23/06/2018

Dois vírus da infância estão relacionados com o Alzheimer

 

Dois vírus habitualmente contraídos nos primeiros anos da infância estão relacionados com o mal de Alzheimer, que devasta os últimos anos da vida de milhões de pessoas. Em uma demonstração do poder da ciência baseada em um grande volume de dados (big data), pesquisadores de 20 instituições dos EUA concluíram que a presença de dois membros da família Herpesviridae é muito maior no cérebro dos pacientes dessa doença. A conexão não significa que os agentes patogênicos causem o mal de Alzheimer, mas dá argumentos para uma das hipóteses sobre a origem ainda desconhecida dessa doença, postulada em meados do século passado.

O mal de Alzheimer é o principal tipo de demência senil. Na Europa, a incidência é de 11 casos por 1.000 habitantes. Na Espanha, 7% dos maiores de 65 anos sofrem de Alzheimer, percentual que chega aos 50% para os maiores de 80 anos. O mal, que começa destruindo a memória imediata, vai apagando cada vez mais lembranças, até afetar outras habilidades cognitivas. Descrita há mais de um século, ainda tem causas desconhecidas. Caracteriza-se pela formação de placas e novelos ao redor dos neurônios.

Quase sem querer, pesquisadores norte-americanos encontraram pistas que apontam um possível papel viral na enfermidade. Procurando os mecanismos concretos do Alzheimer para o desenho de possíveis fármacos, cientistas do Hospital Mount Sinai (Nova York) sequenciaram o material genético de amostras de regiões cerebrais (as mais castigadas pelo mal) de 622 pessoas mortas com a doença e de outras 300 que morreram com o cérebro intacto. A análise mostrou que os tecidos cerebrais dos primeiros continham uma quantidade anormalmente alta do herpesvírus humano tipo 6A (HHV-6A) e do herpesvírus 7 (HHV-7). Trata-se de dois vírus ainda pouco conhecidos pela ciência (ambos foram isolados há apenas 30 anos), que afetam o organismo em idades muito precoces, muitas vezes assintomáticos, e muito difundidos entre a população.

Graças ao impulso dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, os pesquisadores puderam usar amostras de quase 1.000 cérebros de outros bancos de tecidos cerebrais para repetir seu estudo. Conforme publicam na revista especializada Neuron, os resultados repetiram os do primeiro trabalho. Embora em geral todas as amostras tivessem o rastro de diversos vírus humanos muito comuns, no caso das pessoas que morreram com Alzheimer a prevalência desses herpesvírus mais do que dobrava a registrada em cérebros saudáveis. Mais relevante ainda, genes que sabidamente intervêm no Alzheimer apareciam infiltrados do material genético (RNA) dos vírus.

“Os estudos anteriores sobre a conexão entre vírus e Alzheimer foram sempre muito indiretos e correlativos. Mas pudemos realizar uma análise computacional mais sofisticada usando diversos níveis de informação genômica colhida diretamente do tecido cerebral de afetados. Esta análise nos permitiu comprovar como os vírus estão interagindo diretamente ou corregulando genes que sabidamente intervêm no Alzheimer”, diz em nota o pesquisador Joel Dudley, da Escola Icahn de Medicina do Mount Sinai e principal autor do estudo. “Não acredito que se possa afirmar que os vírus do herpes são a causa principal do Alzheimer. Mas o que é evidente é que interferem e participam das redes que estão diretamente por trás da patofisiologia da enfermidade”, acrescenta.

Os autores do estudo insistem em que há muito por pesquisar antes de determinar uma relação causal entre os vírus e o Alzheimer. De fato, a conexão que encontraram bem poderia ser na direção contrária: a maior presença desses vírus nos cérebros de pessoas com Alzheimer poderia ser atribuída a uma facilidade de propagação em meio a um processo neurodegenerativo como este.

É o que recorda Tara Spires-Jones, médica do Instituto para a Pesquisa da Demência do Reino Unido. “Sua análise são consistentes e apontam que estes vírus podem estar interferindo nas mudanças cerebrais nocivas que o Alzheimer provoca; entretanto, também é possível que as pessoas com a doença sejam mais suscetíveis a infecções cerebrais, pois o Alzheimer danifica a barreira entre a corrente sanguínea e o cérebro, que o protege das infecções”.

