23/06/2018

Quantos brasileiros vivem fora do nosso país?

 

Falta de controle do número de pessoas que deixam o Brasil definitivamente e cidadãos que vivem no exterior de maneira ilegal dificultam cálculos. Criminalidade é apontada como principal motivo para emigrar.Morar no exterior parece ser o desejo de grande parte dos brasileiros atualmente. Segundo sondagem do Datafolha publicada neste mês, 62% dos brasileiros entre 16 e 24 anos gostariam de sair do país. Não há dados precisos, porém, sobre a quantidade de pessoas que de fato deixaram o Brasil nos últimos anos.

As cifras mais atuais vêm do Relatório Internacional de Migração do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da Secretaria das Nações Unidas (Desa), que aponta que 1,6 milhão de brasileiros viviam no exterior na primeira metade de 2017, um aumento de 3,5% em relação a 2015. Desses, a maioria buscou se fixar em países da Europa, onde residiam no ano passado cerca de 635 mil imigrantes brasileiros.

O principal país de destino, no entanto, continua sendo os Estados Unidos, com 367 mil brasileiros (22%), mantendo assim uma liderança de mais de década. O segundo lugar é ocupado pelo Japão, com 206.976 (12,8%); seguido de Portugal, com 136.631 (8,4%); Itália, com 106.040 (6,5%); e Espanha, com 100.128 (6,2%).

Os números, no entanto, destoam drasticamente das estatísticas mais atuais do Ministério das Relações Exteriores (MRE). Em 2016, por exemplo, o órgão falava em mais de 3 milhões de brasileiros vivendo no exterior, por volta de o dobro do estimado pelo Desa, sendo que 750 mil estariam na Europa.

Tal inconsistência nos dados é observada há anos. Estimativas do Instituo brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) - com base no último censo, de 2010 - apontavam apenas 491 mil brasileiros morando fora. Na época, a ONU falava em 1,5 milhão, enquanto o MRE dizia serem 3,1 milhões (2011).

A discrepância pode ser atribuída a inúmeras razões. Uma delas é o método utilizado. O Censo de 2010, por exemplo, tentou determinar o tamanho da população brasileira vivendo fora ao incluir, na pesquisa feita nos domicílios, uma pergunta que verificava se alguém que antes morava naquela residência se mudou para outro país.

O Itamaraty, por outro lado, não tem controle da quantidade de brasileiros que, após entrarem em determinado país, de fato permanecem no exterior. De acordo com a assessoria de imprensa do órgão, os números apresentados são apenas estimativas com base na atuação consular, e não se tratam, portanto, de um recenseamento.

A Desa, da ONU, se baseou em dados estatísticas nacionais, registros populacionais e pesquisas nacionais representativas sobre o número e a composição dos migrantes em cada país para calcular a dimensão da migração internacional. Por definição, o órgão considera migrante aquele que vive em um país diferente do seu país de nascimento.

Estimativa "exagerada"

Para a antropóloga americana Maxine Margolis, professora emérita da Universidade de Flórida e autora do livro Goodbye, Brazil: Emigrantes Brasileiros no Mundo (2013), as cifras do MRE são um "exagero".

"Ninguém tem números precisos de quantos brasileiros saem e quantos retornam", afirma Margolis, que acredita que os consulados inflam os números para angariar mais recursos do governo.

Outra explicação para a discrepância nos números seria o fato de que muitos brasileiros vivem no exterior de forma ilegal, relutando, portanto, em informar seus status às autoridades.

"Números precisos são, com certeza, difíceis de obter, em especial em países como os Estados Unidos, onde muitos brasileiros - uma estimativa de 63% em 2007 - são residentes ilegais. Até 2009, o Brasil estava entre os dez países que mais enviaram migrantes não autorizados para os EUA", escreveu Margolis em seu livro.

Falta de segurança impulsiona emigração

Uma mudança no padrão dos emigrantes brasileiros foi observada nos últimos anos. Enquanto no passado a maioria emigrava por fatores econômicos, hoje se pode perceber um maior número de pessoas que saíram do país por questões de segurança, diz Margolis, que estuda o tema há mais de 20 anos.

"Em geral, os brasileiros diziam que podiam ganhar em uma semana [no exterior] o que eles ganhavam em quatro semanas no Brasil. Só que isso mudou. Nos últimos seis anos, o que se fala muito é que eles saíram do Brasil por causa da falta de segurança, dos crimes, dos roubos", afirmou a pesquisadora em entrevista à DW Brasil.

Segundo a antropóloga, a vontade de deixar o país já tem se traduzido inclusive em pedidos de refúgio. Ela relata, por exemplo, que recentemente foi convocada para servir de intérprete no caso de três brasileiras que haviam sido detidas no Texas, na fronteira com o México, na tentativa de entrar nos Estados Unidos. Segundo a professora, elas pediram refúgio ao governo americano sob alegação de estarem sendo perseguidas por agiotas no Brasil.

