13/06/2018

Kim e Trump: mais aparência do que essência?

 

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, eram só sorrisos nesta terça-feira (12/06), ao louvarem o progresso que alegam terem feito em seu encontro histórico em Cingapura.

O americano celebrou Kim como "um homem muito talentoso" e assegurou ao mundo que os EUA haviam alcançado sua meta anunciada: uma "abrangente" declaração conjunta com vistas à "completa desnuclearização da Península Coreana".

Kim também estava otimista. Segundo ele, ambos os lados haviam "decidido deixar o passado para trás", e "o mundo vai ver uma mudança de peso". Aparentemente o líder comunista também ganhou algo em troca de abdicar de suas armas nucleares: "garantias de segurança" de Washington para seu país e o estabelecimento de "um duradouro e robusto regime de paz na Península Coreana".

Na prática, porém, a declaração foi breve e vaga, contendo poucos detalhes sobre como Pyongyang vai se desnuclearizar e como os EUA pretendem verificar os passos em direção a esse objetivo.

Angela Stanzel, especialista do Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR), diz que um roteiro substantivo para a desnuclearização nunca foi a meta da cúpula.

"Este foi só um encontro pelo encontro", e o "anúncio simbólico" só pode ser entendido como uma base sobre a qual os altos funcionários americanos e norte-coreanos tentarão definir passos concretos por uma Península Coreana livre de armas nucleares.

Outro detalhe ausente que será crucial em conversas futuras é a delicada questão da verificação. Negociações anteriores entre Washington e Pyongyang, a última delas em 2009, foram suspensas depois que o país comunista rejeitou as intrusivas medidas de inspeção exigidas pelos americanos.

Trump assegurou aos jornalistas, depois do encontro, que desta vez os EUA e inspetores internacionais monitorariam o comprometimento norte-coreano. Ainda assim, permanece pouco claro por que os signatários não incluíram esse detalhe na declaração final. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão supervisor das Nações Unidas, declarou que "está pronta a realizar toda atividade de verificação na Coreia do Norte".

Que garantias?

Diante do histórico de conversações fracassadas e do perfil da liderança norte-coreana, desta vez alguns especialistas mostram-se céticos quanto às intenções de Pyongyang. Na opinião de Evans J.R. Revere, do Brooking Institute em Washington e ex-funcionário do Departamento de Estado americano, o país "não vai renunciar facilmente a suas armas nucleares, se é que vai".

"A Coreia do Norte quer ressuscitar a abordagem que perseguiu em todas as negociações nucleares anteriores: lançar uma negociação longa e complicada pelo consenso sobre as ações que cada parte deverá adotar, e usar esse processo com o fim de comprar tempo para desenvolver seu programa de armamento nuclear."

Outro tópico a ser discutido pelos diplomatas é o que exatamente significam as "garantias de segurança" à Coreia do Norte, mencionadas na declaração conjunta. Trump talvez tenha esclarecido em parte esse ponto, ao declarar à imprensa que os EUA e a Coreia do Sul suspenderiam seus "jogos de guerra", referindo-se aos exercícios militares conjuntos anuais, que em geral provocam reações de ira por parte de Pyongyang.

Janka Oertel, especialista em Ásia do German Marshall Fund, sediado em Berlim, explica que os exercícios conjuntos são importantes para assegurar que as forças de ambos os países estão aptas a lutar em uníssono, caso se deflagre um conflito.

O chefe da Casa Branca argumenta que os EUA podem retomar os exercícios, se as conversações desandarem. Por outro lado, manifestou-se a favor de retirar os 32 mil soldados americanos estacionados na Coreia do Sul. O fato desperta dúvidas sobre até que ponto Trump está comprometido em garantir a segurança da Coreia do Norte.

E os direitos humanos?

O catastrófico histórico norte-coreano no campo dos direitos humanos, que governos americanos prévios criticaram severamente, não foi sequer mencionado na declaração conjunta.

O especialista Arnold Fang, da Anistia Internacional, diz que desejaria que Trump "tivesse tratado das unidades de detenção e das colônias penais" da Coreia do Norte. Apesar de "compreensível", devido ao foco da cúpula na desnuclearização, ele considera "decepcionante" os direitos humanos terem aparentemente sequer sido discutidos no encontro.

