14/06/2018

No Brasil, a extrema direita já está consolidada

 

A Copa que começa nesta quinta, 14, em Moscou, com o jogo entre a equipe da casa e a Arábia Saudita, evoca um causo delicioso do futebol. Imprimiram a lenda segundo a qual no Mundial de 1958, na preleção antes da partida da seleção brasileira contra a União Soviética, o técnico Vicente Feola ensinava o time a furar a defesa oponente. O Garrincha, entre palerma e sonso, teria perguntado: o senhor já combinou com os russos? A historinha é boa, porém ficcional. Biógrafo do Mané, Ruy Castro consultou testemunhas da conversa. Todas esclareceram que a frase é fantasia; ninguém a pronunciou. Vencemos por 2 a 0, gols do Vavá.

Quem se esqueceu de combinar com os russos foram os formuladores dos prognósticos de declínio acentuado da influência de Lula na eleição de outubro. Quer dizer, esqueceram-se de combinar com os brasileiros. O Datafolha acaba de mostrar que o ex-presidente, preso desde 7 de abril, permanece líder na intenção de voto. O petista ponteia com folga, 30%. É seguido por Jair Bolsonaro (17%), Marina Silva (10%), Ciro Gomes e Geraldo Alckmin (6% cada um) e Álvaro Dias (4%). Em dois cenários sem o ex-torneiro mecânico, o capitão da reserva do Exército é o primeiro, com 19%. No entanto, a categoria “sem candidato” (nulo, branco, nenhuma opção ou não sabe) o supera, com 33%. Nessas simulações, experimentaram os nomes de Fernando Haddad e Jaques Wagner. Os correligionários de Lula não ultrapassaram a marca de 1%. É evidente como a cara enfezada do Canarinho Pistola que a esmagadora maioria dos entrevistados não os associou ao sucessor de Fernando Henrique Cardoso.

De acordo com o Datafolha, 30% dos eleitores votariam com certeza num candidato indicado por Lula; 17% talvez votassem. Nada assegura que intenção vire voto. Mas há indicação de transferência robusta. A corretora XP Investimentos encomendou pesquisa ao Ipespe. Sem Lula na disputa, o ex-prefeito Haddad amealhou 3% das preferências. Quando apresentado como candidato apoiado pelo ex-presidente, ascendeu para 11%. Em cana, Lula provavelmente terá a candidatura presidencial impugnada com base na Lei da Ficha Limpa, sancionada por ele mesmo. Certo jornalismo antecipou-se à Justiça Eleitoral, bateu o martelo e eliminou-o do elenco de aspirantes ao Planalto. A maioria relativa que o escolhe nas pesquisas recusa as decisões de tapetão que impedem a expressão soberana e democrática da vontade popular. Os repórteres Guilherme Evelin e Catarina Alencastro informaram que o ministro Gilmar Mendes “tem dito que as possibilidades de o ex-presidente deixar a cadeia só vão melhorar quando ele se declarar fora do páreo presidencial”. Se barrado como candidato, Lula será o “grande eleitor” de 2018. A eleição passa por Curitiba.

Eleitor envergonhado de Bolsonaro

Também não combinaram com os russos o profetizado definhamento de Bolsonaro. O deputado beira, mas não alcança os 20%. Conserva, contudo, o vigor que o classificaria para o segundo turno. Na pesquisa espontânea, em que nenhum candidato é citado, ele superou Lula (12% a 10%), desconsiderando a margem de erro. Na finalíssima, perderia para Marina (42% a 32%) e faria jogo duro com Alckmin (ambos com 33%) e Ciro (vantagem de 36% a 34% para o pedetista que flerta com o DEM enquanto sonha abocanhar os votos do PT; o ex-ministro é um centroavante rompedor que espera tanto a bola cruzada da esquerda quanto da direita para cabecear).

Deterioração econômica, degradação social e desmoralização da política institucional costumam ser circunstâncias proveitosas (também) para a extrema direita. O Brasil devastado é fértil para a plantação de Bolsonaro. O governo hesita em honrar promessas feitas a caminhoneiros e empresas de transporte rodoviário. Em uma semana, a bandidagem do Primeiro Comando da Capital incendiou 68 ônibus em Minas, onde servidores da segurança pública invadiram o Palácio da Liberdade, sede do governo. O Atlas da Violência recém-divulgado contabilizou 62.517 mortes violentas intencionais no Brasil em 2016. Em onze anos, houve mais homicídios no Brasil, 553 mil, do que mortes em sete anos de guerra na Síria, 500 mil. Pregações belicosas como a de Bolsonaro ganham decibéis e audiência, a despeito dos reveses reincidentes das intervenções militares nos aparatos estaduais de segurança.

