21/04/2018

Série M: A morte de Marielle nos editoriais dos grandes jornais

 

As menções ao assassinato da vereadora Marielle Franco (Partido Socialismo e Liberdade – PSOL), no último dia 14 de março, no Rio de Janeiro, não se dissociaram da discussão sobre a intervenção federal em curso no estado de mesmo nome. Isso se deve não apenas ao fato de se tratar de mais uma morte violenta a compor as altas taxas de homicídio, mas ao fato de Marielle ser a vereadora mais votada de seu partido e praticar uma agenda ativa na defesa dos direitos humanos. Mais do que isso, a vereadora do PSOL era relatora de comissão para acompanhar a intervenção, recentemente criada na Câmara dos Vereadores.

Mulher negra, criada na Maré, mãe solteira e homossexual, Marielle era crítica à intervenção federal no Rio de Janeiro. Em post publicado em 16 de fevereiro em sua página do Facebook, apontava para o que entendia ser os efeitos imediatos da intervenção: “mais violência contra a população da favela, mais jovens negros mortos e os abusos cometidos pelas forças armadas sendo julgados pela Justiça Militar, cujos tribunais são compostos por outros militares” e “falsa sensação de segurança para as classes mais altas que vão achar que ‘as coisas melhoraram’”. Dois dias depois (18/2), a vereadora divulgou a chamada para o ato contra a reforma da previdência e a intervenção militar que ocorreu no dia seguinte na Candelária. No dia 20, Marielle discursou no Plenário sobre a, em suas palavras, “absurda” intervenção. No dia seguinte (21/2), ressaltou mais uma vez, em sua página de Facebook, a intervenção como uma “farsa”.

Pouco antes de ser assassinada, enviou um artigo publicado postumamente na capa do Jornal do Brasil (16/03), reafirmando que a justificativa para a realização da intervenção federal não tinha embasamento na realidade, uma vez que o Rio de Janeiro aparecia em décimo lugar nos índices de violência do Anuário de Segurança Pública, atrás de outros estados, como Sergipe, Goiás e Maranhão. De acordo com Marielle, “a segurança pública não se faz com mais armas”, “mas com as políticas públicas em todos os âmbitos”. Seu texto ressalta que as últimas experiências de ocupação das Forças Armadas não resolveram o problema de insegurança e o que elas tiveram em comum não foram episódios alarmantes na segurança pública, mas o fato de terem acontecido em anos eleitorais.

Como a grande mídia abordou sua posição nesse contexto na ocasião de sua morte? No JB, a cobertura do assassinato de Marielle apareceu no dia 16 de março em quatro páginas da editoria Cidade. O editorial do mesmo dia destacava a posição crítica da vereadora à intervenção, ao mesmo tempo em que reforçava a opinião do jornal de que a ação do Governo Federal havia sido “necessária”, pois não existia outro caminho para o problema da segurança pública no Rio. Enquanto nas palavras de Marielle, os grupos mais vulneráveis (negros, pobres, moradores das favelas) acabam sendo atingidos por esse tipo de medida, para o jornal, “a interventoria não age com ações inspiradas em preconceitos, mas em conceitos”. O jornal afirma que “o reparo, oportuno e respeitoso que se impõe a proclamação derradeira da vida da vereadora, nada mais pretende além de contribuir para a correta interpretação dos fatos e da realidade que vivemos no Rio de Janeiro”.

No dia seguinte (15/3) ao assassinato, O Globo reservou ao caso uma chamada de capa (metade superior da página) e matéria de página inteira na editoria Rio, que abordava a militância política de Marielle. O editorial do jornal, contudo, não tratou do caso, preferindo, ao invés disso, repisar a narrativa de fortalecimento das instituições no combate à corrupção, com críticas ao Partido dos Trabalhadores (PT). No dia 16, após a grande repercussão do crime que gerou diversas mobilizações país a fora, o espaço reservado pelo jornal foi bem maior. O caso ocupou a capa inteira, seis páginas da editoria Rio, o editorial do jornal, além de ter sido tema de diversos colunistas. A cobertura sobre Marielle foi ampla, abordando os seus temas de luta política, as denúncias feitas pela vereadora e sua oposição à intervenção no Rio.

