06/05/2018

Por que morte por overdose não deveria impedir doação de órgãos

 

Especialistas em transplantes têm a capacidade de transformar tragédias em esperança. Em 1992, quando os acidentes de trânsito mataram mais de 5.000 pessoas na Espanha, 43% dos doadores foram vítimas desses sinistros. Hoje, com um número em torno de 1200, os doadores desse tipo são cerca de 4% do total. Nos EUA, agora estão tentando obter algo positivo de um drama com dimensões epidêmicas.

Em outubro do ano passado, os EUA declararam uma emergência de saúde devido à onda de dependência de opiáceos. Esse problema multiplicou as mortes por overdose e, de acordo com um estudo da Universidade Johns Hopkins, também multiplicou a porcentagem de doadores mortos por intoxicação. Em um artigo publicado na revista Annals of Internal Medicine, os pesquisadores analisaram 138.565 doadores e 337.934 pacientes transplantados entre 2000 e 2017. Nesse período, eles observaram que a porcentagem de doadores mortos por overdose aumentou de 1% em 2000 para 13% em 2017.

Os autores tentaram averiguar se esse aumento poderia comprometer a segurança dos transplantes, mas os resultados foram positivos. Em comparação com os de outros doadores, os órgãos de mortos por overdose não tiveram prognóstico pior. Além disso, nos casos de receptores de corações ou pulmões, aqueles que os receberam de usuários de drogas falecidos tinham entre 1% e 5% mais chances de estarem vivos depois de cinco anos do que aqueles que os receberam de doadores mortos por outras causas. O dado pode ser interessante para quase 115.000 candidatos a transplantes de órgãos nos EUA, principalmente rins (81%) e fígados (12%).

Como explica o artigo, esses dadores são rejeitados com mais frequência devido ao maior risco de estarem infectados com HIV ou hepatite C. No passado, agentes patogênicos como o vírus da AIDS podiam passar despercebidos se estivessem em período de latência e chegar ao transplantado junto com o órgão. No entanto, como esclarece o estudo da Johns Hopkins, os novos testes de ácido nucleico e anticorpos tornam o risco de infecção “extremamente baixo”. “Além disso, os candidatos que aceitam os rins [de pessoas com maior risco de infecção] têm uma taxa de sobrevivência maior do que aqueles que esperam por outro órgão”, dizem eles. Em todo caso, alertam que os riscos devem ser avaliados de acordo com a situação de cada candidato.

No passado, o maior risco de transmissão de uma infecção como a hepatite C eliminou muitos órgãos que atualmente estão sendo aceitos. Em 2017, quase 30% dos doadores de órgãos mortos por overdose eram portadores desse vírus, muito acima dos 4% entre os mortos por outras causas. “Agora, esse enfoque mudou completamente com a chegada dos novos antivirais contra o vírus C”, explica Rafael Matesanz, criador da Organização Nacional de Transplantes (ONT). “Hoje é possível transplantar órgãos com vírus C e depois dar tratamento profilático. Isso é algo que já começou a ser feito na Espanha com transplantes de coração, mas vai começar a acontecer com outros órgãos”, acrescenta.

Matesanz se mostra surpreso com a alta porcentagem de órgãos de overdoses nos EUA: “Na Espanha é muito menor, não chega a 1%”. E enfatiza a necessidade de analisar cada caso para saber se o transplante será viável. “Em uma morte por cocaína, o coração provavelmente não pode ser usado, mas outros órgãos talvez não tenham danos. É preciso levar em conta a substância que causou a morte e identificá-la, porque você não pode transplantar uma pessoa sem identificar a causa da morte. Se fossem transplantados os órgãos uma pessoa morta por cianeto, ainda que isso seja algo bastante exótico, o envenenamento seria transmitido ao paciente”, conclui.

Na Europa, o problema das mortes por overdose ainda é muito menor do que nos EUA, mas também está crescendo. Um relatório apresentado no ano passado pelo Observatório Europeu sobre Drogas indicou que, em 2015, 23 pessoas morreram de overdose a cada dia na UE, Noruega e Turquia. No total, a ingestão dessas substâncias tirou pelo menos 8.441 vidas nesses 30 países, cerca de 6% mais que doze meses atrás, quando as vítimas foram 7.950. Em 2012, foram cerca de 6.300 de acordo com o observatório.

