29/04/2018

O que falta para Del Nero ser processado no Brasil?

 

Há muito tempo, o envolvimento de Marco Polo Del Nero nas falcatruas do chamado Fifagate deixou de ser apenas uma suspeita. É um fato desde que o FBI o investigou e a Justiça americana o indiciou por sete crimes entre fraudes, lavagem de dinheiro e organização criminosa. A decisão da Fifa de bani-lo definitivamente do futebol, portanto, não chega a ser uma novidade. Era o mínimo que a entidade poderia fazer. O que surpreende nesse caso é que, quatro anos depois de estourar o escândalo internacional de corrupção em que está metido até a raiz dos ralos cabelos que ainda possui, o ex-cartola-mor do Brasil continue a perambular livremente pelas ruas, no seu próprio país, sem que a Justiça brasileira ou o Ministério Público Federal se atentem para seus crimes?

O que mais é preciso para que ele seja processado aqui como está sendo lá fora? Que provas mais serão necessárias além dos contundentes depoimentos que o denunciam e as montanhas de documentos reunidos nos EUA, rastreando propinas e recebimentos de favores em troca de benesses na comercialização de direitos de TV?

É vergonhosa a inércia das autoridades brasileiras.

Certa vez, quando lhe perguntaram sobre os processos que também responde nos EUA, na Espanha e em Andorra, Ricardo Teixeira, como todos sabemos, uma espécie de chefão-honorário da trupe que se apossou da CBF nas últimas três décadas, explicou que eles eram a razão de ter voltado a morar por aqui. "Tem lugar mais seguro que o Brasil? Qual é o lugar? Vou fugir de quê, se aqui não sou acusado de nada? Você sabe que tudo que me acusam no exterior não é crime no Brasil. Não estou dizendo se fiz ou não", disparou numa entrevista à Folha de S. Paulo. Triste realidade.

Del Nero e Teixeira são sujeitos de sorte. Infelizmente, não estavam no lugar certo na hora certa - aquela manhã de maio de 2015 quando a polícia suiça invadiu o hotel cinco estrelas de Zurique levando presa a cúpula da bandidagem do futebol mundial, o agora condenado José Maria Marin, entre eles. Desde então, Del Nero exilou-se no seu próprio país, com medo de viajar ao exterior e também acabar na cadeia. Para o futebol brasileiro, isso teve um custo alto: a perda de representatividade, de influência nas instâncias internacionais o que causou prejuízos à CBF e aos clubes em competições como a Libertadores. Para Del Nero, contudo, significou muito pouco. Só a ação do MP e da Justiça brasileira podem aplicar ao ex-cartola a punição que merece. Inclusive o ressarcimento dos prejuízos que durante anos causou ao futebol brasileiro. É isso que a sociedade espera. É isso que já tarda demais a acontecer.

As acusações que fizeram Del Nero ser banido do futebol pela Fifa

O ex-presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) Marco Polo Del Nero foi banido de vez do futebol pela Fifa em comunicado divulgado nesta sexta-feira. Segundo a entidade, o cartola brasileiro foi afastado de todas as atividades no esporte por ter sido considerado culpado de acusações envolvendo "suborno e corrupção", "oferecer e aceitar presentes e outros benefícios", "conflitos de interesse" e por ter violado "regras gerais de conduta" do Código de Ética da Fifa. Del Nero foi banido pela primeira vez do futebol ainda em dezembro do ano passado, quando a Fifa o suspendeu por 90 dias - com isso, ele foi obrigado a deixar a presidência da CBF, cargo para o qual foi eleito em 2014. Depois disso, a entidade estendeu a suspensão dele por mais 45 dias até anunciar o banimento total do futebol "para sempre" nesta sexta-feira.

O "pesadelo" do cartola brasileiro começou três anos atrás, quando estourou o chamado "Fifagate", o escândalo que abalou as estruturas da maior entidade do futebol mundial. Em maio de 2015, sete dirigentes da Fifa (incluindo o outro ex-presidente da CBF, antecessor de Del Nero, José Maria Marin) foram presos na Suíça e levados para os Estados Unidos, onde seriam julgados pelo Departamento de Justiça americano. Naquele momento, o nome de Del Nero ainda não era citado diretamente nas acusações, mas a partir dali ele passou a temer pelo seu futuro no futebol - e, desde então, nunca mais deixou o Brasil. Em competições internacionais, como as duas edições da Copa América que aconteceram desde então e outros amistosos da seleção brasileira, o então presidente da CBF optou por não acompanhar a equipe, como era de praxe dos outros mandatários da entidade (e até mesmo dele antes do escândalo). Críticos alegam que ele tenha tomado essa atitude por medo de ser preso fora do solo brasileiro.