O editorial dessa data – “Assassinato de vereadora afronta a democracia” – menciona que a Marielle era uma “crítica da violência” e havia “denunciado uma ação de PMs do quartel de Irajá na Favela de Acari”. Mas afirma, ainda, que o assassinato era “um símbolo contundente do descontrole a que chegou a segurança no Rio, situação de anomia que levou à intervenção federal”. O editorial termina conclamando uma investigação rápida e eficiente, e apontando o caso como uma “oportunidade para que se exerça de fato o trabalho de integração entre as diversas forças de segurança proposto pela intervenção federal no Rio”. Em suma, O Globo usa a morte da vereadora para reforçar e legitimar a intervenção federal, silenciando no editorial a posição contrária da própria Marielle.

No dia 17 de março, outro editorial é dedicado a Marielle. Sob o título “Sectarizar a morte de Marielle é um desserviço”, no qual destacamos o trecho abaixo:

Fica em segundo plano o fato de Marielle ter sido vereadora do PSOL. Os atingidos foram todos os que têm representação política obtida pelo voto, todos os eleitores, o próprio estado democrático de direito. Também precisa ser relativizada a questão de a vereadora representar o trinômio “preta, mulher, favelada”, tão usado em proselitismos. Importa é que bandidos, com esse assassinato, buscam sinalizar que o poder é deles. Fosse Marielle “branca e rica”, a execução precisaria provocar a mesma reação do Estado e na sociedade. A morte de Marielle não pode ser apropriada por interesses partidários ou sectários. (…) Nesse sentido, foi um conforto perceber, em tomadas aéreas feitas quinta, no início da noite pela GloboNews, da aglomeração na Cinelândia, que o vermelho não era a cor predominante.

O editorial propõe desvincular a morte de Marielle de seu lugar de origem e apartá-la de sua base ideológica. O que o trecho indica é a reação do jornal à possibilidade de que o crime contra Marielle pudesse promover o partido ou mesmo a agenda progressista na qual atuava a vereadora. Mais uma vez, O Globo se esforça por mitigar, senão declassificar, as bandeiras de ação de Marielle, ainda que a cobertura tenha dado algum espaço a ela.

O Globo não foi o único a adotar nessa posição. No mesmo dia 17, em editorial intitulado “O assassínio da vereadora”, O Estado de S. Paulo também comenta o caso. Assim como n’O Globo, fala-se na necessidade de “celeridade para encontrar e punir os responsáveis”. Ainda como seu par carioca, o editorial do Estadão destaca: “Até lá, contudo, [conclusão das investigações] também é preciso que haja, em igual medida, serenidade. Em nada contribui para a solução do caso e muito menos para a pacificação do Rio de Janeiro a utilização do assassinato de Marielle para objetivos políticos.” O jornal sublinha que até a solução do caso, “qualquer sugestão de que o crime tenha caráter político – isto é, que a vereadora tenha sido assassinada em razão de seu trabalho na Câmara do Rio de Janeiro em defesa dos direitos de moradores de favelas e comunidades carentes – é precipitada e se presta a ornar discursos com finalidades oportunistas.” Em seguida, de modo surreal, o editorial parte para criticar o PT, criticando Lula e Dilma por se solidarizarem com o PSOL e os familiares de Marielle em razão da morte da vereadora.

Por fim, o editorial da Folha de SP, de 16 de março, intitulado “Quem matou Marielle?” deu mais ênfase à militância de Marielle em favor de grupos ao qual pertencia (contra a discriminação racial, pelo direito das mulheres, da comunidade LGBT, denúncias das ações ilegais de milícias e polícia na favela), além de aponta-la como uma crítica da intervenção federal, destacando, ainda, que essa ação federal é marcada não só por expectativas, mas por questionamentos.

A título de conclusão podemos afirmar que O Globo e Estadão assumiram uma postura militante conservadora de rechaçar as bandeiras e pautas defendidas por Marielle, tentando desvincular sua morte de qualquer implicação com a intervenção federal ora em curso no Rio de Janeiro. Ademais, ambos se utilizaram da tragédia para atacar a esquerda e particularmente Lula e o PT, a despeito do partido não ter qualquer relação direta com os acontecimentos. A Folha de S.Paulo, dessa vez, se distanciou de seus pares na sua posição editorial.

No Serie M “A intervenção federal e a cobertura midiática” mostramos que Estadão e Folha condenam a intervenção no Rio, enquanto O Globo apoia fervorosamente. Assim, o jornal carioca e a Folha mantiveram sua coerência. O Estadão, por seu turno, fez uma tentativa mais ousada de tentar despolitizar a morte da vereadora sem, contudo, aderir à intervenção.

