16/05/2018

Quem tem medo do fenômeno das fake news?

 

Alguns gigantes midiáticos parecem padecer de crônica falta de memória – ou de semancol, para utilizar o jargão popular. Especializados em criar realidades paralelas, dizem-se agora preocupados com o fenômeno das fake news. Afinal, as grandes empresas de mídia esmeram-se em produzir fake news – Globo, Folha, Veja, um reino de inventores de fatos, estampados em corpo gigante na capa e desmentidos na página 22 do segundo caderno. Quando acontece. Antigamente corria a piada de que os grandes jornais mentiam até nos horários de cinema. Compulsão. O uso do cachimbo entorta a boca.

Recordar é viver. Nos anos 70, um jornal paulistano, daqueles impressos com sangue, inventou uma estória de arrepiar. O bebê-diabo teria nascido em São Bernardo do Campo. Calma, leitor assombrado, não era esse que vocês estão pensando, aquele lá do ABC é outro, nasceu em outro lugar. O rebento, com chifres, rabo e coloração rubra, teria fugido da maternidade e fora visto saltando sobre os telhados. No mês seguinte, o jornal noticiava que havia chegado ao outro lado da metrópole, assombrando os habitantes de Osasco, no lado oeste da Grande São Paulo.

Nos anos 90, foi a vez do ET de Varginha. Aparentemente desabado naquela cidade mineira, vagara por vários cantos e fora finalmente capturado e abatido. O cadáver do alienígena teria sido mantido em sigilo.  Até mesmo a Unicamp entrou na estória – circulava à boca pequena que o ET estava sendo periciado nos laboratórios de nossos especialistas. Como surgiu, desapareceu.

Talvez isso já fosse o que hoje se chama de fake news, não importa o rótulo. Mas eram coisas amadoras, nas dimensões do que eram os meios de comunicação de massas em que medravam. Bebê-diabo e ET de Varginha raramente chegavam à TV. Chegavam ao jornal popular e aos programas de rádio voltados para o público de baixa renda. Eram programas que novelizavam o crime e hipnotizavam ouvintes como antes faziam os dramas da Rádio Nacional ou as estórias de aventura de Jerônimo, herói do sertão.

A TV trouxe ao mundo um outro gênero de fake news e um novo alcance. Poderíamos lembrar numerosos casos, mas sem dúvida o mais espantoso e instrutivo foi a sinfonia televisiva que celebrou a escalada bushiana – a invasão do Afeganistão e, depois, do Iraque. Muito se escreveu sobre isso, lá como cá. Um ex-repórter muito competente da TV Globo foi um dos autores: Deus é inocente, a imprensa não, de Carlos Dorneles. Em pouco tempo, um presidente com baixos níveis de aprovação tirava proveito de um ataque terrorista até hoje pouco explicado e transformava completamente as relações de força. Com a sinfonia de vozes repetindo mantras de guerra, quase todos os políticos e formadores de opinião cerravam fileiras em torno de crenças nada superiores às do bebê-diabo: Sadam era sócio da Al-Qaeda, tinha armas de destruição em massa. O Afeganistão passava a coadjuvante. Sadam era a encarnação do demônio. Bebê-diabo da nova era.

A mídia militantemente “criativa” vinha de antes, é verdade. A famosa Fox News tinha sido criada por Rupert Murdoch na metade dos anos 1990. E se tornou a grande inventora de realidades paralelas. Mas, no caso do Iraque, de modo algum a Fox foi grito solitário. Pelo contrário, toda a grande imprensa “séria” e “equilibrada” se entregou ao delírio belicista e à difusão de informações sabidamente duvidosas (para dizer o mínimo). Durante alguns anos Bush conseguiu inventar uma realidade paranoica, suficiente para afundar o país numa guerra sem saída, enriquecer as empresas nela envolvidas e... deixar correr o barco que trombaria no iceberg da grande crise de 2008. Uma proeza viabilizada pelo fake geral.

No momento, temos um novo capítulo desse romance das fake news. Talvez mais saboroso e menos sangrento (por enquanto) do que aquele do Iraque. Trata-se da captura do sistema eleitoral americano pelos russos, os pérfidos bárbaros da estepe. A mídia norte-americana, quase inteiramente envolvida com a candidatura Hilary Clinton, depois de cair de suas nuvens embarcou em outra aventura igualmente delirante. Descobriu, de repente, que o sistema político norte-americano (e não apenas o eleitoral) é muito vulnerável à captura de interesses sorrateiros. Não, não eram os banqueiros de Wall Street, o complexo militar-industrial ou as sete irmãs do petróleo. Neste caso, como dissemos, vinham a cavalo os perigosos neo-vermelhos.