Na sexta-feira, a operação do bondinho do Pão de Açúcar foi suspensa por causa de um tiroteio na Urca. Traficantes fugiam dos morros da Babilônia e Chapéu-Mangueira pela mata, rumo à praia Vermelha. Tirotearam com policiais militares. Um PM foi ferido. Sete corpos apareceram por ali, numa encosta. De acordo com parentes, eram jovens do tráfico chacinados por PMs depois de se render. O general Villas Bôas, comandante do Exército, recepcionou Bolsonaro e posou sorridente com o visitante. Uma sondagem com 204 investidores do mercado financeiro constatou que 48% deles preveem a vitória do deputado. Ao Ibope, 53% dos entrevistados reconheceram a hipótese de golpe militar. No Datafolha, a aprovação (“ótimo/bom”) ao governo Temer caiu ao menor índice da história do país, 3%.

Bolsonaro tem se recusado a participar de debates e sabatinas. Guilherme Boulos, candidato do PSOL com formação psicanalítica, diagnosticou: “Quem não tem o que dizer foge dos debates. A psicanálise nos ensina: a agressividade oculta o medo”. O capitão atenua o discurso hidrófobo, buscando expandir sua base. Tenta oscilar de fascista para fascistoide. Se ocorrer o fenômeno da eleição carioca de 2016, quando Flávio Bolsonaro recolheu 14% dos votos válidos para prefeito, as urnas revelarão eleitores do seu pai envergonhados, não captados pelas pesquisas de opinião.

O temor de Lula

O Datafolha cravou em 49% a 32% a goleada de Lula sobre Bolsonaro no segundo turno. O capitão escaparia do chocolate devido ao impedimento do ex-presidente por determinações judiciais já tomadas ou na iminência de serem tomadas. É possível interpretar a condenação no processo do triplex como edificante ou aberrante. Mas o fato é incontornável: o Judiciário livra o ultradireitista do adversário mais ameaçador. Um dos motivos do adiamento do endosso de Lula a outro candidato é o temor de que Polícia Federal, Ministério Público Federal e Justiça mirem as baterias no apadrinhado. O favorito dos eleitores identifica naquelas instituições não equilíbrio, e sim partidarismo, contra ele e sua agremiação. Seria o partido da toga. Talvez tenha razão. No mínimo, irrompem coincidências e idiossincrasias.

Na semana em que se soube que Haddad pode ser competitivo na peleja pela Presidência, a Justiça eleitoral recebeu denúncia contra o ex-prefeito por alegado caixa dois. Na sexta-feira, o PT lançou em Contagem a pré-candidatura Lula. No mesmo dia, o ministro Celso de Mello liberou para julgamento pelo STF uma ação contra a senadora Gleisi Hoffmann. A presidente do PT coordena a campanha pela libertação do antigo presidente. Veloz no julgamento em que confirmou a condenação de Lula, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região desacelerou. Agora, demora a apreciar o recurso que permitiria encaminhar o caso a tribunais superiores.

Em Nova York, Sérgio Moro foi a estrela de evento organizado pelo Lide, empresa vinculada ao tucano João Dória. O juiz confraternizou com o candidato a governador de São Paulo, que o proclamou “herói nacional”. Recebeu homenagem em Mônaco, notório paraíso fiscal, onde teve a companhia do príncipe Albert II num convescote de gala. Antes da excursão como celebridade abençoada por endinheirados e reacionários, Moro aproveitara um despacho para opinar sobre o movimento de caminhoneiros, assunto estranho à sua vara.

Em Brasília, o ministro Luiz Fux mandou arquivar um processo que investigava Onyx Lorenzoni por caixa dois em campanha. O deputado do DEM acompanhou Bolsonaro na visita ao general Villas Bôas. Embora os ministros do Supremo já tivessem uma sala especial no aeroporto de Brasília, passaram a contar com uma nova sala VIP, ao custo anual de R$ 374,6 mil. A mordomia é patrocinada pelos contribuintes, os mesmos que bancam o renovado auxílio-moradia de magistrados e procuradores. A presidente do STF, ministra Cármen Lúcia, não pauta o julgamento da ação sobre prisão de condenados em segunda instância que poderia retirar Lula do cárcere e autorizar sua candidatura. O ministro Augusto Nardes, do Tribunal de Contas da União, foi alvo de busca e apreensão. Ele foi mencionado por um delator de falcatruas. Na diligência, ordenada pelo ministro Dias Toffoli, a PF foi camarada e usou veículos descaracterizados – “raro benefício”, anotou o jornalista Lauro Jardim. Nardes foi o relator das “pedaladas fiscais” no TCU. Ajudou a golpear Dilma Rousseff.

