15/06/2018

Existem motivos para alegria nesta Copa 2018?

 

É verdade que não está fácil se animar com a expectativa do início da Copa do Mundo de 2018. Onde foi parar o costumeiro frio na barriga? Para onde foi aquela alegria de criança, diante de cinco semanas de puro futebol, diante dos craques abençoados de todo o mundo, dos bolões entre os colegas ou da tradição de assistir aos jogos com amigos e cerveja? No passado, ela costumava se anunciar mesmo antes da véspera de abertura, concorda?

Com essa insipidez na barriga, minha cabeça começa a funcionar. Bom, é óbvio: como alguém pode se animar de verdade com todos os problemas, manchetes negativas e escândalos que anteciparam o Mundial?

Já começa com o anfitrião, a Rússia, um país que tenta, traiçoeiramente, envenenar pessoas com neurotoxinas; que viola o direito internacional com a anexação da Crimeia; que bombardeia hospitais na Síria; que supostamente hackeia e espiona nações amigas; que realiza a Copa mais cara de todos os tempos enquanto muitos russos vivem na miséria; que ludibria com um sistema de doping o mundo dos esportes durante anos e que ameaça o jornalista que revelou a farsa de não conceder permissão de entrada – esse país pode realizar um Mundial de futebol? Ainda por cima quando se sabe há muito tempo que alguns dos responsáveis da Fifa pela escolha da sede da Copa do Mundo realizaram negócios suspeitos com a estatal russa Gazprom?

E mesmo a Fifa: a empresa organizadora – perdão: a associação sem fins lucrativos, segundo o direito suíço – pune, por um lado, federações como a da Nigéria com expulsão (2014) devido a "ingerência política" e recompensa, pelo outro, federações como a dos EUA com uma Copa devido a "ingerência política" – ou como se explicam os tuítes ameaçadores de Donald Trump antes da escolha da sede do Mundial de 2026? É como se uma rasteira perigosa ganhasse um cartão vermelho, e outra, o troféu da Copa.

É verdade que há muitas razões para não se animar com a Copa do Mundo na Rússia. Mas há ao menos um motivo de alegria: o Mundial une as pessoas. Ele sempre fez isso. E com o triunfo global do futebol, ele congrega cada vez um pouco mais a cada transmissão de jogo. Futebol é uma língua compreendida por quase todos em qualquer país do mundo.

O jogo consegue reunir pessoas de todos os continentes. Elas trocam ideias, dialogam, passam a se conhecer, perdem preconceitos, entendem umas às outras e superam divisões – que são muitas entre o anfitrião Rússia e o chamado Ocidente, como também alguns países da Ásia e Oceania. Conseguir atenuar novamente essas fronteiras seria um êxito para essa Copa do Mundo.

Em meio a crises diplomáticas entre russos cada vez mais isolados e o resto do mundo, A Copa proporciona uma pequena chance de reaproximação. Além do meio milhão de visitantes internacionais esperados, seria aconselhável que os chefes de Estado e governo também a aproveitassem. Pois, enquanto boicotes a eventos esportivos mostraram comprovadamente que não levam a nada, neste ano o esporte conseguiu mostrar a dimensão da força agregadora que pode ter.

Os Jogos Olímpicos de Inverno em Pyeongchang levaram, primeiramente no hóquei de gelo, mais tarde no cenário político a uma aproximação considerada até então impossível entre as duas Coreias. Se isso acontecer ao menos de longe entre a Rússia e o Ocidente, seria então um verdadeiro conto de fadas no verão europeu – e, finalmente, um motivo de alegria.

Copa da Rússia: cinco seleções que podem surpreender no Mundial

A Alemanha é a atual campeã, Brasil e Espanha são considerados favoritos, a Argentina tem Messi, Portugal tem Cristiano Ronaldo e França e Bélgica chegam com ótimas gerações. Não faltam palpites sobre qual seleção conquistará a Copa do Mundo Rússia 2018. No entanto, nem sempre as equipes mais carismáticas são as vencedoras. Seja para imitar a Costa Rica, que se classificou no grupo da morte em 2014 e chegou nas quartas de final, ou a Nova Zelândia, eliminada invicta na fase de grupos de 2010, o Mundial deste ano também estará cheio de candidatos a surpresas ou, pelo menos, boas histórias. Egito, Marrocos, Islândia, Costa Rica e Senegal são cinco exemplos.

