05/05/2018

A “epidemia” que matará mais gente do que o câncer

 

Há muitos perigos que ameaçam a humanidade em seu caminho rumo a um mundo melhor em 2030, quando terá que prestar contas para comprovar se os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) foram alcançados. Certamente, o mais conhecido é a mudança climática, que há anos está na agenda internacional. Outro perigo, mais desconhecido da opinião pública, pode se tornar a primeira causa de morte em 2050 se não forem tomadas medidas contundentes para detê-lo: a resistência aos antibióticos.

“Trata-se de uma ameaça terrível, com grandes implicações para a saúde humana. Se não abordarmos isso, o avanço em direção aos ODS será freado e nos levará ao passado, quando as pessoas arriscavam suas vidas devido a uma infecção em uma pequena cirurgia. É um problema urgente”, disse na quinta-feira Tedros Adhanom, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), em uma reunião no âmbito da 72ª Assembleia das Nações Unidas (ONU), em Nova York. York.

A resistência aos antibióticos é uma resposta dos microrganismos ao uso desses medicamentos. Seu uso — e especialmente seu abuso — faz com que, por meio de diferentes mecanismos biológicos, percam sua eficácia. As bactérias deixam de ser sensíveis aos seus efeitos e são necessários princípios ativos cada vez mais agressivos — e tóxicos para o organismo humano — para eliminá-las. Com sorte. Porque já existem superbactérias que resistem até mesmo aos antibióticos de última geração. “As resistências estão aqui para ficar e vão piorar”, alertava Sally Davies, diretora médica do Reino Unido.

Por causa dessa resistência, cerca de 700.000 pessoas morrem todos os anos no mundo. O cenário com o qual os especialistas trabalham em seus estudos é que, se a situação não mudar, esse número chegue a 10 milhões em 2050. Para se ter uma ideia da magnitude da tragédia, hoje morrem pouco mais de oito milhões de pessoas por ano devido ao câncer. A grande maioria dos casos fatais estaria na Ásia (4,7 milhões) e na África (4,1 milhões), seguidas pela América Latina (392.000), Europa (390.000), América do Norte (317.000) e Oceania (22.000).

A boa notícia é que a preocupação passou do plano científico, onde era debatido há décadas, para o político. Em 2016, na 71ª Assembleia Geral da ONU, o assunto foi discutido no mais alto nível pela primeira vez. Exatamente um ano depois, quando mudaram tanto o Secretário-Geral da ONU como o diretor da OMS, a preocupação de perder o interesse gerado foi explicitada por alguns oradores do encontro chamado Progressos, desafios, oportunidades e novas formas de abordar a resistência aos antibióticos, organizado pela UN Foundation.

Essas novas formas passam por abordar os dois grandes geradores de resistências: o uso indevido em seres humanos e o abuso nos animais. No que diz respeito às pessoas, são drogas que muitas vezes não exigem receita e é frequente que sejam consumidas à vontade. Particularmente perigoso é tomar de forma incompleta, porque o micro-organismo não chega a ser eliminado, mas conhece seu inimigo aprendendo a lutar contra ele. “Costuma-se debater que sempre é necessária a receita, mas em muitas partes do mundo este é um processo complicado que privaria milhões de pessoas do tratamento. Precisamos encontrar as soluções mais adequadas para cada realidade”, observou Julie Gerverding, vice-presidenta da farmacêutica Merck. “O necessário é um diagnóstico no começo para que o paciente tenha o tratamento correto o quanto antes”, acrescentou.

As campanhas de informação, tanto para médicos quanto para pacientes, são uma das principais ferramentas para evitar esse mau uso de antibióticos. Jean Halloran, diretora das iniciativas de alimentação da União de Consumidores, explicou que sua organização está desenvolvendo em 20 países uma campanha que incentiva o uso de menos remédios. Nos consultórios, por exemplo, facilitam uma lista de perguntas que o próprio paciente deveria fazer ao seu médico se ele prescrever um antibiótico para ter certeza que é absolutamente necessário.

Mas talvez a arma mais valiosa para combater a resistência sejam as vacinas. Com elas, evitamos um grande número de doenças bacterianas comuns, o que torna os antibióticos desnecessários. “Imunizar 100% das crianças do mundo seria mais eficaz do que qualquer outra coisa”, afirmou Tim Evans, diretor de Saúde do Banco Mundial.

