15/05/2018

Luiz Fernando Gomes: 'Os dramas do pré-Copa do Mundo'

 

Imagine-se leitor no lugar de Daniel Alves ou de Guerrero. Um, a pouco mais de um mês da Copa, tem confirmada a sua ausência na Russia. Sobre o outro ainda paira, como se sabe por motivo diverso, a ameaça de ficar de fora da maior competição do futebol mundial. O que estaria passando pela cabeça desses jogadores agora?

O drama não é uma exclusividade do lateral direito nem do atacante. De Tite nem do treinador do Peru, Ricardo Gareca. Repete-se a quatro anos as vésperas de Mundiais. Em outras modalidades, acontece com frequência nos meses que antecedem às Olimpíadas ou aos jogos continentais. Esta semana, em seu blog Dois Pontos, no LANCE! , Fabio Chiorino reuniu 14 nomes no que ele chamou de a lista macabra das Copas.

O apanhado mostra que desde o tricampeonato do Brasil, no México, em 1970, quase todos os técnicos da seleção - as exceções são 2010 e 2014 -, foram obrigados a conviver com situações de corte, com maior ou menor peso na formação de suas equipes, às vésperas dos mundiais. São nomes como o ponta direita Rogério, que jogou no Flamengo e no Botafogo, em 70; o volante Clodoaldo e o goleiro Wendell em 74, o lateral Zé Maria e o atacante Nunes em 78, Careca em 82, Mozer e Toninho Cerezo em 86; Ricardo Gomes e novamente Mozer em 94; Romário, Márcio Santos e Flavio Conceição em 98, Emerson em 2002 e Edmilson em 2006. Todos tiveram de ser substituídos por conta de contusões pouco antes da bola começar a rolar.

Há, também, casos em que o drama acontece já com a Copa em andamento. O mais recente, o de Neymar, há quatro anos, no jogo contra a Colômbia que antecedeu ao fatídico 7 a 1. O mais marcante, o de Pelé, no bicampeonato do Brasil, no Chile, quando o camisa 10 sofreu um estiramento na virilha logo na segunda partida, deixando o país em polvorosa. Uma contusão que só não só não mudou o rumo da história graças a outro gênio da bola, Garrincha, que roubou a cena, marcou quatro gols em dois jogos e conduziu o time ao título com uma vitória de virada contra a Tchecoslováquia na final.

Daniel Alves perderá a chance de conquistar o único título de peso que ainda lhe falta - é o maior campeão da história do futebol mundial, tendo superado Pelé e levantado 38 canecos ao longo de uma carreira recheada de êxitos. A contusão na final da Copa da França, em um jogo em que o PSG enfrentou o modesto Les Herbiers, da terceira divisão e já entrou em campo praticamente campeão, foi uma armadilha dos deuses da bola. Aos 35 anos, essa foi, talvez, uma das poucas derrotas pessoais que sofreu. Para Tite, sem substitutos à altura - Danilo, Fagner ou Rafinha devem aparecer na lista a ser anunciada amanhã - sua ausência de fato é um problema, não apenas técnico, mas também pela liderança que exerce. Mas, convenhamos, é um problema longe de ser insolúvel ou de ameaçar o favoritismo brasileiro - se é que somos os favoritos.

O corte de Guerrero, se a corte arbitral do esporte lhe impuser nova suspensão no caso do doping, trará para Ricardo Gareca um efeito imensamente maior. O evetual afastamento do atacante vai muito além de um drama pessoa. Guerrero ficar fora do Copa seria uma derrota para toda uma Nação. Foi sob seu comando que a seleção peruana conquistou a vaga resgatando o orgulho nacional em uma país, como aqui, abalado pelas mazelas da política e os efeitos nefastos da corrupção. É nos seus nos seus pés que peruanos de todas as classes e idades depositam o sonho de fazer bonito em uma Copa do Mundo. Ele não é mais um, como Dani Alves. Ele é único, é o cara.

