04/05/2018

Assim é a ‘sopa de plástico’ que asfixia o mundo

 

Plastiglomerado. Esse é o nome oficial de um novo mineral que não existia antes na natureza, mas agora se tornou frequente. Foi descoberto em 2014, na praia de Kamilo, da ilha do Havaí, e é formado por sedimentos e detritos plásticos. Na era atual, dominada pela ação dos seres humanos, “os perigos decorrentes da produção e uso indiscriminado deste material sintético, derivado da indústria petroquímica, nos perseguirão durante séculos”, diz o cientista político holandês Michiel Roscam Abbing, autor do recém-publicado Atlas da Sopa de Plástico do Mundo, cujo primeiro exemplar foi entregue a Karmenu Vella, comissário (ministro) europeu do Meio Ambiente. A obra diz que só um tratado internacional poderá conter um produto hoje inseparável do nosso cotidiano.

“Os oceanos cobrem 71% da superfície da Terra, e existe a crença errônea de que só há ilhas de plástico flutuando por aí (…), quando o certo é que ele está por toda parte: em terra, mar e ar. Sua acumulação e fragmentação são tamanhas que os danos derivados do plástico superam seus benefícios”, afirma Roscam Abbing. Especialista em meio ambiente e membro da Fundação Sopa de Plástico (Amsterdã), ele cita um exemplo visual para ilustrar uma luta que é de todos – produtores, Governos e consumidores. É a famosa imagem do cavalo-marinho com a cauda enroscada em um cotonete, que delata a responsabilidade mal compartilhada. Foi feita pelo fotógrafo Justin Hoffman, morador do Canadá, enquanto mergulhava na Indonésia, e aparece entre as ilustrações do Atlas. “Poderia ter sido evitado”, diz o escritor. “Os cotonetes plásticos vão para a privada e então diretamente para as águas superficiais e as praias. Sendo que o fabricante poderia fazê-los de cartolina ou madeira. Mas são mais caros.”

No texto, mostra-se que numa praia qualquer do Reino Unido há em média 24 cotonetes a cada 100 metros. Outros dados: nos Estados Unidos, são jogadas no lixo 2,5 milhões de garrafas de plástico por hora; a cada minuto, usa-se no mundo um milhão de sacolas desse material. E, o pior de tudo, na sua opinião: as embalagens pequenas, fabricadas com diversos tipos de plástico, e usadas uma só vez. “Nos países em desenvolvimento a publicidade do xampu costuma ser assim, porque as pessoas têm uma poder aquisitivo diferente. Acumulam-se em grandes quantidades, e poderia ser incentivado outro tipo de fabricação e um consumo mais responsável, por parte da própria empresa, com embalagens reutilizáveis”. Quanto ao pão, “perdeu-se o costume de levar as tradicionais sacolas de tecido, e são colocados em bolsas de plástico, destinadas ao lixo”, acrescenta.

Uma boa ideia para reduzir a fabricação e uso dos plásticos é a tatuagem a laser na casca de frutas e verduras. “É seguro e sustentável, mantém a etiquetagem obrigatória e foi aprovada pela União Europeia. A Espanha é pioneira nessa tecnologia (Laserfood, de Valência) e economiza pacotes porque a informação essencial é impressa na casca.” Com fotos dessa poluição em lavouras, no fundo dos mares, em redes pluviais e qualquer outro meio ou superfície imaginável, o Atlas recorda que todos os plásticos se degradam. Suas partículas, impossíveis de recolher, são ingeridas por humanos e animais. “Um perigo enorme: entram em organismos vivos e ignoramos seus efeitos”. De qualquer forma, embora a produção responsável, o manejo sustentável de terras e águas e a reciclagem e a cooperação entre o setor público e privado sejam essenciais, a sopa de plástico supera as barreiras nacionais. E há uma lacuna jurídica. “Nada menos que a falta de um tratado internacional no âmbito das Nações Unidas dedicado a conter a própria sopa”, é o conselho que fecha o Atlas.

