27/06/2018

Menos vitaminas e minerais – e mais comida de verdade

 

Há uma espécie de febre coletiva que nos leva a contar os nutrientes do que comemos. Fazemos isso de forma metódica há mais de um século, quando foram descobertos os primeiros nutrientes e suas funções nos alimentos. Longe de arrefecer, trata-se de uma tendência que vem aumentando à medida que descobrimos funções concretas desses nutrientes em nosso metabolismo. Você sabe: o cálcio é bom para os ossos, a vitamina C para a defesa... e muito cuidado com os carboidratos simples, que disparam a insulina. Esse tipo de coisa.

No terreno mais tenebroso do assunto, uma parte da indústria de alimentos (normalmente, a menos aconselhável) tem se aproveitado de nossa natural inclinação para receber com os braços abertos qualquer mensagem sobre a saúde baseada nos nutrientes. Assim, tentam nos empurrar produtos que fracassariam de maneira estrepitosa em qualquer estimação objetiva de seu valor nutricional. Alguns dos exemplos práticos que encontramos nesse campo – e existem centenas – são a bobagem de enriquecer com ferro os pães e doces industriais, os leites para crianças com zilhões de nutrientes e a absurda tendência de produzir águas "funcionais" agregando ao produto (nesse caso, a água) diversos ingredientes.

Como chegamos a pagar o triplo por uma água com vitamina D e zinco?

As vitaminas e minerais foram os primeiros, de modo que são os decanos da faculdade dos nutrientes com superpoderes. Mas há muitos outros além desses veteranos e bem-sucedidos protagonistas: todos eles servem para condimentar – com boas vibrações – qualquer conselho nutricional que se preze. Sem eles, sem sua mera menção ou invocação, parece que qualquer recomendação – ou qualquer ação de marketing alimentar – carece de seriedade suficiente.

Convenhamos: dizer que o ácido docosa-hexaenóico (DHA) – um ácido graxo da família ômega 3 – é benéfico na hora de ajudar o funcionamento normal do coração não é o mesmo que recomendar que a pessoa inclua mais sardinhas e nozes na alimentação. A primeira opção tem muito mais apelo para o consumidor, embora este não tenha nem ideia do que (ou quem) seja o ácido docosa-hexaenóico.

Não se trata de uma opinião gratuita. Este estudo de 2015 mostrou que, embora cada vez mais especialistas em nutrição enfatizem os benefícios para a saúde dos alimentos "naturais" (não processados), muita gente prefere citar nutrientes a se referir aos alimentos quando fala dessas questões. Algo chama mais a atenção se lemos depois este outro artigo de 2010, que diz que argumentos como esse podem fazer você aumentar de peso. Por quê? É fácil: por causa do chamado "paradoxo das pessoas que fazem dieta". Muitas delas acreditam que o mero fato de incluir alimentos percebidos como saudáveis – sejam eles realmente saudáveis ou não, o que importa é a percepção – ajuda a diminuir as calorias das escolhas não saudáveis. Como num passe de mágica!

Embora originalmente todos os nutrientes fossem bem fofinhos, neste universo acontece algo parecido com a Força: temos nutrientes superdescolados que integram o plano Jedi-todo-poderoso; e, ao mesmo tempo, temos nutrientes que são os supervilões. O primeiro grupo é liderado pelas famosas vitaminas e minerais, além das novas incorporações como o ácido oleico – um ácido graxo monoinsaturado –, as proteínas, que continuam surfando na onda há anos, e as fibras, além de muitos outros. Por outro lado, entre os cruéis e capazes de arruinar qualquer prognóstico de saúde com sua mera presença, destacam-se os mais aterrorizantes de todos: as temíveis gorduras.

Logo a seguir vem um novo, mas não menos opressor nutriente-vilão: o açúcar. Entrando um pouco em detalhes, os piores seriam as gorduras saturadas, o ácido palmítico – encarnado no óleo de palma – e os pérfidos aditivos (alguns mais, outros menos, mas todos enfim).

Aqui já passaríamos aos maus nem tão maus assim, como a lactose e o próprio glúten: como você vê, nessa tarefa de repartir nutrientes há um bem e um mal bastante definidos, e a indústria faz isso à perfeição.

