06/05/2018

Terra de loucos: Todos os medos voltam à Argentina

 

Ser argentino, entre outras coisas, é ter medo de que algo terrível aconteça em qualquer dia, ao virar a esquina. Todos os argentinos maiores de 50 anos foram contemporâneos e sobreviventes de cinco crises econômicas dramáticas que transformaram suas vidas e deixaram uma marca indelével de alerta e temor. E os que são mais novos receberam, quase por transmissão genética, a memória emotiva desses traumas.

Por isso, nessa semana, quando o peso argentino voltou a afundar, quando sua desvalorização foi a mais alta do continente, quando o Banco Central precisou vender 6 bilhões de dólares (21 bilhões de reais) de reservas sem conseguir conter o aumento do dólar, quando a revista Forbes colocava na manchete: “É hora de fugir rapidamente da Argentina”, todos os medos voltaram a se instalar no coração dos habitantes do país. E o medo, sabemos, não é um componente que ajuda muito a superar uma situação como essa.

O desencadeador da tempestade foi a decisão do Banco Central dos EUA de subir a taxa de bônus do Tesouro norte-americano. Isso causou uma fuga de fundos do mundo inteiro em direção a Wall Street. Os principais investidores se livraram de suas posses em moeda estrangeira e muitas delas desvalorizaram. Mas nenhuma como a moeda da Argentina: o peso caiu aproximadamente 14% em poucos dias.

O castigo extra ocorre por duas razões. Uma delas é conjuntural: no mesmo momento em que a taxa dos bônus norte-americanos subia, a Argentina aplicava um imposto aos investimentos estrangeiros. Os jovens de Wall Street não gostam disso, como pudemos ver. A segunda causa do castigo extra é estrutural. A Argentina tem enormes déficits fiscais e comerciais e os financia com dívida. Sua vulnerabilidade, portanto, é maior do que a dos outros países da região. A saída de capitais foi, então, torrencial. E o peso desvalorizou violentamente.

O medo, essa típica reação argentina, causa muitas vezes uma profecia autocumprida. Há muitas décadas, cada movimento exótico do dólar atrai imediatamente a atenção de todos os atores sociais. Quando o dólar sobe, todos sabem que todos comprarão dólares para precaverem-se de novos aumentos, e então todos compram dólares e provocam esse aumento: isso se chama comportamento em manada. O que poderia ser um problema menor chega então a níveis irracionais.

Mas além disso, os formadores de preço reagem e impulsionam a inflação além do esperado porque especulam em meio à desordem e porque é a maneira histórica que encontraram para se precaver em meio à tempestade. Todos perdem nesse jogo, mas o que fica de fora acredita que perde mais e então também entra. Por isso, as consequências de uma desvalorização são piores na Argentina do que nos outros países da terra. Nessa semana o Brasil, o Chile e o Uruguai tiveram desvalorizações. Ninguém teme que nesses lugares os preços sejam reajustados. Na Argentina, por outro lado, é um fato.

Saída de capitais, respingo inflacionário, aumento de juros para conter os danos, efeitos recessivos de alguma magnitude como consequência dos juros astronômicos e medo porque tudo isso ocorre ao mesmo tempo, e porque o medo chama medo. Com as coisas nesse ponto, a inquietação mais frequente em Buenos Aires, nesses dias, se traduz em uma pergunta que surpreenderia qualquer habitante de outro país: “Cara, qual é o valor do dólar?”.

O Governo afirma que é uma tempestade passageira. (Que outra coisa um Governo poderia dizer?) e argumenta que o estado da economia real, a relação entre a dívida e o que se produz no país, a quantidade de reservas que se mantêm no Banco Central, tudo isso finalmente irá se impor sobre movimentos disruptivos de curto prazo e sobre esse medo tão tipicamente argentino.

Talvez seja assim.

De fato, na sexta-feira o aumento diminuiu levemente.