Outro problema é o próprio Donald Trump. Recentemente ele retirou a participação dos EUA no acordo nuclear entre o Irã e a comunidade internacional. E no fim de semana rescindiu pelo Twitter o respaldo à declaração conjunta do Grupo dos Sete (G7), minutos depois de havê-la assinado.

O especialista do EFR Stanzel brincou que o mesmo poderia acontecer com a declaração da cúpula de Cingapura: "Vamos torcer para que Trump não retire nada quando estiver a caminho de casa."

Uma cúpula de cordialidades

Quem achou que seria possível? Em troca de abrangentes garantias de segurança, a Coreia do Norte deverá renunciar ao seu programa nuclear. O objetivo: olhar para frente e conquistar uma mudança fundamental nas relações internacionais. A perspectiva soa mais do que promissora e justifica o alívio que vem se espalhando de forma generalizada.

Afinal, há alguns meses, parecia que o eterno conflito estava prestes a escalar, quando, diante das Nações Unidas, Trump ameaçou abertamente aniquilar a Coreia do Norte após troca mútua de insultos e provocações deliberadas de Kim Jong-un. Agora, são precisamente esses dois líderes que protagonizam apertos de mãos esperançosos e buscam um acordo de paz.

Trump conseguiu se apresentar – também e, sobretudo, ao seu próprio país – como um grande diplomata que, finalmente, trouxe a paz a um conflito dado como praticamente insolúvel. Nas últimas semanas, Trump quebrou tanta porcelana diplomática que também passou a precisar de uma conquista da política internacional para a sua base nos Estados Unidos.

Chega a ser uma ironia histórica que um político criticado como Trump, com seu estilo barulhento, tenha movimentado esse conflito tão antigo e agora esteja prestes a se tornar o presidente americano que, talvez, consiga fechar um acordo de paz com a Coreia do Norte num futuro próximo.

Nem os democratas Bill Clinton e Barack Obama, nem os republicanos George Bush pai e George Bush filho alcançaram tanto – por isso, é preciso dar crédito a esse imprevisível presidente. Ao mesmo tempo, qualquer presidente democrata que tivesse adotado esse curso teria sido dilacerado como um traidor por conservadores nos Estados Unidos.

Porém, também Kim Jong-un pode se considerar um vencedor: para o líder da terceira geração da dinastia Kim, o acordo assinado com Trump é um enorme sucesso. Primeiro, ele "bombardeou" seu caminho rumo à mesa de negociações, onde de fato teve um encontro de igual para igual com um presidente americano. Kim não quer que seu regime acabe como o de Saddam Hussein ou o de Muammar Khadafi. Por isso, apostou numa arriscada estratégia de dissuasão.

Ao mesmo tempo, com muita habilidade, Kim conseguiu garantir o apoio da China e da Rússia. Os dois países acabaram sendo parceiros invisíveis na mesa de negociações – assim como o Japão, que não quer perder a influência que tem na região devido à aliança com os Estados Unidos.

Foi dado um primeiro passo importante, mas estabelecer confiança precisa de tempo – e, como se sabe, o diabo está nos detalhes, especialmente em acordos desse tipo. Um exemplo recente é o penosamente negociado acordo nuclear com o Irã, que acabou sendo derrubado por Trump.

Se a Península Coreana encontrar paz no médio prazo, certamente surgirá a questão de como os Estados Unidos vislumbram se estabelecer na Ásia. Economicamente, o país não tem muito mais a oferecer para competir com a China, já que os laços e as relações de dependência entre a futura superpotência e seus vizinhos asiáticos são estreitos demais.

Em termos de política de segurança, os Estados Unidos continuam enxergando a si mesmos como um poder de manutenção da paz que precisa colocar a China e sua crescente autoconfiança no seu devido lugar.

Na cúpula em Cingapura, Trump conseguiu, mais uma vez, destacar num grande palco esse papel central dos Estados Unidos como potência mundial. Quando navios de guerra americanos patrulham as rotas marítimas ainda abertas para a Ásia, ou aparecem em portos aliados, a mensagem é sempre a mesma: somos adversários de rivais como a China e apoiamos os nossos parceiros. Mas crescem as dúvidas sobre se, como fizeram há 65 anos na Guerra da Coreia, os Estados Unidos realmente chegariam a enviar jovens soldados para lutar – e, possivelmente, morrer – por liberdade e democracia do outro lado do mundo.

