02/05/2018

Especialista em Segurança diz que vivemos um ‘novo cangaço’

 

Ao definir que novo cangaço são as quadrilhas que atuam no interior dos estados, fazendo roubos, furtos de bancos e de caixas eletrônicos, com a utilização de armamentos pesados, o doutor em Sociologia Luiz Flávio Sapori, avaliou a questão da segurança pública, principalmente nas cidades do interior.

O aumento dos índices de violência e o surgimento de novas modalidades do crime organizado têm demonstrado que nenhuma política pública na área de segurança obteve sucesso até hoje no Brasil. A inconsistência desses programas e o desmantelamento dos trabalhos bem-sucedidos ao longo dos anos passa pela dificuldade em institucionalizar as ações para além de programas de governo.

Para o doutor em sociologia Luís Flávio Sapori, que foi secretário-adjunto de Segurança Pública de Minas Gerais, entre 2003 a 2007, a dinâmica da violência no Brasil vai além da estrutura socioeconômica e dos precários indicadores sociais e não explicam como o país produz números de guerra civil, com 60 mil assassinatos ao ano, 50 mil estupros e mais de R$ 2 milhões de assaltos por ano.

Segundo Sapori, a redução da violência a longo prazo só é possível a partir da formulação e implementação de políticas públicas de controle da criminalidade consistentes e duradouras, tanto no campo da repressão quanto e, principalmente, na dimensão da prevenção social. Nesta entrevista ao Diario de Pernambuco, Sapori faz uma análise da situação da violência em Pernambuco e no Brasil e explica porque é um dos defensores do Pacto pela Vida.

Para ele, único programa hoje no país em vias de institucionalização. Flávio Sapori é um dos especialistas nacionais que, junto à Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco (OAB-PE), está trabalhando na reestruturação do Pacto pela Vida para além de interesses partidários e corporativos.

"Não há dúvidas de que a realidade em 2018 em Pernambuco e no resto do Brasil é bem diferente da de 2007. Hoje nós vivenciamos uma situação mais grave do crime organizado, do novo cangaço, que era um problema menor há dez anos. O Pacto pela Vida, como foi pensado em 2007, enfrenta novos desafios hoje, nesta segunda metade da década. O ideal é que o programa se adapte a essas novas realidades", avaliou Sapori.

O que é o ‘novo cangaço’? Por Roberta Tavares

O “Novo Cangaço” aterroriza o Ceará. Em 2010 foram 36 ataques a banco. No ano seguinte, 50. Os números mais que dobraram em 2012, com 117 casos. Este ano já são 136 ataques a banco no estado do Ceará.

Motorizados, armados de fuzis e pistolas, os “cangaceiros” modernos sitiam os municípios cearenses. A ação acontece sempre da mesma forma. Um grupo segue até o destacamento da Polícia Militar e criva de balas as paredes do prédio e as viaturas no local. Enquanto isso, outra parte da quadrilha explode a agência bancária.

São necessários menos de 30 minutos. Apenas o tempo suficiente para estourar (geralmente com dinamite) os caixas eletrônicos e cofres do banco e partir mata adentro. Na fuga, interditam as vias de acesso ao município, seja com veículos de grande porte ou com carros incendiados.

A ação parece ser planejada com semanas de antecedência. Caminhos de fuga, horários da polícia e da movimentação do dinheiro nos bancos também são estudados. A prática, recorrente no interior do Ceará, é conhecida como ‘Novo Cangaço’, remetendo à famosa quadrilha de Lampião, em meados do século 18.

Segundo o presidente do Sindicato dos Bancários no Ceará, Carlos Eduardo Bezerra, nos ataques acontecem arrombamentos, explosões, extorsões e sequestros de familiares de bancários. “Normalmente são quadrilhas interestaduais que, por meio do tráfico de armas e explosivos, sitiam as cidades e conseguem suspender o estado democrático de direito”, explica.

Novos cangaceiros

Essa nova categoria de assaltos a bancos vem causando terror nas cidades interioranas brasileiras. O modus operandi dos “novos cangaceiros” tem semelhança com o velho cangaço. Este, não raro, fazia uso de reféns; o bando também era grande, de 10 a 15 membros; e preferia atacar pequenas cidades.

Lampião e seu bando conseguiram dominar o sertão durante anos. De acordo com o historiador Adauto Leitão, os cangaceiros tinham modo destemido de atuação. “Era um grupo organizado que não se estabilizava em uma cidade. Atuava fortemente armado, sitiava o local e fazia a polícia refém das suas ações. Os cangaceiros de Lampião gostavam de desafiar os policiais”, afirma. O mesmo acontece atualmente nos ataques às agências bancárias no interior do Ceará.

