05/05/2018

Histórias de horror de parasitas que controlam a mente de vítimas

 

Na natureza que inspira os filmes da Disney podem ser encontrados também os mais assustadores relatos de terror. Uma das melhores fontes desse tipo de histórias são as relações entre parasitas e hóspedes no mundo dos insetos. Milhões de anos de evolução permitiram o surgimenrto de sofisticados mecanismos de algo parecido ao controle mental no que as vítimas entregam suas vidas para benefício do organismo que lhes infectou. Animais que se suicidam para que os parasitas possam alcançar seu objetivo ou insetos que ficam velando pela segurança das crianças de seu assassino enquanto estas lhe devoram por dentro acordam o interesse da neuroparasitología, um ramo que trata de compreender as bases biológicas destas práticas impiedosas.

Em um artigo publicado em Frontiers in Psychology, um grupo de pesquisadores da Universidade Ben-Gurion do Negev, em Israel, oferece alguns exemplos de manipulação do sistema nervoso da vítima e os esforços realizados para os explicar.

Um dos usos que os parasitas fazem de suas vítimas é o dos empregar como meio para se reproduzir e se dispersar. É o caso do Dicrocoelium dendriticum, que começa seu ciclo no fígado de animais como as ovelhas. Ali põem ovos que depois são expulsos através das fezes e passam a infectar a caracóis que se alimentam delas. A seguir, os caracóis produzem uma mucosidades que atrai as formigas, que acabam infectadas pelos parasitas. Enquanto a maioria dos parasitas fica no hemolinfo, o sangue das formigas, um só dos parasitas migra até a cabeça do inseto e começa a segregar algum tipo de substância química que serve para controlar seu comportamento.

Uma vez infectada, a formiga segue comportando-se como mais uma de sua colônia, mas quando cai a tarde e o ar esfria, abandona o grupo e sobe ao alto de uma folha. “Uma vez ali, sujeita-se mordendo com força e espera a que algum animal a devore”, explicam os autores do trabalho, liderado por Frederic Libersat. Se, quando amanhece, a formiga salvou a vida, regressa a sua colônia e se comporta normalmente até que volte a anoitecer. Nesse momento, o parasita toma o controle de novo e regressa a uma folha à espera de acabar no fígado de um animal em que o parasita possa completar seu ciclo.

Outro tipo de manipulação mental entre insetos é o que permite controlar as vítimas para que cuidem das crias que eles lhes inocularam. Isso foi observado em várias relações entre vespas e lagartas. As vespas (Glyptapanteles), por exemplo, injetam com uma ferroada seus ovos nas lagartas (Thyrinteina leucocerae). Já com os parasitas dentro, o animal se recupera rápido e continua se alimentando. Em seu interior, até 80 larvas crescem durante duas semanas antes de perfurar seu corpo e sair. Uma ou duas larvas permanecem dentro da lagarta e, por um mecanismo desconhecido, a transformam em uma espécie de espantalho. Assumindo o controle de seu organismo provocam-lhe espasmos que servem para manter distantes os predadores que poderiam atacar suas irmãs. Segundo os autores, esse tipo de comportamento leva a uma redução importante da mortalidade das pequenas vespas.

As interações parasitárias podem ser ainda mais complexas. Existe um tipo de lagarta (Maculinea rebeli) capaz de infiltrar-se nas colônias das formigas Myrmica schencki. Imitando a química da superfície desses insetos a lagarta é capaz de evitar suas defesas. E não só isso. Sua imitação dos sons da formiga-rainha faz com que atraia atenções que somente ela tem dentro de sua colônia. A formiga-rainha parece ser a única consciente da farsa e a única que trata a lagarta como se fosse o inimigo.

