13/06/2018

Por que tanta gente torce contra a seleção brasileira?

 

É normal, sobretudo em época de Copa do Mundo, ouvir de alguns amigos e familiares que eles não estão nem aí para a seleção. Que preferem torcer pelo time do coração, que estão mais preocupados com eleição. Também não é novidade o discurso de inferiorização e pessimismo em torno dos 23 selecionados, que, de certa maneira, reflete a descrença nos rumos do país, traduzido por Nelson Rodrigues como “o complexo de vira-lata”. Isso sem contar os brasileiros que, por diferentes razões, escolhem apoiar outra seleção. Mas, às vésperas do Mundial na Rússia, é impossível ignorar que o índice de rejeição e impopularidade da seleção brasileira atingiu patamares raramente observados. Muito além das reações de quem detesta futebol, esnoba o talento de Neymar ou só empunha a bandeira em nome do seu clube, há gente de sobra disposta a secar, amaldiçoar e torcer contra o time que um dia foi o símbolo de orgulho da nação.

Para quem gosta de bola e de Copa, chega a ser irritante escutar sermões do tipo “o país nessa situação e o povo preocupado com futebol”, “só querem saber de pão e circo”, “enquanto você grita gol, estão roubando nosso dinheiro em Brasília”, “que o Brasil caia na primeira fase”, “que venha outro 7 a 1” e por aí vai… Porém, o descrédito popular que tem colocado em xeque o poder da seleção de mobilizar massas e unificar a identidade nacional a cada quatro anos não é fruto exclusivamente do mau humor dos que não enxergam a poesia que emana dos gramados. As causas transcendem o campo de jogo.

A última pesquisa de torcidas do Datafolha, divulgada em abril, mostra que o número de pessoas que não se interessam por futebol no país aumentou de 31% para 41% em relação a 2010, quando a seleção ainda era comandada por Dunga. Praticamente o mesmo percentual de brasileiros que desprezam a Copa do Mundo. Chama a atenção que, no “país do futebol”, de acordo com pesquisa da MindMiners, 54% dos torcedores consultados dizem acreditar que uma eventual conquista do Mundial pela seleção não vai melhorar a autoestima do brasileiro. E o mais sintomático: 58% entendem que os episódios que levaram ao indiciamento dos três últimos presidentes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) afeta, de alguma forma, a vontade de torcer pela seleção.

Tempos atrás, as suspeitas de ilícitos envolvendo cartolas eram tratadas como folclore no Brasil. Até que uma investigação do FBI desatou o Fifagate e implicou figuras como Ricardo Teixeira, José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, menos de um ano depois do 7 a 1. Em compasso com os escândalos de corrupção na política, a entidade que controla nosso futebol sucumbiu na mão de dirigentes que, durante a Copa de 2014, exigiam patriotismo dos jornalistas e torcedores que criticavam as atuações do time de Felipão. E segue sem ter a exata dimensão de como a imagem associada a mandachuvas corruptos contribuiu para abalar a confiança dos brasileiros na seleção.

Seleção que, inevitavelmente, acabou castigada por seguidas administrações primitivas e nebulosas na CBF. Há décadas o esporte nacional é gerido à base da troca de favores, politicagem barata e interesses comerciais sustentados pela lógica da propina. Por mais vitoriosa que seja sua história em campo, não há instituição que passe incólume a tantas mazelas fora das quatro linhas. O que ajuda a explicar a perda de apelo não só da seleção, mas do futebol brasileiro como um todo.

Desconsiderando os comerciais de TV que apelam ao ufanismo, é cada vez mais raro presenciar demonstrações de amor à seleção. O que também dá uma medida do ódio. Por trás dele, irrompem jatos de frustração e raiva represadas pelo legado às avessas que a realização da Copa deixou para o país. Dos estádios superfaturados ao vexame contra a Alemanha, tanto o cético em relação a futebol quanto o torcedor mais apaixonado amargaram alguma dose de ressentimento. Havia caminho para uma reconciliação ao menos afetiva após Tite assumir a seleção e resgatá-la do fundo do poço. Mas, ao longo dos últimos quatro anos, dirigentes da CBF estavam mais preocupados em se livrar dos escândalos de corrupção do que em reaproximar o “brasileiro comum” do futebol.

