15/06/2018

Copa do Mundo começa com esperanças para o Brasil

 

Depois do estrondoso fracasso em casa, há quatro anos, poucos poderiam imaginar que a seleção brasileira chegaria à Copa do Mundo Rússia 2018 não só como uma das principais favoritas, mas também exibindo um futebol que voltou a encher os olhos do torcedor brasileiro. Sob o comando de Tite, que assumiu o cargo de treinador somente em 2016, o Brasil classificou-se em primeiro lugar nas Eliminatórias sul-americanas, espantando o fantasma alimentado pela gestão Dunga que ameaçava deixar o país de fora de uma Copa pela primeira vez na história. A seleção estreia no próximo domingo, contra a Suíça, em Rostov-do-Don.

Mais do que retomar o prestígio internacional da seleção, abalado pelo 7 a 1 contra a Alemanha, Tite tem como desafio na Copa desvincular o time de Neymar e companhia dos escândalos de corrupção que arranharam a imagem da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) nos últimos anos. O técnico se esforça para transmitir um discurso de ética e transparência no que diz respeito à parte futebolística. Pretende lutar pelo hexacampeonato competindo de forma leal, sem apelar para malandragens e o “jeitinho brasileiro”, que, em outras Copas, se tornaram uma marca tão associada à camisa amarela quanto a mística do futebol-arte. Destaca a todo o momento o senso coletivo que ajudou a incutir na seleção. “Temos jogadores extraordinários, como o Neymar”, disse Tite depois da vitória contra a Áustria, no último amistoso antes do Mundial. “Mas eles fazem parte de um conjunto forte, que funciona para privilegiar as individualidades na hora certa.”

Em sua força-tarefa pessoal para fazer com que a seleção brasileira seja lembrada apenas pelo futebol, o técnico ressaltou antes de embarcar para a Rússia que, caso o Brasil seja campeão, não irá a Brasília para a tradicional recepção à delegação no Planalto, rechaçando um possível encontro com o presidente Michel Temer. Pela crise de representação no país, que colocou até mesmo seu nome entre os cotados em pesquisas eleitorais, Tite tenta evitar que o time se transforme em instrumento de manobra na mão de políticos e cartolas.

Por outro lado, a CBF jogou um balde de água fria nesse esforço antes mesmo do início da Copa. Presidente da confederação após o banimento de Marco Polo Del Nero, indiciado por corrupção pelo FBI, Antonio Carlos Nunes, conhecido como Coronel Nunes, provocou uma crise diplomática em Moscou ao votar no Marrocos para sediar o Mundial de 2026, ignorando o combinado com a Conmebol de apoiar a candidatura conjunta de Canadá, Estados Unidos e México. Depois da gafe, executivos da CBF se empenham para isolar o Coronel, de 80 anos, sobretudo de aparições públicas. Apesar da boa fase em campo, a seleção ainda sofre para escapar dos estilhaços provocados pelos deslizes de seus dirigentes.

Entre os caprichos de Putin e o hooliganismo

Vladimir Putin não gosta de futebol, mas será a bola e tudo o que gera a organização de uma Copa do Mundo que medirão a partir desta quinta-feira o presidente russo e a capacidade de organização da Rússia. Pela primeira vez em vinte e uma edições, a grande festa da bola viaja a um país do Leste da Europa graças ao empenho pessoal e ao esforço financeiro realizado e promovido pelo presidente russo. Nos tempos da cortina de ferro teria sido impensável que a FIFA escolhesse o país para sediar a competição que faz transbordar seus cofres a cada quatro anos.

Esta Copa do Mundo se tornou o estandarte do renascimento da Rússia como superpotência econômica e política. Putin e o país estão jogando seu prestígio com as atenções do planeta futebol voltadas a sua capacidade de vencer duas grandes ameaças: o terrorismo islâmico e os hooligans locais. Os centros nevrálgicos das cidades-sede, as concentrações das seleções e os estádios se transformaram em bunkers e formam uma paisagem pré-bélica. Somente em Moscou foram mobilizados 30.000 soldados para garantir a segurança do evento.