Milhares de ilhas serão inabitáveis em 2050 por falta de água

Na madrugada entre os dias 2 e 3 de março de 2014, uma onda de seis metros chegou à costa de Roi-Namur. A altura da água não chamaria a atenção se não fosse por um detalhe: a elevação média desse pedaço de terra no meio do Pacífico não supera os dois metros. Além de causar danos à rede de infraestrutura, a água do mar aumentou a salinidade do aquífero, comprometendo sua potabilidade. Um estudo sobre esse evento prevê agora que a mudança climática multiplicará a frequência e a intensidade de ondas desse tipo, tornando inabitáveis milhares de pequenas ilhas e atóis dos oceanos Índico e Pacífico dentro de 30 anos.

O destino de muitas dessas ilhas já estava traçado: o degelo e outros fenômenos associados à mudança climática estão elevando o nível global dos oceanos. Embora haja certa variação nos centímetros, cálculos moderados indicam que a água subirá até dois metros ao longo deste século. Levando em conta que em muitas dessas ilhas as palmeiras são o que há de mais alto (além de construções humanas), paraísos como Maldivas, Kiribati e Tuvalu acabarão debaixo d’água. Os cientistas não chegam a um acordo sobre quando — uns acreditam que será no início, outros em meados do século XXII —, mas todos concordam que isso vai acontecer.

Pesquisadores dos Estados Unidos, Holanda e Índia estão convencidos de outro fato: bem antes de ser apagada do mapa pela água do mar, a maioria dessas ilhas já não vai abrigar vida, pelo menos a humana, já que ficará sem água potável. Para chegar a essa conclusão, que integra um estudo publicado na revista Science Advances, os autores modelaram a resposta à incursão de água salgada da onda de 2014 no aquífero de Roi-Namur, uma das 1.100 ilhas espalhadas pelos 29 atóis das Ilhas Marshall.

Os cientistas perceberam que o aumento do nível do mar amplifica o impacto das grandes ondas. A principal proteção dessas ilhas, em sua maioria formada por material orgânico, são os recifes de corais. Metros antes da linha da costa, eles formam uma barreira que suaviza a chegada das ondas. Entretanto, sobre um mar mais elevado, o ponto mais alto da onda de 2014 superou a barreira inundando a parte norte da ilha. Os pesquisadores estimam que, com um aumento de um metro no nível do mar, Roi-Namur sofrerá o impacto de pelo menos uma dessas ondas por ano antes da metade do século.

“As inundações de água do mar costumam provocar a entrada de água salgada no subsolo, poluindo o aquífero de água doce”, explica Stephen Gingerich, especialista em hidrologia do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês) e coautor do estudo. Em condições normais, as chuvas posteriores se infiltram no terreno e, em alguns meses, acabam expulsando a água salgada pela diferença de densidade. No entanto, com redução do regime de chuvas — prevista por todos os modelos climáticos — e o maior impacto das ondas, o cenário muda. “As chuvas seguintes não serão suficientes para expulsar a água salgada e renovar o abastecimento de água da ilha antes da chegada da tempestade do ano seguinte repetindo a incursão”, acrescenta.

Mais cedo ou mais tarde, dizem os autores do estudo, muitas outras ilhas terão o mesmo destino que o de Roi-Namur. “É um dos atóis de maior altitude do mundo”, afirma Ap van Dongeren, especialista em morfologia costeira do Instituto de Pesquisa Deltares (Holanda) e coautor do estudo. “A maioria dos outros atóis é mais baixa e, portanto, mais propensa a inundações.” Na lista figuram atóis, ilhas e ilhotas, como as Carolinas, as Ilhas Cook, Maldivas e Seychelles. Inclusive algumas do arquipélago do Havaí, ao norte.

“O ponto de inflexão no qual a maioria dos atóis deixará de dispor de água potável será atingido, no mais tardar, em meados do século XXI”, afirma o geólogo do USGS Curt Storlazzi, principal autor do estudo. Mas Storlazzi não acredita que essas ilhas se “afoguem” ou “morram” quando esse momento chegar. “Na verdade, sofrerão enchentes com tanta frequência que a entrada de água do mar afetará a infraestrutura, a água doce, a agricultura e os habitats. Isso vai tornar difícil, ou mesmo impossível, a vida nas ilhas se não houver importantes e provavelmente custosas medidas de mitigação”, afirma.

É provável que Roi-Namur, que abriga um centro de pesquisa e ensaio de mísseis balísticos dos EUA, se salve levando água em aviões-cisterna. O futuro habitado das outras ilhas é mais incerto.

 

Fonte: El País/Municipios Baianos

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