A elitização tomou conta dos estádios, torcedores mais pobres foram afastados das arquibancadas, e a seleção virou produto cobiçado por empresas e patrocinadores que não veem problema em atrelar sua marca a uma entidade devassada pelas denúncias de corrupção. No meio desse processo de distanciamento, a camisa amarela da seleção ainda sofreu com a apropriação por grupos de manifestantes que a utilizaram como instrumento político. Neste cenário de Fla x Flu ideológico, uma parte da população agora sente ojeriza pelo uniforme com o escudo da CBF. Rejeição que, para muitos, se estende à seleção. Pela primeira vez no período democrático, o Brasil acompanhará uma Copa diante de tamanha polarização das correntes políticas, já que, em 2013, nos protestos que antecederam a Copa das Confederações, e em 2014, nas manifestações contra o megaevento, a pauta de reivindicações era bem mais difusa e menos identificada com determinada ala de militância.

Entre o apreço e o desdém por símbolos nacionais, a crise de credibilidade da seleção brasileira também respinga nos jogadores. A maioria deles joga no exterior, tem poucos vínculos com torcedores locais – algo acentuado pela falta de empenho da CBF em promover jogos com preços acessíveis no país – e falha ao não se esforçar para romper o estigma de cidadãos alienados, que, sob o status de personalidades globais, quase sempre resumem engajamento social a ações de caridade. Naturalmente, uma hora ou outra, torcedores como os que engrossaram o sarcástico protesto “um professor vale mais que o Neymar” se revoltam ao ver os ídolos reduzidos à figura de meros popstars.

Há quem interprete o desleixo pela seleção como um sinal de maturidade do brasileiro, que, supostamente, não se deixa mais enganar por “pão e circo” – como se fosse impensável conciliar a paixão pelo futebol com senso crítico. Todavia, é bem provável que, com o início dos jogos na Rússia, ainda mais se o Brasil mantiver o bom nível de atuação, o clima de Copa se espalhe tal qual em 2014, quando o grito de “não vai ter Copa” deu lugar a euforia nas ruas. Mas não resta dúvida de que os acontecimentos desde o Mundial passado, principalmente os escândalos de corrupção na CBF, arranharam a imagem do nosso futebol e, por tabela, a da seleção. Aquele que torce contra a pátria de chuteiras não é menos brasileiro que aquele que comemora fervorosamente cada gol anotado pelos comandados de Tite. Pois nada tem a ver com antipatriotismo. O “torcer contra” é, acima de tudo, uma resposta dos que não se sentem representados pelas instituições que se apropriaram da seleção. Um direito tão legítimo quanto o de quem prefere torcer a favor, apesar das contraindicações.

Copa em tempos de crise

Uma pesquisa divulgada pelo Datafolha no início de maio deste ano mostrou que 42% dos brasileiros não tinham interesse pela Copa do Mundo, em comparação à taxa de 18% registrada em 2009. Diante do apelo histórico do evento no país, era de se esperar que a aproximação do pontapé inicial, nesta quinta-feira, acabasse por empolgar a população. Porém, o que se observa nas ruas e conversas é, ao menos por enquanto, um surpreendente desânimo com o Mundial. No Rio, palco da final da última edição, ruas que são tradicionalmente enfeitadas para o torneio exibem pinturas desgastadas nos muros, feitas há quatro anos. É na cidade que acontece a mais antiga e popular festa de rua para acompanhar os jogos do Brasil. O Alzirão, na Tijuca, Zona Norte, recebeu pelo menos 300 mil pessoas em 2014 e não iria acontecer neste ano pela falta de patrocinadores. O imbróglio só foi resolvido na última sexta-feira (08/06), com a entrada em cena do governador Luiz Fernando Pezão. Ele ligou pessoalmente para o presidente da cervejaria Ambev e pediu os 500 mil reais necessários para o custeio da festa.

As explicações dos que manifestam indiferença com a Copa são diversas e, por vezes, complementares. Há quem enxergue no evento, por exemplo, uma oportunidade para que o governo Michel Temer crie um falso clima de otimismo. "Eu costumava ficar empolgada com a Copa, mas não tem clima desta vez. A gente acabou de sair da crise dos caminhoneiros, e a população está mais ligada no governo tentando mascarar as principais necessidades”, diz a vendedora Andressa Santos, de 22 anos. A opinião é compartilhada pelo produtor cultural Vinícius Wu, de 38 anos. "O governo vai usar a Copa para tentar mostrar uma normalidade institucional que não existe. A gente vê um desânimo generalizado”, comenta. No último domingo (10/06), pesquisa divulgada pelo Datafolha revelou que a reprovação a Michel Temer subiu 12 pontos percentuais desde abril e chegou a 82%. Com isso, ele se tornou o presidente mais impopular da história. A insatisfação com a política, refletida no desânimo com o Mundial, se estende à administração do futebol no Brasil, representada na figura da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

O ex-presidente da entidade José Maria Marin, de 86 anos, cumpre prisão em Nova York. Ele foi condenado pela Justiça dos EUA em dezembro do ano passado por integrar organização criminosa; três delitos de lavagem de dinheiro e outros dois de fraude em subornos envolvendo a cessão dos direitos de televisão e marketing de competições futebolísticas. Seu sucessor, Marco Polo del Nero, foi banido para sempre do futebol pela Fifa em abril deste ano. A federação o considerou culpado em acusações que envolvem "suborno e corrupção”; "oferecer e aceitar presentes e outros benefícios” e "conflitos de interesse”.