O lateral direito do PSG foi vítima da vontade dos deuses Guerrero poderá sucumbir a insensatez dos homens. Não há, mesmo entre os seus algozes, quem creia que ele tenha usado cocaína intencionalmente. Seja para se dopar ou para se divertir. Exames sofisticados, inclusive mais técnicos do que a coleta de urina, comprovam isso. Depoimentos de quem conviveu com ele por onde passou no Brasil ou na Europa atestam seu comportamento. Admita-se que possa ter cometido um descuido, ingerido chá contaminado. Seis meses fora dos gramados não bastam? Será justo matar o sonho de um atleta e mais do que isso, de um país, para mostrar ao mundo o rigor da lei? Não, a lei não pode servir para dar exemplos. Tem de se impor, no futebol ou na vida de cada um, tão somente por ser justa.

Com agrados como mensalinho e viagens, CBF e federações formam parceria no poder

Em abril de 2014, Marco Polo Del Nero foi eleito presidente da CBF, para assumir um ano depois, com votos de 26 das 27 federações estaduais. No mês passado, Rogério Caboclo foi eleito presidente da CBF, a partir de abril de 2019, com votos das 27 federações. Isto porque o presidente da Federação Gaúcha, Francisco Novelletto, que se abstivera no pleito anterior, desta vez votou no candidato único. Desde 1989 tem sido assim. O indicado da situação é eleito, ou reeleito, com apoio maciço dos presidentes de federações estaduais.

Esse apoio não é de graça. A CBF trata os presidentes de federações com muitos mimos. Convites para chefiar delegações da seleção em amistosos e torneios oficiais, criação de competições regionais e mesadas. Este ano, eles terão um "bônus": a ida à Copa do Mundo da Rússia, com todas as despesas pagas.

O "voo da alegria" levará os presidentes de federações - e de 10 clubes das séries A e B, definidos por sorteio - para assistir aos jogos do Brasil na primeira fase. Os convites foram feitos em fevereiro, mas a CBF nega que tiveram cunho eleitoral em favorecimento a Rogério Caboclo. Alega a entidade que a viagem tem como objetivo o aprimoramento dos dirigentes em nível administrativo.

Questionada pelo Estado sobre o tema, a entidade enviou na última sexta-feira a mesma nota divulgada em 26 de fevereiro em que diz entender que "a presença das federações é algo natural e importante por tratar do maior evento de futebol do mundo". Lembra a entidade que os dirigentes são responsáveis por administrar competições regionais e que não irão à Rússia a passeio. "Além dos jogos da seleção, está sendo preparada uma agenda de trabalho para os dirigentes, com reuniões institucionais e atividades de acompanhamento da organização do evento".

AJUDA MÚTUA

Na prática, seja ano de Copa do Mundo ou não, os dirigentes de federações ajudam a CBF a manter quem quer no poder e são ajudados a permanecer no comando em seus Estados. Assim, alguns praticamente se eternizam. É o caso de Francisco Cezário, que preside a Federação do Mato Grosso desde 1988 e no último dia 30 foi eleito para mais quatro - mandato que começa apenas em abril de 2019. É um dos cartolas que estão há 20 ou mais anos no poder. Mas está longe do campeão Zeca Xaud, há 44 anos à frente do futebol de Roraima. Ele tem 73 anos e tornou-se presidente aos 29.

Incentivo à longevidade não falta. Um deles é o "mensalinho", pelo qual são repassados às entidades estaduais R$ 75 mil a cada 30 dias, por meio do Programa de Assistência às Federações (PAF), além de outros R$ 25 mil destinados diretamente aos presidentes.

Criada por Ricardo Teixeira em 1993, a mesada, que na época era de R$ 8 mil, é considerada essencial pelas federações menores, que praticamente não têm receita advindas de competições e patrocínios. Os presidentes alegam que o dinheiro ajuda a financiar campeonatos de todas as categorias, torneios femininos e pagamento de arbitragem, entre outras despesas.

