01/05/2018

Como viviam os primeiros habitantes de Minas Gerais

 

Os grupos de primeiros habitantes de Minas, por volta de 11 mil anos atrás, eram geralmente familiares, com cerca de uma dúzia de indivíduos. Perambulavam à procura de caça, pesca e coleta de alimentos, geralmente cocos, raízes, frutas e outros vegetais. Sempre em movimento, usavam abrigos naturais para se estabelecer temporariamente, deixando desenhos com representações ritualísticas, indicando resultados de caçadas e observações. Suas ferramentas eram rudimentares, de pedras lascadas e polidas, com utilização de madeira, resinas e tramas vegetais. Não dominavam técnicas de agricultura.

Luzia, nome dado ao crânio de Homo sapiens mais antigo do Brasil, com 11,5 mil anos, estava entre esses nômades. Ela morreu com cerca de 25 anos e seus restos mortais foram encontrados na década de 1970 em uma caverna em Matozinhos, na Grande BH, sob 13 metros de detritos. A reconstituição da sua face, em 1999, provocou uma revolução ao demonstrar sua descendência negroide, da África ou Oceania, numa época em que se acreditava que os primeiros americanos eram mongoloides, vindo da Mongólia e da Sibéria. O crânio se encontra no Museu da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. Os nômades da Serra do Cabral, na região de Buenópolis e Joaquim Felício são conhecidos por várias tradições de pinturas rupestres que até hoje decoram formações rochosas nessas regiões.

Tradição Planalto

Dominavam a Região Cárstica de Lagoa Santa. Seus traços nas pedras retratavam humanos em danças e caçadas, bem como animais, a exemplo de cervos, peixes, aves e répteis.

Tradição Agreste

Maior presença na região do agreste da Paraíba, Pernambuco e Bahia. Os desenhos e representações são mais simples e toscos, com poucos animais e figuras humanas grandes, isoladas e sem movimento.

Tradição Montalvânia

Vindos, sobretudo, da região do Vale do Peruaçu e de Montalvânia, no Norte de Minas. Composta por figuras humanas, que muitas vezes sugerem movimentos, misturas de homens e animais, objetos como armas e ferramentas, pés e figuras geométricas pouco sofisticadas.

Tradição São Francisco

Povos que circulavam pelo Vale do Velho Chico, de Sergipe a Minas Gerais. Deixaram impressas nas rochas formas geométricas e traços bem delimitados, com cores variadas. Poucos animais, a maioria peixes, pássaros, cobras e tartarugas.

Conheça as histórias das montanhas de Minas e saiba como elas moldaram a identidade dos mineiros

Escarpas e montes precisaram ser domados para erguer casas e igrejas. Nas encostas longínquas, a escavação de minas de ouro, diamantes e ferro exigiu o plantio e o pastoreio nos vales do sertão. Para viajar por essas terras, abriram-se trilhas em serras tão elevadas que receberam a denominação de alterosas. Um dos territórios brasileiros mais acidentados e inóspitos, Minas Gerais nasceu como destino de aventureiros buscando riquezas minerais. Se por um lado essas cadeias intrincadas de serras e morros impuseram extrema dificuldade de circulação, por outro, foram responsáveis por preservar a arte, a culinária, a arquitetura e os modos do povo que floresceu no seio das íngremes formações. E é do alto, da perspectiva delineada pelos picos, vales e cordilheiras. Minas é um estado facetado pelas cadeias montanhosas. Basta destacar aquela que é considerada a sua espinha dorsal. Senhora das maiores jazidas produtoras de minério de ferro do Brasil, a Serra do Espinhaço é a única cordilheira brasileira e assim foi denominada por lembrar uma colossal coluna vertebral. Barreira que impediu a entrada dos europeus por mais de 100 anos, a Serra da Mantiqueira, segundo a tradução do tupi para o português, significa “serra que chora água”. Uma referência aos mananciais que desses altos fluem, como o Rio Paraíba do Sul, responsável por abastecer o Rio de Janeiro e áreas de São Paulo, e também o Rio Grande, detentor do maior complexo de barramentos geradores de eletricidade do país.

