30/05/2018

O legado da Copa de 2014 sonegado pela CBF

 

O relógio na sede da CBF, no Rio de Janeiro, marcava 12h40. Há exatos quatro anos, os dois últimos mandachuvas do futebol brasileiro assinavam um pacto com o Congresso Nacional comprometendo-se a adotar medidas para combater o abuso sexual, o trabalho infantil e o tráfico de crianças nas categorias de base. Hoje, às vésperas de outra Copa do Mundo, José Maria Marin está preso e condenado por formação de quadrilha, suborno e lavagem de dinheiro. Marco Polo Del Nero, seu sucessor, banido pela FIFA. E a CBF ainda não cumpriu a promessa de proteger milhares de jovens atletas que pelejam com a bola nos pés.

Pelo acordo assinado em 2014, a entidade máxima do futebol nacional deveria implementar 10 ações a fim de evitar violações dos direitos de crianças e adolescentes em clubes e escolinhas. No entanto, no ano passado, o Congresso constatou que apenas duas medidas haviam saído parcialmente do papel. O acordo foi fechado após desdobramentos da CPI da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, que apurou dezenas de casos de abuso relacionados ao futebol cometidos por treinadores, olheiros, empresários e dirigentes. A ideia era aproveitar a ocasião da Copa em solo nacional para deixar um legado em favor de meninos e meninas que praticam o esporte mais popular do país.

Legado que virou descaso. Inicialmente, a CBF ignorou o chamado da Câmara dos Deputados para prestar contas sobre o pacto em setembro de 2017, mas, no último dia 15 de maio, o secretário-geral da confederação, Walter Feldman, respondeu aos questionamentos dos parlamentares em audiência pública promovida pela Comissão do Esporte. Ele reconheceu que a situação das categorias de base no Brasil é “dramática” e que sua entidade pouco fez para combater abusos e violações de crianças no futebol. Entretanto, criticou o acordo assinado em 2014, qualificando-o como “um ato político, proselitista e de impossível execução”. Deixou explícito que o trato não foi cumprido devido aos escândalos de corrupção que levaram ao indiciamento dos três últimos presidentes eleitos da CBF.

Apesar da justificativa constrangedora, a maioria dos deputados presentes na audiência se eximiu de cobrar a confederação. Pelo contrário. Alguns congressistas, integrantes da famigerada “bancada da bola”, fizeram questão defenderam um “voto de confiança” à entidade, como Vicente Cândido – que acumula as funções de deputado federal pelo PT com o cargo de diretor de assuntos internacionais na CBF. A única que não engoliu as desculpas de Feldman foi a deputada Erika Kokay, também do PT, que presidiu a CPI da Exploração Sexual. Ela indagou o secretário: “Quer dizer, então, que a CBF assinou um pacto que não pode cumprir? A instituição que o senhor representa queria enganar o parlamento?”.

Na época da assinatura do pacto, estavam sentados à mesa o então presidente da confederação, José Maria Marin, seu vice Marco Polo Del Nero e a ex-deputada Liliam Sá, do Democratas, que era relatora da CPI. Ela rasgou elogios a Marin, que, no fim daquele ano, passaria o bastão da presidência a Del Nero. “O senhor está deixando um grande legado na sua administração. Isso é muito importante. Eu sei que o Dr. Marco Polo vai fazer também um excelente trabalho. Já vai pegar a casa pronta, não é, doutor?”, declamou Liliam Sá. Coincidência ou não, dois anos antes, a convite de Marin, ela havia sido chefe da delegação feminina de futebol na Olimpíada de Londres.

Esse é o modus operandi da CBF. Distribuindo cargos, mimos e agrados a políticos e empresários, a confederação defraudada por negociatas ilícitas constrói uma poderosa rede de poder que blinda seus cartolas de responder pelos atos da instituição. Ao debochar do pacto firmado por Marin e Del Nero, sugerindo que parlamentares perseguem e adotam discurso de “culpabilização da CBF”, o secretário Feldman copia uma estratégia comumente utilizada pelos patrões: a terceirização de responsabilidades. Foi assim que Del Nero não hesitou em atribuir a culpa pelo 7 a 1 a Felipão e Parreira depois do fiasco na última Copa. Foi assim que Ricardo Teixeira, antes de ser indiciado pelo FBI, culpou o mau humor dos jornalistas pelo atraso do futebol brasileiro.