Sua organização calculou os custos da resistência. Em março passado publicou um relatório mostrando que não apenas são um perigo para a saúde, mas também para a economia. No melhor dos cenários, calculam uma queda do PIB mundial de 1,1% em comparação com o que aconteceria se não existisse, o que equivale a um trilhão de dólares por ano até 2030. O cenário mais pessimista eleva esse número para 3,8% de queda, 3,4 trilhões anualmente.

Não só o medicamento em seres humanos tem um papel importante nestes números. Outro dos grandes focos de resistência é a agricultura e o gado. Os animais recebem enormes quantidades de antibióticos para prevenir e curar as doenças comuns que ocorrem em ambientes lotados. E em muitos países (não na União Europeia), ainda está permitido administrar pequenas doses para favorecer a engorda. Este é o ambiente perfeito para que as bactérias se tornem resistentes.

Mas, ao mesmo tempo, a administração de medicamentos aos animais é necessária para a segurança deles mesmos e dos seres humanos. E seu uso vai continuar a crescer. De acordo com estimativas da agência da ONU para a Alimentação e a Agricultura (FAO), vai dobrar nos próximos 20 anos pela intensificação da pecuária e da aquicultura. E também o tratamento das plantas, através da utilização de antibióticos nos pesticidas, contribui para a resistência.

A FAO faz uma série de recomendações para detê-la: práticas sustentáveis, com boa higiene e medidas de biossegurança para começar a reduzir a necessidade de antibióticos; melhorar a prática veterinária; conhecimento do uso das drogas entre os agricultores e pecuaristas; acesso a diagnósticos rápidos...

Também nos animais as vacinas têm um papel crucial. Bard Skjesltad, chefe de Biologia e Nutrição da empresa aquícola Salmar, explicava que com imunizações conseguiram reduzir o uso de antibióticos para 1%, enquanto produzem entre três a quatro vezes mais comida. “Quando você para de medicar os animais enfrenta problemas de saúde, mas o fundamental são as medidas preventivas”.

Nos países desenvolvidos, as redes de fast food são a chave para combater o problema. De acordo com Jean Halloran (União de Consumidores), são as responsáveis pela produção de 25% das aves nos EUA. Nestes animais, estão conseguindo enormes reduções, começando pelo McDonald's, que anunciou que iria parar de usar antibióticos neles. “Com a carne bovina e suína os progressos são mais lentos, mas podem ser feitos”, disse Halloran, que argumenta que já foi demonstrada a possibilidade que a produção em massa diminua o consumo de medicamentos com um custo muito baixo.

Mas o relógio está correndo contra a saúde global quando falamos de resistência aos medicamentos. As medidas precisam ser tomadas agora. Porque, como alertava o diretor da OMS, há poucos medicamentos novos que conseguirão resolver um problema que pode se tornar a maior epidemia nos próximos anos.

Como conter resistência a antibióticos

Os que hoje têm 80 anos nasceram e passaram sua infância sem antibióticos. Em uma vida viram como seu uso se espalhou, como salvaram milhões de pessoas – talvez eles mesmos – e agora, como seu abuso está diminuindo sua eficácia. A ponto das infecções poderem voltar a ser uma das principais ameaças à saúde pública.

“Se extraterrestres nos olhassem do espaço se perguntariam que espécie pode ser tão estúpida. Nós humanos”, ironizou o professor Lindsay Grayson, da Universidade de Monash (Austrália), durante o Congresso Internacional de Doenças Infecciosas, realizado durante os primeiros dias de março em Buenos Aires (Argentina). Em todos os dias do encontro ocorreram apresentações sobre a resistência aos antibióticos, um problema que em 2050 causará mais mortes do que o câncer se medidas drásticas não forem tomadas, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

E durante todo o congresso foram abordadas soluções a essa emergência sanitária. “Se a compararmos com um incêndio, poderíamos dizer que está se expandindo sem parar. E para contê-la não precisamos só de helicópteros, mas também de barreiras”, disse Grayson. Sua proposta é focar-se mais em conter as infecções do que em procurar métodos para vencer as resistências. “Se não as controlarmos, o futuro será sombrio”, afirmou.

As barreiras propostas por Grayson passam por aumentar as precauções nos hospitais, os locais que costumam produzir e propagar as infecções mais graves. “É preciso melhorar a higiene das mãos; também a limpeza do local, e isso passa por melhores condições aos que fazem esse trabalho, que são muito mal pagos; é preciso mudar o projeto dos hospitais e que exista um banheiro para cada paciente. Dirão que isso é caríssimo, mas o preço a longo prazo será maior”, disse.