Berçário de nascentes

Logo no batismo a Serra do Caparaó foi marcada como um centro de batalhas, seu nome sendo traduzido do tupi como “cabana de folhas grandes” por causa das habitações dos índios botocudos bravios que ali resistiram por séculos. Foi palco também da Guerra do Contestado (Minas Gerais contra o Espírito Santo, entre 1912 e 1916) e da Guerrilha do Caparaó (1966 a 1967). Ali está a mais alta montanha do Sudeste brasileiro e o terceiro ponto culminante do país, o Pico da Bandeira (2.891 metros). Como um baú, a Serra da Canastra guarda as nascentes que se fundem no rio da integração nacional, o São Francisco, um leito de prosperidade e cultura próprias, que de Minas leva alento ao Nordeste. “Já no século 18, Minas Gerais era conhecido como o estado montanhês”, diz o professor da  IFMG, Alex Bohrer. “As montanhas são parte essencial de Minas. Porque eram onde estavam o ouro e os diamantes. Sem essas jazidas, não existiriam cidades como Diamantina, Mariana, Ouro Preto, São João Del-Rei ou Serro. As montanhas foram, ainda, responsáveis pelo isolamento dos mineiros. Isso se traduziu numa cultura muito própria e rica, ainda hoje presente em nossas tradições”, considera Bohrer. As formações montanhosas de Minas Gerais são muito antigas em termos geológicos, com centenas de milhões de anos. “As montanhas e serras que vemos hoje estavam aprofundadas e foram expostas após milhões de anos de ação erosiva do meio ambiente”, afirma o geólogo e diretor do Museu de História Natural da UFMG, Antônio Gilberto Costa. “Uma das características de Minas Gerais é o considerável número de serras. É o estado mais montanhoso do Brasil”, define o professor. As montanhas, de certa forma, isolaram Minas Gerais, preservando a sua cultura. “Isso é muito nítido, por exemplo, na linguagem mineira. Temos muitas evidências de que o português de Portugal, no século 18, era muito mais semelhante ao que se fala em regiões rurais de Minas, hoje, do que aquele que se fala em Portugal atualmente”, aponta o professor do IFMG, Alex Bohrer.

Serra do Espinhaço, lar das tribos pré-históricas de Minas

Da região de Lagoa Santa, os povos primitivos seguiam pelo Vale do Rio das Velhas rastreando veados e tatus. A partir do semiárido baiano, dúzias de nômades determinados desbravavam a caatinga vasculhando sustento entre espinhos. Tribos do sertão norte-mineiro desciam coletando frutas, cocos e raízes. Serpenteando o Rio São Francisco e seus afluentes, clãs de pescadores e coletores desafiavam os morros, certos de conquistar fartura. Há mais de 11 mil anos, esse mosaico de grupos pré-históricos, que está entre os primeiros americanos e compõe os mais antigos ancestrais dos mineiros modernos, convergiu para a porção meridional (central) da Serra do Espinhaço, entre Diamantina e Buenópolis. Numa busca sazonal por comida, os grupos deixaram, entre abrigos, territórios de caça e rituais, a maior sucessão de sítios arqueológicos de Minas Gerais – um dos mais concentrados do Brasil – segundo o MPMG e o Iphan e Iepha. São pelo menos 233 sítios federais num pequeno quadrante de 2,7 milhões de hectares nos municípios de Augusto de Lima, Buenópolis, Couto de Magalhães de Minas, Datas, Diamantina, Francisco Dumont, Gouveia, Lassance, Mendanha, Monjolos, Joaquim Felício, Santo Hipólito, Serro e Várzea da Palma. Mais do que montes de rochas cinzentas transformados em domínios pré-históricos, essa região pode ser encarada como uma síntese da formação do povo mineiro, preservando os vestígios dos indígenas, dos africanos e dos colonizadores ainda presentes em ruínas dos tempos da exploração de ouro e diamantes, nos séculos 18 e 19.