Esse panorama propiciou um enorme mercado de produtos "com" – acrescente aqui os nutrientes bonzinhos que desejar – e também de produtos "sem" nutrientes malvados. Dessa forma, as embalagens, a publicidade e o marketing podem vociferar com toda a força que um determinado produto – que, em essência, é uma porcaria – passa a ser interessante pelo simples fato de colocarem o nutriente do grupo da elite, ou por dizer que ele não contém um ou vários dos nutrientes malditos. Assim, a mera menção de nutrientes isolados costuma, na maioria dos casos, convencer, despistar e finalmente enganar os consumidores sobre o verdadeiro interesse nutricional de um produto ou de uma forma de consumo. Isso acontece, por exemplo, quando você une na mesma frase "fruta e açúcar" e algumas pessoas – cada vez mais – resolvem tirar conclusões errôneas. Para isso, bastam apenas artigos como o escrito recentemente pelo dietista-nutricionista Julio Basulto para explicar por quê, apesar de ter açúcar, a fruta não "engorda".

São os perigos do "nutriente-centrismo", também chamado de nutricionismo. Uma ideologia ou corrente que traslada os efeitos isolados de alguns nutrientes ao conjunto de um alimento, enquanto normalmente ignora o efeito sobre a saúde – diretamente ruim ou, no melhor dos casos, nulo – do alimento em seu conjunto. O resultado pode ter um efeito negativo sobre a saúde, por exemplo, quando temos o costume de lanchar pães e bolos industriais enriquecidos com ferro e deixar a fruta de lado porque tem muito açúcar. Também corremos o risco de cair em padrões inadequados de consumo tentando reparar um erro com outro, dando leite enriquecido a uma criança que não come como alguns adultos gostariam que comesse.

A ciência entoa o mea culpa

Devemos reconhecer que muitos de nós, nutricionistas e especialistas em nutrição, transformamos nossa mensagem numa espécie de jargão incompreensível, ou pelo menos difícil de ser traduzido na prática quando vamos ao mercado. Em muitas ocasiões, os guias alimentares, essas ferramentas que levam à população as mensagens mais elementares sobre o que e quanto comer, têm estado repletas de justificativas em forma de gorduras saturadas, sódio, fibras solúveis e coisas do gênero. Por isso, é cada vez mais necessário abraçar este comentário de uma das figuras mais reconhecidas no panorama mundial da epidemiologia nutricional, o Dr. Dariush Mozaffarian:

"Os atuais postulados e recomendações centrados em nutrientes, além de (sendo generosos) contar com o germe da dúvida em seu interior, são frequentemente utilizados pela indústria para criar confusão numa população completamente midiatizada. Portanto, é hora de concentrar os esforços na criação de guias e recomendações baseadas nos alimentos."

Pode-se dizer mais alto, mas não mais claro. O mais curioso é que essa opinião veio na sequência de um comentário sobre um artigo que ressaltava que talvez fosse necessário rever a noção de que as gorduras saturadas sejam ruins – um velho paradigma nutriente-centrista –, considerando os dados obtidos em pesquisas recentes.

  • Cada vez mais convencido e seduzido pela simplicidade do conselho, volto a convidá-los a seguir a receita de "mais mercado e menos supermercado", de modo que:

Menos ômega 3, DHA e EPA (em alimentos e suplementos) e mais sardinhas.

Menos cálcio e vitamina D enriquecendo leites, bolos, sucos ou o que for, e mais verduras e exercícios ao ar livre.

Menos sucos "sem adição de açúcar" e mais frutas.

Menos bolos industriais com ferro e sem açúcar e mais merenda com fundamento.

Menos barrinhas energéticas enriquecidas com fibra e mais salada de lentilha.

Menos águas supervitaminadas e mineralizadas com coisas, e mais água sem porcarias

Menos colágeno, mais receitas de bacalhau.

Por que é uma má notícia que a indústria se aproveite do ‘boom’ vegano?