Feldman prometeu reformular as medidas propostas pelo Congresso, disse que o combate ao abuso sexual nas categorias de base é um “compromisso consistente da CBF” – imagine se não fosse – e jurou que os clubes que não respeitarem integralmente os direitos básicos de crianças e adolescentes atletas serão impedidos de disputar competições oficiais. Qual é a garantia de que uma confederação que não honrou obrigações assumidas por dirigentes corruptos, mas que agora se vende como instituição moderna afeita à governança corporativa e ao compliance, irá, enfim, colocar o discurso em prática?

O secretário Feldman se recusou a estabelecer prazos para cumprir as promessas. Porém, não ruborizou ao cravar categoricamente que “a CBF é um exemplo de gestão para o mundo”. Por enquanto, sob o afã de que uma boa campanha na Copa da Rússia sirva de cortina de fumaça para o descrédito popular que a acompanha nos últimos anos, a CBF é só um exemplo de como escândalos de corrupção dilapidaram ainda mais nosso futebol. Por causa dos dirigentes corruptos que fizeram carreira na confederação, a FIFA bloqueou um fundo de legado da Copa superior a 300 milhões de reais. Fundo este que, entre outros projetos, deveria ter bancado medidas de proteção para que jovens atletas não tivessem seus sonhos arruinados por violências tão cruéis como o abuso sexual.

Nesses quatro anos entre uma Copa e outra, entre a assinatura e o descumprimento do pacto, foram registrados 79 casos de abuso contra crianças e adolescentes no futebol brasileiro. Diante do cenário dramático, como admitiu o secretário, a CBF responde com passividade, ironias e mais promessas. O legado da Copa, pelo menos para os futuros jogadores do Brasil, foi um mero acordo de fachada, que, segundo a confederação, não deveria nem ter existido porque seus cartolas, pobrezinhos, eram corruptos demais para cumpri-lo.

Que a política não envenene o Brasil na alegria da Copa. Por Juan Arias

É sabido que o futebol, como a religião, no Brasil e no mundo, na democracia e na ditadura, é usado pelos políticos como trampolim para seus cálculos de poder. Nunca vou esquecer aquela vez que ainda em vida do ditador espanhol Franco a seleção da Rússia jogou em 21 de junho de 1964 em Madri contra a Espanha. O caudilho e seu regime, campeões do anticomunismo, tinham lançado uma campanha para apresentar os jogadores russos como pouco menos do que monstros. Franco quis assistir à partida. Lembro de um grupo de senhoras bem curiosas por ver os jogadores soviéticos que exclamavam decepcionadas: “Mas são homens normais e bonitos!”. A tensão no estádio era grande. A Espanha franquista tinha de ganhar da Rússia comunista. Quando chegou o gol de Marcelino aos 35 minutos do segundo tempo, que daria a vitória à Espanha, houve alguns segundos de silêncio e, em seguida, o estádio, de pé, gritou: “Franco! Franco! Franco!”. O Caudilho tinha vencido a Rússia.

“Que o Brasil perca a Copa, que a greve dos caminhoneiros não pare e que o país exploda de uma vez”, ouvi um jovem brasileiro desiludido, funcionário dos Correios, dizer esta manhã. A política também acabará envenenando o Mundial de futebol? Li que existe um movimento para boicotá-lo. Imagino que se trate de quem deseja manter vivo o mau-humor de uma sociedade descontente com seus governantes. É o demônio do derrotismo que aparece justamente no momento em que este país precisa de algo que o unifique e o entusiasme, que o faça acreditar que até as piores derrotas podem ser superadas.