Egito

Integrante do Grupo A, o Egito chamará a atenção na Copa do Mundo por conta de seu camisa 10, Mohamed Salah. O atacante do Liverpool, depois de temporada em que foi artilheiro e melhor jogador da Premier League e guiou os ingleses à final da Champions League, foi convocado mesmo se recuperando de lesão no ombro sofrida durante a decisão. Porém, além de Salah, outros nomes se destacam na geração que devolveu o Egito ao Mundial depois de 28 anos de ausência. A começar pelo goleiro, El Hadary, que completou, no último dia 15 de janeiro, 45 anos de idade e deve quebrar o recorde de jogador mais velho a disputar a competição. Na defesa, Ali Gabr e Hegazy, ambos zagueiros do West Bromwich, devem ser os titulares. Elneny, atleta do Arsenal, é o principal meia da equipe e referência de talento junto com Salah. Além do 10, o ataque também conta com Mahmoud Hassan – popularmente conhecido como Trezeguet, igual o francês famoso –, jogador do Kasimpasa da Turquia.

O grupo, que tem a anfitriã Rússia, a considerada fraca Arábia Saudita e o favorito Uruguai é acessível para os egípcios. Caso se classifiquem em segundo e a Espanha, principal força do Grupo B, passe em primeiro, Salah e Sergio Ramos, que machucou o egípcio na final da Champions, voltarão a se encontrar, agora nas oitavas de final da Copa. Na primeira fase, o Egito enfrenta Uruguai, Rússia e Arábia, nessa ordem.

Goleiros: El Hadary, Ekramy e Elshenawy.

Defensores: Ali Gabr, Elmohamady, Hegazy, Fathi, Ashraf, Abdelshafy, Hamdy e Samir.

Meio-campistas: Gaber, Morsy, Tarek Hamed, Elneny, Said.

Atacantes: Marwan, Salah, Kahraba, Ramadan, Shikabala, Trezeguet e Warda.

Marrocos

Vinte anos depois de sua última participação, o Marrocos reuniu uma de suas melhores gerações para voltar ao torneio mais importante do futebol. A grande estrela é Ziyech, meia de 25 anos, do Ajax. Ao lado dele, jogam os também meias Belhanda (Galatasaray) e Amrabat (Feyernoord) – Boufal, meia do Southampton, ficou de fora. A defesa é formada pelo lateral-direito Achraf, do Real Madrid, pelos zagueiros Benatia, titular da Juventus, e Saiss, do campeão da segunda divisão inglesa Wolverhampton, e pelo lateral-esquerdo Mendyl, do Lille.

Mesmo com um time bem montado, a missão de passar de fase no Grupo B é muito difícil para os marroquinos, uma vez que rivalizam com Espanha, Portugal e Irã. Na hipótese mais otimista, a seleção brigaria com a equipe de Cristiano Ronaldo pelo segundo lugar, que já seria algo incrível para Ziyech e companhia. Uma vitória sob o Irã no primeiro jogo, somado à derrota de Portugal para a Espanha, pode jogar a pressão para os europeus e favorecer os africanos na segunda rodada, quando se enfrentam.

Goleiros: Bounou, El Kajoui e Tagnaouti.

Defensores: Achraf Hakimi, Mendyl, Manuel da Costa, Benatia, Saiss e Dirar.

Meio-campistas: Ziyech, El Ahmadi, Belhanda, Fajr, Boussoufa, Ait Bennasser, Noureddine Amrabat, Harit, Sofyan Amrabat e Carcela.

Atacantes: El Kaabi, Boutaib, En Nesyri e Bouhaddouz.

Islândia

Depois de chegar às quartas de final da Eurocopa, eliminando a Inglaterra, e se classificar como primeira colocada do grupo com Croácia, Ucrânia e Turquia nas Eliminatórias, a Islândia chega na Rússia com fama de surpresa e candidata à classificação para as oitavas, por manter a base bem-sucedida dos últimos anos, mesmo no grupo considerado mais difícil do Mundial, que também tem Argentina, Nigéria e Croácia. O ponto forte da equipe está no meio-campo, formado por Johann Gudmunsson (Burnley), o camisa 10 Sigurdsson (Everton), Gunnarson (Cardiff City) e Hallfredsson (Udinese).

O menor país a disputar uma Copa do Mundo (350 mil habitantes, o mesmo tamanho de Sochi, segunda menor cidade-sede) estreia no torneio contra a Argentina, favorita, para depois jogar contra Nigéria e Croácia. Competindo pelo segundo lugar, a Islândia deve reencontrar a França, seu algoz da Eurocopa, caso chegue nas oitavas de final.

Goleiros: Halldorsson, Schram e Runarsson.

Defensores: Saevarsson, Ingason, Ragnar Sigurdsson, Arnason, Eyjolfsson, Magnusson e Ari Skulason.

Meio-campistas: Fridjonsson, Albert Gudmundsson, Johann Gudmundsson, Bjarnason, Gylfi Sigurdsson, Olafur Skulason, Gunnarson, Gislason, Hallfredsson e Traustason.

Atacantes: Sigurdarson, Finnbogason e Bodvarsson.

