05/05/2018

Cuba: 1º país a eliminar a transmissão do HIV de mãe para filho

 

Todo ano, cerca de 1,4 milhão de mulheres com HIV engravidam. Se não recebem tratamento, as chances de que transmitam o vírus ao bebê durante a gestação, o parto ou a amamentação variam entre 15% e 45%. Portanto, é um grande desafio conseguir romper esse círculo vicioso que favorece a perpetuação de um vírus combatido há décadas sem uma cura efetiva. E é justamente isso o que Cuba fez, tal como reconheceu oficialmente a Organização Mundial da Saúde (OMS) nesta terça-feira.

Em cerimônia na sede da Organização Panamericana da Saúde (OPS, o escritório regional da OMS) em Washington, a OMS entregou a Cuba a primeira certificação do mundo que estabelece que um país cumpriu o duplo desafio de eliminar a transmissão do HIV de mãe para filho, bem como da sífilis congênita.

“Foi vencida uma grande batalha na luta contra a aids”, afirmou a diretora da OPS, Carissa Etienne. Eliminar a transmissão vertical do HIV “representa um grande passo para Cuba rumo a uma geração livre de aids”, completou.

“A eliminação da transmissão do vírus é uma das maiores conquistas possíveis no campo da saúde”, disse a diretora geral da OMS, Margaret Chan, em comunicado.

A possibilidade de 15-45% de transmissão do HIV de mãe para filho cai para apenas 1% se tanto a mãe como o filho recebem retrovirais durante todas as fases em que pode ocorrer a transmissão. Segundo a OMS, o número de crianças que nascem a cada ano com HIV foi reduzido quase pela metade desde 2009, passando de 400.000 a 240.000 em 2013.

Mas a cifra ainda está muito longe da meta prevista para 2015: uma redução para menos de 40.000.

A batalha contra a transmissão materno-infantil da sífilis também tem ainda muitos desafios pela frente: todo ano, quase 1 milhão de mulheres grávidas são contagiadas com esse vírus, que pode provocar de morte fetal ou perinatal a infecções neonatais graves. Tudo isso, diz a OMS, quando existem “opções simples e relativamente acessíveis de detecção e tratamento durante a gravidez”, como a penicilina, que podem eliminar a maior parte dessas complicações.

Em Washington, numa cerimônia junto ao ministro cubado da Saúde, Roberto Morales Ojeda, a diretora da OPS destacou o ponto essencial da façanha cubana: “O sucesso de Cuba demonstra que é possível um acesso universal à saúde e que, de fato, ele é fundamental para o êxito da luta contra desafios tão preocupantes como o HIV”, afirmou Etienne.

Cuba conta com um serviço público de saúde “gratuito, acessível, regionalizado, integral e sem discriminação, baseado nos cuidados primários de saúde”, segundo o ministro Ojeda, que também atribuiu essa conquista a uma “vontade política” fundamental e à participação das comunidades nos programas de atendimento e prevenção.

No continente americano, a OMS-OPS tem trabalhado desde 2010 numa iniciativa regional para eliminar a transmissão materno-infantil do HIV e da sífilis.

Cuba é o primeiro país a receber o certificado oficial, mas há outros seis países e territórios que também poderiam ter eliminado a transmissão do HIV de mãe para filho: as ilhas britânicas caribenhas de Anguila e Montserrat, Barbados, Canadá, Estados Unidos e Porto Rico. Outros 14 conseguiram, supostamente, eliminar a sífilis congênita.

A OMS considera que um país eliminou a transmissão materno-infantil do HIV quando registra menos de dois bebês infectados para cada 100 nascidos de mães portadores do vírus. No caso da sífilis, é menos de um caso para cada 2.000 nascimentos vivos.

No âmbito da iniciativa da OPS, Cuba implementou nos últimos anos medidas como a assistência pré-natal precoce e exames de HIV e sífilis tanto para as mulheres grávidas como para os pais. Também oferece tratamento às mulheres cujo teste dá positivo e a seus bebês, além de fomentar medidas de prevenção, como o uso de preservativos.