Como jornalista fui testemunha em minhas viagens pelo mundo da simpatia que sempre despertou nos cinco continentes o futebol brasileiro, metáfora de beleza e fantasia. E sou testemunha, desde que cheguei a este país, que se há algo capaz de congregar todos os brasileiros, de todas as classes sociais, econômicas e intelectuais, é o futebol. O clássico e popular grito: “Brasil! Brasil!”, lançado diante do gol ressoa desde a Bolsa de Valores de São Paulo até a última das favelas. E com ritual idêntico. Do sério presidente de empresa ao último peão, do analfabeto ao catedrático, diante do gol, pulam da cadeira, erguem os braços e acabam abraçando o primeiro que cruzarem a seu lado.

No Brasil, a Copa costuma coincidir com as eleições presidenciais e sempre se discutiu se uma vitória ou uma derrota da seleção nacional as influencia positiva ou negativamente. Não sei se há estatísticas sobre isso. No entanto, este ano o resultado da Copa poderá condicionar o ânimo dos eleitores. Poucas vezes, de fato, os brasileiros chegaram tão perto das eleições com tanta apatia, incerteza e irritação. A conquista do hexacampeonato poderia ajudar a recuperar parte dessa confiança que foi por água abaixo pela desilusão com os políticos e governantes?

Desde 1930, quando se realizou a primeira Copa do Mundo, no Uruguai, somente oito países ganharam a competição e apenas o Brasil o venceu cinco vezes. E este ano, segundo um estudo da Fundação Getúlio Vargas que envolveu um milhão de simulações, o favorito volta a ser o Brasil, com a Espanha, França e Alemanha. Meus amigos brasileiros já começaram a me perguntar se ficarei feliz se o Brasil conquistar o hexa ou prefiro que perca, seguindo a onda de descontentamento que açoita o país. Não. Eu aposto na vitória do Brasil precisamente para ir contra o derrotismo, um luxo que talvez se possam permitir aqueles a quem não falta nada ou os que apostam em manter o país dividido e irritado. O hexa seria a melhor metáfora de que o Brasil pode sair da crise política e de confiança em suas instituições usando a fórmula do treinador, Tite, uma mescla de seriedade, confiança, esforço e imaginação, talvez o que está faltando à política.

Torço para que o Brasil traga da Rússia seu sexto troféu mundial como presságio de que nas urnas saberá marcar também o melhor gol de sua democracia. Um gol contra a impunidade e a corrupção e em favor de uma época de prosperidade econômica e de tranquilidade social. Um gol capaz de devolver às pessoas a alegria que lhe roubaram. E que o triunfo na Copa e o resultado das urnas possam ser celebrados em um clima menos hostil, voltando a se olhar nos olhos em paz, sem ódios.

A seleção que despreza sua gente

Neste atípico domingo, a seleção brasileira encerrou a primeira etapa de preparação para a Copa do Mundo e embarcou rumo a Londres, onde prosseguirá com os treinamentos antes de chegar à Rússia. Enquanto o país vive um colapso de serviços em consequência da greve dos caminhoneiros, jogadores, comissão técnica e dirigentes circulavam de helicóptero entre Teresópolis e Rio de Janeiro. Seguiram para o Galeão sob forte escolta policial e tiveram cada passo no aeroporto transmitido como um estrondoso acontecimento em rede nacional. Despedida digna de uma seleção que despreza sua gente. O processo de elitização dos estádios e a frieza dos cartolas ampliaram o abismo que separa os craques dos meros mortais.

Na Granja Comary, a equipe de Tite fez apenas um treino aberto ao público. A confusão logo se estabeleceu, já que o centro de treinamentos em Teresópolis não possui estrutura para abrigar tantos torcedores. Muitos, incluindo crianças com camisas amarelas, foram barrados do lado de fora mesmo depois de passar horas na fila à espera de uma senha de acesso ao local. Sim, é preciso pegar senha para acompanhar um treino protocolar da seleção. Um treino. Quem conseguiu entrar, se acotovelava por uma selfie ou um autógrafo durante os minutos em que jogadores se dispuseram a atender os fãs. Amontoadas em uma grade que controlava a entrada para as arquibancadas improvisadas, algumas pessoas demonstraram a revolta contra o tratamento de gado dispensado pela CBF com gritos de “uh, uh é 7 a 1”, em alusão ao maior vexame da história do futebol brasileiro.