Dali em diante, a situação se complicou para Del Nero, que viu seu nome aparecer oficialmente nas investigações em dezembro de 2015, quando o Departamento de Justiça dos Estados Unidos incluiu mais 16 nomes entre os indiciados - com mais dois presidentes da CBF envolvidos: Ricardo Teixeira, que antecedeu Marin e comandou a entidade de 1989 a 2012, e Del Nero. Em dezembro do ano passado, a promotoria americana chegou a acusar tanto Marin quanto Del Nero pelo recebimento de um total de US$ 6,5 milhões cada um em propinas pagas por negociações de direitos de transmissões de campeonatos (Copa do Brasil, Libertadores e Copa América).  Já afastado do comando do futebol brasileiro - mas tendo conseguido um aliado para substituí-lo em 2019, com a confirmação da eleição de Rogério Caboclo -, Del Nero segue negando todas as acusações que envolvem seu nome.

A CBF, por sua vez, divulgou nota a respeito da decisão da Fifa. "A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) informa que tomou conhecimento, hoje (27), da decisão do Comitê de Ética da Fifa em relação ao presidente Marco Polo Del Nero. A entidade esclarece que, em cumprimento à citada decisão e em linha com seu Estatuto, o vice-presidente Antônio Carlos Nunes de Lima segue à frente da Presidência."

  • Veja as acusações que pesam sobre o ex-presidente da CBF:

Escândalo da Fifa em 2015

Tudo começou com uma delação do empresário J. Hawilla, réu confesso que revelou o esquema envolvendo dirigentes do futebol brasileiro para a Justiça americana. Hawilla é dono da Traffic Group, maior agência de marketing esportivo da América Latina. Segundo as autoridades americanas, ele confessou culpa em dezembro de 2014 por acusações de extorsão, fraude eletrônica, lavagem de dinheiro e obstrução da justiça. Em maio de 2015, o escândalo veio à tona com a prisão dos dirigentes da Fifa em Zurique, onde aconteceria um congresso da entidade. Segundo as investigações da Justiça dos Estados Unidos - que, à época, ainda não envolviam Del Nero - J. Hawilla pagava propina para três altos dirigentes da CBF para dividir os direitos sobre a Copa do Brasil. Outras acusações envolviam propinas também pelos direitos de transmissão da Copa América.

No relatório divulgado ainda em maio de 2015, a Justiça dos Estados Unidos mostra uma conversa entre Marin (citando o nome do ex-presidente da CBF) e o chamado "Co-Conspirador #2", J. Hawilla, em abril de 2014 para a divisão de propina relacionada à Copa América de 2016, organizada de maneira conjunta entre Conmebol e Concacaf. "Em certo momento, quando Co-Conspirador #2 pergunta se era realmente necessário continuar pagando propina ao antecessor de Marin na presidência da CBF (Ricardo Teixeira), Marin diz: "Chegou o momento de, de isso vir ao nosso encontro. Verdade ou não?" Co-Conspirador #2 concordou, afirmando: 'É claro, é claro, é claro. Esse dinheiro tinha que ser dado a vocês'. Marin concordou: 'É isso, está certo'", afirmava o documento divulgado pela Justiça americana.

O nome de Del Nero apareceu oficialmente nas investigações em dezembro de 2015, quando ele foi indiciado junto com outros 15 dirigentes do alto escalão do futebol (incluindo Ricardo Teixeira) por corrupção, formação de quadrilha e enriquecimento ilícito. Segundo a investigação da Justiça dos Estados Unidos, eles estariam envolvidos em um esquema que teria desviado mais de US$ 200 milhões em propina. Foi aí que ele optou por se afastar da presidência da CBF em um primeiro momento, para "concentrar seus esforços na elaboração de sua defesa". Del Nero retornou ao cargo em abril de 2016.