A farra começou a ficar engraçada porque logo alguns mais céticos lembraram o óbvio: a maior organização criminosa do planeta era especialista em fazer exatamente isso, manusear sistemas políticos e eleições em todo o planeta. Desde sua criação, depois da Segunda Guerra, a CIA criou divisões especializadas nesse delito – em operações abertas ou encobertas. A literatura sobre as suas desgraças é enorme. E fartamente documentada, sem fake news.

Uma das mais picantes cenas do debate recente ocorreu quando um antigo diretor da agência, Kent Harrington, publicou um artigo tentando explicar porque os norte-americanos eram tão vulneráveis a essas manobras de engana-trouxa.

Harrington afirma que os serviços de inteligência de Putin escolheram bem seus meios de ataque. Facebook e Google concentram muito da informação das redes. E suas regras permitiam um assédio fácil e... barato. O problema, diz Harrington, está além das tecnicalidades daqueles que vivem falando em algoritmos inteligentes, transparência e compromisso com a verdade: essas tecnologias não foram desenhadas para diferenciar verdadeiro de falso ou coisa parecida. Eles estão preparados apenas para maximizar cliques, compartilhamentos e “curtições”. Nos últimos dias, aliás, o Guardian e o New York Times reportaram como assessores de Trump faziam diabruras com a ajuda de uma empresa especializada nisso – e o algoritmo é poderoso mas aparentemente muito simples.

Então, diz o moço da CIA, o problema está um pouco além: “um eleitorado pobremente educado, suscetível de manipulação”. E daí vêm as razões de tal devastação. Nesse desastre cumpre papel fundamental a concentração da mídia, o desaparecimento dos jornais locais, comprados por grandes corporações e a deterioração do que se chama de “jornalismo”. Os resultados? Diz ele:

 “Considere a evidência: em 2005, uma pesquisa da Sociedade Americana de Advogados descobriu que 50% dos americanos não conseguem identificar corretamente os três poderes da república. O Annenberg Center for Public Policy fez a mesma pergunta em 2015 – a porcentagem de respostas como essas tinha subido para dois terços e uns 32% sequer conseguiam citar o nome de um dos ramos do governo”

A concentração da mídia veio casada com um irmão gêmeo: a busca empresarial pelo lucro máximo e rápido, de curto prazo. Harrington cita o depoimento de um manual do ramo: “Nosso cliente é o anunciante” diz o documento. “Leitores são os clientes de nossos clientes”, portanto, “nós operamos com uma equipe enxuta”.

Ao contrário do que dizem os comerciantes locais, não é exatamente com o leitor que o jornal tem rabo preso. Para bom entendedor...

Assim, o drama é muito maior do que o assalto de neo-bolcheviques perversos. Se Putin, lá de fora, conseguiu tal proeza – eleger o improvável Trump contra a glamurosa Hilary, o que não teria sido feito, ao longo do tempo, pelos gênios que povoam Wall Street, por exemplo? Basta ver como Robert Rubin forjou, com calma e engenho, o seu golpe de mestre, a educação de Obama, o melhor presidente negro que o dinheiro pode comprar. No primeiro ano de governo, salvou os bancos, deixou os endividados a ver navios e desandou a fazer shows. Enquanto isso, no plano interno, sua equipe econômica mantinha os sonhos de Wall Street e a dupla country Hillary e Kerry derrubava governos e financiava golpes. Mais até do que fizera o espalhafatoso Bush filho.

A tagarelice sobre as fake news pode até desviar os olhos de tantas notícias nada fake.  E pode também reforçar o medo dos grandes monopólios de mídia com o fato de ver novos concorrentes na criação de boatos. Faz algum tempo, numa greve de jornalistas de São Paulo, um gaiato engenhoso pintou uma frase nos muros: “Não compre jornais, minta você mesmo”. Talvez a era do Facebook venha a transformar este sonho em realidade.

Onde tudo começou: o despertar das Fake News. Por David Macaray – Tradução de Isabela Palhares

Há tempos sugerem que o primeiro exemplo completo de uma “fake news” – no qual falsas informações são intencionalmente apresentadas em um “veículo de mídia” falso mas creditável de forma a moldar a opinião pública – ocorreu durante as eleições para governador da Califórnia em 1934.

Os dois protagonistas eram o encarregado Republicano, Frank Merriman, e seu oponente Democrata, Upton Sinclair. Merriman, um peso leve político sem perfil nacional, era visto pelo Comitê Nacional Republicano (RNC) como um macaco de circo do partido da região da costa oeste. Como vice-governador ele foi lançado para o cargo quando o governador James “Sunny Jim” Rolph morreu de um ataque cardíaco em junho de 1934, meses antes da eleição.

