07/06/2018

Os tesouros que o aquecimento global destruirá

 

Se a memória se perder, a história será um relato vazio. Restarão palavras soltas, fios desconexos. A mudança climática ameaça o patrimônio cultural do mundo. Compromete a lembrança e sua narrativa. Nada parece estar a salvo. Sítios arqueológicos, itens enterrados, restos de naufrágios, cidades, cemitérios, castelos, templos. A lista dos lugares em perigo é um catálogo que exibe a potencial destruição cultural do planeta. Mas o terrível é que o ser humano não poderá salvar todos eles. Centenas, talvez milhares, serão perdidos. O homem, então, deverá decidir o que abandonar para sempre e o que conservar. E sozinho, frente a si mesmo, avaliará as consequências de seus atos. “Quando uma localização se perde, a memória do lugar e da gente que lá viveu começa a se desvanecer”, argumenta a arqueóloga norte-americana Sarah Miller.

Esse fade out, essa memória vazia, foi precipitado pelo aquecimento global. Talvez o grande medo com o qual o planeta convive. Porque é cada vez mais frequente e devastador. Basta folhear a hemeroteca. O fogo que abrasou parte da Europa em 2008 pôs em perigo o espaço arqueológico de Olímpia (Grécia); dois anos mais tarde, inundações, de novo na Europa ocidental, atingiram Roma, e durante 2013 uma onda de chuvas torrenciais destruiu parte do legado histórico do Estado indiano de Uttarakhand. Todas essas catástrofes foram geradas pela mudança climática. “A ameaça contra o patrimônio do planeta é muito séria”, admite Peter Debrine, assessor do Programa Mundial para o Patrimônio da Humanidade, da Unesco. “Os locais marinhos e próximos às costas são particularmente vulneráveis à elevação do nível dos mares, à erosão e ao aumento da temperatura da água”.

Templos egípcios

Mas não só a água fere, às vezes até a areia mata. No Egito, o templo de Nadura, dentro do oásis de El Kharga, está cada vez mais próximo de se tornar – verdadeiramente – uma ruína. As altas temperaturas, os fortes ventos e a abrasão deterioraram quase metade de sua estrutura. “Se a perda continuar nesse ritmo, as inscrições, os símbolos e os hieróglifos desaparecerão completamente em 2150”, advertiu em uma entrevista recente Hossam Ismael, professor de climatologia da Universidade de Assiut (Egipto).

Quando o ser humano se desentende simultaneamente com a temperatura, a água e a terra, o resultado é devastador. Apenas na Flórida a elevação do nível do mar em dois metros – que alguns estudos preveem para dentro de um ou dois séculos – afetaria 35.000 espaços que fazem parte do seu patrimônio cultural e um número semelhante estaria em risco por causa de tempestades marinhas e furacões. O detalhamento dessa cifra mostra a extensão do problema: 4.000 sítios arqueológicos, 800 cemitérios históricos e 30.000 estruturas e edifícios. Mas se mergulhamos nessas águas, veremos que a alteração do clima também afeta outros tesouros submarinos. “Muita gente acredita que, como os naufrágios ou os sítios arqueológicos já estão submersos, não serão afetados pelo aquecimento global. Mas o aumento da temperatura do oceano incrementa a salinidade e a migração dos pastos marinhos que estabilizam os sítios arqueológicos”, descreve Sarah Miller. Além disso, vários naufrágios que aconteceram na Flórida correm o risco de se perder. Por exemplo, os restos da frota capitaneada em 1559 por Tristán de Luna em Pensacola, ou o navio de guerra francês La Trinidad, que afundou em 1565, em Cabo Canaveral.

As áreas costeiras

Mas se o passado foi uma tragédia, o futuro é um assassinato. David Anderson, professor de Antropologia da Universidade do Tennessee, publicou um ensaio que prevê o desaparecimento de 20.000 sítios arqueológicos em nove Estados do sudoeste dos Estados Unidos. É apenas uma espera de tempo e espaço. Isso acontecerá no que resta de século e com um aumento de apenas um metro do nível do mar. Se levarmos essas estimativas à escala global, a magnitude do dano se revela. “Se as projeções estiverem corretas, podemos perder nos próximos anos uma grande parte do registro arqueológico e histórico da vida humana em áreas costeiras e será necessário, é claro, realojar um grande número de pessoas que vivem nessas regiões”, prevê David Anderson. Isso afetará os vivos e os mortos. Cerca de 7.000 cemitérios em 15 Estados podem ser inundados por essas águas em ascensão.

A paisagem é uma neblina e essa escuridão se estende da Europa à Mongólia. “No Velho Continente, o patrimônio mais afetado por episódios de chuvas intensas são os edifícios históricos de madeira que fazem parte da essência da arquitetura escandinava, centro-europeia e da Europa de Leste”, avalia May Cassar, professora de patrimônio e sustentabilidade do University College de Londres. Longe da Europa, nas terras outrora conquistadas por Genghis Khan, a mudança climática se juntou ao saque para ameaçar a identidade da Mongólia. O agravamento das condições climáticas encurralou as populações nômades. Com a diminuição de seus recursos ancestrais, muitos recorrem à pilhagem de milhares de enterros antigos que estão espalhados pela estepe. São simples círculos de pedra que, quase sempre, contêm corpos humanos e ossos de animais. Mas outros, mais raros, escondem joias, pedras preciosas e ouro.

Ninguém está a salvo da rapina ou da mudança climática. Na Ilha de Páscoa (Chile) os moais milenares (1500-1250 a. C.) começam a claudicar devido à erosão costeira e às inundações, a Estátua da Liberdade (Nova York) teve sua pele de cobre açoitada pelo furacão Sandy e Veneza está enclausurada há anos entre a opressão dos turistas e o fenômeno da acqua alta. E o que será da Espanha? “Sua vulnerabilidade vive unida à falta de chuvas e à desertificação”, adverte Peter Debrine. Isso foi sentido nos Parques Nacionais de Doñana e de Tablas de Daimiel; foi sentido na fragilidade criada pela irresponsabilidade do homem.

