15/06/2018

A doença invisível que afeta um em cada três adultos

 

Costuma passar despercebida na maioria dos casos. É assintomática. Invisível e silenciosa para o paciente e também do médico, se não for procurada com cuidado. Quando começa a mostrar a cara, já está avançada e não vem sozinha: é acompanhada, na melhor das hipóteses, de uma cirrose incipiente. Trata-se da doença do fígado gorduroso não alcoólico, relacionada com a obesidade e os hábitos sedentários, e que afeta um em cada três adultos, segundo estimativas dos especialistas. Nesta terça-feira comemorou-se, pela primeira vez, seu dia internacional, com a intenção de “divulgá-la e desestigmatizá-la”, diz o médico Salvador Augustin, hepatologista do hospital Vall d’Hebron, em Barcelona.

A doença do fígado em grau não alcoólico (NASH, na sigla em inglês) está vinculada ao acúmulo excessivo de gordura no fígado por causas alheias ao álcool. “De cada 10 fígados gordurosos que diagnosticamos, só um ou dois são por causa do álcool; o resto não”, esclarece o médico do Vall d’Hebron. Não se sabe a origem exata do NASH, mas os especialistas estão convencidos de que os fatores chaves que predispõem a essa enfermidade são a obesidade, o diabetes tipo 2, a hipertensão, o colesterol alto e outros transtornos relacionados a hábitos sedentários. “Começou um terremoto nos anos oitenta que era a obesidade, e gerou um tsunami que os hepatologistas estamos vendo agora: a prevalência do fígado gorduroso não alcoólico está aumentando”, alerta Augustin. Três em cada quatro pessoas podem permanecer assintomáticas por toda a vida, mas 25% dos pacientes com NASH desenvolverão uma cirrose ou um câncer hepático, segundo cálculos dos especialistas. “No Reino Unido, esse já é o maior responsável pelo câncer hepático, e nos Estados Unidos é a primeira causa de transplantes de fígado”, acrescenta o hepatologista do hospital catalão.

O acúmulo excessivo de gordura no fígado impede que o órgão a armazene e a metabolize de maneira adequada. As células do fígado “começam a sofrer”, explica Augustin, e acabam morrendo, o que produz uma inflamação e danos no órgão. Para combater essas lesões, o próprio fígado gera mecanismos de cicatrização (fibroses), mas esse tecido cicatrizado não pode realizar as mesmas funções que um órgão saudável. O fígado é o encarregado de limpar o sangue e gerar proteínas e nutrientes vitais, e se ele falha o paciente pode morrer.

Os médicos alertam para o número insuficiente de diagnósticos do NASH. Os casos notificados são apenas “a ponta do iceberg” de uma epidemia, advertem. “Para cada paciente que diagnosticamos, há três que desconhecemos”, observa o médico do Vall d’Hebron. A detecção é complexa porque a doença é silenciosa e invisível. As transaminases altas em um exame de rotina podem fazer o médico suspeitar, pois essas enzimas se armazenam especialmente no fígado e, em doses elevadas, podem ser um indicador de dano hepático. Entretanto, a melhor arma para confirmar uma suspeita de NASH é o Fibroscan, um procedimento não invasivo que analisa a presença de gordura no fígado e o nível de fibrose. O Vall d’Hebron participa de um estudo para testar o emprego disseminado do Fibroscan na população geral e afinar os dados sobre a prevalência da enfermidade. “Acreditamos que 35% da população geral têm fígado gorduroso não alcoólico e, destes, 25% têm uma fibrose importante, com uma cirrose ou uma pré-cirrose. Na população diabética, entre 10% e 15% têm fígado gorduroso não alcoólico com estado pré-cirrótico ou cirrose”, diz o hepatologista. Estima-se que 1% das cirroses associadas ao NASH podem derivar em um câncer hepático.

Augustin alerta para os graves problemas de saúde que essa doença pode gerar, mas garante que ela é evitável. “Se um paciente obeso perder 10% do seu peso, melhora muito. O problema é que só 10% dos pacientes conseguem perder esses 10% de peso”, observa. Contudo, acrescenta, a prevenção e os hábitos saudáveis são, de longe, o melhor remédio.

A IMPORTÂNCIA DO MICROBIOTA INTESTINAL

O grupo de Enfermidades Digestivas e Hepáticas do Vall d’Hebron Instituto de Pesquisa (VHIR, na sigla em catalão), dirigido por Augustin, também testou a importância do microbioma intestinal – o exército de micro-organismos que povoa o intestino – para o combate ao dano hepático. Especificamente, os pesquisadores constataram que o transplante de fezes – as quais contêm o microbioma – a partir de um organismo saudável corrige a hipertensão portal, um problema derivado do endurecimento do fígado por causa das cicatrizes, e que impede o sangue de circular corretamente pela veia porta.

