15/04/2018

Guerra mundial à vista? Tática de bombardeio sugerem que não

 

Dias antes de Estados Unidos, Reino Unido e França confirmarem bombardeios em resposta a um possível ataque químico conduzido pelo governo da Síria, nesta sexta-feira, blogs, páginas, perfis e robôs em redes sociais adiantavam o que seria o início de uma terceira Guerra Mundial.

Os comentários ganharam corpo com uma intensa troca de hostilidades entre Estados Unidos e Rússia, um dos principais aliados do presidente sírio Bashar al-Assad.

Durante a semana, o presidente russo Vladimir Putin disse que um ação militar do Ocidente em território sírio poderia dar início a uma guerra. O americano Donald Trump ironizou pelo Twitter: "A Rússia promete abater todos os mísseis direcionados à Síria. Prepare-se, Rússia, porque eles serão lançados".

Mas, desde que a ameaça ocidental se concretizou contra pelo menos três instalações ligadas a armas químicas nos arredores de Damasco, americanos e russos vêm dando sinais de que os ataques são bem mais intensos no plano da retórica do que nos campos de batalha. "Ao realizar estes disparos, fizemos grandes esforços para evitar mortes de civis e estrangeiros", disse o secretário de Defesa americano James Mattis, logo após o anúncio, em recado principalmente aos russos, que têm tropas na região apoiando o governo sírio.

O Kremlin, por sua vez, ressaltou que nenhum de seus postos ou homens foi atingido. Apesar de manter milhares de soldados e oficiais na região, o ministério da Defesa russo informou que o país não usou seus mísseis antiaéreos contra o bombardeio dos americanos, britânicos e franceses.

O comentário de Putin sobre o bombardeio também foi mais moderado que os anteriores. "A Rússia condena nos termos mais fortes o ataque contra a Síria, onde militares russos estão ajudando o governo legítimo em seus esforços contra o terrorismo. Através de suas ações, os EUA tornam a situação humanitária já catastrófica na Síria ainda pior e traz sofrimento para os civis."

Na manhã deste sábado, o embaixador norte-americano na Rússia, Jon M. Huntsman Jr., divulgou comunicado no Facebook confirmando que os dois lados tomaram precauções para não se atingirem. "Os Estados Unidos se comunicaram com as Forças Armadas russas para reduzir o risco de vítimas russas ou civis", afirmou.

Confronto global

Somada à sinalização de cuidado das forças militares do Ocidente em não atingir tropas russas, as respostas diplomáticas do Kremlin sugerem uma desaceleração na escalada que poderia dar origem a um confronto direto entre as duas maiores potências nucleares do planeta.

Na avaliação do analista militar russo Aleksandr M. Golts, em entrevista ao jornal New York Times, "a Síria não será o ponto de partida para algum tipo de confronto global". "Parece que os dois lados estavam jogando de acordo com seus papéis delimitados e conseguiram limitar os danos desse tipo de confronto", afirmou.

Ao jornal Washington Post, outro analista russo, Konstantin Gaaze, disse na sexta-feira que Putin almeja marcar um encontro pessoal com Donald Trump para renegociar a convivência militar dos países na Síria. "O Kremlin continua na esfera retórica por enquanto. As ainda coisas podem piorar muito", avaliou.

Apesar de maiores em quantidade em relação ao último bombardeio, em abril do ano passado, os disparos lançados por Estados Unidos, Reino Unido e França parecem ter tido impacto mais limitado.

Se, em 2017, os americanos distruiram um porta-aviões com 20 aeronaves sírias (aproximadamente 20% da força aérea do país), deixando sete militares e nove civis mortos, desta vez os alvos foram três locais associados ao programa de armas químicas de al-Assad - e não houve nenhuma morte.

A Rússia disse que o bombardeio ocidental causou poucos danos e que 71 de 103 mísseis de cruzeiro teriam sido interceptados pelo governo sírio, incluindo os destinados ao local de suposta origem do ataque químico da semana passada.

EUA, Reino Unido e França dizem ter "fortes evidências", mantidas em sigilo, de que o governo sírio estaria por trás das mortes de 40 pessoas na cidade síria de Douma, na semana passada, após um ataque que deixou centenas de pessoas, na maioria mulheres e crianças, internados por "problemas respiratórios, cianose central (pele ou lábios azuis), excessiva espuma bucal, queimaduras na córnea e odor a gás cloro".

Síria, Rússia e Irã negam veementemente o uso de armas químicas ou biológicas pelo governo al-Assad e dizem que os rivais ocidentais "fabricaram" o incidente para justificar uma intervenção ilegal na região.

