13/06/2018

O que separa o Brasil de uma crise cambial?

 

As recentes altas do dólar frente ao real levantaram o temor de que o Brasil possa estar prestes a viver uma crise cambial como a da Argentina. Somente neste ano, a desvalorização acumulada do real já alcança 20%.

A disparada da moeda americana e o exemplo do vizinho argentino – e também de países como a Turquia – levaram o presidente Michel Temer no dia 7 de junho a assegurar que "não há risco de crise cambial" no Brasil.

No dia anterior, o economista e guru de mercados internacionais Mohamed A. el-Erian havia alertado sobre a possibilidade de o Brasil ser o próximo país emergente a entrar em crise financeira.

"Depois de Argentina e Turquia, o Brasil será o próximo a enfrentar um distúrbio no mercado de câmbio?”, publicou ele no Twitter.

Na última quinta-feira (08/06), o dólar chegou a atingir a máxima de 3,9674 reais. Após atuação do Banco Central para segurar a moeda por meio de leilões de swap cambial – equivalentes à venda futura de dólares – a cotação fechou em cerca de 3,90 reais.

Nesta segunda-feira (11/06), a moeda fechou em 3,72 reais após forte atuação do BC, que ofertou 2,5 bilhões em swaps cambiais. A expectativa é que entre os dias 8 e 15 de junho as ofertas de swap alcancem mais de 24 bilhões de reais.

Na Argentina, a desvalorização do peso levou o país a recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para pedir um empréstimo de 50 bilhões de dólares. Tanto a Argentina como a Turquia – que passa por uma turbulência similar – vêm sendo afetadas especialmente pelo aumento da taxa de juros nos EUA, que levou investidores a retirar valores de países emergentes em busca dos rendimentos mais seguros na economia americana. É comum que o dólar ganhe força quando o Fed (o banco central americano) aumenta os juros.

Em 2001, os dois países já haviam passado por graves crises financeiras, que derreteram suas moedas. A Argentina chegou a declarar a maior moratória da história.

Apesar das altas do dólar e do nervosismo observado no mercado na semana passada, o cenário brasileiro é diferente da Argentina e da Turquia.

"Não há nenhum sentido em comparar o Brasil a esses países. O que ocorreu foi um momento de pânico disfuncional", garante Lívio Ribeiro, pesquisador da Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV-IBRE).

Ribeiro lembra que a Argentina e a Turquia são países com déficit em conta corrente elevado e têm uma parcelada considerável da dívida em dólar e euro - no caso da Argentina, o percentual passa de 50%.

A situação do Brasil é diferente. A parcela em dólar da dívida é extremamente baixa, não chega a 3% – o país é até mesmo credor líquido em dólar, ou seja, quando a moeda americana sobe, a dívida do país cai. Além disso, o déficit em transações – as trocas com outros países –do Brasil é baixo.

"A situação brasileira tem uma dualidade relevante neste momento. O país não tem risco de crise cambial, já que tem mecanismos para gerar liquidez na busca de proteção e no mercado a vista, face a expressividade de suas reservas cambiais, mas ao mesmo tempo tem um contexto econômico e político amplamente deteriorado que faz com que ocorra forte aversão ao seu risco, o que desvaloriza de forma consistente sua moeda", afirmou Sidnei Moura Nehme, economista e diretor-executivo da corretora NGO.

O país ainda possui reservas cambiais que chegam a 380 bilhões de dólares. Até o momento, nem recorreu a elas. Apenas as operações anunciadas de swap já alcançam metade do valor envolvido no acordo da Argentina e o FMI, o que dá uma dimensão da diferença das ferramentas à disposição de cada país. Antes do acordo com o FMI, os argentinos viram suas reservas caírem para menos de 50 bilhões de dólares. 

"A mera ameaça do Banco Central em agir já levou a moeda a cair", explicou Ribeiro, citando os leilões de swap cambial realizados pelo BC na semana passada, que provocaram queda de 20 centavos no dólar em apenas um dia, a maior queda em um período tão curto desde 2008.

Segundo Ribeiro, é possível que o Brasil experimente mais altas da moeda até o fim do ano por causa de "eventos disfuncionais", ou pânicos que podem ter como gatilho o cenário eleitoral ou novos episódios da crise política.