FHC: ‘O de sempre’

Na primeira aparição pública desde o encarceramento, na terça-feira o ex-presidente prestou por vídeo depoimento a Marcelo Bretas, em processo em que o ex-governador Sérgio Cabral é réu. Como se pretendesse bafejar equidistância, o juiz falou que aos 17, 18 anos estivera em comício vestindo camiseta e boné com o nome de Lula, que reagiu de bate-pronto: “Quando eu fizer um comício agora eu vou chamar o senhor para participar”. Desconhecem-se provas documentais de Lula pedindo dinheiro a empresários. Em 2010, FHC escreveu ao empreiteiro Marcelo Odebrecht apelando por “contribuições” para a campanha de dois concorrentes do PSDB ao Senado. Enviou dados bancários para depósito. Como a abordagem era frequente, um e-mail registra como assunto “O de sempre”  – isto é, grana. Na prestação de contas dos candidatos estão ausentes desembolsos da construtora que pagava almoços do PT ao PSDB, do PMDB ao DEM. E se lambuzava com a sobremesa. “O de sempre” ingressa na antologia de expressões-sínteses do poder nacional, como “Com o Supremo, com tudo” (Romero Jucá) e “Tem que manter isso, viu?!” (Michel Temer). Mensagens tratam de contribuição financeira da Odebrecht para a Fundação Fernando Henrique Cardoso. Mas criminalizado é o Instituto Lula, e quem está no xilindró é Luiz Inácio Lula da Silva. “Não me conformo com minha situação”, disse o preso em manifesto lido no lançamento de sua candidatura.

Amanhã completam três meses os assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes  – por enquanto, vigora a impunidade. Neste mês as Jornadas de Junho que abalaram  – e ainda abalam – o Brasil fazem cinco anos. No dia 26 aniversaria, meio século, a Passeata dos 100 mil contra a ditadura. No domingo a seleção estreia na Copa, contra a Suíça. A vitória no amistoso com os austríacos  – gols de Gabriel Jesus, Neymar e Philippe Coutinho – vitaminou o otimismo. Tostão advertiu: “Todos elogiam o Brasil, como se fosse o time perfeito, antes da hora. Isso me preocupa”. Juca Kfouri tabelou: “Trata-se agora de não permitir que o 3 a 0 sobre a Áustria sirva para deixar todos eufóricos”. A final da Copa será em 15 de julho, a 84 dias da eleição presidencial.

Enfraquecido, Temer ressuscita poder do quepe

Tratado inicialmente como mais uma trapalhada do governo, o slogan “O Brasil voltou, 20 anos em 2” vai se revelando uma confissão disfarçada pela vírgula. No seu mais recente retrocesso, Michel Temer efetivou o general Joaquim Silva e Luna no posto de ministro da Defesa. Parece uma decisão banal. Mas não é. Com uma única canetada, o pseudo-presidente atrasou o relógio em quase duas décadas.

Em 1999, ao abolir o status ministerial dos comandos militares, submetendo Exército, Marinha e Aeronáutica à autoridade de um ministro civil da Defesa, o então presidente tucano Fernando Henrique Cardoso inaugurou, por assim dizer, a fase adulta da democracia brasileira. O papel das Forças Armadas na vida do país foi estrategicamente redimensionado.

Temer iniciara seu governo preservando a nova tradição. Acomodara na chefia da pasta da Defesa o ex-comunista Raul Jungmann. A coisa caminhava bem. De repente, o inquilino do Planalto rendeu-se a duas tentações marqueteiras. Numa, executou o “golpe de mestre” de decretar uma intervenção verde-oliva na segurança do Rio de Janeiro. Noutra, transferiu Jungmann para uma nova pasta da Segurança Pública.

Desafiada pelo assassinato da vereadora Marielle Franco, a intervenção perdeu a serventia eleitoral que a inspirou. E Jungmannn, que realizava um bom trabalho na Defesa, virou um ministro cenográfico da Segurança Pública. Por ora, a realização mais notável do governo nessa área foi a criação de uma crise. A nova pasta da Segurança disputa com os ministérios do Esporte e da Cultura migalhas orçamentárias extraídas dos bolsos mais humildes do país por meio das loterias.

Para complicar, Temer decidiu efetivar no comando da Defesa o general que respondia interinamente pelo ministério desde fevereiro. Para complicar um pouco mais, a providência foi adotada num instante em que o Datafolha informa que o prestígio do presidente chegou às fronteiras da margem de erro das pesquisas: Temer é aprovado por 3% dos brasileiros.

