10/05/2018

Agrotóxico faz muito mais mal do que se pensava

 

O herbicida mais famoso do mundo mata células humanas. É o que dizem os estudos mais recentes de pesquisadores ligados ao governo norte-americano, segundo uma reportagem publicada hoje no jornal britânico The Guardian (a matéria está neste link).

Os testes são do Programa Nacional de Toxicologia e trazem fortes evidências de que os produtos comercializados — como o Roundup, o herbicida mais famoso do mundo, produzido pela Monsanto há quatro décadas — são mais tóxicos para células humanas do que o seu princípio ativo sozinho. O princípio ativo é a substância que de fato produz os efeitos e, no caso do Roundup, é o glifosato.

Isso é um grande problema porque, embora ele componha herbicidas há mais de 40 anos, essa é a primeira vez que são feitos testes nos agrotóxicos formulados com essa substância — para a aprovação e registro, só se exigem testes com o próprio glifosato, isoladamente.

Seu uso é, há muito tempo, cercado de polêmicas — hoje, ele é proibido e restrito em alguns países. E os estudos foram solicitados pela Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) justo depois que, em 2015,  a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (Iarc) classificou o glifosato como um provável carcinógeno humano. Na mesma ocasião, ela destacou preocupações sobre as formulações que combinam esse princípio ativo com outros ingredientes.

O coordenador do laboratório que conduz as pesquisas, Mike DeVito, disse ao Guardian que o trabalho ainda está em andamento, mas as descobertas iniciais já são bastante claras: o herbicida mata células humanas, enquanto o glifosato sozinho não o faz. O pesquisador ressalta, porém, que isso não significa necessariamente que os produtos causem câncer ou outras doenças.

Monsanto já sabia

Existe um importante impedimento à testagem adequada dos herbicidas nessa pesquisa: é o fato de que sua formulação é segredo corporativo, uma informação comercial confidencial. Ninguém sabe exatamente a fórmula do Roundup, nem como ela vem mudando ao longo dos anos.

Mas, em relação à toxicidade, a reportagem cita e-mails internos antigos da Monsanto que vieram à tona durante um julgamento no ano passado e indicam que a própria empresa já tinha alguma noção desse perigo, mesmo que ele não fosse mensurado. “Você não pode dizer que o Roundup não é um agente cancerígeno… Nós não fizemos os testes necessários na formulação para fazer essa declaração. Os testes nas formulações não estão nem perto do nível do ingrediente ativo”, diz um deles, de 2003. Em outra mensagem, de 2010, se lê: “Com relação à carcinogenicidade de nossas formulações, não temos esses testes realizados diretamente nelas”. E mais uma, de 2002, é clara: “O glifosato é OK, mas o produto formulado … Causa o dano”.

Situação no Brasil

O Roundup é o famoso “mata-mato”, amplamente pulverizado para matar ervas consideradas daninhas. É o herbicida mais usado no mundo, e líder de vendas no Brasil. Mas a confiança em sua segurança não é nada unânime e, aqui, sua reavaliação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) se arrasta desde 2008. No ano passado, a agência estabeleceu que a análise toxicológica do glifosato — e não dos herbicidas à base dele — vai terminar no ano que vem. Só a partir daí haverá uma consulta pública e, depois, sua proibição (ou não) vai ser decidida.

Mas, muito antes disso, pode ser votado na Câmara o PL 6299/02, um projeto que veio do Senado e ao qual foram apensados vários outros ligados ao tema. O conjunto ficou conhecido como ‘Pacote do Veneno’. Não à toa. As propostas alteram a legislação referente aos agrotóxicos no Brasil, e este documento da campanha Chega de Agrotóxicos resume o que acontece se o pacote for aprovado. Por exemplo: o nome ‘agrotóxicos’ vai ser substituído por ‘defensivos fitossanitários e produtos de controle ambiental’, será criada uma Política Nacional de Apoio ao Agrotóxico, a aplicação de agrotóxicos no meio urbano vai ser facilitada, a fiscalização vai ficar mais frouxa e a aprovação de novos agrotóxicos vai ser acelerada, com brechas para que isso aconteça inclusive em relação a produtos que comprovadamente fazem mal à saúde.