A concentração mais impressionante de sítios pré-históricos fica nas elevadas rochas da Serra do Cabral, entre Buenópolis e Joaquim Felício, no Norte de Minas. São 117 pontos, entre formas de abrigos sob pedras que são chamados de lapas, cavernas de quartzito e corredores rochosos. Nesses labirintos, quase sem trilhas demarcadas e dominados pela vegetação baixa, mas densa, de campos rupestres, se revezam gravuras de quatro tradições de pinturas rupestres. “Temos importantes estudos que mostram uma presença das tradições Planalto, Agreste, Montalvânia e São Francisco. Mas é importante que estudos continuem sendo feitos, pois há a expectativa de que muito ainda seja descoberto”, afirma o arqueólogo do Iphan Reginaldo Barcelos. Populações que ali chegavam vindo de várias regiões do estado e de fora também. Boa parte das inscrições está dentro do perímetro do Parque Estadual da Serra do Cabral, uma unidade de conservação com 22.500 hectares e altitudes que variam entre 900 e 1,3 mil metros de altitude. “Muita coisa ainda está para ser descoberta. Conseguimos isso com a relação com os povos da região, que nos mostram sítios que só eles conhecem. Nossa exploração da área de manejo também permite descobrir os sítios”, afirma o diretor de Unidades de Conservação Norte do IEF, Jarbas Jorge de Alcântara.

Sem um bom guia, chegar até as pinturas rupestres pode ser uma tarefa difícil. Algumas delas estão praticamente camufladas nos emaranhados de espinhos. O solo arenoso alterna grãos finos como farinha e outros mais grossos, de cristais brancos, uma das riquezas que foram extraídas por anos naqueles altos. Esse piso, no meio das trilhas, entre os paredões de pedras e a floresta, permite a conservação de vestígios animais que mostram por que os homens primitivos atravessavam às vezes centenas de quilômetros para ali chegar. “Veja só. Uma pegada com três dedos grandes. É uma anta (Tapirus terrestris), animal em extinção, que temos em grande quantidade”, observa Jarbas ao lado de dois guarda-parques, que são da região e conhecem os animais da área. O trio ainda consegue identificar os rastros de outras antas, de um veado, de uma raposa e de seriemas. “Temos onças-pardas e pintadas aqui também”, afirma Alcântara. A Serra do Cabral é uma chapada. Aparenta ser um só monte compacto se erguendo sozinho da mata. Mas, de perto, se abre em um complexo de paredões e corredores altos de rocha escura. Na base de um dos mais íngremes mirantes, a chamada Pedra Alta (1.205 metros), riscos vermelhos mal percebidos a distância ganham, à proximidade, as formas de animais que eram rastreados e abatidos pelos homens primitivos. O maior deles se assemelha a um veado-campeiro. Mas outros traços em amarelo, branco, azul e preto assumem formas de antas, tatus, pacas e bichos indecifráveis. O sítio arqueológico é chamado de Lapa da Pedra Alta e como tantos outros foi estudado e escavado por arqueólogos. Infelizmente, apenas uma amostra das peças pertencentes aos primeiros habitantes de Minas ainda se encontra no parque. São pontas de flechas e lâminas de pedras lascadas ou polidas, cerâmicas e materiais de pintura feita com a trituração de minerais e compostos de gordura e vegetais. A maioria dos artefatos foi levada para o Rio de Janeiro.

Morro do Makemba, abrigo contra a escravidão nas montanhas de Diamantina

O cheiro do café passado, da lenha queimada no fogão de barro e da fumaça que deixa lentamente as chaminés é indicativo da presença de habitantes nas moradias. Mas ninguém é localizado ao se averiguar de perto as casas coloniais de janelas de madeira pintada ou os casebres de paredes de pau a pique e telhas de barro feitas nas coxas. A aparência é de total abandono nas casas afastadas, onde ainda residem alguns dos moradores mais velhos da comunidade quilombola de Quartel do Indaiá, no distrito diamantinense de São João da Chapada, no Alto Jequitinhonha. O que pode parecer estranho para forasteiros não surpreende o taxista Robson das Mercês Ferreira, de 52 anos, nascido naquela comunidade e também descendente de seus fundadores. “Aqui, o pessoal mais velho é arisco demais. Quando percebem gente de fora chegando, eles quebram para dentro do mato e ninguém mais acha. Só aparecem de novo quando têm certeza de que os estranhos já foram embora”, conta. Essa postura arredia é parte de uma atitude peculiar aos descendentes de escravos que há séculos habitaram as montanhas produtoras de diamantes do chamado Distrito Diamantino – formado por Diamantina, Serro, Datas e Gouveia, entre outros. Mas é algo raro nestes dias, talvez, ainda só presente em Quartel do Indaiá, uma das comunidades quilombolas que ainda mantêm resquícios dos costumes dos ancestrais africanos que ajudaram a formar o povo mineiro como é conhecido atualmente. “O mineiro é essencialmente uma mistura de negros e de europeus. Uma sociedade mestiça, que se formou numa época em que essa mistura não era comum. Portanto, a herança africana é indissolúvel da história de Minas Gerais”, considera o professor Alex Bohrer.