Mas nesse meio tempo, a Argentina perdeu 7 bilhões de dólares (24 bilhões de reais), a inflação, que foi de 25% em 2017, voltará a subir, e o crescimento da economia será prejudicado. O presidente Mauricio Macri vem aplicando um programa econômico que pretende combinar gradualmente um crescimento leve com uma diminuição progressiva da inflação com um aumento de preços bem radical. Essa rota sinuosa sofreu um duro golpe com o aumento dessa semana. Tudo será, agora, mais complicado. E a maioria dos argentinos, como acontece após cada desvalorização brusca, será um pouco mais pobre. Isso acontece em um momento em que, após a surpreendente vitória eleitoral de outubro, o Governo não para de perder apoio. Macri ainda conserva um respaldo significativo, mas é o mais baixo de todo o seu mandato. A última coisa que ele desejaria era ler essa manchete da Forbes: “É hora de fugir rapidamente da Argentina”.

Os capitais podem voar. Os funcionários podem se demitir. Mas os moradores de um país não têm plano B e, por experiência de duas gerações, quando o dólar se movimenta de maneira brusca, o coração dá um salto, e os medos voltam a se instalar. Como se fosse um povo que vive ao lado de um rio ou em uma região sísmica: sabe reconhecer os indícios de uma nova desgraça, conhece seus efeitos devastadores, mas não tem como evitá-la. Resta a ele, talvez, se for religioso, rezar. Por isso, quando o dólar cai, mesmo que seja pouco, como aconteceu na quinta-feira, a calma volta. Mas depois do acontecido nessa semana, será preciso muito tempo para que o medo vá embora.

Viver assim não é viver, pode-se dizer. De fato, se alguém quer entender por que, nas últimas décadas, a Argentina ficou para trás em relação a muitos países da região, tem nessa dinâmica uma boa explicação.

Macri assumiu com a promessa de que colocaria ponto final nesses intermináveis altos e baixos. Está longe de conseguir.

Argentina faz manobra desesperada com juros a 40% para conter dólar e Brasil teme contágio

O Governo argentino se empenha em transmitir tranquilidade, mas os antecedentes de uma das economias mais convulsionadas do mundo ocidental provocaram nervosismo dentro e fora do país. O dólar disparou e o Governo decidiu usar artilharia pesada para lutar contra essa escalada. Pela terceira vez na mesma semana, o Banco Central aumentou as taxas de juros, que já eram as mais altas da região, elevando-as em poucos dias de 27% para 40%, um recorde absoluto no mandato de Mauricio Macri. Mas não parou por aí. O ministro da Economia, Nicolás Dujovne, enviou uma mensagem aos mercados, que pressionam atualmente a Argentina de uma forma inédita desde que Macri chegou ao poder, em 2015. Dujovne anunciou um corte de gastos significativo, de 3,2 bilhões de dólares (11,3 bilhões de reais), principalmente em obras públicas. Com isso, a meta de déficit fiscal para este ano foi reduzida de 3,2% para 2,7% do PIB.

A mensagem aos investidores é clara: a Argentina decidiu cortar gastos e, com isso, deve se endividar menos, por isso quem investe no país não deve se assustar. A medida teve efeito imediato e o dólar começou a baixar, mas a manobra tem consequências negativas fortes. A elevação dos juros para 40% e o corte de gastos significam um freio para uma economia que tinha voltado a crescer e começa a sair de uma longa crise.

Um crescimento mais baixo da economia argentina também deve trazer implicações para o Brasil. O país vizinho deve reduzir as importações de produtos brasileiros, principalmente, de automóveis. Hoje, a indústria automobilística responde por quase metade da pauta de exportação aos argentinos. A Argentina é o terceiro destino do comércio exterior brasileiro, segundo a Associação do Comércio Exterior do Brasil (AEB). "Por conta da recente recessão que o Brasil atravessou, as montadoras começaram a aumentar a exportação para a Argentina, mas com o cenário de forte desvalorização do peso e o impacto do câmbio na inflação, a renda dos consumidor argentino vai diminuir", explica Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados.

Na avaliação do economista, todos os países emergentes tiveram uma depreciação da moeda nos últimos meses, mas o caso da economia argentina é mais complicado. "Muita gente acreditava que a Argentina parecia ser um bom exemplo nos últimos anos, mas a realidade é que ela tem problemas profundos nos fundamentos econômicos. A questão fiscal no país é bem pior que a nossa", explica. Ainda segundo Vale, a Argentina ainda precisa passar por mudanças que o Brasil já enfrentou nos últimos dois anos, como a reforma trabalhista, a regra do teto de gastos e o controle da inflação. O país vizinho conta também com pouca reserva internacional. "Essa diferença da economia dos dois países é o que justifica essa piora maior da Argentina diante da mudança da política monetária dos Estados Unidos", explica o economista.