Acusações de empresário argentino

A situação de Del Nero começou a ficar mais crítica em novembro do ano passado, quando o depoimento de outro réu confesso, desta vez o argentino Alejandro Burzaco, citou o nome dele como recebedor de propinas pagas pela empresa Torneos y Competencias (da qual Burzaco era diretor) pelos direitos de transmissão da Libertadores e da Copa Sul-Americana. Segundo o argentino, Del Nero tomava nota de todos os valores de suborno e os destinatários deles em um caderninho. Ainda de acordo com a delação do empresário, até março de 2012, Ricardo Teixeira, então presidente da CBF, era quem recebia US$ 600 mil por ano como propina pelos direitos de transmissão do torneio. Depois disso, o valor passou para US$ 900 mil, que eram divididos entre Marin (que assumiu a presidência da CBF à época) e Del Nero, que era seu vice. Já no final de 2014, Del Nero teria procurado Burzaco, segundo o depoimento do argentino, para aumentar a propina para US$ 1,2 milhão a partir de 2015, quando o próprio Del Nero assumiria a CBF.

Assim que a acusação veio à tona, o então presidente da entidade máxima do futebol brasileiro se defendeu por meio de nota. "Com referência à citação feita à sua pessoa pelo delator premiado Alejandro Buzarco na Corte de Justiça do Brooklin, New York, EUA, o presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, vem a público esclarecer que nega, com indignação, que tivesse conhecimento de qualquer esquema de corrupção supostamente existente no âmbito das entidades do futebol a que se referiu. As investigações levadas a efeito naquele país não apontaram qualquer indício de recebimento de vantagens econômicas ou de qualquer outra natureza por parte do atual presidente da CBF.(...) Por fim, reafirma que nunca participou, direta ou indiretamente, de qualquer irregularidade ao longo de todas atividades de representação que exerce ou tenha exercido."

Defesa de Marin coloca Del Nero 'na fogueira'

Em dezembro de 2017, foi a vez do advogado de José Maria Marin, Charles Stillman, colocar Del Nero na fogueira ao exercer a defesa do ex-presidente da CBF, ainda preso nos Estados Unidos. De acordo com ele, era Del Nero quem "comandava o show". "O mundo do futebol no Brasil era visto como uma espécie de monarquia: Marin era o rei, que fazia discursos e brindes em eventos, mas todos sabiam que quem comandava o show era Marco Polo Del Nero, que era visto como o sucessor natural de Ricardo Teixeira quando terminasse seu mandato à frente da CBF", afirmou. "O senhor Marin estava no campo, mas não participou do jogo", completou.

Na mesma semana, o promotor do caso também já havia incluído Del Nero em suas acusações, alegando que ele era o "gêmeo" de Marin nas negociações de propina. Segundo a promotoria, havia anotações de Santiago Peña, ex-funcionário da empresa de marketing esportivo Full Play, que pagava propinas para dirigentes do futebol mundial, indicando as iniciais de Marin e Del Nero. "Ele guardou documentos que mostravam as iniciais MPM ao lado da indicação de US$ 3 milhões. MP era a abreviação para Marco Polo Del Nero e M era Marin. Del Nero e Marin estavam unidos, eram gêmeos", afirmou. Os valores recebidos pelos dois, ainda de acordo com a acusação, chegariam a US$ 13 milhões (US$ 6,5 milhões para cada um).

Investigação na Fifa e banimento do futebol

A Fifa abriu investigação independente no Comitê de Ética contra Del Nero em novembro de 2015 para apurar se houve recebimento de propina na negociação de contratos de mídia e de marketing esportivo para torneios da Libertadores, Copa América e Copa do Brasil. Em janeiro deste ano, Marco Polo Del Nero foi interrogado pela Fifa como parte do processo e respondeu aos questionamentos por meio de videoconferência - ele optou por não comparecer ao interrogatório para não sair do Brasil. O dirigente foi confrontado por todas as evidências apresentadas pela Justiça americana a respeito do pagamento de propina e negou participação em todas elas. Segundo seus advogados, nenhuma prova material teria sido apresentada para comprovar sua participação no esquema. À época, Del Nero já estava suspenso de suas atividades no futebol por 90 dias. Em março, a entidade estendeu a suspensão por mais 45 dias e agora confirmou o banimento dele para sempre de qualquer atividade envolvendo o futebol.

