06/05/2018

Por que a qualidade do sêmen está caindo no mundo

 

Quando um casal tem dificuldades para engravidar, é comum que a mulher se torne a principal suspeita de ser infértil. No entanto, estudos estimam que 50% dos casos de infertilidade conjugal - que afetam cerca de 48,5 milhões de pessoas no mundo - tenham como causa algum problema masculino.

E a tendência é que esses números aumentem.

Estudos realizados em diversos países mostram que a qualidade média do sêmen dos homens de todo o mundo vem caindo pelo menos desde a década de 1930. Não há informações conclusivas sobre as causas - as principais suspeitas recaem sobre o álcool, o cigarro e substâncias químicas presentes em pesticidas, solventes e recipientes de plástico.

Um dos poucos estudos no Brasil sobre o assunto foi feito recentemente pela bióloga Anne Ropelle em sua dissertação mestrado na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Ela conta que o Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM) da universidade realiza exames de espermograma desde 1989. Das 33.944 amostras registradas entre 1989 e 2016, ela analisou 18.902.

Anne dividiu os exames em cinco períodos de tempo e analisou os principais parâmetros que medem a qualidade do sêmen: concentração (quantidade de espermatozoides na amostra), motilidade progressiva (capacidade de movimentação, importante para o encontro com o óvulo e a fertilização) e morfologia (sua forma). "Notamos uma queda significativa em todos eles", ela afirma.

A concentração seminal, por exemplo, caiu de 86,4 milhões de espermatozoides por mililitro (ml) no período de 1989 a 1995 para 48,32 milhões/ml entre 2011-2016. A porcentagem com boa motilidade baixou de 47,6% para 35,9%, e o índice dos que tinham formas normais reduziu-se de 37,1% para 3,7%.

Apesar dessas quedas, os dois primeiros parâmetros estão dentro dos padrões estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que são, respectivamente, mínimos de 15 milhões e 32%.

Quanto à morfologia, a porcentagem encontrada por Ropelle está um pouco abaixo do que é considerado normal pela OMS, que é acima de 4%. Esses dados podem ser um alerta. "Se os números continuarem caindo, os casais poderão encontrar maior dificuldade para conseguirem uma gestação", diz a especialista.

Discussões

No exterior, as pesquisas sobre o tema são mais antigas e numerosas. Todas apontam na mesma direção. O médico urologista Leocácio Barroso, do Hospital Universitário Walter Cantídio, da Universidade Federal do Ceará (UFC), cita algumas meta-análises (revisão sistemática de várias pesquisas realizadas sobre um mesmo tema).

Uma delas foi feita pela bióloga dinamarquesa Elisabeth Carlsen, que analisou 61 estudos sobre qualidade do sêmen realizados por outros pesquisadores de vários países, entre 1938 e 1991. Os resultados foram divulgados em 1992. "Ela mostrou que nesse período a concentração média de espermatozoides caiu de 113 milhões/ml para 66 milhões/ml", informa Barroso.

Para ele, a mensagem essencial do estudo de Carlsen e colaboradores é que a concentração seminal declinou globalmente em cerca de 50% no último século, atraindo uma atenção significativa e sendo foco de diversas discussões. "A partir dessa publicação, diversos laboratórios têm analisado seus próprios dados retrospectivamente e muitos estudos sugerem que, de fato, houve um declínio na qualidade do esperma", conta.

Um desses trabalhos foi divulgado cinco anos mais tarde, em 1997, pela especialista em reprodução humana Shanna Swan, dos Hospital Mount Sinai, de Nova York. Ela fez uma reanálise de 56 estudos analisados por Carlsen e confirmou uma significativa queda na densidade espermática nos Estados Unidos e na Europa, mas não em outras partes do mundo.

"Mais tarde, em 2000, ela realizou outra extensa meta-análise, dessa vez de 101 estudos, que confirmou o declínio na qualidade seminal no período de 1934 a 1996", diz Barroso.

A própria OMS reduziu os valores de referência que definem uma amostra seminal como "normal". "De 1987 até hoje, a organização publicou cinco edições do Manual para o Exame do Sêmen Humano", diz Barroso.