Edição genômica, primeiro passo para transplantes de suínos a humanos

Agora é possível viver com um coração emprestado de 76 anos

Em 3 de dezembro de 1967, o médico sul-africano Christian Barnard realizou um feito da medicina ao substituir o coração moribundo de Lewis Washkansky por um saudável, com sucesso. Seu paciente tinha 53 anos e uma insuficiência cardíaca terminal associada à diabetes. A doadora, Denise Darvall, tinha 25 anos e morreu atropelada a poucos quilômetros da sala de cirurgia onde horas mais tarde se realizaria a operação histórica. Ocorreu no Hospital Groote Schuur da Cidade do Cabo, África do Sul. Nesse domingo completam-se 50 anos daquele dia, e nesse tempo transcorrido, o transplante cardíaco se transformou em uma terapia comum, mas não por isso menos milagrosa.

Hoje são realizados 7.000 transplantes cardíacos anuais no mundo. Só no Brasil, foram 357 ao longo de 2016. Este ano aumentou o número de doações e muito provavelmente também o de transplantes. A estimativa de Associação de Transplantes de Órgãos (ABTO) é que o ano acabe com 371 corações transplantados. O número de potenciais doadores cresceu 3,6% em 2017. Desde 1996 até setembro deste ano, 2.836 brasileiros receberam um coração novo.

O Brasil foi o primeiro país da América Latina que conseguiu transplantar um coração, em 1968, só um ano após Barnard. Mesmo assim está hoje longe de outros países nos quais esse tipo de operação teve um grande desenvolvimento, como na Espanha, que, com quase um quinto da população brasileira, realiza mais de 300 transplantes a cada ano.

Um dos problemas no Brasil é que a divisão geográfica dos implantes de coração é muito desigual. No Distrito Federal, foram transplantados em 2016, segundo as estatísticas da ABTO, 14,8 corações a cada milhão de habitantes. O segundo estado, muito distante nos dados, é Pernambuco, com 4,1 transplantes a cada milhão. Na maioria do país nem se realizam transplantes, só em 12 estados: além dos dos anteriores, Ceará, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Minas Gerais, Santa Catarina, Goiás, Alagoas e Rio de Janeiro, sendo que os três últimos com menos de uma operação por cada milhão de habitantes.

Mas o Brasil consegue dados de sobrevida dos doentes muito semelhantes aos de outros países: segundo a ABTO, aqui são do 73% no primeiro ano após a intervenção e 60% no sétimo ano, muito perto das estatísticas da Espanha, um dos lugares do mundo com mais doadores e mais transplantados em função da sua população.

A espanhola María Dolores Ortega, por exemplo, é um caso muito especial. Tinha só 11 anos quando recebeu seu novo coração em 1984 e ainda é um exemplo de boa qualidade de vida e de até onde pode chegar a façanha que Barnard começou há meio século.  “Eu me sinto ótima”, afirma María Dolores, 33 anos após sua operação.

“Barnard colocou o transplante cardíaco em moda há 50 anos. Mas ainda enfrentamos o problema do de encontrar um doador cardíaco idôneo”, diz a doutora Beatriz Domínguez-Gil, diretora da Organização Nacional de Transplantes da Espanha.

A solução é adaptar a prática clínica ao novo perfil do doador. Esse perfil, cada vez mais, corresponde a uma pessoa idosa e com um coração envelhecido, que normalmente falece por um acidente cerebrovascular. Muitas vezes a idade avançada não é de jeito nenhum um impedimento para um transplante bem-sucedido. De fato, o coração mais velho transplantado com sucesso na Espanha tinha 76 anos, e a idade média do doador de coração aumentou em 10 anos desde o começo do século. “Com o tempo vamos aprendendo que o que há anos considerávamos uma contradição absoluta para a doação agora não é mais”, afirma Domínguez-Gil.

“Do ponto de vista cirúrgico, a técnica de fazer um transplante é uma das mais simples que existem na cirurgia cardíaca”, disse Josep María Caralps, o cirurgião que realizou o primeiro transplante cardíaco na Espanha.  A complicação, histórica e atual, é evitar a infecção e a proliferação de tumores que podem vir após a operação, já que os pacientes recebem tratamentos imunossupressores para evitar a rejeição do órgão transplantado.

Essa resposta imunológica ainda não se conseguiu anular, mas foi reduzida de maneira muito relevante. Embora Barnard alcançou uma proeza, nos inícios a esperança de vida dos transplantados era muito fraca: dos primeiros 100 no mundo, somente seis sobreviveram após o primeiro ano da intervenção. Dentre essa maioria que não teve sorte estava o brasileiro João Ferreiro da Cunha, de 23 anos. Ele beirava a morte por conta de uma insuficiência cardíaca e recebeu um novo coração de um jovem que havia morrido de um acidente de carro, no 26 de maio de 1968 no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. João Ferreiro faleceu 23 dias depois de rejeição imunológica. Após esse fracasso, os transplantes no país foram suspensos por vários anos e não começaram a se tornar habituais até 1984.