Intervenção, violência e políticas de segurança em terra de Marielle. Por Ronilso Pacheco

É típico no Brasil que a questão racial não faça parte da discussão. É comum que quem queira introduzir, em qualquer debate, o recorte racial, a menos que o racismo esteja explícito, seja visto como aquele que “vê racismo em tudo”. Curioso, já que a questão racial sempre marcou o Brasil e a composição da sociedade brasileira. A herança da história colonial-escravagista do Brasil se espalha em toda história de nossa formação social, e não estaria ausente da construção das políticas que aqui são empreendidas. Não seria diferente com as políticas públicas para a segurança. E não seria diferente para pensar a efetividade e os rumos da intervenção federal-militar no Rio de Janeiro.

O que dificulta identificar como políticas de segurança no Brasil sempre foram, e são, construídas com perfis racistas é que, na base, onde está a ponta das ações de repressão e operações ostensivas e os confrontos armados, brancos e negros se misturam. Diferente da segregação racial nos Estados Unidos, ou do apartheid na África do Sul, no Brasil, o corpo de policiais militares, ou de soldados do Exército, recrutados para operações ostensivas de repressão ou controle em territórios pobres e periféricos, são compostos de brancos e, majoritariamente, negros. Na segregação americana, policiais que reprimiam manifestações pelos direitos civis com cães, jatos d’água, cassetetes, socos e pontapés, eram brancos. Policiais e soldados que mantinham negros e negras confinados nos territórios periféricos sul-africanos, como Soweto, eram brancos.

No Brasil, essa imagem é impossível. Essa “mistura” acabou por mascarar um poderosíssimo racismo estrutural, que jogou pardos e pretos aos montes para as frentes de batalha no passado, e para as operações de combate a violência de hoje. A cúpula, de Michel Temer à Walter Braga Netto, é branca. No Brasil, o Exército tornou-se, para a parte mais pobre da população jovem e suas famílias, uma possibilidade de emprego estável. Para muitos pais, ter o filho, saindo da adolescência, sendo aceito pelas Forças Armadas torna-se o primeiro passo para que ele tenha condições melhores que as suas. Ingressar nas Forças Armadas sempre foi visto como um destaque profissional para as famílias dos jovens de favelas e comunidades do subúrbio.

De racismo, defesa e armas

Guardada as devidas proporções, estamos na mesma linha temporal que nos trouxe do período imperial, durante a Guerra do Paraguai (1865-1870), em que o Exército era a “grande oportunidade” de negros se “livrarem” da condição de escravizados. Negros alforriados sem rumo, e sem perspectiva de um lado. Negros escravizados, com o açoite e a tortura como companhias permanente do outro. A elite rica e branca, que amava o país mas não a ponto de morrer por ele, mas enriquecer explorando nele, entregavam negros escravizados em troca de si mesmos e dos filhos. Não por acaso, o Comando do Exército rejeitou, em 2017, a proposta de criação de uma unidade militar com trajes históricos que pretendia homenagear os soldados negros que lutaram na Guerra do Paraguai. Em outras palavras, na Guerra do Paraguai, negro era para morrer. Nos Estados Unidos ou na África do Sul, o racismo é uma ferida aberta. No Brasil, o racismo é uma gangrena que corrói por baixo do tecido social, do corpo social, e segue destruindo por dentro, até que partes deste corpo sejam amputadas.

Como bem disse Achille Mbembe em seu Políticas da Inimizade, “de um ponto de vista histórico, nem a república de escravos, nem o regime colonial e imperial eram corpos estranhos à democracia”. Não há porque imaginar que a democracia como está sendo conduzida no Brasil seja estranha a própria construção da ideia de democracia e quem dela realmente faz parte. A ideia de segurança, ou seguridade, intrínseca na democracia, vai recorrer permanentemente à disciplina e ao controle, ou quando necessário, à repressão, contra o inimigo que a ameaça. É preciso que haja sempre inimigos que a ameaçam. O racismo no Brasil deu à política de segurança, ao longo da história brasileira, os seus inimigos preferenciais. Diz ainda Mbembe que “está na natureza do racismo a constante tentativa de não se esclerosar”, ou, em outras palavras, o racismo, como um sistema estruturante eficiente, sempre encontrará formas de se renovar, metamorfosear, mimetizar relações equânimes, mas que na realidade concentram e mantêm profundas desigualdades e injustiça.