TOUPEIRAS COLOCAM STONEHENGE EM PERIGO

Toupeiras e coelhos se tornaram o principal inimigo de Stonehenge, o famoso monumento neolítico do Reino Unido. O aumento da temperatura no inverno atraiu esses animais, e sua compulsão por escavar túneis ameaça a estabilidade da estrutura. Não é uma anedota, mas um sinal de alerta. O organismo público Historic Environment Scotland (HES), que supervisiona os 340 castelos, abadias, ruínas e sítios neolíticos mais importantes da Escócia, identificou 28 áreas de tal fragilidade que estão “sofrendo um nível de risco inaceitável”. Uma preocupação que veio para ficar nessas terras. “No Reino Unido, a mudança climática já afeta edifícios, enterros arqueológicos e o entorno meio ambiental de parques e jardins de importância histórica”, diz Tony Weighell, assessor do Governo britânico para essas questões. Essa natureza ameaçada é a mesma que os países prometeram proteger. “O fato de que esses lugares excepcionais estejam cada vez mais afetados pela mudança climática não só indica a gravidade do problema, mas também o que está em jogo, se os Governos não tomarem medidas em nível mundial”, alerta Peter Shadie, assessor do Programa Patrimônio Mundial da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). A cultura e a memória se queixam, o ser humano as ignora.

Peixes migram para o norte fugindo da mudança climática

Centenas de espécies marinhas estão escapando da mudança climática. Um estudo, que analisou dados de migração deste os anos 60, mostra que muitos peixes estão estabelecendo seu habitat cada vez ao norte. A busca por águas mais frias fará com que alguns se desloquem mais de 1.000 quilômetros até o final do século. Os impactos ecológicos e econômicos desta grande migração ainda não estão claros.

O aumento das temperaturas associado ao aquecimento global está provocando a antecipação das primaveras e o reposicionamento de muitas espécies, também vegetais, em regiões de maior altitude ou latitude, buscando a temperatura à qual estão mais habituadas. O fenômeno, muito estudado na vida terrestre, também estaria acontecendo nos oceanos, segundo um estudo recém-publicado.

A pesquisa, publicada na revista científica PLoS ONE, baseia-se em dados de quase 700 espécies de peixes, crustáceos, cefalópodes moluscos e outros invertebrados distribuídos pela plataforma continental e águas próximas dos EUA, México e Canadá. Desde pelo menos 1963 vêm sendo colhidas amostras com 136.000 pequenas redes de arrasto para capturar um flagrante da riqueza marinha dessa área.

Sobre esses dados históricos, os investigadores projetaram a evolução da presença das diferentes espécies no final deste século. E fizeram isso usando até 16 modelos climáticos diferentes e com dois cenários finais: o benigno, com um aumento de 2º C na temperatura média do planeta, e o mais temido, com mais de 4º C de aumento. Em cada cenário, modelaram as temperaturas máxima, mínima e média da superfície da água e no fundo do mar. Procuravam saber o aumento ou redução do habitat térmico para cada espécie.

“Os dados históricos mostram que muitas espécies compensaram a elevação da temperatura oceânica indo para águas mais profundas”, diz o ecologista James Morley, do Instituto de Ciências Marinhas da Universidade da Carolina do Norte (EUA), principal autor do estudo. O que eles viram é que, além disso, a maioria está deslocando seu habitat para outras latitudes. “Em particular, as espécies de regiões como o nordeste dos EUA, onde a temperatura aumentou muito rapidamente, estão se deslocando para o norte. Ao passo que em outras zonas, como o golfo do México, se deslocaram para águas mais profundas”, acrescenta o pesquisador, que realizou o estudo enquanto estava na Universidade Rutgers.

Essas tendências continuarão ao longo deste século. Concretamente, os modelos usados para imaginar o futuro são unânimes quanto a 446 das 686 espécies estudadas (383 do Atlântico e 303 do Pacífico): todas elas se moverão de seu local habitual. Quanto ao resto, embora não haja unanimidade, a maioria dos ensaios também indica um deslocamento. As distâncias variam muito segundo a zona, a espécie e o cenário climático. Alguns peixes alterarão sua distribuição em algumas poucas dezenas de quilômetros, em especial no cenário mais benigno. Mas outras, particularmente nas costas canadense e norte-americana do Pacífico, “se deslocarão até 900 milhas (1.448 quilômetros) ao norte de seus atuais habitats”, comenta Malin Pinsky, professor de ecologia, evolução e recursos naturais de Rutgers e coautor do estudo.

Peixes como o carapau do Pacífico e o colorido Sebastes pinniger se deslocarão mais de 1.300 quilômetros, do norte do Canadá até o estreito de Bering. Outras espécies próprias de águas mais quentes, como o pargo mulato, terão sua amplitude aumentada graças à elevação das temperaturas. E outros, como o cação, perderam no sul a mesma área (quente demais) que ganharão no norte. Entre as espécies que deverão procurar águas mais frias há algumas vitais para a indústria pesqueira, como o já mencionado carapau, a cavala, o caranguejo-real e o bacalhau atlântico.

Se o aumento da temperatura global se limitar a menos de 2º C, a maior parte das espécies não irá muito longe. Mas, como diz Morley, “num futuro de altas emissões de CO2 podemos antever que muitas das espécies com relevância econômica se transferirão para outras regiões e reduzirão sua presença em suas zonas históricas”.

 

Fonte: El País/Municipios Baianos

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