Diferenças

Apesar da semelhança, existem diferenças. A atuação do bando de Lampião, de acordo com o historiador, tinha um cunho sociológico. O objetivo era invadir as cidades e fazer justiça a seu modo. Lembrado como Robin Hood, Lampião era conhecido por roubar dos ricos para dar aos pobres. Tornou-se personagem do imaginário brasileiro. “Fazia ‘‘caridade’’, assistindo as pessoas do meio rural que tinham necessidades”.

O ‘Novo Cangaço’ já faz parte de outra conotação. “São grupos criminosos, que saqueiam os bancos, sejam privados ou públicos. O que interessa é recurso financeiro para alimentar grupos organizados como o PCC [Primeiro Comando da Capital], por exemplo”.

Além disso, segundo Leitão, o cangaço original tinha um viés da cultura nordestina, seja no traje ou alimentação. Agia armado em seus cavalos. “Lampião e os cangaceiros eram nordestinos natos. Esses novos são de vários estados. As quadrilhas têm integrantes cearenses, paulistas, cariocas, qualquer brasileiro. Não existe esse conceito de ser nordestino”, conclui.

Medo

A principal diferença, no entanto, é o temor que os novos cangaceiros deixam nas pessoas. A violência assusta. A sensação de insegurança aumenta. Desde o último ataque ao banco de Baturité, em julho de 2013, a tranquilidade no município acabou. “A gente está preocupado, porque a qualquer momento pode acontecer de novo”, lamenta um morador da cidade de Baturité (a 93 KM de Fortaleza), que – por medo – preferiu não se identificar. As pessoas andam com medo e não gostam nem de comentar o que aconteceu.

“Não há policiais suficientes para a cidade. Se você precisar de uma viatura e pedir socorro, é melhor chamar logo o rabecão, porque a polícia vai demorar mais de uma hora para te atender” disse Teógenes da Silva, comerciante. O senhor Januário de Abreu, aposentado, se revolta com a situação que a cidade vive. “Eu só queria que minha cidade fosse segura de novo. Hoje, tudo mudou”, desabafa com os olhos vermelhos, entristecido.

“Novos Cangaceiros” agem no interior do Nordeste como nos tempos de “Lampião”. Por Geraldo Nunes

No interior da Bahia é comum deparamos com o medo dos moradores em relação a um grupo que vem assaltando e atemorizando a população. Homens fortemente armados, agem nos pequenos municípios roubando bancos, casas lotéricas, prédios públicos e agências dos correios, inclusive fazendo reféns. O temor ao crime organizado, tão frequente nas grandes cidades atinge agora também o sertão nordestino.

Encontramos na internet informações que o bando vem agindo há cerca de dois anos, sendo admitida a existência de uma quadrilha pelas autoridades, a partir da realização da 35ª Reunião do Colégio de Secretários de Segurança Pública do Nordeste, quando formas de combate a essa quadrilha foram discutidas já havendo a certeza da existência de ramificações em outros estados além da Bahia. A imprensa local vem chamando esses assaltantes de “Novos Cangaceiros”, pelo fato deles atuarem de um modo que faz lembrar o antigo bando comandado por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.

Em Brotas de Macaúbas, na região da Chapada Diamantina, a 590 km de Salvador, homens fortemente armados invadiram, em junho de 2016, este pequeno município de apenas 14 mil habitantes. Homens armados assaltaram a agência do Banco do Brasil de onde levaram cerca de R$ 200 mil. Depois fizeram comerciantes e um policial como reféns. Não satisfeitos, cortaram as linhas telefônicas da cidade, impedindo o apoio de reforço policial, deixando a população em pânico.

Antes disso, em Amargosa, também uma pequena cidade no Recôncavo Baiano, já haviam sido registrados atos de terror promovidos por cerca de 20 homens armados. Durante uma festa junina, os assaltantes chegaram atirando para o alto. Em seguida os caixas eletrônicos do BB e da Caixa dessa cidade de 40 mil habitantes, foram explodidos e todo o dinheiro retirado. Os assaltantes, estavam encapuzados, armados com fuzis e fugiram em dois veículos.

Outro caso ainda, verificado no segundo semestre de 2015, em Umburanas, cidade de 17 mil habitantes, os “Novos Cangaceiros” festejaram a fuga dando mais de 50 tiros para o alto, aterrorizando os moradores. Em menos de uma hora nesta cidade, três lojas foram assaltadas, além de uma agência bancária, uma casa lotérica e dois prédios públicos. Na época a Secretaria de Segurança Pública da Bahia ainda não acreditava na existência efetiva de uma quadrilha, mas com a soma dos fatos e o modo de atuação se concluiu pela necessidade de uma ação de combate urgente.