Desde o fim de abril, está para ser apreciado em uma comissão da Câmara o parecer do relator deputado Luiz Nishimori (PR-PR) sobre o Pacote. Ele é favorável a essas mudanças. Havia outros projetos apensados que poderiam ser positivos — como três PLs relacionados à proibição ou reavaliação periódica de produtos contendo glifosato. Mas Nishimori os rejeita.

Nos últimos tempos, a pressão pela não aprovação está intensa. A campanha Chega de Agrotóxicos divulgou um manifesto assinado por 271 organizações que repudiam o texto. O Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador (DSAST), do Ministério da Saúde, lançou nota se posicionando contra; a Fiocruz e o Conselho Nacional de Saúde também. E o Conselho Nacional dos Direitos Humanos recomendou a rejeição. Além disso, o subprocurador-geral da República Nívio Silva Filho encaminhou ao Congresso uma nota técnica afirmando que há inconstitucionalidades no texto.

Democracia e Agroecologia para unir cidade e campo

Em sua quarta edição, o Encontro Nacional de Agroecologia (IV ENA) se reafirma como o principal fórum de agricultura ecológica de nosso país, em que 70% do consumo alimentício provém da agricultura familiar. Agricultoras e agricultores, representantes de povos e comunidades tradicionais de todos os estados, terão participação ativa no encontro que calcula reunir cerca de 2 mil inscritos e mais de 30 mil visitantes entre os dias 31 de maio a 3 de junho, em Belo Horizonte (MG).

“Quando falamos de agroecologia, estamos falando de tecnologias muito avançadas, e, ao mesmo tempo, do resgate de tradições muito antigas, quando não havia armas químicas combatendo as pragas, nem a geração de tantas pragas”, explica a atriz, cantora e militante da causa Letícia Sabatella, que empresta voz e imagem ao vídeo de apoio ao evento.

Campanha

Termina no dia 15 de maio a campanha de financiamento coletivo complementar o IV ENA. Hospedada em catarse.me/ivena, a campanha busca arrecadar R$ 100 mil para cobrir despesas com logística, infraestrutura e comunicação do encontro. Entre as recompensas estão pacotes de sementes crioulas, curso de horta em casa, palestras sobre temas ligados a agroecologia, sustentabilidade e alimentação saudável, além de outros produtos agroecológicos e, também, contrapartidas em visibilidade de marcas durante o encontro, que conta com o apoio de artistas como Letícia Sabatella e Wagner Moura.

Um movimento para muitas causas

O lema escolhido para o ano, ‘Agroecologia e Democracia Unindo Campo e Cidade’, comemora os trinta anos da Constituição Federal de 1988 e reconhece o poder do espaço urbano na cadeia produtiva alimentar.

Apoiar a ida de agricultores e agricultoras ao Encontro é participar do fortalecimento institucional do movimento agroecológico, nas múltiplas causas que ele sustenta, tais como conservação e uso sustentável da biodiversidade; cultivo de sementes locais; protagonismo das mulheres; soberania e segurança alimentar; direitos territoriais de povos e comunidades tradicionais; reforma agrária e estrutura dos meios de produção; gestão de águas; normas sanitárias e fontes de crédito para agricultura familiar; saúde coletiva; economia solidária; políticas públicas; agricultura urbana. “O Brasil precisa cumprir o compromisso firmado no Acordo do Clima de Paris. Precisamos substituir uma agricultura convencional por outra que evite o desmatamento e recupere a biodiversidade”, resume Denis Monteiro, Secretário Executivo da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), organizadora do Encontro.

A Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) – Entidade sem fins lucrativos, a ANA foi estabelecida em 2002, ano do primeiro Encontro Nacional de Agroecologia. Rio de Janeiro (2002), Recife (2006) e Juazeiro (2014) sediaram as edições anteriores do evento, que chega em 2018 a Belo Horizonte, cidade com experiências pioneiras de agricultura urbana e importantes iniciativas de movimentos de defesa de direitos.

“O Encontro é de fundamental importância para fortalecer a organização dos povos indígenas, das comunidades quilombolas, dos agricultores e agricultoras familiares, que produzem um alimento sem veneno e em harmonia com a natureza”, completa Maria Emília Pacheco, membro da Comissão Organizadora no IV ENA.

 

Fonte: Por Raquel Torres, do Outra Saúde/Asa Brasil/Municipios Baianos

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