Em comunicado divulgado mais cedo, o governo da China faz coro com sírios, iranianos e russos contra o ataque. "Somos contrários ao uso da força nas relações internacionais e defendemos respeito pela soberania, independência e integridade territorial de todos os países", disse a porta-voz do min. das Relações Exteriores, Hua Chunying.

Conselho de Segurança da ONU

A exemplo da recente escalada - e desaceleração - da tensão nuclear entre Estados Unidos e Coreia do Norte, que após promessas mútuas de ataques agora buscam uma solução pacífica para o conflito, a retórica agressiva tem sido mais forte do que as ações tomadas por ambos os lados.

Menos de 24 horas após os bombardeios, enquanto forças armadas dos dois lados recuam, o conflito do plano das palavras continua.

De um lado, o ataque foi classificado por Putin como "ato de agressão", pelo líder Iraniano Ayatalloh Ali Khamenei como "crime de guerra" e pelo ministro de relações exteriores da Síria, Walid Muallem, como ataque "bárbaro".

De outro, a embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley, afirmou que o país "está armado e pronto para disparar" se novos ataques químicos acontecerem na Síria.

A afirmação foi feita em reunião urgente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, na manhã deste sábado, quando diplomatas russos, americanos, franceses e britânicos ficaram frente a frente pela primeira vez desde o bombardeio. "Quando o nosso presidente estabelece uma linha vermelha, ele respeita essa linha", disse Haley, informando que a estratégia americana não foi nem será alterada.

O embaixador russo na ONU, Vassily Nebenzia, disse que os disparos são uma ameaça a tentativa da ONU de encontrar uma solução política para o conflito na região.

A Rússia propôs a votação de uma resolução para condenar os ataques dos EUA, França e Reino Unido - mas os países têm poder de veto no Conselho e a proposta foi recusada.

Os 13 países envolvidos em 'mini-guerra mundial' de 7 anos na Síria

Apesar de se tratar de um conflito interno, a guerra civil na Síria vem envolvendo muitos países desde que teve início, há sete anos. Desde 2011, 19 países participaram direta ou indiretamente do confronto, que já deixou mais de 400 mil mortos, segundo a ONU.

Desse total, 13 lançaram ataques na Síria. Confira quais são eles e como vêm atuando:

1. Rússia

O apoio de Moscou à Síria remonta aos tempos da União Soviética. Não por menos, o governo de Vladimir Putin se comprometeu a defender o presidente sírio, Bashar al-Assad, com armas e apoio logístico. Em setembro de 2015, a Rússia teve uma participação ativa no conflito, com ataques aéreos e bombardeios, virando a maré a favor do governo sírio. O governo russo alega, contudo, que os alvos de seus bombardeios não foram apenas as forças rebeldes, mas também as do autodenominado Estado Islâmico.Mas, de acordo com uma comissão de inquérito da ONU, os atentados mataram um grande número de civis.

2. Estados Unidos

Desde o início da guerra civil, Washington prometeu ajudar grupos rebeldes. No entanto, sob o governo do ex-presidente Barack Obama, os Estados Unidos se abstiveram de lançar um bombardeio em retaliação ao governo sírio por causa do ataque químico de 2013.

Desde 2014, junto a uma coalizão de aliados ocidentais e regionais, o país realizou mais de 11 mil ataques aéreos contra posições do Estado Islâmico. Em 2017, o presidente Donald Trump ordenou o primeiro lançamento de mísseis dos EUA desde o início da guerra civil contra uma base aérea síria, em resposta a um ataque com armas químicas contra civis. Em abril de 2018, Trump prometeu um novo ataque com mísseis "excelentes, novos e inteligentes" em resposta ao suposto ataque químico em Douma.

3. Reino Unido

Desde 2015, aviões de guerra britânicos bombardearam posições do Estado Islâmico na Síria, incluindo os poços de petróleo que estavam sob o controle do grupo extremista. Em 2013, o governo do Reino Unido considerou bombardear a infraestrutura militar de Al-Assad devido a um ataque químico no leste de Damasco, mas a intervenção foi rejeitada após uma votação no Parlamento. Depois das novas acusações de outro ataque com armas químicas, o governo de Theresa May declarou há poucos dias que o uso de armas químicas "não poderia ficar impune".

4. França

A França vem armando os rebeldes desde 2013 e participando de ataques aéreos contra o Estado Islâmico na Síria desde 2015. O país tem ligações históricas com a Síria e um interesse no resultado da guerra civil desde seu início, que não passa pela permanência do presidente Bashar al-Assad no poder. Em 2013, o governo francês foi um dos que defendeu mais fortemente o bombardeio de instalações militares sírias. O atual presidente, Emmanuel Macron, vem defendendo repetidamente uma intervenção para depor Assad.