Com sua máxima "America First", imposição de tarifas comerciais e o anúncio da saída de vários acordos internacionais, Trump não conquistou necessariamente a confiança de países asiáticos. E, assim, além de toda a simbologia, a cúpula histórica de Cingapura marca mais uma vez o início do fim dos Estados Unidos como polícia do mundo e como uma potência confiável de manutenção da paz.

EUA e Coreia do Norte: da retórica bélica à promessa de desnuclearização

Após um longo histórico de tensões bilaterais, acirradas desde o ano passado, com a chegada de Donald Trump à Casa Branca, o presidente dos Estados Unidos e o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, participaram de um encontro histórico nesta terça-feira (12/06), em Cingapura. Reveja os principais momentos das relações entre ambos os países nos últimos anos:

Fevereiro de 2012: três meses após assumir oficialmente o cargo de líder supremo da Coreia do Norte como sucessor do pai, Kim Jong-un assinou um acordo com o presidente dos EUA, Barack Obama, para congelar testes nucleares e de mísseis balísticos.

Abril de 2012: apenas dois meses depois de concordar em interromper os lançamentos de mísseis, Pyongyang tentou lançar um satélite Kwangmyongsong-3 ou Bright Star-3. Kim disse que o lançamento foi feito para marcar o centésimo aniversário de seu avô, o fundador da Coreia do Norte, Kim Il-sung. Embora o lançamento tenha sido um fracasso, a manobra foi interpretada no Ocidente como um teste de míssil velado.

Janeiro de 2013: um mês após o lançamento bem-sucedido de um novo Bright Star-3, Washington pressionou por uma resolução da ONU que ampliasse as sanções contra Pyongyang, alegando que o foguete usado para colocar o satélite em órbita também poderia ser usado para levar uma bomba até a costa oeste dos EUA. O Conselho de Segurança da ONU adotou a resolução, ampliando o escopo das proibições de viagem contra indivíduos norte-coreanos, bem como o congelamento de ativos.

Março-abril de 2013: as relações entre as duas nações atingiram um ponto baixo durante a administração de Barack Obama. Primeiro, Kim declarou que foguetes estavam prontos para serem disparados em bases americanas no Pacífico, causando preocupação crescente pela segurança dos territórios dos EUA, como Guam.

Os EUA começaram a direcionar significativos recursos militares para a proteção do Pacífico ocidental. Ao mesmo tempo, a Coreia do Norte prendeu o cidadão americano Kenneth Bae, supostamente um missionário cristão e que foi condenado a 15 anos de trabalhos forçados por tentar derrubar o governo norte-coreano. Bae acabou sendo libertado em novembro de 2014.

2013-2016: a Coreia do Norte realizou uma série de testes nucleares cada vez mais potentes. O regime então declarou ter aperfeiçoado uma bomba de hidrogênio, embora especialistas ocidentais considerem essa afirmação duvidosa. Em julho de 2016, um alto diplomata norte-coreano disse que o fato de os Estados Unidos colocarem o próprio Kim em sua lista de sanções equivalia a uma declaração de guerra.

Junho de 2017: depois de 17 meses na prisão por roubar um pôster de propaganda política durante uma visita guiada, o estudante americano Otto Warmbier foi repatriado em péssimas condições de saúde. Ele entrou em coma, o que Pyongyang atribuiu a uma combinação de botulismo e comprimidos para dormir. Após sua morte, em 19 de junho, médicos legistas não identificaram evidência alguma de botulismo, mas também não conseguiram encontrar provas de que o homem de 22 anos havia sido fisicamente torturado.

Julho de 2017: a Coreia do Norte realizou, pela primeira vez, um teste bem sucedido de um míssil balístico intercontinental (ICBM), dizendo ter conseguido atingir o Alasca.