"A publicação mais recente, de 2010, traz valores de referência mais baixos do que os encontrados na última edição, de 1999." Os novos parâmetros de concentração mínima foram reduzidos de 20 milhões/ml para 15 milhões/ml, os da motilidade, de 50% para 32%, e os da morfologia, de 14% para 4%.

Para a definição de tais valores, foram avaliadas amostras de 4.500 homens de 14 países de quatro continentes. Barroso tem, no entanto, uma crítica ao manual. De acordo com ele, enquanto algumas áreas foram super-representadas, como o norte da Europa, outras foram subrepresentadas, como a África e a América do Sul.

"De fato, para esse estudo não foi avaliada nenhuma amostra proveniente do Brasil", diz. "Portanto, a interpretação e aplicação dos valores de referência definidos pela última publicação da OMS para o brasileiro é imprecisa."

Estilo de vida?

Que a qualidade seminal vem caindo no mundo é praticamente uma certeza. Já as causas não são bem conhecidas. "Nosso banco de dados não possuía informações sobre estilo de vida ou hábitos dos pacientes, desta forma não pudemos correlacionar a queda a uma ou mais causas", afirma Anne. Mas há suspeitas.

Seu orientador, o ginecologista Luiz Francisco Baccaro, da FCM da Unicamp, aponta alguns. "Vários autores relatam que substâncias com efeitos similares ao estrogênio (hormônio cuja ação está relacionada ao controle da ovulação e ao desenvolvimento de características femininas), conhecidas como 'desreguladores endócrinos', poderiam agir no feto do sexo masculino ainda no útero da mãe, levando a problemas na função testicular", diz.

Entre esses "desreguladores endócrinos" estão substâncias químicas, presentes em pequena quantidade em pesticidas, solventes e recipientes de plástico, por exemplo. Além dos fatores ambientais, aspectos relacionados aos hábitos de vida também devem influenciar a produção de esperma.

"Alguns estudos demonstraram que o tabagismo e o consumo de álcool em excesso podem diminuir a qualidade do sêmen", acrescenta Baccaro. "Além disso, um fator muito prevalente que influencia nisso é a obesidade, que pode levar a um desequilíbrio hormonal. Um estudo mostrou que homens com excesso de peso têm o esperma pior."

Barroso cita outros suspeitos. "O uso de telefones celulares têm aumentado as preocupações em relação ao efeito das suas ondas eletromagnéticas na fertilidade", afirma.

"Estudo observacional recente, in-vivo e in-vitro, mostrou que os aparelhos podem causar uma diminuição da densidade, motilidade, viabilidade e morfologia dos espermatozoides. Hipertermia (alta temperatura) testicular também pode impedir a espermatogênese. Por isso, o uso de laptops próximo à genitália, utilização frequente de saunas e banheiras aquecidas estão entre os fatores considerados como possíveis causas da queda da qualidade do sêmen."

Cientistas fazem óvulo humano se desenvolver pela primeira vez em laboratório

Cientistas de um laboratório da Universidade de Edimburgo, na Escócia, criaram uma técnica para desenvolver óvulos humanos em laboratório.

Segundo os pesquisadores, trata-se de uma tentativa de criar novas formas de manter, no futuro, a fertilidade de crianças submetidas a tratamentos contra o câncer. Mas o experimento também é uma oportunidade de explorar em detalhes como os óvulos se desenvolvem, o que continua sendo algo relativamente misterioso para a ciência.

Especialistas dizem que estão animados com a técnica, que permite conduzir o processo de maturação do óvulo no laboratório, e consideram que ela representa um avanço. No entanto, ponderam serem necessárias mais pesquisas antes de aplicá-la clinicamente.

Mulheres nascem com óvulos imaturos (ovócitos primários) no interior do ovário, que só se desenvolvem plenamente depois da puberdade. A partir de então, em cada ciclo menstrual, um dos óvulos entra em processo de maturação. E, ao longo da vida da mulher, metade se degenera.