Como resultado, refletido agora na certificação oficial da OMS, Cuba registrou em 2014 apenas os casos de dois bebês que nasceram com HIV e outros cinco com sífilis congênita, números inferiores aos mínimos para que se considere realizado o objetivo de eliminar a transmissão materno-infantil dessas doenças.

Envelhecimento dos soropositivos é o novo desafio da luta contra o HIV

A luta contra o vírus HIV entrou em uma nova era: o envelhecimento das pessoas soropositivas. A comunidade médica conseguiu diminuir a mortalidade e tornar crônica a situação dos pacientes soropositivos reduzindo ao mínimo sua carga viral para evitar que desenvolvam Aids e infecções oportunistas ligadas a essa doença. Os tratamentos antirretrovirais conseguiram controlar o vírus e aumentar a esperança de vida da população com HIV. No entanto, esse grande avanço, impensável há 30 anos, revelou novos desafios para a comunidade científica: a entrada do HIV na terceira idade revelou que este grupo é mais vulnerável a outras doenças não associadas à Aids, como problemas cardiovasculares, insuficiência hepática ou renal e tumores, entre outras.

Os infectologistas que atendem pessoas com HIV foram mudando junto com as necessidades do paciente. “O infectologista do HIV é peculiar. Mudamos nossa forma de atender o paciente, de infectologistas para infectologistas focados na atenção primária e agora caminhamos para abordagem mais de geriatras”, explica o doutor Hernando Knobel, chefe clínico de medicina interna e doenças infecciosas do hospital do Mar de Barcelona. O centro acaba de ganhar uma bolsa Gilead para validar um teste que calcula o risco cardiovascular em pessoas com HIV. “Existe a hipótese de que o HIV gere mais risco cardiovascular, mas temos de ver em que medida, porque também influem fatores genéticos, hábitos de vida...”, afirma o pesquisador.

Segundo os dados de uma meta-análise de 2012 coletados pela Fundación Gaspar Casal em um relatório, as pessoas soropositivas têm 60% mais risco de sofrer um infarto agudo do miocárdio, angina estável ou instável ou íctus do que indivíduos não infectados. “O evento cardiovascular é multifatorial. O fato de se ter HIV não te vacina de outros fatores de risco, como o fumo [a prevalência de consumo de tabaco também é maior na população com HIV], a hipertensão, o sedentarismo. Se a pessoa controla tudo isso, certamente o aumento do risco de HIV será menor”, pondera Knobel (Buenos Aires, 1955). Sob a coordenação do doutor Jaume Marrugat, médico do serviço, o hospital quer “ajustar a influência do HIV” dentro desse teste, que já foi validado na população sem HIV.

Knobel afirma que a prioridade dos clínicos continua sendo controlar a carga viral do paciente. “Felizmente, a maioria das pessoas aceita bem o tratamento e não tem Aids. De fato, se seguem a recomendação médica e cumprem o tratamento, a esperança de vida é praticamente igual à da população sem HIV”, diz. A Organização Mundial de Saúde (OMS) propôs o objetivo 90-90-90, que significa detectar 90% dos afetados, tratar 90% das pessoas diagnosticadas e reduzir ao mínimo.

“Vemos maior comorbidade associada ao envelhecimento. Não está claro se esses pacientes envelhecem mais rápido ou com mais potência, há muita controvérsia. Mas nos preocupa muito a infecção associada à hepatite C, as hepatopatias crônicas, os problemas cardiovasculares e neurocognitivos e também o surgimento do câncer, e por isso será necessária mais prevenção e diagnóstico precoce”, afirma. A Fundação Gaspar Casal coletou dados de vários estudos que testemunham que mais de 40% das pessoas com HIV têm a função renal alterada e 73% apresentam um risco moderado ou alto de progressão à doença renal crônica. O excesso de câncer na população com HIV, diz o estudo, é “considerável”, devido à imunossupressão, a frequente coinfecção com vírus oncogênicos e comportamentos de risco como fumar”. Os mais comuns são os linfomas não Hodgkin, sarcoma de Kaposi e câncer de pulmão.