Margolis conta também que houve uma mudança no destino dos brasileiros que emigram, sobretudo após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 em Nova York, que dificultaram a concessão de vistos para os Estados Unidos. Atualmente, apesar de o país continuar sendo o destino de preferência dos brasileiros, muitos acabam optando por tentar a vida em países europeus, como Portugal e Espanha.

"Em Portugal, há profissionais brasileiros trabalhando com salários bem altos e em áreas de tecnologia, por exemplo, porque lá se fala português", disse a antropóloga. "Mas nos EUA, a grande maioria faz trabalhos de menor qualificação, trabalha em restaurantes, lavando pratos. Há também um grande número de mulheres brasileiras que trabalham como faxineiras em residências particulares."

O drama de um brasileiro na fonteira dos EUA

Um brasileiro detido ao tentar entrar ilegalmente nos Estados Unidos através da fronteira do México relatou à agência de notícias Associated Press o drama da separação de seu filho de nove anos de idade, após ambos serem levados para locais diferentes pelas autoridades americanas.

O brasileiro de 31 anos teme pelo bem-estar do menino num dos abrigos para menores de idade nos EUA e se preocupa com o fato de ele conseguir se comunicar apenas em português.

Enquanto milhares de famílias vivem situações semelhantes, aumentam as esperanças após a ordem executiva assinada pelo presidente americano, Donald Trump, nesta quarta-feira (20/06), para suspender as separações forçadas após a imensa rejeição às medidas de "tolerância zero" adotadas pelo governo americano.

O pai brasileiro, que conversou por telefone com a Associated Press, não quis se identificar. Ele está preso no Centro Correcional de Cibola, na cidade de Milan, no estado americano do Novo México.

O brasileiro, que entrou com um pedido de refúgio nos EUA, diz que conversou apenas uma vez com o filho durante os 26 dias sob custódia das autoridades. "Ele chorou, estava muito triste", contou. "Eu tinha prometido a ele que isso duraria entre três e cinco dias."

O homem, proveniente do estado de Minas Gerais, disse que perdeu recentemente seu emprego numa padaria. Ele afirma ter dívidas no valor de 8 mil dólares que não consegue pagar e que sofria ameaças de um grupo de criminosos que exigem o dinheiro de volta.

Por esse motivo, ele decidiu tentar a sorte nos EUA. Juntamente com o filho, ele entrou num voo para a Cidade do México e prosseguiu até a fronteira. Seu objetivo era encontrar trabalho e enviar o dinheiro para a esposa e o outro filho, de três anos de idade. Ao tentar entrar no território americano próximo à cidade de San Ysidro, na Califórnia, pai e filho foram detidos pelas autoridades.

Os dois foram levados para um centro de detenção juntamente com outras famílias. "Durante dois dias, nos deram apenas Doritos, barras de cereal e suco", afirmou. Mais tarde, foi informado de que seu filho seria levado para um centro para menores, mas que eles não passariam mais de cinco dias separados.

"Não quis assustá-lo. Eu disse 'filho, eu vou ficar longe por três, cinco dias no máximo'", disse o pai. "Ele chorou e me abraçou. Ele é um bom menino. Nunca tinha sido separado de mim ou da mãe."

Dez dias após a separação, ele soube que o filho foi levado para o Escritório de Reassentamento de Refugiados em Chicago. O menino, que ficou com o telefone celular do pai após a separação, conseguiu falar com a mãe no Brasil.

Ela contou à AP que o filho tem a permissão de telefonar para ela às segundas e quintas-feiras, quando conversam por 30 minutos. Segundo diz, o menino estava mais calmo nas primeiras conversas, mas está cada vez mais ansioso. Ele toma o medicamento Ritalina para combater a hiperatividade, que continua sendo fornecido pelo centro de detenção.

A esperança dos pais do menino aumentou após a ordem executiva assinada por Trump para suspender as separações familiares, embora muitos ativistas ainda se preocupem com a situação de milhares de crianças afetadas pela política migratória de tolerância zero imposta pelo governo.

A ordem executiva gerou confusão nas agências do governo encarregadas de processar e deter as famílias de migrantes ilegais. Segundo uma fonte do governo americano, os órgãos federais trabalham na elaboração de um processo de reunificação centralizado.

Apesar de suspender as separações, a ordem assinada por Trump manteve a política de tolerância zero, que prevê que todos os que tentarem cruzar ilegalmente a fronteira dos EUA, inclusive requerentes de refúgio, devem ser indiciados criminalmente.

Segundo dados oficiais do governo americano, ao menos 2.300 crianças foram separadas de seus familiares na fronteira do país com o México entre 5 de maio e 9 de junho. Um funcionário do governo americano afirmou que cerca de 500 das crianças já foram reunidas com seus pais, mas não ficou claro quantos dos menores ainda estão detidos com a família.