Os dirigentes estaduais, mesmo as mais ricas, defendem as benesses. "O PAF é justo e correto. As federações são as representantes da CBF em seus Estados", disse o presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF), Reinaldo Carneiro Bastos. "Tem sua importância porque promovemos campeonatos de base, femininos e temos ações sociais. Mas o maior patrocinador do meu futebol são as empresas privadas", disse José Vanildo da Silva, presidente da federação do Rio Grande do Norte.

Sobre o continuísmo, Vanildo, no poder desde 2007 (nos dois primeiros anos, completou como vice o mandato de Alexandre Cavalcanti), ele lembra que a lei que regulamentou Profut vai acabar com a farra. A partir dos próximos mandatos - a maioria começará em 2019 - só será permitida uma reeleição.

Francisco Novelletto, o presidente da Federação Gaúcha, é mais radical. "Eu sou suspeito em falar, mas o cara quando é bom tem de ficar 200 anos", disse. Ele está a 14 anos na presidência e garante que sairá ao fim do mandato, em 2019. "Podia me candidatar de novo, mas não quero". No próximo ano, ele assumirá uma das vice-presidências da CBF.

A reportagem tentou contato telefônico com Zeca Xaud, o presidente da federação de Roraima, e Antônio Aquiino Lopes, há 34 anos à frente da Federação Acreana, sem sucesso.

‘Voo da alegria’ da CBF para a Copa do Mundo da Rússia custará até R$ 3 milhões

A CBF não confirma os valores, mas a estimativa é que a entidade gastará entre R$ 2 milhões e R$ 3 milhões para levar presidentes de federações e de 10 clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro para acompanhar in loco na Rússia os três jogos da seleção na primeira fase da Copa em Rostov, São Petersburgo e Moscou.

Como justificativa para levar os cartolas ao Mundial, a CBF alega que também promoverá uma agenda de trabalho com reuniões e visitas técnicas às instalações que serão utilizadas no evento. Todos os gastos de passagem aérea e hospedagem serão bancados pela entidade.

Após ensaiar um movimento de oposição à atual gestão da CBF antes da eleição de Rogério Caboclo, o presidente da Federação Paulista de Futebol, Reinaldo Carneiro Bastos, decidiu recusar o convite da entidade, mas vai à Rússia. “Vou assistir aos três primeiros jogos do Brasil, mas por minha conta”.

Ele, no entanto, defende o convite feito pela CBF para levar os presidentes de federações ao Mundial. “A Copa é um evento que acontece a cada quatro anos. É o maior evento do mundo. Acho a viagem justa, mas tem de ter clareza. Não acho errado, mas a forma precisa ter transparência. Tem de falar as regras. Se a CBF tem certeza que aquilo é correto, não precisa esconder nada”, disse.

Apesar de ter votado em Rogério Caboclo, depois que passou a fazer oposição ao comando da CBF o presidente da FPF perdeu a sua cadeira no Conselho da Conmebol. Agora, o novo representante do Brasil no órgão é o coronel Antônio Carlos Nunes, presidente da CBF.

O presidente da Federação Gaúcha, Francisco Novelletto Neto, também considera importante que a CBF leve a ele e seus parceiros de entidades estaduais à Rússia durante a Copa. “É importante porque vamos aprender, nos instruir. Eu trabalho a vida inteira para o futebol sem ganhar um centavo. Nada mais justo”, disse. “Eu não preciso de dinheiro, eu tenho porque sou empresário bem-sucedido, mas é justo”.

Ele vai assistir apenas aos dois primeiros jogos da seleção, contra Suíça e Costa Rica, pois tem compromissos no Brasil. “Mas depois eu vou voltar nas quartas de final e levarei 12 funcionários da minha empresa, que eu convidei. Todas as despesas serão pagas por mim”.

Os clubes que tiveram presidentes sorteados para ir à Rússia são: Atlético Mineiro, Bahia, Atlético Paranaense, São Paulo, Ceará, Avaí, Guarani, CRB, Brasil-RS e Paysandu.

 

Fonte: Lance!/Agencia Estado/Municipios Baianos

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