Mas essas lagartas espertas não estão a salvo de outros parasitas com capacidade de controle mental. A abelha Ichneumon eumerus encontra sua futura vítima buscando colônias de formigas. Quando encontra uma, aproxima-se e, de repente, atiçadas pelas substâncias químicas que cobrem o corpo da abelha, as formigas que deveriam defender seu lar da intrusa começam a atacar umas às outras. Aproveitando a confusão, a abelha se interna na colônia e ataca a lagarta que estava se fazendo passar pela rainha das formigas.

Esses tipos de comportamento, frequentes entre insetos, têm um exemplo bem estudado entre os mamíferos. A toxoplasmose, provocada pelo parasita Toxoplasma gondii, produz um efeito nos ratos parecido ao dos Dicrocoelium dendriticum que fazem as formigas subirem ao alto de folhas de grama para esperarem ser devoradas. Os roedores infectados, ao contrário de seu hábito, se sentem atraídos pelo odor da urina dos gatos. Dessa forma, o parasita consegue passar de ratos para gatos para completar seu ciclo vital. Os parasitas induzem a essa mudança de comportamento produzindo quistos no cérebro dos animais, os quais geram uma enzima que limita os níveis de dopamina. Com um excesso desse neurotransmissor no organismo, os roedores se tornam imprudentes, algo que se observou em alguns humanos infectados pela toxoplasmose. Embora a hipótese ainda propicie dúvidas, há quem considere que esse efeito é a lembrança de uma época em que nossos ancestrais também foram comida para grandes felinos, e os parasitas buscavam controlar nossa mente para satisfazer suas necessidades vitais.

Por que todos os mosquitos me picam?

É julho, de noite, o calor o asfixia, e ele abre a janela buscando alguma brisa. É então, num momento do cochilo, que um desagradável zumbido espreita o seu ouvindo, perturbando a paz. Esse Davi pode com Golias, pois os mosquitos precisam alimentar-se de sangue para sobreviver. E embora a picada não represente nada mais do que um incômodo localizado, não parece nada atraente sucumbir ao destino.

“Este verão escutamos falar da febre de chikungunya, importada do Caribe [febre alta, fortes dores nas articulações, mal-estar geral e irrupções cutâneas], que é inoculada pelo mosquito tigre (Aedes albopictu) e que foi trazida à Espanha, com vários casos na Catalunha", diz Sergio Vañó, dermatologista do hospital Ramón y Cajal, e professor de Dermatologia na Universidade de Alcalá de Henares, em Madri. Com exceção de casos como esse, extremamente raros, a reação a uma picada de mosquito é uma inflamação pele, “mais acentuada naquelas pessoas que têm hiperestimulado o sistema de mastócitos e eosinófilos (células encarregadas das reações alérgicas)”, explica Vañó; "E também nos pacientes atópicos –com tendência a ter reações alérgicas – e com mastocitoses.”

  • Mas por que eles gostam mais de picar umas pessoas do que outras? Existem diferentes fatores:
  • O grupo sanguíneo. "O tipo O é o seu preferido", explica Diego Hoyos, farmacêutico e diretor de treinamento dos Laboratórios Phergal
  • A gravidez e o excesso de peso... “Os mosquitos são atraídos pelo dióxido de carbono” que produzimos ao respirar, acrescenta Hoyos. “Os níveis de CO2 aumentam nos adultos, grávidas e pessoas com excesso de peso.”
  • O suor. Os mosquitos têm 27 receptores do odor e “o ácido lático que o suor contém ativa seus radares”, afirma Arantza Vega, doutora membro do comitê de Alergia a Himenópteros da Sociedade Espanhola de Alergologia e Imunologia Clínica (SEAIC). “Essa substância, com o dióxido de carbono, é um indicador de que somos mamíferos e, portanto, podemos proporcionar sangue.” Produzem mais ácido lático: as grávidas, as pessoas altas ou quem acaba de fazer exercício.

Como podemos reduzir nosso atrativo natural para os mosquitos? Levando em conta os três fatores anteriores, convêm lavar-se antes de dormir e não fazer exercício nas horas próximas do sono. Mas, sobretudo, com um bom repelente. “Nas zonas tropicais”, conta Sergio Vañó, referindo-se a relatos locais, “dizem que o melhor é a comida picante. Mas, claro, isso não tem nenhuma base científica.”