Agosto de 2017: após declarar que não perseguiria a diplomacia de seu antecessor, o novo presidente dos EUA, Donald Trump, começou a trocar insultos com Kim Jong-un. Durante uma entrevista coletiva em seu resort de golfe, Trump ameaçou responder às ameças norte-coreanas com "fogo e fúria", levando Kim a rotular o presidente americano de "mentalmente perturbado". Um mês depois, Trump prometeu "destruir totalmente" a Coreia do Norte no caso de um ataque contra os EUA ou seus aliados, e começou repetidamente a se referir a Kim como "pequeno homem-foguete".

Novembro de 2017: pouco depois de o secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, afirmar que Washington e Pyongyang estavam em "contato direto" e buscando negociações, a Coreia do Norte lançou um míssil que percorreu cerca de mil quilômetros rumo ao oeste e aterrissou no mar do Japão.

Janeiro de 2018: com a China, aliada de longa data, começando a retirar sua ajuda e parando de negociar com Pyongyang como parte das sanções internacionais cada vez mais rigorosas – com a última rodada tendo como o alvo o fornecimento de petróleo ao Norte –, Kim anunciou em seu discurso de Ano Novo que pretendia promover um degelo das relações com a Coreia do Sul. Para esse fim, ambas as Coreias concordaram em marchar sob uma bandeira única nas Olimpíadas de Inverno no Sul e colocar em campo uma equipe feminina conjunta de hóquei no gelo.

Abril de 2018: O presidente sul-coreano, Moon Jae-in, e Kim se encontraram para uma cúpula oficial, o terceiro encontro do gênero a ser realizado desde a Guerra da Coreia, encerrada em 1953 com um armistício. Moon classificou a reunião de um "milagre". Nas negociações, ambas as Coreias se comprometeram com uma "desnuclearização da Península Coreana", sem definir, no entanto, o que isso significaria.

Ao mesmo tempo, a Casa Branca anunciou que o diretor da CIA, Mike Pompeo, tinha feito uma viagem secreta à Coreia do Norte para se encontrar com Kim, depois de Trump aceitar um convite para negociações diretas, no que seria a primeira conversa direta entre um presidente dos Estados Unidos em exercício e um líder norte-coreano.

Maio de 2018: o presidente Trump saudou a libertação de três prisioneiros americanos detidos na Coreia do Norte como um "gesto positivo de boa vontade" durante a preparação para uma cimeira bilateral.

Junho de 2018: Trump e Kim se reuniram em Cingapura e assinaram um documento no qual o líder norte-coreano se compromete com a completa desnuclearização da Península Coreana.

Trump diz que acordo nuclear com Coreia do Norte não será 'mais brando' que o iraniano

Em uma entrevista concedida a um canal de TV estadunidense logo após a cimeira com Kim Jong-un, o presidente dos EUA referiu as controvérsias do acordo e assegurou que "confia" no seu homólogo norte-coreano.

"Não acho que o acordo possa ser 'mais brando' [que com o Irã]. De qualquer modo, agora nós não planejamos pagar 150 bilhões de dólares", manifestou Trump, se referindo ao valor pago por Washington a Teerã a partir das contas iranianas descongeladas em resultado da celebração do acordo iraniano em 2015.

O âncora principal do ABC News, George Stephanopoulos, também perguntou a Trump como ele poderia confiar em um ditador brutal como, evidentemente, é Kim Jong-un em sua percepção.

"Eu confio nele, sim", respondeu o presidente. "Talvez daqui a um ano você esteja me entrevistando e eu diga que foi um erro. É possível. Estamos cooperando a um nível alto, muitas coisas podem mudar e muitas coisas são possíveis", acrescentou.

De acordo com Trump, que se mostra bem otimista em relação às intenções de Kim, este "gostaria de fazer algo realmente grandioso para seu país".

"Temos os alicerces para começar a desnuclearizar", disse. "Ele vai desnuclearizar todo o lugar; acho que vai começar agora", confessou.

Além do mais, o líder estadunidense revelou que não discutiu a possibilidade de eliminação do "guarda-chuva nuclear" norte-americano na península da Coreia com seu homólogo norte-coreano durante suas conversações em Singapura.

 

Fonte: Deutsche Welle/Sputinik News/Municipios Baianos

Comentários:

Comentar | Comentários (0)

Nenhum comentário para esta notícia, seja o primeiro a postar!!