O médico afirma que para enfrentar essa nova realidade das comorbidades do paciente com HIV será necessário muito conhecimento, por exemplo, na administração do tratamento. “É preciso ter cuidado porque pode haver problemas se o médico de cabeceira acrescenta um tratamento a um paciente e não leva em conta possíveis interações com antirretrovirais”, argumenta.

Além disso, acrescenta, está ocorrendo uma reviravolta na atenção aos pacientes. “A fragilidade, que é o envelhecimento biológico, não cronológico, chega antes para pacientes com HIV”, avisa o médico. Os especialistas entendem a fragilidade como resultado da acumulação de déficits em diferentes sistemas fisiológicos, que torna o paciente mais vulnerável a fatores adversos, como quedas, alucinações ou incapacitação, entre outros. “O manejo da fragilidade e essa situação sempre em mudança do HIV é o novo desafio: é preciso melhorar o atendimento e adaptar-se à realidade de cada paciente. Temos de mudar nossa forma de atendê-los, porque estamos muito acostumados a tratá-los e é preciso tentar prevenir”, afirma o pesquisador.

“PREOCUPAÇÃO” COM OS TUMORES EM PESSOAS COM HIV

Um estudo do hospital de Alava apresentado ontem, dia 30 de novembro, no congresso de Gesida (o grupo de estudos da Aids da Sociedade Espanhola de Doenças Infecciosas e Microbiologia Clínica) comprovou que as pessoas com HIV sofrem duas vezes mais de tumores do que de doenças cardiovasculares. “Os tumores, por sua frequência, sua tendência crescente e seu potencial mortal, nos preocupam mais agora. O câncer de pulmão é o que mais aumentou, inclusive em não fumantes, onde a incidência é maior do que a esperada”, afirma o doutor Esteban Martínez, vice-presidente da Gesida.

O estudo demonstra também que a mortalidade é maior em função de tumores do que de acidentes cardiovasculares. No acompanhamento aos pacientes durante 15 anos, faleceram 40% dos pacientes com tumores, enquanto que dos pacientes com problemas cardiovasculares morreram 23%. “Os pacientes com HIV não morrem pelo HIV nem desenvolvem a Aids, mas, paradoxalmente, essa mudança favorável os faz contrair outras doenças”, reflete o médico.

Aids: por que a doença não desaparece

“Nunca vivi a possibilidade de contrair o HIV como uma sentença de morte; com nervosismo, sim.” Minutos antes de fazer o teste rápido de detecção na sede do coletivo de Lésbicas, Gays, Transsexuais e Bissexuais de Madri, Miguel Ángel, de 32 anos, é o claro exemplo da mudança que houve na percepção do risco da Aids entre as gerações mais jovens.

Uma atitude que aparentemente referenda um estudo apresentado no congresso do Grupo de Estudos de Aids (Gesida), que se realiza coincidindo com o Dia Mundial de Luta Contra a Aids, comemorado nesta sexta-feira. Nele foram ouvidas 225 pessoas de até 35 anos, com um resultado chamativo: 51% têm “um perfil de alto risco” de contrair a infecção, explica a psicóloga Isabel Cuéllar, da rede Coriste, que foi quem apresentou o trabalho. A situação de vulnerabilidade é definida por terem três ou mais parceiros sexuais em um ano e não usarem sempre o preservativo na relação.

Além disso, o estudo tem outras conclusões chamativas: embora 100% dos pesquisados, com idade média de 25 anos, saiba que o HIV é transmitido por via sexual, “27,9% acreditam que a transmissão é possível ao doar sangue: 17,3% pela picada de mosquito; 4,9% por utilizar sanitários públicos pelo qual passaram doentes com HIV; 4,4% por beber do copo de uma pessoa contagiada; e 4% por ser hospitalizado ao lado de uma pessoa com HIV”.