A escolha das montanhas como esconderijo dos escravos fugidos das senzalas das fazendas da região e também das minas onde o trabalho era extremamente pesado não foi por acaso. Eles sabiam que os portugueses e os senhores que os aprisionavam enviariam tropas para caçá-los pelos sertões. “Diamantina e o Serro, principalmente, contavam com uma população escrava muito numerosa. E em razão das dificuldades de acesso que impunham, essas serras da cadeia do Espinhaço serviram como abrigos para os escravos fugidos. Nesses locais fundaram vilarejos e sobreviveram. Até hoje, ainda encontramos comunidades quilombolas nessas montanhas”, observa o geólogo e diretor do Museu de História Natural da UFMG, Antônio Gilberto Costa.

O nome Quartel do Indaiá deriva da existência no local de um posto de controle de passagem para o Distrito Diamantino, regulado pela Coroa portuguesa. “Naquele tempo, para entrar no Distrito Diamantino era preciso ter um documento que funcionava como passaporte e deveria ser carimbado pelas autoridades da Coroa. Medida que servia para evitar o contrabando de diamantes. Por isso, foram criados quartéis nas bordas do distrito”, conta o arqueólogo do Iphan Reginaldo Barcelos. Com a desativação do quartel na região de São João da Chapada, em 1730, os escravos aproveitaram para ocupar essa estrutura. “Ali encontraram segurança para professar suas crenças e manifestações culturais”, conta Barcelos. A única estrutura que lembra o quilombo antigo e que ainda está de pé são as ruínas dos muros que demarcavam o antigo cemitério quilombola, onde os mortos da comunidade eram enterrados. Atualmente, quem morre é enterrado em São João da Chapada, a 10 quilômetros do vilarejo. Os rituais que levavam os mortos para os cemitérios, antigamente, ainda trazem arrepios aos que ainda se lembram disso, como a senhora Constantina dos Santos, de 70 anos. “Era muito pequena e ficava oito dias com medo quando via os negros descendo os morros carregando o defunto num pano claro preso num pau. Era uma cantoria que não parava. Nos lugares onde eles pousavam para descansar, tinham de deixar uma cruz e depois a cantoria começava de novo. Tinha mais pavor ainda quando vinha o pessoal do Macaquinho (um lugarejo) e traziam corpo de crianças mortas”, recorda-se.

'Meu avô, meus tios e eu morávamos na caverna'

A caverna esculpida pela erosão das águas na Serra da Tromba D'Anta, em Diamantina, não é conhecida por pesquisadores nem registrada pelo Iphan, o guardião legal de formações com sítios arqueológicos. Quem conhece como poucos a Lapa dos Caboclos é o aposentado José Balbino Pereira, de 76 anos. Um senhor calmo, de olhos apertados atrás dos óculos e fala aos solavancos, típica dos caboclos dessas montanhas mineiras. Até a idade de 9 anos, morou no interior da cavidade natural com a família. Sempre admirou os desenhos riscados na pedra, feitos há cerca de 11 mil anos. “Meu avô e meus tios moravam na caverna. Como os antigos eram caboclos, colocaram o nome de Lapa dos Caboclos. Pensavam que os desenhos foram feitos por índios e esse é um dos lugares que têm mais pinturas em Diamantina. E olhe que conheço bem a região”, garante o homem, que se orgulha de ter trabalhado na vasta área rural do município do Alto Jequitinhonha, onde percorreu muitos sítios arqueológicos. Ele se nega a levar “qualquer um” até a caverna, devido às depredações do passado e porque o terreno é de um parente.