  • Além de se entrincheirar atrás de um mosquiteiro, quais são os repelentes que funcionam melhor?
  • Spray de uso tópico. "Podem ser feitos de produtos sintéticos ou naturais”, observa Arantza Vega. “Como sintético o mais usado é o DEET, que também é o mais eficaz e tem efeito durante umas 7 horas.” Os naturais são feitos com base em óleos essenciais “como citronela ou óleo de eucalipto”. Sua eficácia é menor, bem como sua duração, “mas eles têm a vantagem de ser inócuos para as pessoas e o meio ambiente. Atuam transformando nosso odor em outro que não é atraente para os mosquitos. Desse modo, nos tornamos invisíveis para eles.
  • Aparelhos para tomadas e pulseiras. Emitem odor e seu funcionamento é semelhante ao dos repelentes tópicos, “mas têm de ser colocados perto de nós para que sejam eficazes”, diz Vega. “As pulseiras só cobrem uma pequena área ao redor”, por isso só protegem a área próxima de onde for colocada, ao contrário dos repelentes tópicos, “que formam uma barreira para toda a pele não coberta”.
  • Sons de alta frequência (aplicativos móveis e aparelhos com tomada). "O uso de sons de alta frequência para repelir insetos foi pesquisado em vários estudos”, afirma Arantza Vega. “Os resultados mostram escassa eficácia em relação a diferentes tipos de insetos usando ondas com frequência de 5-20 KHz, por isso o seu uso é muito questionado.

Seguindo essas recomendações você poderá combater esses incômodos insetos sem deixar de desfrutar o tempo bom. E sem necessidade de enrolar-se nos lençóis para evitar mordidas nem abusar dos aerossóis.

Adeus aos insetos da sua infância

Há quanto tempo você não vê um gafanhoto no seu passeio de domingo no campo, ouve os grilos da varanda ou vê um vaga-lume numa caminhada noturna em uma estrada rural? A sensação de estar perdendo essa fauna que tantas gerações associam à sua infância é mais do que isso, é uma realidade. E o que é pior, juntamente com esses animais também estão desaparecendo elementos básicos para o sustento de muitos ecossistemas dos quais todos os seres vivos dependem.

“Não é apenas uma sensação popular, é algo percebido por todos os entomologistas que fazem trabalhos e pesquisas de campo; a diminuição do número de indivíduos de praticamente todos os insetos é brutal”. Isso é confirmado por Juan José Presa, professor de Zoologia da Universidade de Murcia, na Espanha, e coautor de um dos muitos relatórios e estudos recentes que fornecem números sobre o declínio dos artrópodes.

Esse estudo, do começo deste ano, resultado da colaboração entre a União Europeia e a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), destaca que quase um terço das espécies de ortópteros avaliadas (gafanhotos, grilos e cigarras, entre outras) está ameaçado, algumas em perigo de extinção.

Wolfgang Wägele, diretor do Instituto Leibniz de Biodiversidade Animal (Alemanha), juntamente com outros colegas, fala na revista Science do “fenômeno do para-brisa”, no qual os motoristas passam menos tempo removendo de seus carros os inúmeros insetos que antes se espatifavam contra qualquer ponto da carroceria. Os pesquisadores citados no artigo estão cientes do declínio generalizado, apesar de reconhecerem, como o resto da comunidade científica, que é muito difícil estabelecer dados mais precisos sobre o declínio das populações devido à variedade de espécies, distribuição e número de indivíduos.

Na Science é citado o caso da Sociedade de Entomologia de Krefeld, na Alemanha, cujas pesquisas de campo constataram que a biomassa de insetos que fica presa em seus diferentes dispositivos de captura diminuiu 80% desde 1989. Juan José Presa leva a constatação ao terreno de suas observações de campo, na província de Pontevedra: “Antes conseguíamos atrair uma enorme quantidade de mariposas com armadilhas de luz, agora muito poucas entram na armadilha”.

