ataque químico em Duma. Segundo Nebenzia, é uma “loucura” basear-se em informações “não confirmadas” divulgadas pelos “provocadores” Capacetes Brancos para atacar a Síria. Essa estratégia, diz ele, serve para distrair a opinião pública da verdade depois do caso de envenenamento do ex-espião russo Serguei Skripal e sua filha, atacados no Reino Unido com um agente nervoso, um assunto sobre o qual Moscou divulgou pelo menos 20 versões diferentes, segundo a unidade especial da UE contra a propaganda russa.

 

Fonte: El País/Municipios Baianos

Comentários:

Comentar | Comentários (0)

Nenhum comentário para esta notícia, seja o primeiro a postar!!