Seu oponente principal, Upton Sinclair, era um socialista, jornalista e reformista, autor do celebrado “The Jungle”, o best-seller que expôs a indústria de empacotamento de carne de Chicago. Porque o país ainda estava se recuperando da pior depressão econômica da história, Sinclair escolheu basear sua campanha no projeto EPIC (Acabar com a Fome na Califórnia).

Basicamente, EPIC era um programa socialista ambicioso cujo objetivo era trabalho para todos. Dentre outras coisas, EPIC prometeu grandes programas públicos de emprego, a reorganização da indústria da agricultura em cooperativas, e controle estatal virtual das fábricas da Califórnia.

Dada a popularidade geral do New Deal de Roosevelt, e o fato de que a esquerda norte-americana ainda estava se alimentando de migalhas da Revolução Russa de 1917, a noção de “eliminar pobreza” era considerada não somente como necessária mas também como algo viável.

Além de Merriman e Sinclair, haviam dois jogadores notáveis: Louis B. Mayer, o poderoso da MGM, cujo domínio sobre a indústria cinematográfica permitia que se comportasse como o deus sol (pense em um Harvey Weinstein ampliado 100x), e a firma de publicidade e relações públicas, Whitaker & Baker.

Em relação às fake news, acontecia assim: Louis B. Mayer abraçou a missão de garantir que a Califórnia, mesmo estando atada economicamente, não sofresse com os objetivos socialistas doutrinários de Upton Sinclair. Ele fez isso com a mágica e músculo de Hollywood.

Mayer contratou Whitaker & Baker para produzir uma série de noticiários falsos que iriam, por certo, não somente influenciar pessoas, como também assustá-las. Disfarçados para lembrarem noticiários verdadeiros, Mayer garantiu que esses instrumentos de propaganda fossem mostrados nos cinemas da Califórnia – tão reais quanto os noticiários. O público não tinha a menor ideia que estava sendo enganado. As pessoas ou ficavam confusas com o que viam, ou morriam de medo.

Um exemplo desses noticiários de fake news contou com hordas de pedintes desesperados emergindo dos vagões de um trem. Um jornalista falso estava lá para entrevistá-los. Um dos pedintes explicou que sua presença na Califórnia era por causa de Sinclair, declarando “ele vai tirar a propriedade dos trabalhadores e vai dar para nós”. O público não precisa de decodificadores bolcheviques para entender a mensagem.

Em um outro exemplo, um homem barbudo, mal arrumado, (o oposto de um homem de Iowa, bem apessoado) com um sotaque russo falso, explica porquê iria votar em Sinclair. “Seu sistema funcionou bem na Rússia, então porque não funcionaria aqui?”

É claro, até as agências de publicidade mais famosas nunca sabem ao certo se esses pontos incendiários vão funcionar, e isso aconteceu com a Whitaker & Baker. O jeito que as agências (e seus clientes) consideram sua potência é pelos resultados. Como costumam dizer, tudo o que você pode fazer é botar no chão e ver se o gato lambe.

Mas no geral a campanha de fake news de Mayer foi um sucesso. Merriman ganhou com quase 48% dos votos, Upton ficou em segundo com quase 37% e Raymond Haight, concorrendo como Progressista, ficou com 13%. Samuel Darcey estava na disputa como candidato do Partido Comunista, e Milen Dempster como candidato do Partido Socialista. Nenhum dos dois chegou perto de metade de 1%.

Enquanto as campanhas políticas e as propagandas de hoje se tornaram mais sofisticadas e sutis, a ética se mantém cheia de vermes. Considere o “push poll” como primo de primeiro grau das fake news de Mayer.

Nesse caso, os sondadores fingem estar fazendo uma pesquisa, mas estão na realidade empurrando uma agenda. Aconteceu na Carolina do Norte, em 2000, durante as primárias Republicanas entre George Bush e John McCain. Os sondadores fizeram essa pergunta aos eleitores: você estaria mais ou menos inclinado a votar em um candidato que gerou uma criança negra fora do casamento?

Não acusaram diretamente McCain de gerar uma criança mestiça porque isso exigiria provas. Ao invés, disseminaram rumores ao fingir que eram perguntas inocentes. As pessoas ainda insistem que esse push poll funcionou. Que foi responsável pela vitória de Bush. E porque não funcionaria aqui?

Fake data: a evolução das fake News. Por Victor Oliveira

Desde a eleição de Donald Trump para a Presidência dos Estados Unidos, um tema tem sido recorrente nos debates sobre as disfuncionalidades da democracia: as fake news. Tratam-se de notícias falsas, divulgadas em sites apócrifos e que tem o intuito de causar danos na imagem de algum adversário político, ou figuras próximas a esse adversário. Entretanto, observa-se um fenômeno ainda mais difícil de ser combatido e que também ganhou força na era das redes sociais: as fake data.