Depois de décadas de trabalho, cientistas agora conseguiram fazer com que os óvulos atingissem a maturidade fora do ovário. A técnica exige condições específicas dentro do laboratório, incluindo níveis de oxigênio, hormônios e proteínas para estimular o crescimento.

Refinamento necessário

Mas embora os cientistas indiquem que seja possível desenvolver óvulos em laboratório, o experimento, publicado na revista acadêmica Molecular Human Reproduction, ainda precisa de refinamento.

Os testes mostraram que a técnica ainda é ineficiente, já que apenas 10% dos óvulos completaram atingiram a maturidade fora do ovário. Além disso, eles não foram fertilizados - ou seja, ainda não se sabe se eles são viáveis para a reprodução.

Mesmo assim, a professora Evelyn Telfer, que faz parte da pesquisa, disse à BBC estar animada com os resultados. "É animador obter uma prova de que é possível atingir esse estágio."

Segundo ela, preciso melhorar as condições para cultura e testar a qualidade dos óocitos (células-ovo).

"Além de qualquer possível aplicação clínica, este é um grande avanço na melhoria da compreensão da maturação de óvulos humanos."

Problemas a serem resolvidos

Trata-se de um processo é muito controlado, praticamente cronometrado pelo corpo humano - enquanto alguns óvulos amadurecem durante a adolescência, outros só atingem isso mais de duas décadas depois.

Um óvulo perde metade do material genético durante a maturação. Caso contrário, haveria DNA demais quando ele fosse eventualmente fecundado por um espermatozoide.

Essa primeira divisão termina com o ovócito secundário, pronto para ser fecundado, e o chamado primeiro glóbulo polar - uma célula em miniatura que se degenera logo após a formação.

No entanto, no estudo conduzido na Universidade de Edimburgo, o glóbulo polar foi observado com tamanho desproporcionalmente grande, o que está sendo tratado como uma anomalia.

"Isso é uma preocupação", disse Telfer. Mas ela acredita que esse problema é um dos que podem ser resolvidos aprimorando a tecnologia usada.

Testes em camundongos, que veem sendo feitos há 20 anos, já haviam mostrado que a técnica pode ser usada para reprodução dos animais.

Por isso, o sucesso dela com óvulos humanos pode, eventualmente, usar crianças que enfrentam tratamento contra o câncer.

Muitos pacientes podem ter problemas de infertilidade após passar por quimo e radioterapia.

Hoje, mulheres podem congelar óvulos que já passaram pela maturação, ou até mesmo embriões fecundados com espermatozoides do parceiro, antes de começarem o tratamento contra o câncer.

No entanto, não é possível fazer isso com alguém que ainda está na infância, pois seus ovócitos primários ainda não estão maduros.

Há, em tese, a possibilidade de congelar tecido do ovário antes do início do tratamento, que poderia ser reimplantado anos depois caso a paciente queira ter filhos. Mas médicos apontam para o risco dessa técnica caso as amostras congeladas apresentarem alguma anormalidade.

Com isso, fazer com que óvulos passem pelo processo de maturação no laboratório poderia se mostrar uma opção segura.

Previsão legal

Stuart Lavery, ginecologista do hospital Hammersmith, em Londres, avaliou os testes como animadores.

"Esse trabalho representa um passo genuíno em direção à nossa compreensão. Apesar de ser em escala pequena e ainda exigir mais testes, esse trabalho preliminar oferece esperança aos pacientes."

No Reino Unido, há previsão legal para fecundar óvulos amadurecidos em laboratório na tentativa de criar embriões para pesquisa.

Como os cientistas de Edimburgo não têm autorização para conduzir esse experimento, eles estão discutindo se tentam a licença ou buscam se associar a um centro de pesquisa que já tenha a permissão.

Azim Surani, que comanda uma equipe de pesquisa na Universidade de Cambridge, opinou à reportagem que é preciso conduzir mais análises para identificar se esses óvulos que maturaram no laboratório podem ser comparados com os naturais.

 

Fonte: BBC Brasil/Municipios Baianos

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