"Brasil que dá certo?" Veja escândalos de presidentes da CBF

Uma frase de Carlos Alberto Parreira, treinador da Seleção Brasileira em duas Copas do Mundo (no tetra em 1994 e em 2006) e membro da comissão técnica em 2014, ficou eternizada às vésperas do último Mundial, no Brasil: "eu acho que a CBF é um Brasil que deu certo". Os fatos vão contra o pensamento de Parreira. Nos últimos quase 30 anos, a entidade foi comandada por dirigentes que, atualmente, estão envolvidos em escândalos no mundo do futebol.

  • Escândalos

Ricardo Teixeira (1989-2012)

A Justiça de Andorra pediu neste ano a extradição do ex-presidente da CBF, investigado na Europa por suspeita de lavagem de dinheiro (mais de R$ 30 milhões em propinas com contratos ligados à Seleção) em um processo que inclui também o ex-presidente do Barcelona (ESP), Sandro Rosell. Ele nega as acusações. A Constituição brasileira veta a extradição de brasileiros. Vários escândalos atingiram a gestão de Teixeira na CBF. Prestou depoimento em duas CPIs, a do futebol e a da CBF-Nike. No campo, a Seleção Brasileira conquistou duas Copas do Mundo em gestão, um total de 11 títulos mundiais e 27 sul-americanos contando todas as categorias do futebol. Teixeira tem 70 anos e segue sob investigações em quatro países (EUA, Espanha, Uruguai e Suíça).

José Maria Marin (2012-2015)

Presidente da CBF durante as campanhas da Copa das Confederações e da Copa do Mundo, ambas realizadas no Brasil, Marin foi condenado em maio de 2015 por fraude, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha e cumpre pena nos Estados Unidos. O ex-presidente da CBF tem hoje 85 anos.

Marco Polo Del Nero (2015-2017)

O ex-presidente da CBF foi indiciado pela Justiça americana em 2015 por envolvimento em casos de corrupção no futebol. Mas, desde então, passou a evitar sair do Brasil para não ser preso. A Fifa aplicou uma suspensão vitalícia a Marco Polo, além de uma multa de 1 milhão de francos suiços (R$ 3,5 milhões) por corrupção, por aceitar presentes de forma indevida e gestão desleal. Del Nero tem atualmente 77 anos. Rogério Caboclo, futuro presidente da CBF, faz parte de seu grupo político.

  • Lembre a frase de Parreira, em 2014

"A seleção é o exemplo para o Brasil, e a CBF porque ela está por trás apoiando tudo isso aí. Em termos de organização, em termos de logística. Não falha nada. É a logística, o operacional, a parte técnica, a parte tática. São milhões de procedimentos e nenhum deles dá errado. Pegar esses jogadores de todos os lugares do mundo, colocar eles aqui no dia certinho. A CBF hoje tem uma situação maravilhosa. Economicamente ela está viável, está muito bem gerida. E ela criou o centro de treinamento aqui na Granja que é uma coisa sensacional, um dos melhores do mundo. Vocês ainda não viram a nova sede, que é talvez a melhor que eu vi em toda a história do futebol. Portanto, eu acho que a CBF é um Brasil que deu certo. A Seleção Brasileira de futebol é um Brasil que deu certo, não só pelas conquistas", afirmou Parreira, há quatro anos.

Parreira, em 2018

Em entrevista ao portal UOL nesta sexta-feira, Parreira reafirmou seu pensamento. Mas o ex-treinador diz que se refere ao futebol. "Eu falo da CBF futebol, você está falando da CBF política, vamos fazer essa distinção, p...! A CBF que organiza o futebol é maravilhosa. Conversa com o Tite, pergunta se ele tem algo a reclamar, se alguma vez ele não teve apoio da CBF... Ele (Tite) tem o melhor centro de treinamento do mundo, a melhor concentração. A CBF funciona muito bem e sempre funcionou para os profissionais. Quando eu falo da CBF, é futebol e funciona para cacete... Quando se tem três ex-presidentes denunciados, evidentemente que não é coisa boa. Mas meu sentimento é que alguma coisa errada aconteceu. A Fifa não ia tomar uma atitude drástica dessa sem ter analisado", afirmou.

 

Fonte: Lance/BBC Brasil/Municipios Baianos

Comentários:

Comentar | Comentários (0)

Nenhum comentário para esta notícia, seja o primeiro a postar!!