Desde a Eurocopa de 2016, realizada na França, os ultras russos ostentam a supremacia e a bandeira da barbárie anteriormente agitada pelos hooligans ingleses. Tanto quanto a extrema violência dos torcedores violentos, a FIFA está preocupada com episódios de racismo, homofobia e xenofobia que possam ocorrer. “Nosso país está pronto para organizar a Copa do Mundo, garantir a todos que vierem à Rússia o máximo de conforto e deixar-lhes as emoções mais positivas”, declarou Putin com sua fria veemência durante o 68º Congresso da FIFA. Lá, pouco antes de a candidatura conjunta de Estados Unidos, México e Canadá ser designada sede da Copa de 2026, e como se fossem dois capitães antes de iniciar um jogo, Gianni Infantino entregou uma flâmula da FIFA a Putin. Talvez esse tenha sido o gesto mais futebolístico que Putin já protagonizou na vida. Nesta quinta-feira, Putin assistirá no luxuoso camarote do estádio Luzhniki, em Moscou, ao início de uma Copa histórica por conta da introdução da tecnologia de arbitragem. O árbitro argentino Néstor Pitana pode entrar na história se com a ajuda do VAR elucidar um lance duvidoso. Há mais expectativa para determinar o impacto da arbitragem por vídeo no desenvolvimento do jogo e no resultado do que a respeito do futebol que possa ser mostrado por Rússia e Arábia Saudita.

O desafio da Alemanha

Na verdade, o grande tiro de partida futebolístico acontecerá na sexta-feira, agigantado pela bomba-relógio em que a Espanha se transformou depois do tsunami da saída de Lopetegui e a presença de Cristiano Ronaldo. Será a primeira das três grandes vedetes a entrar em cena. Como Messi, o português pode estar diante de sua última oportunidade de ganhar uma Copa. Neymar ainda tem mais horas de voo para alcançá-la. Os três disputam neste evento o trono de melhor jogador do mundo, agora que um esporte coletivo como o futebol superdimensiona como nunca a dignidade individualista da Bola de Ouro. Competirão por essa glória euísta em um torneio em que só faltará Gareth Bale como representante do estrelato mundial. Os franceses Antoine Griezmann e Kylian Mbappé são os dois grandes candidatos para tentar desbancar esse grande tríptico.

Coletivamente, a Alemanha defende o título sem uma megaestrela, mas com um buquê dos campeões de 2014 e uma geração de jovens liderada por Goretzka que reafirmou a guinada para a supremacia através da bola. Os alemães abordam a empreitada de ser a primeira seleção a conquistar duas Copas do Mundo consecutivas desde que o Brasil alcançou o feito com as de 1958 e 1962. Também buscarão igualar os cinco títulos dos brasileiros. E de fundo, como sempre, a luta pela hegemonia entre a Europa e a América do Sul. Se a Alemanha aspira a imitar o bicampeonato do Brasil depois de ter sido a primeira seleção europeia a conquistar a Copa do Mundo do outro lado do oceano, o Brasil aspira a sua segunda conquista na Europa depois daquela de 1958 na Suécia. Sem a Itália, Argentina, Espanha, França e Portugal são os grandes candidatos para impedir que brasileiros e alemães prolonguem sua hegemonia.

Mário Fernandes, o lateral da Rússia que recusou a seleção brasileira

Chegou animadíssimo à boate Be Happy, em Porto Alegre, depois de marcar um gol na vitória do Grêmio sobre o Avaí. Aos amigos que o encontravam naquela madrugada do dia 26 de setembro de 2011, ele dizia, com ar enigmático: “Amanhã vocês vão ouvir falar de mim”. Quando o dia amanheceu, Mário Fernandes virou manchete nos jornais por não ter se apresentado à seleção brasileira, que disputaria o Superclássico das Américas contra a Argentina. Então com 20 anos, o lateral gremista se recusou a defender o Brasil, ao contrário de muitos jovens jogadores que dariam tudo para estar em seu lugar. Quase sete anos após o polêmico “não”, ele agora vive a expectativa de jogar a Copa do Mundo pela Rússia, anfitriã do torneio, que estreia nesta quinta-feira contra a Arábia Saudita.