Houve o reforço de armas e viaturas para um grupo especial da polícia baiana que já está trabalhando em apoio às unidades policiais dos municípios. Nas viaturas aparece a inscrição “Cerrado”, também conhecido como Comando de Policiamento Especializado – CPE. São cerca de 3 mil policiais circulando por estradas do interior da Bahia. De modo ostensivo, abordam veículos e pessoas suspeitas. A ação não chega a ser parecida com as “Volantes”, organizadas na época em que o objetivo era prender ou matar o bando de Lampião, como aquele que existiu na década de 1930, mas se não houver uma solução, as ações policiais poderão também se tornar mais violentas.

Virgulino Ferreira da Silva, ganhou o apelido de “Lampião” por ser rápido no gatilho e atirar seguidamente, iluminando a noite com seus tiros. Entre os cangaceiros se fez respeitar pela ousadia e pelo ódio que despertava nos inimigos. Chamado pelo bando de Capitão Virgulino, teve sua história iniciada em 1898, ano em que nasceu no município de Serra Talhada, no interior de Pernambuco. Era alfabetizado e usava óculos para leitura, características bastante incomuns para a região sertaneja e pobre onde ele morava, embora fosse seu pai proprietário de terras.

Entrou para o cangaço em 1919 e durante quase vinte anos viajou a pé e não a cavalo com seu grupo pelo interior do Nordeste. Era chamado de cangaceiro aquele que se vestia em trajes de couro, com chapéus e sandálias, característicos de pessoas humildes e pobres. Carregavam consigo facas longas e estreitas, conhecidas como peixeiras que usavam para cortar os arbustos com espinhos típicos da vegetação caatinga. Cangaceiro era também uma expressão pejorativa para a pessoa do meio rural que não se adaptava ao estilo de vida urbana.

Como naquele tempo não havia contrabando de armas, só utilizavam armas de fogo quando as conseguiam roubar da polícia ou dos jagunços pagos para proteger as propriedades. “Lampião” e seu bando atacou pequenas fazendas e cidades em sete estados nordestinos, além de roubar o gado e praticar sequestros, assassinatos, torturas, mutilações, estupros e saques. Sua namorada, Maria Gomes de Oliveira, conhecida como Maria Bonita, juntou-se ao bando em 1930 e embora tenha também participado de muitos assaltos ajudou, assim como as demais mulheres do grupo, a diminuir um pouco a violência dos cangaceiros, o que deu a eles o aspecto romântico retratado em alguns livros e filmes, embora fossem de fato criminosos.

As “Volantes” eram constituídas por soldados originários de todos os estados da federação brasileira com a finalidade exclusiva de procurar e matar cangaceiros. Estes, por sua vez, se referiam aos perseguidores como “macacos”, por causa de seus uniformes marrons. Em 27 de julho de 1938, o bando acampou na fazenda Angicos, situada no sertão de Sergipe, esconderijo tido por “Lampião” como o de maior segurança. Era noite, chovia muito e todos dormiam em suas barracas. A volante chegou tão silenciosamente que nem os cães perceberam.

Por volta das cinco da manhã quando alguns cangaceiros já levantavam aconteceu o ataque. Dos trinta e quatro integrantes, onze morreram ali mesmo. Virgulino Ferreira foi um dos primeiros a morrer, logo em seguida, Maria Bonita. Alguns cangaceiros conseguiram escapar. Bastante eufóricos com a vitória sobre o inimigo, os policiais cortaram as cabeças dos que haviam sido mortos as expondo para uma foto repugnante que, entretanto, entrou para a história.

Agora, em pleno século XXI, “Novos Cangaceiros”, estão agindo. Foram registradas no mês de janeiro de 2017, ações de enfrentamento entre policiais e assaltantes na região próxima ao município de Bom Jesus da Lapa, um lugar singelo às margens do Rio São Francisco, que atrai romeiros de várias partes do país, para rezar aos pés de uma imagem colocada no interior de uma gruta onde missas ao ar livre acontecem todos os finais de semana e feriados religiosos. Bandidos e policiais andam morrendo em entreveros quase diários. Que o Bom Jesus proteja o povo do Nordeste, mais uma vez a mercê dos ladrões e da violência.

 

Fonte: Diário de Pernambuco/Tribuna do Ceará/Municipios Baianos

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