Uma caçada em busca dos primeiros sinais do mal de Alzheimer

A doença de Alzheimer tinha 20 anos de vantagem à pesquisa médica. Esse é o tempo que costuma transcorrer desde o começo do desenvolvimento da doença degenerativa até a manifestação dos primeiros sintomas perceptíveis, como a perda de memória e a desorientação. Quando os neurologistas detectam o Alzheimer, já se passaram quase duas décadas desde que a deterioração cerebral realmente começou e há pouco ou nada a fazer: a doença já está em estado avançado, irreversível, e a única maneira de combatê-la são remédios sintomáticos para melhorar ligeiramente o estado do paciente. Nos últimos anos, entretanto, a comunidade científica pisou no acelerador e começa a se aproximar da escorregadia doença. Os pesquisadores procuram, em uma corrida contra o tempo, marcas e sinais cerebrais que indiquem o início da deterioração cognitiva, antes até de que provoque sintomas clínicos. A meta: abordar e deter a doença no estágio mais incipiente.

As primeiras alterações produzidas pelo Alzheimer ocorrem a nível bioquímico no tecido cerebral. É a acumulação de placas de proteína beta-amiloide (AB) no exterior dos neurônios e a formação intracelular de nódulos neurofibrilares de proteína TAU, os dois marcadores que aparecem nas fases mais iniciais da doença. A presença de placas de amiloide, detectadas através de técnicas bastante invasivas como a punção lombar e o dispositivo de neuroimagem PET (tomografia por emissão de pósitrons), mede o risco de doença de Alzheimer; o acúmulo de fios de TAU, também determinado via punção lombar e PET, é um marcador de dano cerebral ligado à morte dos neurônios. O problema é que a acumulação dessas proteínas não é totalmente determinante para o desenvolvimento de Alzheimer, pois também são encontradas em outras demências relacionadas ao envelhecimento.

De modo que o passo seguinte dos pesquisadores foi combinar os rastros bioquímicos deixados pela doença com outros marcadores de neuroimagem (como a volumetria, medida através de ressonância magnética) para afinar o diagnóstico precoce de Alzheimer. Nesse sentido, pesquisadores das universidades Complutense e Politécnica de Madri participaram de um estudo com o National Center for Geriatrics and Gerontology do Japão para detectar os primeiros sinais do Alzheimer com marcadores minimamente invasivos. O estudo, publicado na revista científica Brain, encontrou alterações nos padrões de atividade cerebral relacionadas à quantidade de placas de amiloide acumuladas no cérebro.

“Existem muitas doenças ocultas que têm os mesmo sintomas que o Alzheimer. Nós analisamos a atividade cerebral de idosos saudáveis e com deterioração cognitiva leve através da magnetoencefalografia (MEG), uma técnica que detecta os campos magnéticos gerados pela atividade elétrica dos neurônios”, explica Pablo Cuesta, um dos responsáveis pelo estudo. Os pesquisadores combinaram a análise dos padrões oscilatórios da atividade cerebral em repouso – nessa situação a maior parte da energia emanada do cérebro tem uma frequência de 10 hertz (Hz), 10 ondas por segundo, sobre a qual oscila a atividade cerebral – com a informação captada nos PET de amiloide e glicose (para medir o metabolismo neuronal), e a ressonância magnética (estima o dano do tecido cerebral).

“As análises da atividade cerebral registrada com magnetoencefalografia mostraram alterações associadas ao grau de acumulação de proteína beta-amiloide, ao estágio da doença e ao nível de deterioração cognitiva”, diz Cuesta. Os cientistas já sabiam que o Alzheimer, da mesma forma que o envelhecimento, torna mais lento o padrão de oscilação: o cérebro emite mais energia a baixas frequências e menos a frequências próximas a 10hz. Esse efeito, entretanto, está ligado à deterioração cognitiva, mas não é determinante para diagnosticar um Alzheimer incipiente. Por isso os pesquisadores utilizaram a combinação de outros biomarcadores ligados a essa doença e descobriram mudanças na atividade cerebral associadas às pessoas que possuem placas de amiloide no cérebro. “Os pacientes com início de acumulação de amiloide mostravam um aumento da atividade oscilatória a 10hz na região frontal do cérebro em relação às pessoas sem acumulação de amiloide” diz Cuesta. Esse marcador não só aparecia em pessoas com placas de amiloide e deterioração cognitiva leve como também em pessoas que, apesar de ter acumulação de amiloide no cérebro, ainda não haviam desenvolvido nenhum tipo de deterioração cognitiva, estrutural e metabólica patente.