A polêmica jaqueta de Melania

Após dias de críticas ao governo americano devido às separações de famílias, a primeira dama dos EUA, Melania Trump, realizou uma visita surpresa a um centro de detenção de menores no Texas, que abriga cerca de 55 crianças de diferentes países latino-americanos, com idades entre 5 e 17 anos.

"Gostaria de perguntar a vocês como posso ajudar essas crianças a se reunirem com suas famílias o mais rápido possível", disse Melania, numa conversa com assistentes sociais e autoridades. Há poucos dias, numa de suas raras declarações públicas, a primeira-dama havia pedido um consenso político para pôr fim às separações.

Ela passou pouco mais de uma hora no centro, onde conversou com as crianças em inglês ou espanhol, com a ajuda de um tradutor. Melania, porém não conseguiu evitar novas controvérsias.

Ao embarcar no avião com destino ao Texas e ao desembarcar de volta a Washington, ela vestia uma jaqueta com os dizeres: "I really don't care. Do u?" ("Eu realmente não me importo. E você?"). A frase repercutiu negativamente na internet.

Trump, através do Twitter, tentou minimizar a polêmica, dizendo que, na verdade, seria uma referência à "imprensa mentirosa". "Ela aprendeu como eles são desonestos e, realmente, não se importa mais", disse o presidente.

EUA ainda não sabem o que fazer para reunir famílias de imigrantes separadas por Trump

Donald Trump buscou nesta quinta-feira um difícil equilíbrio em sua tentativa de projetar ao mesmo tempo contundência e compaixão ante a imigração irregular. O presidente norte-americano ordenou às agências do Governo a reunificação das mais de 2.000 famílias de imigrantes separadas desde abril, depois de cruzarem ilegalmente a fronteira pelo México. Um dia antes, as autoridades haviam descartado a possibilidade de fazer isso de imediato depois que Trump cancelou sua polêmica política de separação.

A reunião de pais e filhos será uma tarefa complexa porque em alguns casos não se sabe com certeza onde está cada um. Por exemplo, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos, encarregado da custódia dos menores, reconheceu estar esperando diretrizes sobre a “implementação” da ordem executiva de Trump que pôs fim à separação de famílias.

Mas o mandatário republicano não abandonou nesta quinta-feira sua retórica incendiária ao insistir na necessidade de erguer um muro fronteiriço e manter uma “política muito dura” e ao qualificar os democratas de “extremistas que querem fronteiras abertas” e atacar ferozmente o México. “Não faz nada por nós, exceto pegar nosso dinheiro e nos mandar drogas. Poderiam resolver isso em dois dias”, disse do país vizinho, ao qual acusou de incentivar a imigração para os Estados Unidos.

Por outro lado, o Pentágono iniciou os preparativos para acolher em bases militares até 20.000 crianças imigrantes que cheguem sozinhas aos EUA. Em 2014, o Governo de Barack Obama alojou cerca de 7.000 menores em instalações do Exército.

Trump, obcecado por aparentar força, sofreu um duplo fracasso na questão da imigração. A onda de repúdio o forçou na quarta-feira a acabar com a separação de famílias de imigrantes sem documentos legais depois de passar dias insistindo em que somente o Congresso poderia fazer isso. E nesta quinta-feira sofreu um novo revés depois que a divisão entre os republicanos da Câmara dos Representantes obrigou ao adiamento da votação de um projeto de lei que inclui as principais restrições imigratórias solicitadas por Trump, como um muro na fronteira com o México, e impede a separação de pais e filhos depois de entrarem ilegalmente no país.

A demonização da imigração catapultou em 2016 a candidatura de Trump à Casa Branca. Mas agora também expôs seus limites políticos. O republicano passou dias clamando falsamente que os democratas o forçavam por lei a separar famílias, quando, na realidade, isso correspondia a uma decisão de seu Governo. Na terça-feira ele os acusou de permitir que indocumentados “entrem e infestem nosso país” e insistiu em que o Congresso deveria fechar “vazios legais” para poder evitar a separação de pais e filhos.

O objetivo de Trump era utilizar o drama das crianças, como já fez no passado com outros imigrantes, para conseguir uma dura lei imigratória, que inclua recursos para seu muro e novas restrições. Na quarta-feira, porém, fez a sua maior retificação como presidente quando firmou um decreto para encerrar a política de separação e conter uma crise criada por ele mesmo.

E nesta quinta-feira ficou cruamente patente na Câmara dos Representantes a divisão entre os republicanos na questão da imigração. Os mais conservadores e os moderados entraram em conflito sobre um projeto de lei que abre a porta à legalização dos chamados dreamers, os indocumentados que chegaram aos EUA quando crianças. O setor mais restritivo rejeita apoiar o que temem possa ser interpretado como uma “anistia” a imigrantes e possa prejudicá-los nas eleições legislativas de novembro. De qualquer modo, se uma das leis avançar na Câmara parece impossível que o mesmo se dê no Senado porque os republicanos precisariam do apoio de nove democratas.

 

Fonte: Deutsche Welle/El País/Municipios Baianos

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