No passado, as lapas eram encaradas de forma diferente. “Algumas pessoas moravam nelas. Outras pousavam quando montavam armadilhas ou caçavam”, lembra. O fascínio do caboclo pelas formações rochosas e suas pinturas rupestres foi incentivado, em parte, por ele ter nascido na região, ao longo da MG-220, que é a maior concentração de sítios arqueológicos de Diamantina. Num raio de um quilômetro em torno de sua atual residência, por exemplo, há 10 sítios de pinturas de várias tradições de homens pré-históricos registrados pelo Iphan. Há, numa área distante, até um sítio denominado Lapa do Caboclo, cuja localização, entretanto, não coincide com a moradia dos ancestrais de José Balbino. Da residência do senhor José Balbino até a caverna são quatro quilômetros de estradas de chão, passando casarões de telhas antigas e barracões de pau a pique nas fazendas, córregos com pontes de madeira rústica, lagos e plantações de capim. Passada a última porteira, o aposentado desce do carro e procura seu parente numa área de pasto e depois num casarão comprido. Daquela baixada se avista de frente a formação rochosa que domina o horizonte, o Pico da Tromba D'Anta. É uma pedra cinza e pontiaguda, que pende inclinada a 1.360 metros de altitude. A demora para o caboclo retornar dá a impressão de que a visita à lapa seria proibida. Mas o seu retorno, sorridente, após alguns minutos, mostrou que a permissão foi concedida. “Ô, gente, vocês desculpem. Meu primo está mexendo leite no tacho para fazer doce de leite. Se parar, queima tudo. Ele pediu para não reparar e para levar (a reportagem até) lá”, disse, cordial.

A caminhada é curta, passando por plantações rasteiras de feijão e ervas, depois seguindo o curso de um córrego, até que se abre a Lapa dos Caboclos. Uma formação natural de equilíbrio intrigante, já que a sua abertura de acesso toma quase toda a extensão horizontal da rocha, parecendo não haver pilares suficientes para sustentar o teto de pedras de oito metros de altura. De lá do alto, como se fossem cordas de montanhistas, as raízes finas de algumas plantas descem até o solo da trilha, onde se fixam.   A aproximação com a boca da caverna torna visíveis parte dos desenhos pré-históricos. São traços enfileirados que os arqueólogos supõem se tratar de contagens, provavelmente de tempo ou de animais abatidos pelos caçadores primitivos. O primeiro salão é o mais amplo. Permite a entrada plena da luz do dia, destacando a tinta vermelha de milhares de anos usada em inscrições que retratam veados, tatus, pacas, aves e peixes. No teto, figuras humanas em posições que sugerem movimento indicam atividades como coreografias rituais que podem ter ocorrido sob aquela mesma laje. Boa parte do teto, no entanto, foi densamente recoberta por fuligem negra. A fonte dessa destruição está nos fundos. Apoiado nos patamares rochosos, um fogão a lenha, de barro e tijolos de adobe e com mais de 100 anos, completamente recoberto por excrementos de morcegos. “Aqui era a cozinha”, aponta o aposentado José Balbino. Os olhos dele percorrem as outras três câmaras e parecem transportá-lo de volta ao tempo em que viveu ali com os caboclos da montanha pré-histórica. “O espaço maior era onde dormia meu avô e meus parentes. A gente ficava junto, em família. Ali, naquele menor, a gente fazia fogueiras e tocava violão a noite toda”, indicou. A fuligem não é a única marca de destruição neste tesouro arqueológico. Riscos modernos de carvão com assinaturas de invasores e formações rochosas destruídas no interior das câmaras mostram a vulnerabilidade da Lapa dos Caboclos. “Antes, as pessoas moravam aqui e o fogo destruiu muita coisa. Depois teve gente vindo para acampar e fazer arruaça. Por isso não deixamos mais ninguém entrar, porque senão acaba”, disse José Balbino.

 

Fonte: em.com/Municipios Baianos

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