Diversos sites de checagem de fatos foram criados, jornais e portais dedicam uma parte de seu conteúdo para desmentir notícias falsas veiculadas na internet, porém as fake news continuam a existir e aparecer com frequência nas redes sociais e nos grupos de Whatsapp da família. A maior dificuldade em torno delas é fazer com que o desmentido atinja a mesma quantidade de pessoas que a notícia falsa atingiu.

Uma vez desmentida, não há mais discussão em torno daquela notícia falsa, embora alguns indivíduos ainda prefiram acreditar na mentira, seja por teorias da conspiração e/ou fanatismo de qualquer tipo. Tome-se o caso da vereadora Marielle Franco, vereadora do PSOL assassinada no Rio de Janeiro. Logo após sua morte, espalhou-se nas redes sociais uma notícia dizendo que ela teve um casamento com o traficante Marcinho VP. O embasamento da notícia se dava por uma foto, na qual nem Marielle nem Marcinho apareciam. Rapidamente, espalhou-se a verdade, com uma simples checagem de fatos e comparação de imagens da vereadora e traficante, para se concluir que ambos nunca tiveram um relacionamento.

Isso é um ponto importante das fake news: elas são fáceis de desmentir, pois não existe um choque de versões sobre um fato, mas sim um fato verdadeiro e uma mentira, claramente demonstrados. Ao contrário das fake news, os fake data são extremamente mais difíceis de desmentir.

Afinal, o que seriam fake data? Eles são uma evolução das fake news. Os fake data consistem em dados distorcidos, retirados de contexto ou, às vezes, falsos mesmo usados para embasar diagnósticos equivocados da realidade ou soluções mágicas de problemas extremamente complexos. Para ganhar autenticidade, os fake data são corroborados por autoridades no assunto em que estão inseridos: economistas, professores, técnicos de governo e lideranças políticas.

O exemplo máximo de fake data é o famoso gráfico da Auditoria Cidadã da Dívida Pública. De acordo com o gráfico, o Brasil gasta todo ano quase metade de seu orçamento para pagar juros da dívida pública para banqueiros internacionais, sendo este o motivo pelo qual falta recursos para investir em áreas prioritárias do governo. Na linha de frente desta campanha está uma ex-técnica da Receita Federal, e a história é propagada por políticos e lideranças de movimentos sociais.

Porém, assim como as fake news, ela é falsa. Uma rápida consulta ao orçamento federal e ao site do Tesouro Nacional bastam para ver que esse montante é o refinanciamento da dívida pública federal, que na prática consiste no governo emprestar dinheiro para pagar outro empréstimo. É como se o leitor tomasse emprestado 100 reais do banco A, tendo que pagar daqui um ano com juros de 10%. Ao fim do prazo, o leitor não tem os 110 reais (100 do principal + 10 de juros) e recorre ao banco B para emprestar o dinheiro. O banco aceita emprestar e cobra juros de 10% também. Ou seja, a dívida que era de 110 reais aumenta para 121 reais, mas agora o credor não é mais o banco A, mas o banco B.

Além disso, a maior parte da dívida pública é interna, com títulos vendidos no mercado nacional, podendo ser adquiridos por instituições e pessoas físicas. Os dados sobre a composição da dívida pública, bem como seus detentores são divulgados mensalmente pelo Tesouro Nacional. Se o leitor aplica dinheiro num fundo de previdência privada, muito provavelmente é um dos “rentistas” beneficiados pelos juros da dívida pública.

Assim como acontece nas fake news, os fake data também deveriam ser prontamente desmentidos. Porém, a desonestidade intelectual de oportunistas de plantão transforma esse processo num debate, como se ambas as versões fossem factíveis. Com isso, uma parte da sociedade é levada a acreditar em soluções fáceis e enxerga os problemas do país de maneira equivocada, com respaldo de técnicos e especialistas em busca de dividendos políticos para o grupo que apoiam.

Portanto, os fake data constituem pior problema para a democracia do que as fake news. Com eles, é possível montar um programa de governo fantasioso, dizer que não há déficit na Previdência ou que o desemprego aumentou depois da Reforma Trabalhista, com os argumentos escritos e reverberados por uma elite intelectual desonesta, que toma proveito do desconhecimento de parcela majoritária da população sobre temas mais técnicos, como economia e orçamento público.

As eleições ainda nem começaram e a produção de fake data segue a todo vapor, sem que o TSE ou alguma instância da burocracia estatal se preocupe em formas de combatê-los. Desta forma, é alto o risco de lidarmos com um novo estelionato eleitoral, com consequências gravíssimas para a economia e institucionalidade do país.

 

Fonte: Jornal da Unicamp/ Counter Punch /Os Divergentes/Municipios Baianos

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