5. Canadá

O Canadá fez parte da coalizão liderada pelos EUA para bombardear posições do Estado Islâmico no Iraque e depois na Síria. Mas essas missões foram suspensas pelo novo primeiro-ministro, Justin Trudeau, em 2016. Trudeau declarou que seu país não participará dos ataques anunciados dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França. Apesar disso, ele apoiou publicamente a operação.

Trudeau condenou o que chamou de "uso de armas químicas" pela Síria e, segundo a emissora pública canadense CBC News, disse que o Canadá continuaria a atuar junto com seus aliados internacionais e levar os responsáveis "à justiça".

6. Austrália

Como o Canadá, a Austrália juntou-se à coalizão que bombardeou o Estado Islâmico no Iraque e depois na Síria. Um desses ataques dos quais o país participou resultou na morte de quase 90 soldados sírios, confundidos com as milícias do EI.

Na ocasião, o primeiro-ministro australiano, Malcolm Turnbull, pediu desculpas pelo erro.

7. Holanda

Em setembro de 2014, a Holanda decidiu se envolver na campanha militar contra o Estado Islâmico. Até 2015, o país havia realizado centenas de ataques aéreos com aviões F-16 no Iraque contra as bases do EI. Também contribuiu com uma presença militar e logística na Síria, mas em 2016 decidiu intensificar sua participação naquele país com o bombardeio das rotas de fornecimento de IS entre a Síria e o Iraque.

8. Irã

O Irã é essencialmente xiita e tem interesse especial na Síria. Por trás disso, existe o temor de que o país caia sob o domínio da arquirrival Arábia Saudita, que é sunita. Sua maior contribuição para apoiar o governo de Assad foi com tropas em solo e bilhões em assistência técnica e financeira. Mas também lançou mísseis do Irã contra bases rebeldes na Síria.

9. Turquia

O governo de Ancara concentrou sua intervenção no norte da Síria. Embora favoreça os grupos rebeldes e se oponha a Assad e ao Estado Islâmico, não tem interesse em fortalecer os curdos ao sul de suas fronteiras. A Turquia lutou ativamente contra a organização curda YPG em Afrin, na Síria, e também bombardeou a região norte da Síria.

10. Arábia Saudita

Os sauditas lutam veementemente contra a influência do Irã na região. Riad enviou uma grande quantidade de armas para grupos rebeldes na Síria, fornecendo-lhes inteligência e apoio estratégicos. Em 2014, participou de oito ataques aéreos contra o Estado Islâmico, em estreita colaboração com os EUA. O governo saudita vem negociando com EUA e França para realizar novos ataques na Síria em retaliação ao suposto uso de armas químicas.

11. Israel

No curso da guerra civil, aviões de guerra israelenses entraram no território sírio.

Embora tecnicamente neutro, Israel se opõe à influência do Irã na Síria, que pode fortalecer o Hezbollah, seu principal inimigo no Líbano. O governo israelense bombardeou comboios afiliados ao Irã ou ao Hezbollah cerca de 100 vezes. Depois que um de seus caças foi derrubado pelo que se acredita ser uma defesa antiaérea síria em fevereiro deste ano, Israel lançou um ataque aéreo "em grande escala" contra 12 alvos na Síria. Na ocasião, o governo israelense alegou que destruiu metade das defesas aéreas sírias.

12 e 13. Bahrein e Jordânia

Bahrein e Jordânia são outros dois países do Oriente Médio que realizaram ataques na Síria. A Jordânia se juntou à coalizão liderada pelos EUA depois que o EI ameaçou abertamente derrubar o rei Abdullah. Os jihadistas dispararam foguetes contra o território jordaniano e, no final de 2014, conseguiram derrubar um avião militar, capturando seu piloto, que acabou sendo queimado vivo. Já o minúsculo Bahrein juntou-se aos ataques contra o EI na Síria em 2015. Além dos países mencionados acima, outros estiveram envolvidos menos diretamente no conflito.

A Alemanha deslocou 1,2 mil soldados na Síria, seu maior contingente militar em todo o mundo. A Noruega, por sua vez, faz parte da coalizão liderada pelos EUA para treinar e apoiar rebeldes.

A Líbia, após a queda de Muammar al-Gaddafi, enviou tropas e armas em apoio às forças rebeldes em 2011, até que o país também começou a se desintegrar. Como a Síria, o Iraque enfrenta problema semelhante com o Estado Islâmico em seu território. No entanto, ao contrário do que desejavam os EUA, abriu seu espaço aéreo para a passagem de aviões iranianos em apoio a Assad.Os 13 países envolvidos em 'mini-guerra mundial' de 7 anos na Síria

 

Fonte: BBC Brasil/Municipios Baianos

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