Mário Fernandes nunca explicou bem os motivos que o levaram a rejeitar a camisa amarela. Na época, a seleção era comandada por Mano Menezes, que já havia convocado o lateral para o primeiro jogo contra a Argentina, mas não o colocou em campo. Apesar de ter treinado como titular, Mário acabou sendo reserva de Danilo, hoje dono da posição sob o comando de Tite. Segundo familiares, ele teria se revoltado com a indiferença da comissão técnica e não se sentiu à vontade no ambiente da seleção. “O Mário seguiu os princípios dele, não vendeu a alma para jogar pelo Brasil. O motivo da ausência na seleção não era balada. Ele não foi a um puteiro na noite anterior, apenas saiu com a namorada para se divertir. Sua decisão já estava tomada”, afirmou o pai, Mário Pérsio Fernandes, o Bagué, à revista Placar, rebatendo os rumores de que o filho tinha perdido o voo para se apresentar à seleção depois da ida ao Be Happy.

Passada a recusa, Mário Fernandes retomou o foco no Grêmio e foi escolhido o melhor lateral-direito do Campeonato Brasileiro de 2011. No ano seguinte, se transferiu para o CSKA Moscou, da Rússia, onde ganhou seis títulos nacionais e disputou a Champions League. No entanto, só voltou a ser lembrado na seleção em 2014. O Brasil acabara de perder a Copa em casa e passava novamente ao comando de Dunga, que, sob a justificativa de que “todo mundo merece uma segunda chance”, decidiu dar nova oportunidade ao “desertor”. A reação ao nome de Mário Fernandes na lista, porém, gerou críticas ao treinador por parte de torcedores brasileiros que consideravam o lateral um traidor após ter desprezado o chamado de Mano Menezes três anos antes. Disputou apenas um jogo pela seleção, substituindo Danilo no segundo da goleada de 4 a 0 sobre o Japão. A “segunda chance” ficou nisso.

Enquanto a seleção de Dunga não engrenava, Mário Fernandes tomou mais uma decisão drástica: queria ser russo. Deu entrada no requerimento de cidadania em 2016. Meses depois, o próprio presidente Vladimir Putin, torcedor do CSKA, assinou o decreto de naturalização do brasileiro. Como não havia disputado jogos em torneios oficiais pelo Brasil, ele poderia defender a Rússia, o que viria a acontecer já em 2017. De pele branca, cabelo loiro e pernas compridas, quem o vê em campo com a camisa do país europeu nem desconfia que o lateral nasceu em terras tão distantes do solo soviético. Desde que não precise se comunicar. Mário consegue pronunciar poucas palavras no idioma local. Nas raras vezes em que concede entrevistas, acompanhado de um tradutor, expressa-se em tímido português.

Já ouviu broncas, sobretudo do técnico Stanislav Cherchesov, que chegou a compará-lo a um cachorro (“entende tudo, mas não fala nada”), pela falta de domínio da língua. “Se não aprendeu a falar russo até agora, não vai aprender em um mês”, afirmou o treinador no início da preparação da Rússia para a Copa. Desde o início do ano, Mário tem praticado em casa para pelo menos cantar o hino do país antes dos jogos. Representantes do jogador brincam que ele já sabe mais trechos do hino russo que do brasileiro.

Antes de ver seu nome entre os 23 convocados de Cherchesov para o Mundial, o lateral teve de superar uma fratura no nariz, que o tirou da Copa das Confederações, e uma lesão na coxa que o impediu de disputar o amistoso diante do Brasil, em março. Só tem seis partidas oficiais pela Rússia, que não celebra uma vitória há mais de oito meses. Ainda assim, Mário está confiante para disputar sua primeira Copa com o país onde se sente acolhido. “Fui recebido com muito carinho aqui”, disse o lateral na última segunda-feira. “Estou feliz e nem penso mais em seleção brasileira, que está bem servida de jogadores. Sempre quis ter passaporte russo. Não me arrependo de nada.”