Uniforme canarinho rejeitado

Para uma parte da população, a repulsa à CBF vai além da associação aos crimes praticados pelos "cartolas”. O tradicional uniforme canarinho passou a ser visto como um símbolo daqueles que foram às ruas pedir o impeachment de Dilma Rousseff entre 2015 e 2016. "É impossível não associar uma coisa à outra. Para piorar, o Neymar, estrela da seleção, apoiou publicamente o Aécio Neves na campanha de 2014”, reclama Vinícius Wu.

Uma reportagem da revista Época desta semana mostra que o uniforme reserva do Brasil, na cor azul, esgotou em poucas semanas nas lojas da Nike, fornecedora de material esportivo da seleção. Quem recorreu ao site da marca, por sua vez, teve que esperar a reposição de estoque. O bom resultado das vendas chama atenção especialmente pelo preço do produto, que varia de 249 a 449 reais. No Saara, tradicional mercado popular do Centro do Rio onde são vendidas réplicas da camisa oficial e outros artigos com as cores da seleção, a situação era contrastante. A maioria dos vendedores reclamava do desempenho das vendas. "O pessoal vem olhar, demonstra interesse, mas muda de ideia quando vê o preço”, comenta Damara Oliveira. O valor dos modelos variava entre 30 e 50 reais. "Mas tenho a esperança de que melhore durante a Copa”, diz. "A venda nem se compara às outras Copas. O estoque só não encalhou porque a gente já percebia que não ia vender muito. Quem passa aqui comenta que tem a ver com tudo isso da política e o 7 a 1”, avalia Marcelo Domingues. "Sem falar que o povo está duro, né?”, acrescenta.

O somatório de três fatores leva a uma baixa empolgação antes da Copa: situação política; crise econômica, com 13,4 milhões de desempregados e alto endividamento das empresas, e o desencanto com a Seleção após a eliminação traumática em casa na última edição. "Vou estar animado como? A situação do país é horrível, quase não tem jogadores que estejam na Seleção por amor à camisa e não está sobrando nem dinheiro para o churrasco”, sintetiza o porteiro Reinaldo Ferreira, de 36 anos.

O clima de apatia, contudo, não é regra, e há quem esteja contando as horas para o início da Copa na Rússia. "Estou muito animada. Eu não quero saber dos problemas, vivo a minha vida com alegria. Já marquei de ver a estreia do Brasil com a família no próximo domingo”, conta a gari Maria Cláudia, de 48 anos.

As guerras da história por trás de cada grupo da Copa da Rússia

A Copa do Mundo da Rússia, futebolisticamente falando, confronta 32 países. Militarmente falando, muitos deles já se enfrentaram várias vezes. Revisamos a história de cada país da Copa para saber quando e quanto guerrearam com os outros países que caíram no mesmo grupo na primeira fase do torneio, que começa nesta quinta. Eis o resultado.

Grupo A: Rússia, Arábia Saudita, Egito e Uruguai

Neste grupo da Copa, os países que mais conflitos tiveram são os que estão mais próximos geograficamente: Arábia Saudita e Egito. No século XIX, quando os dois países tinham outros nomes, enfrentaram-se na Guerra Otomano-Wahhabi. Entre 1811 e 1818, o Eialete do Egito – então parte do Império Otomano – enfrentou o Emirado de Diriyah – o primeiro Estado saudita. O primeiro venceu. Durante a Guerra Fria, Arábia Saudita e Egito se enfrentaram na Guerra Civil do Iêmen do Norte. O conflito começou depois que forças republicanas se insurgiram contra a monarquia reinante, em 1962. Países ocidentais e a Arábia Saudita apoiavam a monarquia, enquanto a União Soviética e o Egito eram partidários dos republicanos. Este último grupo venceu. Mais de um século antes, Egito e Rússia não eram tão amigos. Em 1827, tropas russas, inglesas e francesas enfrentaram as forças otomanas do Egito na Batalha de Navarino, crucial na Guerra de Independência da Grécia. O Uruguai está longe demais de todos eles para ter tido problemas.