Os cientistas realizaram um transplante fecal de ratos saudáveis para ratos com fígado gorduroso não alcoólico e assim conseguiram eliminar a hipertensão portal. “É uma prova de conceito de que o microbioma tem um efeito importante nesse campo”, diz Augustin, que publicou o estudo na revista científica Hepatology.

Descoberto um possível alvo terapêutico contra o câncer mais mortal

Não existe atualmente praticamente nenhuma alternativa terapêutica para lidar com um diagnóstico de câncer de pâncreas. O tumor é fugidio, sabe camuflar os sintomas até que a doença alcance um estado muito avançado e, além disso, cria ao seu redor uma espécie de muro que impede a ação do sistema imunológico e dos medicamentos quimioterápicos. Entretanto, pesquisadores do Instituto Hospital do Mar de Pesquisas Médicas (IMIM, na sigla em catalão), de Barcelona, encontraram agora um facho de luz no fim do túnel, um possível fio da meada que permita melhorar o prognóstico e a evolução desse tipo de tumor. Os cientistas provaram com sucesso em ratos que, ao inibir a proteína Galectina-1 (Gal1), relacionada com a proliferação das células tumorais, reduz-se a agressividade e se freia o crescimento desse câncer. Esses estudos pré-clínicos ainda precisam ser reproduzidos em um ensaio com pacientes humanos, mas em princípio essa descoberta abre caminho para um possível alvo terapêutico que melhore a sobrevivência.

O tipo de câncer de pâncreas mais comum, o adenocarcinoma ductal pancreático (85% dos casos detectados), tem um dos piores prognósticos: a sobrevivência após cinco anos mal chega a 5%. “É muito maligno. Detecta-se em fases muito avançadas, quando já não se pode fazer cirurgia para extirpar o tumor. A sintomatologia inespecífica e a localização do órgão dificultam o diagnóstico precoce. Não há métodos de varredura e, além disso, respondem muito mal aos tratamentos, porque tem uma barreira física que impede os fármacos de chegarem ao tumor”, enumera a médica Pilar Navarro, pesquisadora do IMIM e autora do estudo.

A “barreira física” a que Navarro se refere se chama estroma e funciona como uma espécie de muralha que evita que as células tumorais se exponham aos fármacos e ao próprio sistema imunológico. Os artífices desse muro são os fibroblastos, um tipo de células que secreta proteínas e outras substâncias que favorecem a proliferação do câncer. Nesse ecossistema tão peculiar, os pesquisadores voltaram seu foco para uma dessas proteínas que geram os fibroblastos: a Galectina-1, moléculas que participam ativamente na tarefa de despistar o sistema imunológico. “Já tínhamos observado que no pâncreas saudável essa proteína não se expressa, e que no câncer está expressa de forma elevada, então sabíamos que tinha a ver com o crescimento do tumor: essa proteína promove a vascularização do tumor [novos vasos sanguíneos que permitem ao câncer se alimentar e disseminar] e que as metástases cresçam mais”, observa Navarro.

Sobre essas premissas, os pesquisadores se propuseram eliminar essa proteína para ver como o tumor atuava. “No pâncreas saudável já não há expressão dessa proteína na idade adulta. Suas funções são as de bloquear reações autoimunes, então se você a bloqueia não tem por que acontecer nada, porque sua função também é feita por outras proteínas”, explica a médica. Assim, os cientistas testaram a resposta das células tumorais de várias maneiras: primeiro, em ratos tratados geneticamente para que tivessem a Gal-1 inibida; depois com células de pacientes com câncer in vitro no laboratório e in vivo em ratos; e, finalmente, através de estudos moleculares genéticos em grande escala. O resultado foi claro: “Validamos que inibir a proteína Gal-1 tem um efeito multidireccional porque desacelera o crescimento do tumor, freia as metástases e recupera a resposta imunológica”, resume a pesquisadora, que publicou a descoberta na revista científica PNAS.

Suas conclusões estabelecem as bases do que poderia ser uma via de tratamento no futuro. Os pesquisadores se mostram otimistas, mas também cautelosos: trata-se de estudos pré-clínicos, e ainda falta um longo caminho até que isto se traduza de forma efetiva em pacientes reais. As pesquisas continuam seu curso, e o próximo passo é inibir a proteína farmacologicamente – pois nesse estudo foi bloqueada geneticamente. “Já geramos anticorpos para a Gal1 e também há outros inibidores químicos que poderiam funcionar. Primeiro vamos tratar o rato com esses anticorpos, e depois, se tudo correr bem, vamos transferir isso para ensaios clínicos. Sendo otimistas, serão necessários 10 anos para vê-lo em pacientes”, diz a pesquisadora do IMIM.

A pesquisa contou com a colaboração do Centro Nacional de Pesquisas Oncológicas da Espanha (CNIO) e de grupos de pesquisa dos Estados Unidos e Argentina. Foi financiada também através de bolsas da Associação Espanhola da Pancreatologia e da Associação Câncer de Pâncreas.

 

Fonte: El País/Municipios Baianos

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