14/06/2018

Populismo sem povo: espiral populista, eleições e educação

 

O parágrafo único do artigo 1º da Constituição Federal consagra: “Todo o poder emana do povo”. Não é bem assim. Há certamente outros fatores complicadores da decisão política, mas em um país em que a assimetria entre Estado e sociedade é tão grande, governantes não têm pudor em fortalecer oportunisticamente suas bases clientelistas, mantendo cativa a população mais vulnerável. O povo, do qual o poder deveria emanar, figura como mero formalizador dessa concentração.

A experiência tem demonstrado que políticos brasileiros em posições de poder – portanto, os mais bem-sucedidos e que tendem a virar “modelos” de atuação entre seus pares – não pensam duas vezes antes de capturar capital político com discursos falaciosos que comprometem a coesão social ou o equilíbrio das contas públicas a médio prazo. Geralmente, produzem as duas coisas.

Como o cobertor é curto, níveis mínimos de efetividade das políticas públicas e de sustentabilidade fiscal – que garantiriam investimentos em políticas sociais e na infraestrutura do país ao longo do tempo –, são desconsiderados em momentos de crise. Nossa agenda política de quatro anos permite que se deixe confortavelmente a bomba estourar nas mãos do próximo governo.

No entanto, o que poderia ser uma dificuldade apenas momentânea vai se tornando crônica, principalmente nos casos de reeleição. A espiral populista de deterioração do desenvolvimento se apresenta. Recessão econômica, empobrecimento das famílias e enfraquecimento das instituições geram incerteza e ansiedade na sociedade. As pessoas passam a buscar lideranças fortes como solução imediata, reforçando o populismo. Quase metade dos brasileiros acreditam nisso, em vez de confiar em projetos políticos ou mesmo nas leis.

Piketty aponta causas para a ascensão recente do populismo no mundo. Para ele, o fenômeno é resultante da elitização da representação política. Não é novidade, mas ainda causa algum espanto aos portadores de ideologias “fechadas”, sua incredulidade com “pobres de direita” ou “ricos de esquerda”. O estudo aponta que não importa onde se encontram no espectro ideológico, haverá elites e esquecidos nessa equação, reforçando mutuamente suas posições.

Por causa da nossa extrema desigualdade, diria que, no Brasil, essa classificação também excluiria do centro das decisões nossas classes médias populares. O gráfico abaixo poderia ilustrar a questão da representação política – ou da falta dela –, que afeta essa parcela da população. São cidadãos que, por exemplo, pagam por planos de saúde baratos mas dependem, em parte, do serviço público. Pagam duplamente, e não recebem duas vezes. E não havia quem falasse diretamente para essa massa de interesses difusos não atendidos. Não havia.

Explicar francamente as consequências prováveis de cada ação ou política é difícil. Falar a verdade e dar notícias ruins é difícil. Tomar decisões que contemplem política e materialmente os mais pobres e deseducados, de forma sustentável, retirando-os dessa condição, é difícil. Resistir ao canto da sereia populista é muito difícil. Mas não é fácil liderar. Requer, antes de outras coisas, a fortaleza de ser intelectualmente honesto, em um meio que “premia” o comportamento oposto.

No começo de 2017, dava boas-vindas a 2018. O ano era outro, mas já vivíamos nesse, de agora. A polarização exacerbada dominava a conjuntura, todos os temas e ambientes de discussão. Nessa atmosfera sufocante, a irracionalidade da defesa ideológica cega e do culto personalista começava a mostrar nossa antes velada preferência por salvadores da pátria. A classe média brasileira parou de se envergonhar, e nas suas fronteiras com pobres e ricos, passou a reproduzir esse cansaço de se ver pouco representada.

Bolsonaros e Ciros despontam triunfais como porta-estandartes dessa narrativa. Exuberantes, talvez se lembrem que não são de forma alguma outsiders da política. Indiferente à carência reinante no cenário político nacional, outubro se aproxima com velocidade assustadora. Como será possível comunicar esse fato e acolher nossas camadas mais populares no processo político em tão pouco tempo, sem que ela resolva manifestar seu inconformismo por meio de alguma expressão eleitoral autoritária?

Não haverá solução imediata. Essa é uma missão para alguns anos e que dependerá fortemente de como passarmos a exigir do Estado a melhoria da nossa educação. Não é preciso citar os ganhos advindos de um maior equilíbrio de oportunidades entre ricos e pobres e do aumento da produtividade da nossa economia. A consolidação da nossa democracia depende da qualidade da formação do elemento humano brasileiro.