Se nove em cada dez mortos pela Polícia Militar no Rio de Janeiro são negros ou pardos, isto não está se dá por conta de uma maioria negra na população, mas por uma orientação profundamente racializada para as formas de agir, abordar, prender e matar. Uma intervenção federal séria no Rio de Janeiro, já poderia ter sido feita, assim que estes dados foram divulgados. Se o governo federal não intervêm nas forças de segurança do Estado que mata nove negros, para cada uma pessoa branca, as orientações e prioridades políticas sobre segurança estão mais racializados do que nós imaginamos.

Quem matou Marielle

Aqui jaz Marielle Franco. Negra, mulher, lésbica, mãe, parlamentar. Enquanto segue em torno de mistérios, o assassinato brutal de Marielle Franco, junto com seu motorista, Anderson Gomes, vai expondo simultaneamente, a partir do Rio de Janeiro, nossa brutalidade política e nossa relação perturbadora diante da possibilidade de reconhecer o racismo como um agente presente (e influente). Nossa brutalidade política é a ousadia de assassinar uma parlamentar (do Parlamento da capital do estado) de uma maneira cruel e fulminante. Brutalidade política que torna o jogo político no Rio de Janeiro não apenas competitivo, mas também violento, com profundas relações dissimuladas entre política-polícia-milícia. Brutalidade política nas declarações de ódio e vingativas nas redes sociais contra Marielle, que na verdade é contra um simbolismo maior. De desembargadora à parlamentar-homem-cristão (mas branca, branco, sempre), o ódio a tudo o que Marielle representava foi imediato e inconsequente, espalhando falsas notícias, que mais do que as mentiras do conteúdo nelas contido, diziam mais sobre o que seus divulgadores pensavam e apoiavam.

Nossa relação perturbadora com o racismo está no desconforto causado por aqueles que se indignavam (quando não tentavam diminuir ou ridicularizavam) quando o racismo (bem como o gênero e a opção de sexualidade) eram postos como fatores integrantes das razões do assassinato da vereadora. No Brasil, como dito no início do texto, nossa estrutura social e de poder está profundamente marcada pelo colonialismo, pelo escravismo e pela segregação. Não é preciso que o assassino de uma parlamentar negra deixe um bilhete escrito expressamente “made by a racist”, para que se justifique falar de racismo como parte integrante da motivação. Esta justificativa é histórica.

“Não foi por racismo”, mas Claudia Ferreira era negra. “Não foi por racismo”, mas Amarildo era negro. “Não foi por racismo”, mas o jovem Jeremias Moraes era negro. “Não foi por racismo”, mas Rafael Braga é negro. “Não foi por racismo”, mas os cinco jovens de Costa Barros fuzilados com 111 tiros eram negros. “Não é por racismo”, mas a cada 23 minutos um jovem negro é morto no Brasil. “Não é por racismo”, mas as mulheres negras são as que mais morrem durante o parto no SUS. “Não foi por racismo”, mas Marielle Franco era negra, e mulher, e bissexual, e cria da periferia. O assassinato da Mariele é o ponto mais extremo da cultura de hostilidade à mulher preta que no nosso arquétipo de linguagem racista foi descrita como “negrinha abusada”. Não deveria ser difícil considerar o racismo como parte da motivação de um assassinato num país em que se mata tantos pretos e pretas.

No contexto da intervenção, o assassinato de Marielle Franco acabou por dinamitar a possibilidade de uma ação que perderia força e atenção depois de suas primeiras semanas. Antes de ter servido como um recado aos movimentos sociais e ativistas pelos direitos humanos, o assassinato da vereadora serviu como uma rajada de frustração em qualquer possível teatro institucional do Estado sobre sua demonstração de controle. Não há controle. E ao perdermos Marielle, também soubemos que não há (e que não pode haver) silêncio. O silêncio e a conformidade deixaram de ser opção.

Discutir a intervenção federal-militar, sem permitir que o recorte racial emerja para nos orientar numa profunda percepção do que estão fazendo com o, e no, Rio de Janeiro, é atenuar uma intervenção que parece só ser pautada pelos números da violência. Não é, e nem pode ser. Se não há um confronto com a realidade em que o racismo estrutural aqui nos jogou, seguimos repetindo os erros de sempre. Aqui, política de segurança pública levada à sério deve ser aquela que reconhece os estragos que o racismo, fruto de nossa longa história colonial-escravagista fez.

 

Fonte: Por Juliana Gagliardi e João Feres Júnior, no Manchetômetro/Municipios Baianos

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