A obesidade entorpece o sentido do paladar

As pessoas obesas são menos sensíveis ao sabor da comida, mas recuperam o paladar quando perdem peso. Para entender por que o índice de massa corporal influencia a capacidade de saborear os alimentos, vários pesquisadores do Departamento de Ciências Alimentícias da Universidade Cornell (EUA) estudaram as respostas fisiológicas à dieta em ratos de laboratório. Seus resultados, publicados nesta terça-feira na revista PLOS Biology, revelam que o sobrepeso e a obesidade causam uma redução no número de papilas gustativas devido à inflamação crônica associada ao acúmulo de gordura. O tratamento dessa disfunção sensorial do paladar poderia ajudar as pessoas afetadas a evitarem maus hábitos alimentícios.

Os cientistas alimentaram um grupo de ratos com uma dieta composta por 58% de gordura, e deram uma dieta normal (14% de gordura) ao grupo de controle. Ao final de oito semanas, os ratos com a comida insalubre pesavam um terço a mais e tinham 25% menos papilas gustativas na língua do que os outros. “Antes não conhecíamos a relação causa-efeito”, diz Robin Dando, o chefe da pesquisa. “Não sabíamos se as pessoas obesas nascem com um sentido do paladar mais fraco, e portanto estão predispostas a engordar, ou se todo mundo nasce com um sentido do paladar similar, e ao ganhar peso começa a perder a sensibilidade ao sabor”, acrescenta. A segunda opção parece a mais provável, dados os resultados com os ratos.

Cada papila gustativa contém entre 50 e 100 células que podem ser de três tipos, segundo sua capacidade de detectar determinados sabores. Os ratos normalmente substituem esses minúsculos órgãos a cada 10 dias, num processo regido pela morte programada das células antigas e pela diferenciação de receptores novos a partir de células-tronco. Entretanto, nos ratos obesos a morte celular se acelera ao mesmo tempo em que diminui o número de células-tronco, o que torna mais lenta a regeneração das papilas gustativas.

Para aferir as causas exatas, os cientistas repetiram o experimento com ratos geneticamente resistentes à obesidade. Esses animais têm o seu DNA editado para que não engordem muito, independentemente da alimentação. Eles não mostraram redução no número de papilas gustativas ao seguirem a dieta mais gordurosa, o que demonstra que é o sobrepeso – e não apenas o estímulo oral ao ingerir gordura – que conduz ao entorpecimento do paladar.

A equipe observa que a perda do paladar é consequência da inflamação leve, crônica e sistêmica causada pela obesidade e o sobrepeso. “O tecido adiposo é um órgão em si mesmo, as próprias células de gordura estão ativas e secretam fatores que podem ser bastante prejudiciais”, explica Dando. Um desses fatores é o TNF-alfa, uma molécula imunológica que envia sinais inflamatórios pelo corpo e ativa processos de morte celular. Quando os pesquisadores alimentaram com muita gordura os ratos geneticamente modificados que são incapazes de produzir o TNF-alfa, estes ganharam peso, mas não perderam papilas gustativas. Pelo contrário, quando essa molécula foi injetada diretamente na língua de ratos magros, os animais perderam papilas gustativas sem terem engordado.

Resta ver se o mesmo processo rege a capacidade de saborear os alimentos no caso dos humanos, mas parece provável, pois já foi observada a associação reversível entre o acúmulo de gordura e a perda do paladar. Dando acredita que o caráter bidirecional desse mecanismo pode ser a chave da adaptação. “Aposto que quando perdemos muito peso adquirimos mais papilas gustativas. Isso tem um valor evolutivo; que podemos buscar até a última caloria”, explica. Por exemplo, em tempos de fome, esse processo permitiria saborear o doce em mantimentos que normalmente não seriam apetitosos.

“Os resultados apontam para novas estratégias terapêuticas para tratar da disfunção sensorial do paladar em obesos”, acrescenta o pesquisador. “Se alguém se torna mais sensível ao sabor, é plausível que não necessite tanto de açúcar, gordura ou sal na dieta, e então poderá adotar melhores hábitos alimentícios”, conclui.

 

Fonte: El País/Municipios Baianos

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