Macri está disposto a fazer de tudo para conter a inflação, mas as críticas são cada vez mais fortes, já que muitos argentinos que votaram nele pensavam que a esta altura o Governo já teria controlado esse fantasma do aumento descontrolado de preços, que no passado afundou vários Governos argentinos. Macri ainda tem um importante controle político da situação, obteve um resultado muito bom nas eleições legislativas de outubro e enfrenta uma oposição dividida, mas a economia se tornou claramente seu ponto fraco e há rumores constantes de possíveis mudanças na equipe econômica.

A alta progressiva dos juros mostra o desespero do Governo, que não consegue controlar a disparada do dólar diante do peso argentino. A primeira tentativa de freá-la veio em 27 de abril, com um aumento de três pontos porcentuais nas taxas de juros, foi repetida na quinta-feira, com outra elevação de três pontos, e se completou nesta sexta, depois que o peso se desvalorizou 8,6% em 24 horas. O dólar fechou na quinta-feira a 23,30 pesos, a maior cotação desde que, em janeiro de 2002, depois da maior crise recente no país, com cinco presidentes em duas semanas, foi abandonada a chamada conversibilidade, ou seja, a taxa de câmbio fixa de um dólar para um peso.

Nova meta fiscal

Os mercados pressionam o Governo para que faça um ajuste mais forte. Macri sempre respondeu que não havia margem política, econômica nem social em um país com quase 27% de pobreza para fazer o corte de gastos que eles pedem. Mas agora fez uma concessão parcial com a decisão de frear as obras públicas, a vitrine do Governo. O consenso é que o déficit fiscal está na origem do problema da Argentina, que depende de financiamento externo, cada vez mais caro em consequências da alta das taxas de juros dos EUA, para cobrir seu excesso de gastos. “A nova meta de déficit para este ano nos permitirá economizar 3,2 bilhões de dólares nas finanças públicas. O resultado financeiro diminuirá na mesma proporção, porque a conta de juros será estável e o déficit cairá. Isso é importante porque a Argentina não pode continuar vivendo de empréstimos”, disse Dujovne.

O mercado cambial reagiu imediatamente às medidas oficiais, depois de uma quinta-feira trágica para o peso. O dólar baixou de 23,30 para 21,70 nas primeiras operações após o anúncio do Governo − uma valorização de 7,3% do peso. Recuperou assim o valor anterior à disparada da moeda americana na quinta-feira. Dujovne atribuiu a volatilidade do mercado a questões externas, principalmente às consequências regionais do aumento das taxas de juros dos títulos a dez anos dos Estados Unidos, e também internas. Ele responsabilizou a oposição peronista, que impulsiona no Congresso uma lei para frear a retirada de subsídios públicos do setor de serviços e retroagir para novembro os aumentos de tarifas, uma medida “demagógica” e “populista” com “um custo fiscal de 200 bilhões de pesos” (35,2 bilhões de reais).

Dujovne disse que os gastos do Estado serão reduzidos em 30 bilhões de pesos (4,9 bilhões de reais), principalmente nas verbas destinadas a obras de infraestrutura. “É um gasto em que não gostamos de mexer, porque se trata de obras públicas”, afirmou. “Mas enviamos o sinal de que, apesar das pressões populistas [da oposição], a Argentina decidiu adotar um conjunto de medidas fiscais.”

O lado negativo do ajuste e da nova faixa de flutuação do dólar é a inflação. O Governo fixou como meta para 2018 um aumento de 15% no Índice de Preços ao Consumidor (IPC), quatro pontos porcentuais a menos que as previsões feitas pelo Fundo Monetário Internacional em seu relatório regional de abril. Dujovne confirmou a meta inflacionária governamental porque “estrutura um plano econômico integral”. É a partir dela, por exemplo, que o Governo define os aumentos salariais com os sindicatos, negociações que marcam a agenda política local durante o início do ano. O ministro admitiu que o aumento dos juros e o dólar acima dos 21 pesos podem pressionar a inflação, mas considerou que “seria muito pior ficar de braços cruzados”.

 

Fonte: El País/Municpios Baianos

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