Resumo da ópera: teve tentativa de invasão, frustração e muita desorganização. Na Copa de 2014, a Granja Comary já havia reproduzido um retrato fiel da desigualdade social no Brasil. Boa parte dos treinos era aberta a torcedores, porém, somente àqueles que moram no condomínio fechado vizinho ao complexo e a seus convidados VIPs. Condôminos resolveram lucrar em cima do privilégio e passaram a cobrar por convites. Ter o nome na lista custava entre 50 e 100 reais. Os treinos “abertos” serviram só para reforçar benesses dos ricos e tornar a seleção ainda mais inacessível aos pobres.

A Copa “padrão FIFA” tinha ingressos proibitivos para quem depende de salário mínimo padrão Brasil. Houve casos de abastados que torraram até 5.000 reais pelo direito de assistir à humilhante eliminação diante da Alemanha na semifinal. O encarecimento virou regra pós-Copa. Estádios se converteram em espaços elitizados e os clubes, na esteira das novas arenas, inflacionaram a arquibancada, chancelados pela política de preços da CBF. Os jogos do Brasil em casa pelas Eliminatórias foram um acinte ao bom senso num cenário de crise econômica. Em Porto Alegre, contra o Equador, as entradas custaram, em média, 214 reais. Mais de 20.000 lugares na Arena do Grêmio ficaram vazios. Contra o Paraguai, na Arena Corinthians, que confirmou a classificação antecipada para o Mundial, o preço dos ingressos variou entre 100 e 1.000 reais. Também em São Paulo, a partida contra o Chile, realizada do Allianz Parque, alcançou renda superior a 15 milhões de reais, um recorde nacional. O bilhete mais barato, desconsiderando a meia-entrada, saía por 250 reais.

Quantos brasileiros podem se dar ao luxo de pagar 250 reais para ver um jogo de futebol? Talvez seja pouco para aquele 1% da população que concentra uma enorme fatia das riquezas, mas representa quase 1/3 do rendimento mensal de mais da metade dos trabalhadores do país. A CBF, que fatura caminhões de dólares por ano, não teve sensibilidade para compreender que um treino aberto em Teresópolis é muito pouco para um time que diz representar mais de 200 milhões de torcedores. Depois do fracasso na última Copa, a confederação sequer moveu esforços para reaproximar a seleção de seu povo. Preferiu seguir caminho inverso ao afastá-la de quem não tem dinheiro sobrando.

Um quadro ainda mais grave se levarmos em conta que, dos 23 jogadores convocados para a Copa, apenas três (Cássio, Fágner e Geromel) atuam no Brasil. Nos acostumamos a ver a seleção e nossos talentos pela TV. Interesses de patrocinadores e acordos comerciais sempre falam mais alto. Os dois únicos amistosos antes da Copa, contra Áustria e Croácia, serão promovidos no exterior por intermédio da Pitch International, empresa investigada pela Justiça americana no escândalo de corrupção da FIFA. Ao contrário dos torcedores comuns, representantes e convidados de patrocinadores da CBF tiveram livre acesso às atividades da seleção na Granja Comary.

A comissão técnica chegou a cogitar um jogo de despedida no Brasil, mas a cúpula da confederação não encontrou brecha na agenda para viabilizar o desejo de Tite. Aquele clima de oba-oba inflado em 2014, de fato, é totalmente dispensável. Mas o torcedor brasileiro, carente de ídolos e violentado pela elitização de sua própria seleção, merecia, no mínimo, uma despedida com ingressos a preços populares e estádio cheio – de preferência, o Maracanã, pelo simbolismo. Ou, pelo menos, um treino de verdade, portões abertos, como fez a Argentina ao receber 30.000 torcedores no estádio do Huracán antes de enfrentar o Haiti na mítica Bombonera. Dirigentes que mandam em nosso futebol parecem habitar outro planeta, incapazes de reconhecer o valor de quem se dispõe a enfrentar fila e pegar senha sonhando resgatar, em frações de um minuto, o vínculo perdido com estrelas tão distantes.

 

Fonte: El País/Municipios Baianos

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