23/06/2018

Expostos os laços genéticos entre as doenças do cérebro

 

O parentesco entre os transtornos psiquiátricos é muito estreito, pelo menos do ponto de vista molecular. Foi o que constatou um grande estudo internacional sobre as doenças do cérebro no qual foram analisadas as variantes genéticas de mais de 800.000 pessoas (pacientes e indivíduos-controle) de todo o mundo. O resultado é que os transtornos psiquiátricos como a esquizofrenia, o autismo, o transtorno bipolar, a depressão e o transtorno por déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) têm uma base genética comum entre si. No entanto, e apesar de tudo ocorrer no cérebro, os laços compartilhados entre si pelas doenças psiquiátricas são muito diferentes dos identificados nas doenças neurológicas. Este estudo, publicado na revista Science, revelou que o AVC, o Alzheimer, a esclerose múltipla e o mal de Parkinson não compartilham bases genéticas entre si e nem mesmo com as doenças psiquiátricas.

Na realidade, os médicos já previam um pouco os resultados desse estudo. Viam isso nas consultas: um paciente com depressão que desenvolve ansiedade e também tem diagnosticado TDAH, por exemplo. Viam isso em seus pacientes, mas não entendiam por que isso acontecia. “Em nível clínico, eram observadas algumas coincidências, várias comorbilidades. E daí a decisão de aproveitar os dados pré-existentes à escala genética de muitas doenças do cérebro para ver se há uma base genética compartilhada entre elas”, explica o doutor Bru Cormand, pesquisador no Instituto de Biomedicina da Universidade de Barcelona (UB) e um dos 500 cientistas que participaram da macroinvestigação. No âmbito de um consórcio internacional, centenas de cientistas de todo o mundo analisaram as bases genéticas de 25 transtornos cerebrais (psiquiátricos e neurológicos) a partir do estudo do genoma de 215.683 pacientes e 657.164 indivíduos-controle, a amostra.

 

Os pesquisadores esmiuçaram milhões de variantes genéticas de todas as pessoas em estudo e descobriram um forte parentesco genético entre alguns transtornos psiquiátricos e grandes diferenças entre as doenças neurológicas. “Todo o genoma foi examinado sem nenhuma hipótese prévia. Olhamos os 28.000 genes do genoma e a região escura, os segmentos entre os genes, para ver a correlação genética entre os transtornos”, afirma Cormand.

O resultado foi que a esquizofrenia e a depressão, por exemplo, têm uma base genética parcialmente comum à de quase todos os transtornos psiquiátricos analisados. Além disso, a esquizofrenia, o transtorno bipolar, a depressão mais profunda e o TDAH compartilham entre si cerca de 40% de base genética comum. “A anorexia e o transtorno obsessivo compulsivo também têm um forte cruzamento genético, superior a 50%. O autismo se distancia de quase todos os transtornos psiquiátricos, exceto a esquizofrenia”, acrescenta o pesquisador da UB.

Os transtornos neurológicos, por sua vez, quase não compartilham base genética entre si --somente o mal de Parkinson, o alzheimer e a esclerose múltipla têm 45% de coincidência genética com um tipo de epilepsia­­-- e tampouco com os transtornos psiquiátricos. “Ficamos surpresos ao ver que a diferença era tão grande, esperávamos um pouco mais de cruzamento. É normal que sejam diferentes porque os transtornos neurodegenerativos têm uma evolução diferente dos psiquiátricos, mas todos são doenças do cérebro, e a neurotransmissão é muito importante em todos eles. Essas diferenças nos deixam um pouco transtornados”, admite Cormand.

Na verdade, a única coincidência genética entre os transtornos psiquiátricos e os neurológicos estudados foi encontrada entre a enxaqueca e o TDAH. “Já suspeitávamos disso porque víamos muitos casos no consultório de pacientes com TDAH e enxaqueca. Agora vemos as peças do quebra-cabeças que compartilham”, afirma o doutor Josep Antoni Ramos Quiroga, chefe de Psiquiatria do Hospital Vall d’Hebron, de Barcelona, e participante do estudo. Cormand especifica que a enxaqueca compartilha aproximadamente 20% de sua genética com a síndrome de Tourett, 25% com o TDAH e 30% com a depressão.