O problema é que as bactérias, pelo contato com os antibióticos, seu uso equivocado e seu abuso, geram diversos mecanismos de resistência; os remédios vão perdendo eficácia e são necessários outros novos e mais tóxicos para combatê-las. Por ano, calcula-se, 700.000 morrem no mundo por esse fenômeno.

Mas além de evitar as infecções, existem outras aproximações para lidar com essa questão. Um dos grandes problemas é que o gado recebe quantidades enormes de antibióticos. Mesmo seu uso para potencializar o crescimento sendo proibido na União Europeia, muitos outros países continuam a fazê-lo. A recomendação da OMS é erradicar essa prática e restringir o uso dos antibióticos a animais que estejam realmente doentes. Estudos moleculares, entretanto, mostraram que a transmissão direta das resistências de animais a humanos pode ser menos importante do que outras, como as que ocorrem no contágio entre pessoas. Os resíduos que a indústria farmacêutica lança em suas fábricas na China e Índia são apontados como outra fonte de resistências.

Ainda que faltem mais pesquisa para se conhecer a natureza do problema em sua totalidade, como mostra um estudo recente, no congresso realizado em Buenos Aires os pesquisadores centraram-se no uso de antibióticos por parte de profissionais e seus pacientes. “O problema nos animais não deve nos distrair da ação que devemos realizar na saúde humana, o uso racional de medicamentos e a prevenção de infecções”, pediu Alison Holmes, especialista sobre o assunto no Reino Unido. A regra básica ainda custa a se espalhar: só devemos tomar esse tipo de medicamento se for prescrito por um médico. E não são eficientes contra os vírus, de modo que nada fazem contra uma gripe e um resfriado, ao contrário do que acredita quase metade dos europeus, de acordo com várias pesquisas.

Holmes pediu para que sejam os profissionais da saúde a liderar essa conscientização, com menção especial à enfermaria. “É o mais numeroso grupo de profissionais: é preciso melhorar seu papel no momento de se prescrever antibióticos”, disse.

Além das campanhas e da conscientização, que os especialistas consideram crucial, no congresso falou-se do papel da tecnologia para melhorar as doses de antibióticos. “É algo a que não prestávamos muita atenção, prescreviam-se três por dia e pronto; e tradicionalmente a mesma dose é administrada a todos os pacientes, independentemente de seu peso, seu tamanho, suas características particulares”, disse a microbiologista Ursula Theuretzbacher.

Mas de acordo com o tipo de remédio, a maneira de agir é diferente. Costumam adquirir uma presença mínima para sua efetividade e a absorção do corpo geralmente não é uniforme, ocorre um pico que baixa conforme o passar do tempo. Dependendo do caso, pode ser melhor uma dose mais baixa, mas contínua. Usar as quantidades exatas, nem mais nem menos, é importante, já que as bactérias podem acabar gerando resistências tanto pelo abuso como por quantidades insuficientes para eliminá-las totalmente. Por essa razão insiste-se tanto em completar as prescrições mesmo que os sintomas tenham desaparecido.

As tecnologias existentes permitiriam, especialmente nos casos mais graves, monitorar a quantidade do princípio ativo necessitada em cada momento, de acordo com Holmes. “Temos os sensores, o monitoramento, capacidade para adaptação em tempo real da dosagem. Podemos até administrar o medicamento de maneira não invasiva, com microagulhas”, disse.

Esse método, entretanto, que não está generalizado, provavelmente nunca será adequado para todos que precisem de antibióticos. Há outras maneiras para ajustar melhor a dose do que simplesmente receitar três por dia. Theuretzbacher propõe um software que, ao se introduzir parâmetros simples, indique as quantidades e número de doses diárias adequadas a cada paciente.

São só algumas iniciativas para abordar um problema que pode custar 10 milhões de vidas por ano em 2050, de acordo com a OMS. A comunidade internacional o discute desde 2016 nos níveis mais altos. “É uma ótima notícia que esteja na agenda pública”, frisou Holmes. E o certo é que, ao não abordá-lo, muitos dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a agenda que a ONU colocou em andamento para conseguir um mundo melhor, acabarão em nada.

 

Fonte: El País/Municipios Baianos

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