Cuesta afirma que os pesquisadores farão um acompanhamento dos idosos estudados para aperfeiçoar esses novos biomarcadores. A análise da MEG, diz o pesquisador, “abre uma via ao diagnóstico precoce do Alzheimer com uma técnica pouco invasiva”.

Sem alternativa terapêutica

Essa reviravolta na pesquisa do Alzheimer a favor da detecção precoce da doença deixou, entretanto, um elemento no ar: o tratamento. “Nos últimos 10 anos houve uma revolução no diagnóstico do Alzheimer, mas o tratamento avançou pouco. É frustrante para o paciente e para o médico porque é detectado antes, mas não há nada a receitá-los para detê-lo”, diz o doutor David Pérez, porta-voz do grupo de estudo de Condutas e Demências da Sociedade Espanhola de Neurologia.

Só existem tratamentos sintomáticos e os resultados são pobres. “Melhoram levemente os sintomas, mas quando o paciente já está em fase de demência”, diz. A comunidade científica pesquisa moléculas para retirar as proteínas amiloide e TAU, mas ainda não existem resultados frutíferos. “Estamos em uma etapa de reconsideração do que está acontecendo. Não sabemos a origem do Alzheimer, o que há por trás dessa proteinopatia. Existe algo escondido que ainda não sabemos”, admite Pérez.

MUDANÇAS CEREBRAIS EM PESSOAS SAUDÁVEIS COM RISCO GENÉTICO

Nesse afã por “adiantar-se à doença” outros pesquisadores da Fundação Pasqual Maragall de Barcelona também optaram por combinar diversos mecanismos de detecção para calibrar a probabilidade de Alzheimer em um tipo bem concreto de pessoas: as que têm risco genético de desenvolver a doença. Em termos quantitativos, o Alzheimer hereditário mal ultrapassa 1% dos casos, mas os pesquisadores sabem que existe um gene – o APOE-E4 – que dá ao portador um risco elevado de sofrer a doença. O centro de pesquisas catalão, que possui o maior grupo de estudos de pessoas saudáveis portadoras do APOE, provou que as pessoas com dois alelos E4 (do pai e da mãe) do gene APOE têm diferenças morfológicas na área do cérebro onde se inicia a neurodegeneração do Alzheimer.

Todo mundo tem o gene APOE, mas ele pode aparecer de maneira diferente pela combinação dos alelos E2, E3 e E4. O APOE com dois alelos de E4 causa maior risco de Alzheimer. Os pesquisadores, que publicaram o estudo na revista Alzheimer&Dementia, analisaram a ressonância magnética de 533 participantes do grupo de estudos Alfa (formado por familiares saudáveis de pacientes com Alzheimer) e descobriram que quanto maior o número de alelos E4, menor o volume da massa cinzenta no hipocampo, uma das áreas do cérebro ligadas à neurodegeneração. Quanto mais E4, também se detectou um aumento da massa cinzenta em outras áreas do cérebro (tálamo, lóbulo occipital e córtex direito frontal) que podem estar relacionadas a um mecanismo inflamatório pela acumulação das placas de amiloide.

“O que encontramos são áreas que têm mais ou menos volume do que o esperado. Existem mudanças relacionadas ao gene, que sempre esteve ali; outras mudanças estão ligadas à presença de características moleculares como a proteína amiloide; e existem outras mudanças que ocorrem em áreas do hipocampo relacionadas a uma incipiente neurodegeneração”, afirma Juan Domingo Gispert, chefe do grupo de pesquisa em neuroimagem da Pasqual Maragall.

 

Fonte: El País/Municipios Baianos

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