Grupo B: Portugal, Espanha, Marrocos e Irã

Quando foi definido o grupo da Espanha na Copa, muitos tuiteiros fizeram brincadeiras sobre a proximidade com dois de seus rivais, Portugal e Marrocos. E, compartilhando fronteira, é normal que tenha havido muitas brigas. Espanha e Portugal foram governados pelo mesmo monarca entre 1580 e 1640. Antes e depois dessa união dinástica, há tantos conflitos que até fica tedioso narrá-los: na guerra civil de 1475, que acabou coroando Isabel, a Católica, como rainha de Castela, Portugal apoiava o seu rival; entre 1776 e 1777, Espanha e Portugal se enfrentaram por territórios na América do Sul; com Napoleão no meio, os dois países também se mediram em 1801 na Guerra das Laranjas. A Espanha enfrentou Marrocos em mais ocasiões que Portugal. Um ataque marroquino em Ceuta em 1859 desembocou na Primeira Guerra de Marrocos, ou Guerra da África. A Espanha de Isabel II venceu naquela ocasião. Também a Espanha se impôs entre 1911 e 1927, durante a Segunda Guerra de Marrocos, às tribos do Rif, no norte do país africano. Em 1957, tropas marroquinas tentaram tomar Sidi Ifni, uma cidade sob controle espanhol.

Grupo C: França, Austrália, Peru e Dinamarca

Há pouquíssimo a se dizer sobre os conflitos bélicos da Austrália e do Peru. Tiveram-nos, mas especialmente com seus vizinhos, entre os quais não se encontra nenhum dos países do seu grupo na Copa. Já no caso de França e Dinamarca é diferente: esses dois países europeus se enfrentaram várias vezes. Foi assim em várias ocasiões no século XVII, incluindo a Guerra da Escânia, que na época contrapôs o Reino da Dinamarca e Noruega (além dos Países Baixos, Brandemburgo e Sacro Império Romano-Germânico) à França e Suécia. Mas lutaram muito menos que outros europeus. Nem sequer quando quase todos brigavam contra a França, na época de Napoleão. Dinamarca e França eram aliados.

Grupo D: Argentina, Islândia, Croácia e Nigéria

Nem havendo dois países europeus saem guerras entre Estados deste grupo. Mas um deles, Islândia, está tão longe de terra continental que não surpreende.

Grupo E: Brasil, Suíça, Costa Rica e Sérvia

Três quartos do mesmo. A quase eterna neutralidade suíça a poupou de se enfrentar com os sérvios. Quanto ao Brasil e à Costa Rica, nem de longe. Não é muito conhecida a participação do Brasil na Primeira Guerra Mundial, mas o Brasil e a Sérvia estavam no mesmo lado, o dos aliados contra a Alemanha e o Império Austro-Húngaro.

Grupo F: Alemanha, México, Suécia e Coréia do Sul

Alemanha e Suécia estão muito perto, separadas por pouco mais de 100 quilômetros de mar Báltico. Enfrentaram-se várias vezes sob os muitos nomes da Alemanha. Um dos conflitos mais destacados foi durante a Guerra dos 30 Anos, no século XVII: o Sacro Império Romano-Germânico lutou no mesmo lado que a Espanha, e a Suécia ficou ao lado da França e Inglaterra.  A milhares de quilômetros, o México declarou a guerra à Alemanha de Hitler em 1942, depois que submarinos alemães afundaram um navio mexicano. As tropas mexicanas, dois anos depois, não combateram na Europa, mas apoiaram as norte-americanas nas Filipinas contra o Japão.

Grupo G: Bélgica, Panamá, Tunísia e Inglaterra

O que hoje é a Bélgica esteve sob domínio de vários países europeus até 1830, quando declarou sua independência em relação aos Países Baixos. Desde então, Bélgica e Reino Unido não cruzaram armas – foram aliados nas duas guerras mundiais. Além disso, nenhum desses países teve enfrentamentos militares com a Tunísia. O país europeu contra o qual essa república do norte da África lutou algumas vezes foi a França, da qual foi colônia até 1962.

Grupo H: Polônia, Senegal, Colômbia e Japão

A Colômbia tomou medidas contra os cidadãos do Eixo que viviam em solo colombiano em 1943, ou seja, italianos, alemães e japoneses. Sem sair da Segunda Guerra Mundial, Polônia e Japão foram dois países muito importantes no conflito, embora não tenham se enfrentado diretamente. A invasão da Polônia por parte da Alemanha, aliada do Japão, desencadeou a guerra.

 

Fonte: El País/Deutsche Welle/Municipios Baianos

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