Mas os pesquisadores desse macroestudo não se restringiram à análise genética dessas patologias. Os especialistas ampliaram o foco e puseram na mira outros parâmetros cognitivos, como o rendimento escolar, elementos ambientais como o tabagismo e a obesidade e o estudo dos traços de personalidade (a instabilidade emocional, por exemplo) para estabelecer as coincidências entre patologias. “A base genética é importante para explicar a origem desses transtornos, para explicar essas disfunções, mas sabemos que o ambiente modula a genética. Por isso estudamos outras variáveis quantitativas e vimos que o TDAH, por exemplo, está associado com menos anos de estudo, mais consumo de tabaco e mais peso”, diz Ramos Quiroga.

Os pesquisadores concordam em que todos são transtornos complexos, com muitos genes envolvidos. O passo seguinte é destrinchar, gene a gene, para encontrar as alterações específicas em cada patologia. “Para todos esses transtornos há bastante informação quanto às alterações genéticas frequentes que geram na população. Estão em pessoas saudáveis, mas quando se acumulam ou se combinam de uma determinada maneira podem dar lugar a essas doenças. Agora estamos estudando as variantes raras, que só encontramos em pacientes doentes”, observa Cormand. Ramos Quiroga aposta também em inspecionar “essas peças do quebra-cabeças” para tentar criar metas terapêuticas que permitam modificá-las. Contudo, diz o psiquiatra, esse estudo abre a porta para aprofundar a prevenção. “Podemos trabalhar de modo mais intenso no ambiente. O futuro vai na direção da prevenção”, acrescenta.

Transtornos no sistema imunológico explicam a esquizofrenia e o autismo

A capacidade de se relacionar com outras pessoas é fundamental para a sobrevivência de um organismo. Tarefas como conseguir comida, proteger-se das ameaças ou se reproduzir exigem a capacidade de interagir com outros. Alguns problemas de saúde, como a esquizofrenia e o autismo impedem essas interações e foi observada uma relação entre esses transtornos e problemas no sistema imunológico. Nos últimos anos, alguns estudos mostraram uma relação entre a diversidade de bactérias que habitam no estômago e a saúde mental, e também querem entender como uma falha nos sistemas que usamos para nos defender dos agentes patogênicos podem danificar nossas relações com outras pessoas.

Nos EUA, pesquisadores da Universidade da Virgínia estão usando ratos para testar suas hipóteses sobre os mecanismos que produzem esses efeitos. Em um artigo publicado esta semana na revista Nature, sugerem que como o comportamento social é crucial para a sobrevivência de uma espécie e um grupo maior de indivíduos, como historicamente é observado nas cidades, aumenta as chances de disseminação de agentes patogênicos, é possível que todos os tipos de seres vivos tenham experimentado uma pressão para melhorar sua resposta contra estes agentes patogênicos com o aumento da sociabilidade. Além disso, identificaram uma via molecular pela qual essa coevolução poderia ter ocorrido.

Em primeiro lugar, os investigadores pegaram ratos com uma falha na imunidade adquirida, a capacidade do sistema defensivo de um organismo para enfrentar novas infecções. Esses animais mostravam tanto interesse por outros ratos quanto por um objeto, algo que serve para identificar disfunções sociais nesses modelos. Depois, para ver se essas disfunções sociais eram reversíveis, introduziram nesses ratos de laboratório linfócitos procedentes de ratos selvagens e observaram seu comportamento social quatro semanas depois. Aquela reparação do sistema imunológico fez com que os ratos recuperassem sua sociabilidade.

Os autores do artigo publicado nesta quarta-feira viram que os animais tinham as regiões frontais do cérebro “hiperconectadas”, algo que tem semelhanças com os pacientes com autismo, e que essa hiperconexão foi reparada quando o sistema imunológico recuperou a normalidade. Do ponto de vista molecular, os cientistas observaram que os neurônios modulam a atividade dos circuitos que regulam o comportamento social em resposta a uma substância conhecida como interferão-gama, produzida por células do sistema imunitário para combater agentes patogênicos.

Johnatan Kipnis, pesquisador da Universidade da Virgínia e responsável pelo estudo, considera duvidoso que a transferência celular que devolveu a normalidade aos ratos possa funcionar no tratamento de humanos. No entanto, “se forem identificadas as alterações imunitárias que ocorrem nos transtornos psiquiátricos e formos capazes de identificar os mecanismos moleculares precisos, é possível que sejamos capazes de imitar o efeito dos linfócitos a partir das substâncias que são segregadas”.

 

Fonte: El País/Municipios Baianos

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