A amostra é pequena, admite Cuéllar, e tem dois vieses: trata-se de pessoas preocupadas com a questão e mais de 60% são universitários, o que, na avaliação de Cuéllar, permite supor que em grupos menos conscientes e de menor nível cultural a situação seja pior. Ela aponta outro aspecto: esses comportamentos de risco são mais frequentes entre os entrevistados gays. Com esses dados e depoimentos, a conclusão parece clara: o HIV não se reduz no mundo ocidental em geral em razão da tantas vezes repetida diminuição da sensação de risco entre os mais jovens. Mas esta é uma realidade apenas parcial. “Confiei, e é possível que se não soubesse que a Aids agora é uma doença crônica e não mortal eu tivesse tido mais cuidado”, admite Alejandro, de 27 anos e diagnosticado há um mês, depois de sua “única relação sem proteção”. Mas ele se gaba de que até “aquela vez”, sabendo da atual situação do HIV, sempre tinha tomado precauções. E não tira importância do fato de estar infectado. “Estudo, e tive de faltar a aulas. Vou ter de ir ao hospital de vez em quando. E terei de começar a me cuidar, deixar de fumar e ir à academia”, diz.

Entre 2004 e 2009, quando se generalizaram os tratamentos antivirais de alta eficácia e a maioria dos diagnósticos não era em consumidores de drogas injetáveis, 25,9% dos novos contaminados na Europa tinha menos de 30 anos. Em 2014, último ano com estatística, os dessa faixa de idade representavam 29,4%, um porcentual muito similar e que, além disso, pode ter como explicação que “agora as pessoas têm mais consciência de que é preciso fazer o teste, e demoram menos para ser analisados”, diz Mario Blázquez, responsável pelo programa de prevenção do HIV em Madri. “O que acontece é que tendemos a superproteger os mais jovens. A maior parte dos diagnósticos se dá nos maiores de 30 anos, mas nos parece muito pior o que acontece entre os de menos de 25 “, diz Blázquez.

“Sempre houve quem se protegesse, e quem não o fizesse, seja pelo motivo que for”, diz o ativista. Miguel Ángel, também militante, lhe dá razão. Os quase 20 anos de diferença de idade entre ambos permitem balancear as opiniões, embora tenham uma base comum. “Agora há bugchasers – em inglês, caçadores de bichos (no caso, vírus) –, pessoas que não se importam ou que diretamente procuram infectar-se”, diz Blázquez. “Mas agora são conhecidos porque estão nos aplicativos de celular, e falam isso. Antes iam aos bares e faziam o mesmo.” Ele não julga esse comportamento, mas dá algumas pistas: “São pessoas que não suportam a tensão de duvidar se estão infectadas depois de cada relação. Sabendo que estão, evitam os testes, a incerteza”.

Em um aplicativo dedicado a facilitar relações entre homens sem o uso de preservativo, um usuário de 34 anos que se define como bugchaser resume a situação: “Sei que vou pegar antes ou depois. Assim, se sei que tenho, me medico e elimino o medo”. Talvez seja essa facilidade para contatar com possíveis parceiros sexuais por meio da Internet ou do celular a maior diferença surgida com o passar do tempo, observa Miguel Ángel. “Penso sobretudo no meio rural, de onde venho. Em uma cidade, paquerar ou ter relações sempre foi fácil. Agora também é num vilarejo.” Mas isso só indica mais facilidade para ter relações, não que estas vão ser sem proteção, pondera Blázquez.

Nesta situação de estagnação da epidemia, “o HIV continua sendo um importante problema de saúde pública e não se pode baixar a guarda quanto a isso”, diz Antonio Rivero, presidente do Gesida. E recorda: “Embora o desenvolvimento dos tratamentos tenha permitido reduzir o número de falecimentos, ainda hoje continuam morrendo pacientes pelo HIV em nossos hospitais, por isso é necessário ter maior consciência de que muitos jovens, em sua grande maioria por uma questão de ignorância, estão pondo em jogo sua saúde e a própria vida”.

 

Fonte: El País/Municipios Baianos

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