Ainda assim, nenhum desses episódios deve resultar em uma crise cambial como as que ocorreram no Brasil em 1999 e 2002. "O cenário hoje é totalmente diferente. O país conta com amplas reservas internacionais e não tem déficit elevado em transações. Não se pode comparar os fundamentos brasileiros com os da Argentina e da Turquia", diz.

Ainda segundo Ribeiro, apesar de cenário tranquilizador no curto prazo, o país continua com problemas estruturais que podem favorecer cenários adversos no futuro. "A questão fiscal e a necessidade de reformas são um consenso entre economistas, mas não entre a sociedade. E também persiste a incapacidade crescimento sustentável da economia", concluiu.

Década perdida? Brasil pode ter futuro ainda mais incerto na economia

Estudo realizado para a Estratégia Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (2020-2031), revela que o Brasil pode manter média de baixo crescimento entre 2021 e 2031.

O documento divulgado nesta segunda-feira (11), aponta que o ritmo de aumento da atividade econômica deve estacionar em 1,3% de crescimento do PIB após 2021 e permanecer assim durante a década inteira.

Segundo o estudo, a razão seria a manutenção do rombo nas contas públicas, que colocaria um risco permanente ao crescimento do país.

Com o consequente aumento da austeridade econômica, o déficit fiscal só seria solucionado em 2025.

O plano da Estratégia Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (2020-2031) é orientado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e tem, a partir de 2018, um plano de metas de 12 anos. O documento foi divulgado nesta segunda-feira (11) e permanecerá aberto para consulta pública até a sexta-feira (15).

Esse tipo de prognóstico marca uma mudança no tipo de planejamento, que sai de um padrão de curto prazo e passa a operar no médio e longo prazo, ao lado de um projeto que tramita no Congresso para manter esse planejamento mais longínquo.

O documento é baseado nos números apresentados na Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2019, a LDO 2019, que aponta crescimento do PIB de 3,0% em 2019, 2,4% em 2020, e 2,3% em 2021.

Pessimismo é maior no mercado, diz Banco Central

Apesar dos números apontados na LDO 2019, com base em números de março, o boletim FOCUS, do Banco Central, aponta um cenário mais pessimista.

Nas últimas 4 semanas, a previsão sobre o PIB de 2018 vem caindo. Se em maio o prognóstico era de 2,51%, o percentual diminuiu para 2,18% na semana passada e chegou a 1,94% no relatório divulgado nesta segunda-feira (11). Em 2017, a LDO acreditava que o país cresceria 2,5% esse ano.

Para 2019, no entanto, as previsões do Banco Central já não convergem com a prévia proposta na LDO 2019 para o PIB do ano que vem. Enquanto a lei apresenta previsão de 3% de crescimento, os especialistas ouvidos pelo Banco Central não acreditam que o crescimento passe de 2,8%. Essa foi a primeira semana em que o boletim apresentou variação negativa da previsão de crescimento do PIB no ano que vem.

Em 2016, o mesmo boletim do Banco Central apontava um crescimento de 2% do PIB no ano seguinte, que fechou o ano 1% de crescimento, próximo do número previsto pela LDO-2016.

Mais mercado: uma falsa solução para os preços dos derivados de petróleo. Por Emilio Chernavsky

A política de preços de derivados de petróleo adotada pela Petrobras desde outubro de 2016 atrelou esses preços às cotações em dólar nos mercados internacionais. Ao fazer isso, a empresa abdicou de sua posição dominante e passou a se comportar como se fosse apenas mais um agente em um mercado competitivo. Os resultados dessa decisão que não tem nada de natural e faz parte de um projeto deliberado de transformação do setor no país foram brutalmente questionados pela recente greve dos caminhoneiros que mostrou, não como pretende o presidente da Câmara de Deputados Rodrigo Maia, que o ‘monopólio da Petrobras não serviu de nada’, mas, ao contrário, que é o funcionamento desregulado de um mercado de derivados competitivo que a empresa tentou replicar que aparentemente não serviu.

Ou seja, é justamente a definição de preços pelo mercado imposta pela política que foi ruidosamente rejeitada. Isso porque ela produziu ao menos dois impactos negativos diretos sobre a população. Em primeiro lugar, levou à introdução no país da volatilidade dos preços internacionais inerente a um mercado que, no exterior, é basicamente não competitivo, sujeito às decisões comerciais de algumas poucas grandes empresas e às ações de Estados soberanos seguindo estratégias de desenvolvimento nacional e considerações geopolíticas. A essa volatilidade importada dos preços em dólar se somou ainda a volatilidade especialmente elevada do dólar em relação ao Real.