Queria ser zagueiro, mas não tomava café da manhã

Mário Fernandes nasceu em São Caetano do Sul, região metropolitana de São Paulo, em 1990 – a Rússia ainda era União Soviética. Começou no futsal e esbanjava habilidade acima da média jogando no ataque. Ao contrário da maioria dos meninos de sua idade, não sonhava ser jogador profissional nem se interessava pelo campo. Mas não teve escolha no momento em que o presidente do São Caetano, Nairo Ferreira de Souza, impressionado com seu talento, lhe ofereceu um contrato no clube. Não sabia em que posição jogar. Pelo tamanho (1,90 metro), foi mandado para a zaga. “Ele atuava na defesa, mas era capaz de driblar meio time adversário e marcar gols. Tem uma técnica fora de série para um zagueiro”, conta Dino Camargo, gerente de futebol do São Caetano e um dos primeiros técnicos de Mário no clube.

Apesar do potencial, o garoto parecia um estranho no ninho em meio aos colegas de time. Introspectivo desde criança, acumulou problemas por causa de seu comportamento desleixado. Foi punido pela diretoria do São Caetano por ter faltado a um treinamento. Ao passar uma semana fazendo apenas trabalhos físicos, ele ameaçou abandonar o clube. Camargo o convenceu a permanecer. Depois de se destacar na Copa São Paulo de Juniores em 2009, foi vendido ao Grêmio por um milhão de reais. Logo em sua primeira semana nas categorias de base do tricolor, Mário simplesmente desapareceu. O caso foi dado como sequestro até ele ressurgir imundo e faminto cinco dias depois, em Jundiaí, interior paulista, na casa de um tio. Estava deprimido e desiludido com o futebol. Por causa do episódio, brigou com o pai e só voltou a falar com ele após dois meses, quando finalmente resolveu retornar ao Grêmio. Em Porto Alegre, ganhou fama de fujão, que ficou em segundo plano à medida que a torcida se encantava com suas atuações.

Já consolidado como titular da lateral direita gremista, Mário tentou regressar à zaga, sua posição de origem. Porém, todos os técnicos com os quais trabalhou na equipe gaúcha negaram-lhe a possibilidade. Silas, por exemplo, argumentava que ele não poderia ser zagueiro por “não tomar café da manhã e ficar fraco para treinar”. É que Mário tinha dificuldade de se alimentar nas primeiras horas do dia, ou, em suas palavras, “de acordar cedo mesmo”. Um pecado para um atleta profissional. Também era cobrado pelos excessos fora do campo. Já na Rússia, admitiu que chegou a treinar de ressaca algumas vezes, mas diz ter tomado juízo na vida após se tornar evangélico.

O sonho do pai era vê-lo jogar como meia-atacante. Quem acompanhou de perto seu surgimento, assegura que não lhe falta qualidade e frieza para voos maiores. “Craques são assim, meio dispersos”, diz Dino Camargo. “Para o Mário, jogar uma pelada ou uma partida de Copa do Mundo é a mesma coisa. Ele trata a bola com muita facilidade.” Coube a Jô, seu irmão mais novo, realizar o desejo do pai ao vingar como centroavante. Após passagens problemáticas pela base de Corinthians e Grêmio, ele se consagrou artilheiro no São Caetano, mas encerrou a carreira no início deste ano por causa de seguidas lesões no joelho.

A família Fernandes ainda vive em São Caetano do Sul. Pela primeira vez na história, um jogador revelado pelo time da cidade vai disputar uma Copa do Mundo. Para Camargo, o coração dos torcedores azulinos deve se dividir entre a seleção brasileira e o prodígio de dupla nacionalidade que a rejeitou. “A gente queria ver o Mário com a camisa amarela, mas respeitamos muito a escolha que ele fez. O jeito agora é torcer por uma final entre Brasil e Rússia.”

 

Fonte: El País/Municipios Baianos

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