13/06/2018

FMI não salvará Macri do naufrágio do seu governo

 

Neste último período, a América Latina vem passando por mudanças muito rápidas, às vezes surpreendentes, mas o grande acontecimento, o mais importante, foi o anúncio do acordo da Argentina com o Fundo Monetário Internacional, para um resgate de 50 bilhões de dólares. A iniciativa foi interpretada pelos analistas do establishment como “um forte apoio” do mercado ao governo argentino.

Até há poucas semanas atrás, o de Macri era considerado um governo-modelo pró-mercado, admirável, surgido das urnas e prometendo um futuro venturoso, com uma nova era de crescimento. “Mauricio Macri, o presidente neoliberal argentino, foi o ícone do neoliberalismo em 2015. Agora, após 30 meses de governo, tem sido desalojado do pódio luminoso, e já é visto como uma sombra que leva o país a um naufrágio iminente”, comenta o jornalista Luis Bruschtein.

O mandatário teve tempo para realizar um desastre financeiro que levou o seu país a um futuro de joelhos. Apesar de todos os elogios anteriores, e mesmo concedendo um prazo insólito para o pagamento – que visa proteger Macri até as eleições de 2019 –, o fato é que o FMI não nos perdoará, e cobrará cada dólar emprestado à Argentina, sem contar as condições impossíveis impostas a partir do acordo.

Como se chegou a esta situação de ter que pedir ajuda ao FMI? O país está cedendo soberania, ao aceitar as decisões desse organismo internacional regido pelo lobby dos grandes banqueiros e dos chamados países centrais (Grupo dos 7, com clara prevalência dos Estados Unidos). Para emprestar o dinheiro, o Fundo fará exigências draconianas de redução do gasto público, e poderá intervir na legislação nacional, impondo a manutenção de uma selvagem liberalização do tipo de câmbio – apesar da escassez de divisas produzida em poucos dias, que pode se repetir e afetar drasticamente a condição de vida da maioria dos argentinos.

Diante de um desastre que provocado por tamanha imperícia e irresponsabilidade, a solução proposta é a de aplicar a lei da oferta e da procura ortodoxamente. Não se considera sequer a significação fundamental da cotação da moeda numa época de alta instabilidade e incerteza, como a atual, e se relaciona todos os preços (salários, tarifas de serviços básicos, juros, bens, serviços e demais fatores) com os do resto do mundo.

A dura experiência vivida na Argentina com o fim do governo de Fernando de la Rúa, em 2001, parece não ter ensinado nada. Naquele então, o FMI, depois de negar o apoio à “convertibilidade” do peso (que significou forçar a cotação de 1 peso = 1 dólar) obrigou o governo de Eduardo Duhalde, que assumiu a presidência em pleno caos econômico e social, em janeiro de 2002, a liberar o valor do dólar.

Em meio a um corralito financeiro, foi imposto um controle cambiário estrito e a cotação do dólar passou a ser de quase 1 dólar = 4 pesos. Houve milhões de perdedores que confiaram nos “mercados abertos e estáveis” – os mesmos que voltam a ser proclamados hoje pelo FMI –, que provocaram uma desestruturação, levando a uma erosão do valor economizado pelo cidadão com sua simples caderneta de poupança.

Agora vem o novo pacote de exigências do FMI, e o governo de Macri decidiu, priorizar os compromissos de uma dívida pública gerada pela especulação financeira de curto prazo – o mesmo erro cometido naquela vez pelo repudiado superministro Domingo Cavallo –, enquanto se permite a continuidade de uma fuga gigantesca de capitais.  Paralelamente, os efeitos dessas turvas manobras são a queda vertiginosa do consumo da população, a redução do gasto público e dos investimentos, freando toda a economia do país.

“Os que prevalecem são os negócios dos nichos que manejam poucos amigos (grandes negociadores de commodities, energia, sistema financeiro e cambiário), combinação que gera uma forte queda do poder aquisitivo do salário e das aposentadorias e pensões, e com isso menores rendas para as atividades que dependem do mercado interno (que no conjunto representam mais de 70% do PIB argentino)”, analisa o economista Horacio Rovelli, que também adverte sobre o castigo que virá caso o país não cumpra com o acordado agora, que seria a perda dos ativos mais importantes que a Argentina possui, como as ações do Fundo de Garantia de Sustentabilidade da ANSES (previdência argentina), as jazidas de hidrocarbonetos de Vaca Muerta, as reservas de lítio e água potável, etc.