É por isso que campanhas como a #EducaçãoJá, coordenada pelo Todos pela Educação, são tão necessárias e urgentes. Colocar no lugar de soluções fáceis o planejamento e investimento nas gerações futuras pode nos fazer de fato uma nação que não dependa de “iluminados”. É uma boa ideia, pois eles não vacilam ao disputar o poder a qualquer preço, mesmo que isso nos encerre nas trevas da civilização.

Populismo sem povo 2: nojo e descaso das elites brasileiras

Conforme tratei do populismo e de algumas das suas consequências para a nação. Chamei de espiral populista o fenômeno em que tendências populistas provocam efeitos negativos que têm a capacidade de se encadear e sustentar mutuamente, gerando uma demanda ainda maior por líderes populistas, como resultado.

Dentre as dez principais tendências que ameaçam o fortalecimento da sociedade civil no mundo, do Relatório Anual da Civicus 2018, duas se expressam fortemente no Brasil: a polarização política, dividindo sociedades, e o surgimento de  líderes políticos que estabelecem regras próprias, o que enfraquece as instituições democráticas e, consequentemente, o poder do povo.

Alguns desses elementos estão ligados ao desespero e a compulsão pela solução rápida que brota no seio das classes populares em momentos de crise. A perda do emprego, do poder aquisitivo, do acesso a serviços e direitos, ou ainda o desamparo pela falta de representação política real, são fatores dos mais relevantes para essa equação.

Outros, no entanto, são uma reação quase primal ao deboche e desprezo com que o escol nacional trata suas baixas classes médias. Sempre rotuladas, são os “emergentes” dos tempos das vacas gordas, os “fundamentalistas” das igrejas evangélicas, os “alienados” que assistem a jogos de futebol e novelas na Tv, os “idiotas úteis” dos movimentos políticos e sindicatos, ou simplesmente aquelas pessoas “de mau gosto” que ouvem música sertaneja, tomam cerveja barata e adoram o sensacionalismo dos memes da internet.

A fonte da ridicularização não se distingue pela posição no arco ideológico. Seja de esquerda, direita ou centro, a elite não suporta a ideia de que democracia considere o voto do povo, como se ele tivesse vontade própria. A única expressão tolerada dessa opinião é aquela debaixo da influência da sua formadora “preferencial”, no caso, a própria elite. Para resumir, intelectuais, governantes e patrões não somente acham que podem decidir por todos, mas constantemente jogam isso na cara daqueles que raramente têm voz.

Se você não tem visto nada disso acontecer, que tal dar uma olhada nos quadros principais do último episódio do programa Zorra, da Rede Globo? Menções diretas a personagens idiotizados que repetem “bandido bom é bandido morto!” e “na época dos militares…” podem até ser aquelas belas intenções das quais o inferno está cheio, mas revelam também a incapacidade das nossas elites em educar e dividir.

No tripé desespero-impotência-confronto se apoiam os regimes populistas desde o nascedouro. A identificação do inimigo comum externo é um dos seus marcos distintivos. Em ambiente de polarização política extrema como o nosso, florescem as ofertas de “pacificação” pela força. Na prática, isso significa excluir os que não pensam da mesma forma. O que a população excluída desse jogo pode entregar, pelas mãos de líderes fortes, ao futuro do país, não terá sido mais negativo do que vêm recebendo ao longo dos últimos anos.

Nesse aspecto, a situação ainda pode piorar bastante e ameaça frontalmente a nossa democracia. As eleições desse ano poderiam me deixar mentir, e torço para que isso ocorra, mas confesso, lá no fundo, sinto que não será o caso. O ambiente conturbado da nossa política e economia, infelizmente, é dos mais propícios para o desastre.

A intervenção militar começa a aparecer como bandeira desse dito lado de baixo da cultura nacional. A reação das elites? Reproduzir incessantemente o preconceito que o problema do Brasil é o brasileiro, pobre e ignorante. Ela não se importa minimamente em liderar processos de transformação, nem tampouco com as causas mais profundas do que está sendo dito. Afinal de contas, “esse povinho bem merece os governos que tem”. Um país tão desigual e que tem elites absolutamente míopes está fadado a ser berço de injustiças e criadouro de “redentores”.

Para além de relativizar o embrutecimento das camadas mais populares da população, postas a seu serviço como num passe de mágica, populistas sabem bem que as elites de outrora sempre dão aquela ajudinha que falta para a instauração de novos regimes de exceção.

 

Fonte: Por Tom Barros, no Congresso em Foco/Municipios Baianos

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