A grande variação de um preço-chave como o dos derivados aumenta a incerteza da economia gerando um custo que eleva todos os preços, reduz a competitividade do país e deve ser pago por toda a sociedade. Esse custo é especialmente danoso no Brasil, onde a renda média da população é baixa, elevando a parcela gasta com deslocamentos, o modal rodoviário, mais caro e intensivo em combustíveis fósseis, possui alta participação no transporte, e o valor médio das cargas transportadas é baixo, elevando a parcela do frete no preço das mercadorias, dano que é ainda maior para os mais pobres, que gastam parcela maior de sua renda no consumo.

Em segundo lugar, o repasse das variações das cotações internacionais aos preços internos em um momento em que essas cotações crescem fortemente resultou em um volume excepcional de recursos extraídos dos consumidores de derivados e não retidos pela empresa para investimentos diretamente transferidos na forma de dividendos aos seus acionistas, cerca de 55% deles privados e um terço estrangeiros.

Ou seja, na atual situação, a política de preços da Petrobras reduziu a renda disponível nas mãos do conjunto da população em favor de um grupo limitado e geralmente abastado de investidores.

Prejudicial para a população, essa política ao menos aumentou rapidamente o caixa da Petrobras, agradando os acionistas com horizonte temporal mais restrito. Todavia, em médio e longo prazo ela é também prejudicial para a própria empresa. Isto porque os preços dos derivados por ela definidos não são iguais aos preços internacionais, mas, sim, superiores, pois a eles se somam custos como o de frete interno e externo e taxas portuárias, além de uma margem para remunerar riscos.

Com esses adicionais, a importação de derivados refinados no exterior, em especial nos EUA, feita por distribuidoras de origem nacional e estrangeira instaladas no país, tornou-se frequentemente rentável e levou ao forte aumento da oferta importada, compensado pela queda da produção interna viabilizado com a redução da utilização da capacidade instalada das refinarias da Petrobras.

Estas, ainda, foram em parte colocadas à venda, e poderão reduzir ainda mais sua produção em função das estratégias globais de quem vier a ser sua controladora. A política de preços da Petrobras levou, assim, a empresa a perder participação de mercado em atividades – refino de petróleo e distribuição de combustíveis – de alto valor agregado e cuja rentabilidade e geração de caixa, além de elevadas, são muito menos voláteis que a da pura extração de petróleo na qual ela tem se concentrado e, com isso, contribuem para que a empresa apresente resultados consistentes no tempo.

Ruim para a população, a política de preços da Petrobras é, portanto, ruim também para a própria empresa. Nenhuma organização privada a adotaria, dado que reduz os ganhos a médio e longo prazo para seus controladores. Tampouco nenhuma empresa pública normalmente o faria, pois reduz sua capacidade de conduzir políticas públicas de desenvolvimento nacional e de proteção ao consumidor e às empresas instaladas no país contra a volatilidade dos preços internacionais.

Isso não impediu a Petrobras de adotá-la como elemento chave na busca do objetivo não declarado de eliminar o quase-monopólio da empresa e aumentar a competição no refino e distribuição de derivados no país. Ou seja, longe de ser um resultado inesperado, a queda na participação no mercado provocada pela política de fixação do preço dos derivados acima dos internacionais foi deliberada. Não obstante, dados os elevados custos fixos não recuperáveis e as grandes economias de escala e escopo no setor, dificilmente ela será bem-sucedida em criar um mercado competitivo.

Se não o for, esse mercado será dominado por poucas grandes empresas dividindo lucros extraordinários à custa dos consumidores. Já se for bem-sucedida e um mercado competitivo de fato se estabelecer, a dinâmica atual se manterá e os danos à sociedade causados por preços ocasionalmente muito elevados e altamente voláteis em razão da falta de uma cuidadosa regulação governamental podem se mostrar superiores aos eventuais benefícios da competição, como sugere a greve dos caminhoneiros e o maciço apoio popular que recebeu.

É por isso que a política de preços implantada para promover a todo custo “mais mercado” em um setor estratégico para o funcionamento da economia deve ser urgentemente revista em favor de outra, clara e transparente, que reduza a volatilidade e incorpore os custos de produção na definição dos preços no mercado interno, mantendo o papel da Petrobras como agente central em sua regulação.

 

Fonte: Deutsche Welle/Sputinik News/Brasil Debate/Municipios Baianos

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