O apoio do FMI, anunciado no dia 7 de junho, é muito maior do que o esperado inicialmente – que seria de 20 ou 30 bilhões, mas na verdade será de 50 bilhões de dólares. Trata-se de uma blindagem de emergência similar à entregue pelo mesmo FMI ao governo de De la Rúa, no começo de 2001 (de 40 bilhões), poucos meses antes de sua renúncia, em meio à maior crise do país em toda a sua história.

O fim do discurso do gradualismo

a) A via de ajuste que se pretende estabelecer levará o país a uma recessão enorme. Acabou o discurso do gradualismo, que foi muito usado pelo governo de Macri desde dezembro de 2015.  Não são compreensíveis as reiteradas previsões de que a economia argentina terá somente “um menor impulso” em 2018 e 2019 (crescimento do PBI de 1,4% este ano, e entre 1,5% e 2,5% em 2019). A estratégia planejada visa uma fortíssima queda da atividade económica, do emprego e dos níveis salariais. Não se sabe se os prognósticos do governo e do FMI são só uma expressão de desejos (wishful thinking) ou um ocultamento perverso.

b) Espera-se uma variação relativa nos preços, devido à queda na renda da maior parte da população que já é afetada pela desvalorização do peso e pela inflação. A piora nas condições de vida dessas pessoas será muito mais severa que a produzida nas últimas semanas.

O programa não considera que conter a inflação seja um objetivo central, embora os ministros do governo assegurem que assim será. Os recursos emprestados pelo FMI visam somente cobrir os pagamentos financeiros imediatos já comprometidos. Não está destinado a solucionar o grave déficit da balança de pagamentos corrente, nem deter a gigantesca fuga de capitais, que continua sendo um problema.

O pacote do FMI, portanto, não passa de uma ajuda para cumprir com os compromissos financeiros de uma dívida pública em moeda estrangeira. O Banco Central não poderá mais intervir para ancorar as expectativas na cotação do dólar. Também não há certezas sobre como o governo enfrentará a nova crise de pelo próximo vencimento de títulos a serem pagos pelo Banco Central (as chamadas “lebacs”), que significam quase 50 bilhões de dólares, quase equivalentes ao total deste novo empréstimo do FMI, e isso sem provocar uma maior corrida pelo dólar e sem que isso leve a uma nova crise, talvez definitiva.

c) Os analistas de Wall Street estão prevendo uma desvalorização ainda maior do peso, e duvida que o ajuste seja imposto, tendo em conta as condições e antecedentes (2001).

A crise que virá

Embora não possamos antecipar o ritmo futuro da crise econômica e social, e tampouco os seus derivados políticos, seguirá presente na Argentina, como nos demais países da América Latina, uma dúvida lógica para a sociedade, e não só entre os economistas: se há alternativas aos ajustes regressivos exigidos pelos mercados.

A criação de uma alternativa a esses ajustes dependerá centralmente do nível de mobilização e oposição que se gere no próximo período. Em todo caso, nesta perspectiva, será essencial superar a etapa de lamentos depressivos pelos “malvados do FMI” ou “pela insensibilidade do neoliberalismo”, e partir para a da elaboração e apresentação de propostas consistentes e plausíveis que sirvam como contraponto, e que não podem ser baseadas em meras consignas idealistas, e sim numa interpelação radical.

Já dizia o ex-presidente uruguaio José Mujica: “não gosto do FMI, mas para que desafiá-lo, se eu não posso? Deixa ele ali, desde que eu nunca tenha que usá-lo, essa é a questão. No meu país, quando pudemos pagamos a dívida e agradecemos o serviço. Não sei o que a Argentina tem que fazer, é problema dos argentinos. O que quero dizer é que nenhuma instituição vai resolver os problemas das pessoas. Isso depende de nós”.