A taxa de reprovação de Temer escalou a inédita marca de 82%. Na mesma pesquisa, 78% dos entrevistados disseram confiar muito (37%) ou pelo menos um pouco (41%) nas Forças Armadas. É como se um presidente fraco desejasse atenuar seu desprestígio recorde escorando-se no prestígio que ainda resta aos militares.

Tudo isso ocorre num instante em que um ex-capitão do Exército frequenta a cena política como opção paleolítica de poder. E um pedaço da sociedade pede a volta dos militares, sem se dar conta de que, sob Temer, eles já estão em toda parte: na segurança do Rio, nas operações de manutenção da lei e da ordem em vários Estados, nas inspeções em presídios, pilotando caminhões e postos de chefia espalhados da Funai até a Casa Civil da Presidência…

No governo Temer, o que era eventual tornou-se corriqueiro. O suposto presidente alcançou a façanha de ressuscitar o poder do quepe, devolvendo a democracia brasileira à sua fase da infância institucional. A grande sorte do Brasil é que os militares —essa entidade meio abstrata que Temer se esforça para tornar real— evoluíram. Noutros tempos, o quepe era visto como uma ameaça. Hoje, a cúpula militar informa que, por mais que empurrem, as Forças Armadas não aceitam ultrapassar os limites da Constituição.

Rodrigo Maia marca encontro com Ciro Gomes para discutir aliança eleitoral

A indefinição do cenário eleitoral materializada na estagnação dos pré-candidatos na pesquisa Datafolha de domingo (10) fez o DEM ampliar seu leque de possibilidades e procurar o PDT para conversar sobre uma possível aliança entre os dois partidos, que figuram em diferentes campos políticos.

Segundo um integrante da cúpula do DEM, a aproximação entre as duas siglas já está se dando nos bastidores, com trocas de sinais de simpatia. Na semana passada, o presidenciável do PDT, Ciro Gomes, disse que o único partido com o qual descarta aliança é o MDB do presidente Michel Temer.

ENCONTROS

Nesta quarta-feira (13), o presidente da Câmara e pré-candidato à Presidência da República, Rodrigo Maia (DEM-RJ), conversa com o ex-governador Cid Gomes (PDT-CE), irmão Ciro. Na semana que vem, a conversa deve ser com o próprio Ciro.

O PDT vinha tentando manter em sigilo o encontro de Cid com Maia. O receio de Ciro é de que uma aproximação com legendas de centro-direita possa melindrar o PSB e o PC do B, atrapalhando eventuais alianças.

Desde a semana passada, Ciro intensificou conversas com as siglas de esquerda. A ofensiva tem como objetivo blindá-las do assédio do PT, que iniciou uma disputa com o PDT pelo apoio de ambas as legendas. Apesar do esforço, as duas já sinalizaram que só anunciarão aliança no final de julho, quando o quadro eleitoral se tornar mais previsível.

CANDIDATURA

O DEM ainda mantém a pré-candidatura de Maia. Além de isso dar conforto para que os integrantes da legenda não tenham que assumir uma aliança agora, há o entendimento interno de que Maia, com seus de 1% a 2% de intenções de votos, não está muito diferente dos demais candidatos de centro, como Geraldo Alckmin (PSDB), que oscila entre 6% e 7%.

Como a margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, Maia oscila entre 0 e 4%, e Alckmin, entre 4% e 9%. Ciro oscila entre 6% e 11%. Com a margem de erro, entre 4% e 13%.

De acordo com um participante da campanha de Maia, uma pequena parcela do partido apoia a candidatura de Jair Bolsonaro (PSL); outro grupo, um pouco maior, defende aliança com Alckmin; mas a maioria tem uma visão mais pragmática.

PORTAS ABERTAS

Por pragmático entenda-se, além de não descartar de imediato a candidatura própria, deixar portas abertas para apoio a Alckmin ou a Ciro, mas também a Alvaro Dias (Podemos) ou a Josué Alencar (PR), que ainda não se lançou pré-candidato a qualquer cargo. Uma das prioridades do partido é garantir a recondução de Maia à Presidência da Câmara.

É Cid quem tem sido responsável por articular uma aproximação do Ciro com o PP e com o DEM. Ele disse à Folha que a prioridade é fechar alianças com siglas de esquerda, como PSB e PC do B, mas que Ciro não deixará de dialogar com partidos de centro.

“Nós vamos dialogar com todos. Ciro é candidato a presidente e, sendo eleito, é fundamental que tenha uma base de apoio baseada em princípios éticos e transparentes, o que não inclui o MDB”, disse ele, lembrando que Ciro tem uma boa relação com dirigentes do DEM e do PP no Ceará.

 

 

Fonte: Por Mário Magalhães, no The Intercept/BlogdoJosias/Folha/Municipios Baianos

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