Costa Rica

Em 2014, a Costa Rica era a seleção mais fraca do grupo que tinha Itália, Uruguai e Inglaterra. Em 2018, os caribenhos novamente são considerados o pior time entre Brasil, Suíça e Sérvia, adversários do Grupo E. Para o raio cair duas vezes no mesmo lugar e a equipe da América Central alcançar o mata-mata, como fez no Brasil, o treinador Óscar Ramírez chamou 13 jogadores que disputaram o Mundial passado para a Rússia; entre eles, o goleiro Navas (Real Madrid), o zagueiro Oviedo, do Sunderland, os meias Celso Borges (La Coruña) e Bryan Ruiz (Sporting) e o atacante Joel Campbell, que joga pelo Bétis, pilares do time titular.

Considerando o Brasil como favorito do grupo, uma segunda colocação, desejo costarriquenho, colocaria provavelmente a seleção frente a atual campeã Alemanha já nas oitavas de final. Na primeira fase, a ordem dos jogos da Costa Rica é Sérvia, Brasil e Suíça.

Goleiros: Navas, Pemberton e Moreira.

Defensores: Acosta, Gonzalez, Smith, Duarte, Oviedo, Calvo, Gamboa, Waston e Matarrita.

Meio-campistas: Celso Borges, Bolaños, Colindres, Bryan Ruiz, Rodney Wallace, Azofeifa, Tejeda e Guzman.

Atacantes: Venegas, Joel Campbell e Ureña.

Senegal

Oito atacantes, seis meio-campistas e seis defensores. O resumo da convocação de Senegal indica que a seleção, que tem no atacante Mané, do Liverpool, sua principal estrela, deve partir para o ataque na Copa do Mundo. O goleiro reserva, Khadim N’Diaye, que joga na Guiana, é o único entre os 23 que não está em um clube europeu. Na defesa, o principal nome é Koulibaly, que foi um dos principais defensores da Serie A italiana jogando pelo Napoli na temporada passada. No meio, Gueye é destaque do Everton e Kouyate, titular do West Ham. Ainda no meio, estão Alfred N’Diaye (Wolverhampton) e Pape Alioune Ndiaye (Stoke City), xarás do goleiro reserva. Para fazer companhia a Mané, estão entre os oito jogadores mais ofensivos Niang (Torino), Keïta Balde (Monaco), Diouf (Stoke City) e Sakho (ex-West Ham, hoje no Rennes).

Tal como o Egito, Senegal tem um grupo que o possibilita sonhar com a vaga nas oitavas de final, uma vez que seus adversários da primeira fase são, nesta ordem, Polônia, Japão e Colômbia. Caso se classifique, deverá enfrentar Bélgica ou Inglaterra nas oitavas. Chegar nas quartas igualaria o melhor desempenho das seleções africanas em Mundiais (Camarões em 1990, Senegal em 2002 e Gana em 2010), mas também significaria ter Brasil (se passar em segundo) ou Alemanha (caso passe em primeiro) como prováveis adversários.

Goleiros: Diallo, Khadim N’Diaye e Gomis.

Defensores: Ciss, Koulibaly, Mbodji, Sabaly, Gassama e Wague.

Meio-campistas: Gueye, Sane, Kouyate, N’Doye, Alfred N’Diaye e Pape Alioune Ndiaye.

Atacantes: Sow, Diouf, Mané, Konate, Sakho, Sarr, Niang e Keïta Balde.

Copa do Mundo num país esterilizado

Os funcionários do Centro de Higiene e do Departamento de Epidemiologia da administração regional de Ecaterimburgo comunicam que os lagos municipais foram tratados efetivamente contra larvas de mosquitos. Nenhum inseto russo vai picar naquela cidade os espectadores da Copa do Mundo vindos do Egito ou do Uruguai.

O Departamento de Segurança Regional e Combate à Corrupção em Moscou comunica que a venda de álcool será restrita num raio de dois quilômetros em volta dos estádios. Os torcedores da Alemanha ou Argentina deverão ser poupados do desagradável clichê do russo notoriamente bêbado.

E não só deste, mas também dos mendigos, dos trabalhadores migrantes do Tadjiquistão e dos jovens de tendência oposicionista. Para tal cuidarão decretos extraordinários, por exemplo, a proibição de reunião e de manifestação ou as normas de imigração mais severas.

Nada de lixo nas esquinas, grafite nos muros ou janelas rachadas. Em vez disso, vias recém-asfaltadas, fachadas saneadas, árvores crescidas da noite para o dia. Tudo chique e bonito.

Comparado com Nova York, Berlim ou Paris, os espectadores estrangeiros do Mundial de fato se espantarão com a limpeza das metrópoles russas. Mais ainda: com as calçadas extralargas, ciclovias recém-demarcadas e táxis relativamente em conta, para convencê-los de quão segura, adiantada e cosmopolita é a moderna Rússia. Afinal, ninguém nunca se queixou de excesso de limpeza. E todo o mundo também preza a segurança. Então, tudo vai às maravilhas na Rússia.