Há muita coisa em jogo. É preciso intensificar a batalha cultural, para evidenciar o erro que esse acordo representa, e que é falso o argumento de que “com este programa continuaremos percorrendo um caminho crescimento sustentado, criação de emprego e redução da pobreza”.  Mas não só denunciando o acordo, senão também planteando um novo horizonte, com propostas alternativas consistentes. Devemos fazê-lo imediatamente, já que a regressividade econômica e social e a confusão das pessoas sobre o que realmente está acontecendo são enormes.

Isso não é novidade: tem ocorrido ao longo da História em toda a América Latina, com suas repetidas crise de dívida. Primeiro, é preciso definir quais são as prioridades, e logo tomar a iniciativa.

Entre o FMI e a Copa: nada aconteceu como Macri esperava. Por Juan Guahán 

Mauricio Macri e seus assessores apostaram em que a Copa do Mundo de Futebol marcaria o final do período das medidas impopulares, e logo ele começaria a recuperar terreno. O debate parlamentar e cidadão sobre o aborto tampouco chegou para ocultar a realidade: depois de perder o controle da situação econômica, o país se viu obrigado a pedir um resgate financeiro, se submeter às caprichosas exigências do FMI e fazer um ajuste econômico ainda maior.

A estratégia falhou e o descontrole governamental é tanto que nem Lionel Messi e os dirigentes do futebol vem podendo ajuda-los – ainda mais agora, que o panorama inclui um incidente esportivo-diplomático de projeções internacionais que envolve outro erro de cálculo garrafal da Presidência.

A Copa do Mundo da Rússia seria o ponto de inflexão entre uma difícil primeira metade do ano, quando foram tomadas as medidas mais duras, e o início de uma segunda fase, na que poderiam recuperar terreno. Porém, 60 dias antes do torneio, a economia entrou em crise e o país teve que pedir socorro ao FMI, para tentar frear a corrida bancária que o seu pobre gabinete de gerentes de multinacionais não soube prever, conter e menos ainda resolver.

Os estrategistas do governo neoliberal supunham que o debate pelo aborto cobriria as expectativas da maioria da juventude, do progressismo, e fariam a população esquecer as penúrias da crise econômica e social. A crise provocou o descontentamento popular, e a tentativa do governo e da mídia cúmplice de desconhecer a legitimidade das mobilizações populares é outro erro, pois ajuda a população a entender que os responsáveis pela situação são os próprios mentores do poder financeiro internacional e os altos funcionários do governo argentino.

A prometida chuva de investimentos foi, na verdade, uma sequia de créditos. Os especuladores, que deram uma sobrevida à falta de sentido da política econômica aplicada, se aproveitaram das vantagens oferecidas pelo governo e levaram seu dinheiro aos paraísos fiscais – em poucas semanas, cerca de 11 bilhões de dólares haviam deixado o país.

Mas agora chegou a Copa, e tudo leva a crer que o que virá é ainda pior do que o vivido nos últimos meses, graças a um ajuste mais acelerado e profundo, enquanto a insatisfação social cresce sem parar, e gera reclamações de todos os tipos.

Aos argentinos com memória, o acordo com o FMI trouxe péssimas recordações, e mostrou aos mais jovens que até os netos dos seus netos foram hipotecados por uma nova e eterna dívida externa. Para que servem esses 50 bilhões do FMI? Fundamentalmente, para assegurar os credores de eles poderão cobrar as nossas dívidas, ou os juros das mesmas.

No dia 20 de junho, a Argentina terá à sua disposição um montante de 15 bilhões de dólares, que serão utilizados para fazer alguns pagamentos e para melhorar as reservas do Banco Central. Os juros a pagar será entre 4 e 5%, o que pode aumentar segundo o momento de retirar o dinheiro e os prazos de pagamento. O resto do montante (35 bilhões) terá uma função de precaução, e poderia ser utilizado ou não.

Uma das condições exigidas é diminuir o déficit fiscal (a diferença entre o que se arrecada e o que se gasta), o que significa que haverá menos investimentos públicos, menos recursos para a saúde e educação públicas, ou para a construção de moradias populares. Os consumidores de serviços públicos (água, gás, eletricidade) terão que pagar pelas reduções de subsídios às empresas que os prestam. Também se está preparando uma redução de pessoal no aparato público, além de um ajuste das aposentadorias e uma diminuição do repasse de verbas às províncias.