“Cerca de três quartos das espécies de borboletas da Catalunha, e isso pode ser extrapolado para o resto da Espanha, estão em declínio e isso é incontestável”. Constantin Stefanescu, do Centro de Pesquisas Ecológicas e Aplicações Florestais e do Museu de Ciências Naturais de Granollers (Barcelona) chegou a essa conclusão depois de mais de duas décadas de trabalhos de campo e de ter estudado, com outros pesquisadores, 66 das 200 espécies presentes na Catalunha. “A redução é alarmante e aumenta a cada ano. Também assustam os dados de 2015 e 2016, os mais baixos desde 1994”, diz Stefanescu.

Ignacio Ribera, do Instituto de Biologia Evolutiva, um centro conjunto do CSIC e da Universitade Pompeu Fabra, especialista em entomofauna de habitats subterrâneos e aquáticos, menciona duas outras espécies que estiveram presentes na infância de muitas gerações: libélulas e percevejos, estes últimos são hemípteros de pernas longas que deslizam sobre a superfície da água. “Quando um rio é canalizado, secam um açude ou cobrem um córrego” – diz o pesquisador – “e esses insetos, entre outros, desaparecem”. Há dez anos, a UICN já advertia que “as libélulas ameaçadas da bacia do Mediterrâneo precisam de medidas urgentes para melhorar sua situação”.

A transformação e a destruição do habitat é sistematicamente apontada, em todos os estudos, como a principal causa dessa hecatombe que afeta muito diretamente as pessoas. Isso pode ser comprovado pelo efeito provocado por certos inseticidas (neonicotinóides) nas populações de abelhas, responsáveis pela polinização de muitas plantas, inclusive 30% das que nos servem de alimento. Em geral, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, “cerca de 84% das culturas para consumo humano precisam de abelhas ou de outros insetos para polinizá-las e aumentar seu rendimento e qualidade”.

As consequências sobre as redes tróficas que sustentam todos os tipos de ecossistemas, também os agrícolas, de pecuária e florestais, podem ser fatais. É necessário pensar que a fauna de invertebrados também atua como controle de pragas e é fonte de alimento essencial para o resto dos animais. Stefanescu lembra que “muitas aves se alimentam das lagartas de borboletas que estão precisamente em declínio e numerosas vespas e moscas também dependem da fase larval e de crisálida dos lepidópteros”.

Mas a destruição do habitat (urbanização, agricultura intensiva, turismo...) não age sozinha como elemento de distorção, mas também o abandono da zona rural e a mudança climática contribuem para essa situação perigosa. Os cientistas citam, por exemplo, a alteração dos períodos de sincronia entre a floração das plantas e a chegada ou a eclosão dos insetos.

O problema é que o ritmo de proteção é muito mais lento do que o do declínio, devido à falta de conhecimento mais preciso sobre as populações e à menor relevância, aparente, que os insetos têm. O catálogo nacional de espécies ameaçadas inclui apenas 90 espécies de invertebrados, das quais 35 são insetos e apenas 17 (oito vulneráveis e nove em perigo de extinção) possuem uma categoria de ameaça que permite a ativação de planos de recuperação. A Comunidade Virtual de Entomologia estima em 38.311 o número de espécies de insetos na península Ibérica.

O Atlas e Livro Vermelho dos Invertebrados Ameaçados da Espanha aponta como vulneráveis 69 espécies de insetos na Península Ibérica, 30 em perigo de extinção e 3 em perigo crítico. Enquanto isso, Juan José Presa alerta: “É muito possível que, neste exato momento, depois de um incêndio ou uma fumigação intensiva de culturas, estejamos perdendo espécies que já estavam muito prejudicadas”.

 

Fonte: El País/Municipios Baianos

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