Só é pena que os turistas da Copa em geral vão ter que ficar entre si nas calçadas extralargas, pois muitos moscovitas alugaram para os estrangeiros os seus apartamentos no centro e se retiram para suas dachas na periferia. Pena que raramente se escutará uma campainha de bicicleta, pois dá para contar nos dedos de uma mão o total das ciclovias de Moscou.

Pena que quase não vá se ver em São Petersburgo ou Ecaterimburgo vida noturna de verdade, como se conhece de Berlim ou Madri. Churrasco no parque? Deus me livre! Namorar no banco? Só se for heterossexual.

Por ocasião do Mundial, são muito especiais as relações oficiais entre o Estado russo e os torcedores estrangeiros que querem visitar esse Estado. Pelo menos nas 11 cidades-sedes: desde 25 de maio vigora a ordem extraordinária do Ministério do Interior obrigando todos os visitantes estrangeiros a se registrarem na polícia ou no Departamento de Imigração dentro de três dias, pessoalmente. E os recém-chegados que se deem por felizes de ter prazo tão generoso: originalmente era para ser um dia só.

Para os espectadores estrangeiros da Copa sem disposição de se ocupar de assuntos negativos como a anexação da Crimeia, a guerra no leste da Ucrânia, ou o envenenamento de Sergei e Yulia Skripal, será fácil evitá-los. Mas quem quiser conhecer uma outra Rússia, vai se deparar com um país bonito demais, limpo demais, quase estéril até.

Casca em vez de alma, decreto em vez de entusiasmo: um reflexo da faxina gradual do espaço público que já há anos avança na Federação Russa. Um espaço público que lembra cada vez mais a naufragada União Soviética. Fundar uma empresa? Teoricamente factível, mas na prática quase impossível – excesso de burocracia. Liberdade de expressão? Garantida na Constituição, na realidade, punida. Crítica? Cortada pela raiz.

Só resta a esperança de que cidadão normal Ivan Russo convide o John Inglês ou o Otto Alemão a visitá-lo em casa, para sua acolhedora cozinha, onde mesmo nos tempos soviéticos se falava livremente, e onde o quadro na parede pode estar um pouquinho torto.

Evitem sexo com "outras raças", diz deputada russa

Enquanto centenas de milhares de torcedores de diversos países se encaminham para a Copa, que começa nesta quinta-feira (14/06), uma deputada russa se viu na obrigação de lançar um alerta inusitado às mulheres na Rússia: evitem manter relações sexuais com estrangeiros "de outras raças".

Tamara Pletnyova, presidente da Comissão Parlamentar para  Família, Mulheres e Crianças, alertou que algumas mulheres poderão se tornar mães solteiras de crianças mestiças, dois fatores que, segundo ela, as colocariam em situação vulnerável na sociedade russa.

A parlamentar disse ainda que, mesmo se mulheres russas se casarem com estrangeiros, esses relacionamentos costumam acabar de forma problemática. Elas muitas vezes, argumentou, se veem presas em outros países ou, se ficarem na Rússia, acabam sendo impossibilitadas de reaver seus filhos.

Pletnyova respondia a uma pergunta sobre as chamadas "crianças das Olimpíadas", termo criado para descrever filhos e filhas de pele não branca concebidos durante os Jogos de 1980 em Moscou. Muitas dessas crianças sofreram discriminação no país. Na época, os métodos contraceptivos ainda não eram amplamente disponíveis na antiga União Soviética.

"Essas crianças sofrem e vêm sofrendo desde os anos soviéticos", disse Pletnyova. "Uma coisa é se elas são da mesma raça, mas a situação é outra se são de raças diferentes. Não sou nacionalista, apenas sei que as crianças sofrem", tentou explicar a parlamentar. Ela disse querer que os cidadãos russos se casem "por amor, independentemente de seu grupo étnico".

Pletnyova é membro do Partido Comunista KPRF, uma legenda de oposição que costuma apoiar o presidente Vladimir Putin na maioria das questões fundamentais.

Outro parlamentar russo, Alexander Sherin, disse que os torcedores estrangeiros poderão trazer vírus ao país e infectar os cidadãos. Ele alertou que as pessoas devem tomar cuidado ao interagir com turistas, uma vez que eles poderão tentar fazer com que "substâncias proibidas" circulem no país durante o torneio.

Os russos formam o maior grupo étnico do país, que conta com dezenas de minorias, além de uma vasta força de trabalho composta por migrantes de países da Ásia Central e da região sul do Cáucaso.

 

Fonte: Deutsche Welle/El País/Municipios Baianos

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