Segundo estes acordos, o Banco Central deverá ter uma maior autonomia, e não poderá emprestar dinheiro do governo para regular o tipo de câmbio: ninguém saberá o que acontecerá com o dólar, mas é óbvio que haverá uma queda do consumo e o crescimento estará rondando o cero. A inflação chegará aos 30%.

Macri, o G7 e o Vaticano

Enquanto isso, Mauricio Macri aproveita sua posição como presidente do G20 e organizador da cúpula do grupo – que se realizará em Buenos Aires antes do fim do ano – para ir ao Canadá e participar de uma reunião do G7, bloco similar, mas que inclui somente Alemanha, Canadá, Estados Unidos, Reino Unido, França, Itália e Japão.  Talvez esta situação explique porque o mundo financeiro internacional tentou evitar o aprofundamento da crise e uma maior deterioração macrista.

Este tema da despenalização do aborto é um dos pontos cruciais da relação entre o Vaticano e o atual governo. Por isso, não parece ser uma casualidade a recente presença do chanceler da Academia Pontifícia de Ciências e das Ciências Sociais, Marcelo Sánchez Sorondo, no Sindicato dos Caminhoneiros, onde foi informado da próxima greve geral contra as demissões, os aumentos de tarifas dos serviços públicos básicos (água, luz e gás) e as negociações com o FMI.

Sánchez Sorondo recordou a encíclica Laudatio Si, a qual diz que “a riqueza privada acumulada nos paraísos fiscais por certas elites quase iguala a dívida pública de seus respectivos países”. “Há outros países, como a Argentina, que não podem se recuperar economicamente porque todo a riqueza produzida é transformada em dinheiro que é retirado do país”, lembrou Sorondo, transmitindo outra mensagem papal para quem quiser escutá-lo.

Palestina ganhou de goleada

O “amistoso” entre o selecionado argentino de futebol, que vai a participar da Copa na Rússia, e a equipe israelense, que seria disputado em Jerusalém, acabou sendo suspenso por pedido dos jogadores sul-americanos. Originalmente, a partida estava programada para acontecer em Haifa, mas uma mudança de última hora determinada pelo governo de Israel – e apoiada pelo governo argentino – despertou a polêmica.

Para o governo israelense, jogar em Jerusalém tinha um significado político: o país comemora os 70 anos de fundação do Estado de Israel e a presença de uma seleção mundialista e de um dos maiores esportistas da atualidade (o craque argentino Lionel Messi) eram um símbolo no caminho do reconhecimento internacional que buscam para estabelecer definitivamente a cidade como sua capital, contrariando o que atualmente determina ao Organização das Nações Unidas (ONU).

A mudança do local de Haifa a Jerusalém despertou reações em todo o mundo. Militantes palestinos recordaram que recentes mobilizações pelo retorno a suas terras deixaram um saldo de 130 pessoas assassinadas e milhares de feridos. Entre os assassinados está um membro da seleção de futebol da Palestina e outros dois futebolistas residentes nos territórios. Em 2014, 7 membros da seleção palestina foram assassinados em ataques semelhantes.

Com todos esses antecedentes, os ativistas pró-Palestina pediram a Messi que não jogasse. Ademais, estava previsto uma visita do craque e todo o elenco ao Muro das Lamentações, e uma série de outras atividades extracampo, confirmando que se tratava de uma partida com nuances de evento de Estado. Talvez por isso os jogadores decidiram não ir a Israel, e não se prestar a esse papel. O centroavante Gonzalo Higuaín foi o responsável por ir a público e dizer, em entrevista para a imprensa especializada, que “o correto era não ir”.

Os atletas argentinos não cederam às pressões do próprio primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que ligou duas vezes para Macri para solicitar que ele intercedesse e convencesse os jogadores a viajar. A provocação israelense foi desarmada. O presidente não conseguiu entregar o pedido feito por seu amigo israelense, e deverá encarar a frustração assistindo os jogos da seleção do seu país pela televisão, em Buenos Aires, já que ele mesmo proibiu seus funcionários de viajarem à Rússia.

 

Fonte: Por Jorge Marchini, em Carta Maior/Municipios Baianos

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