Ninguém dotado de olhos pode negar que nos últimos três anos vivemos um tremendo boom do vegetarianismo. É claro que o interesse pela alimentação vegetariana experimentou um aumento significativo e, embora possamos ver isso em muitas frentes, hoje quero abordar o aumento da presença de produtos rotulados como “veganos” nas lojas de alimentos.

Nos supermercados de bairro, as bebidas vegetais já ocupam quase o mesmo espaço que o leite de vaca nas prateleiras. Na geladeira de laticínios há cada vez mais sabores de iogurtes de soja e há lugar para vários itens de sobremesas vegetais à base de aveia, arroz ou coco. Na área de produtos pré-cozidos encontramos vários tipos de hambúrgueres e salsichas vegetais, seitan, tofu, falafel e homus de vários tipos. Nos corredores dos congelados há croquetes veganos, lasanha e sorvetes de vários tipos 100% vegetais. Ao lado das massas, está a soja texturizada. Existe sushi vegano e até veganese (maionese vegana). E provavelmente, em breve, haverá muitos outros produtos que farão as delícias de parte do grupo que os consome com prazer.

Tudo isso, aliás, convenientemente rotulado como vegano, assim como produtos que já são veganos em si, como o gazpacho ou alguns vegetais processados, como o tomate refogado. Também são rotulados como tais alguns itens de bolos e pães.

Se as redes de supermercados fazem esse esforço para expandir seu sortimento de produtos voltados para os interessados em alimentação vegetariana e em adaptar sua rotulagem é porque detectaram uma demanda e um nicho de mercado suficientemente grande para que isso seja lucrativo tanto economicamente como no que diz respeito à imagem.

Mas não são apenas os supermercados. Marcas como Campofrío, o imperio da carne espanhola que em 2008 ridicularizava os vegetarianos em sua publicidade, lançou em 2017 uma linha de linguiças vegetais e também vende salsichas de soja. Essa onda já havia sido aproveitada por outra marca bem conhecida de produtos de carne processada: a Noel. Por sua vez, a empresa de embutidos Argal também lançou uma linha de pratos pré-cozidos com selo vegano. E a La Piara vende cremes vegetais para passar no pão. Eu não sei se você está percebendo: a indústria da carne está abrindo um nicho de mercado vegetariano, como fez a indústria de laticínios anos atrás.

E isso não é uma boa notícia?

Não nego que pessoalmente gostaria de ver que o movimento vegetariano está no auge, porque isso significaria que cada vez há mais pessoas conscientes, comprometidas com a justiça social, a sustentabilidade, com o tratamento justo aos animais e que estão reconsiderando o atual padrão de consumo. Tenhamos em mente que uma grande porcentagem de vegetarianos, e especialmente de veganos, também são ativistas em algum campo. Tudo isso nos torna uma sociedade melhor, que caminha para um futuro mais justo e mais sustentável.

Mas se olharmos de um ponto de vista estritamente nutricional ou de saúde, o panorama já não parece tão bom. A boa notícia seria que cada vez se vendessem menos produtos pouco saudáveis e mais frutas e verduras, não o contrário, por mais bem rotulados que estejam.

  • Hoje é fácil ter uma alimentação vegana baseada em produtos ultraprocessados sem pisar em nada além de um supermercado de bairro, conforme vou demonstrar:

Café da manhã: bebida açucarada de soja batida com cacau adoçado e um croissant vegano.

No meio da manhã: refrigerante de cola e um sanduíche de pão de fôrma com mortadela vegana e margarina.

Aperitivo: uma cerveja e amendoins fritos com sal.

Almoço: arroz branco com tomate refogado e salsichas veganas. Na sobremesa, um sorvete de soja de baunilha.

Lanche: café com bebida vegetal adoçada e biscoitos rotulados como veganos, por exemplo os Oreo.

Jantar: croquetes de espinafre veganos pré-cozidos com batatas fritas e veganese. De sobremesa, um iogurte de soja sabor frutas do bosque adoçado.

Aí está, um cardápio 100% vegano que seria impensável há poucos anos por falta de disponibilidade de produtos. Um cardápio no qual o mais saudável que podemos encontrar é o café, se ele não tiver uma bebida vegetal açucarada, é claro. Um cardápio em que o mais parecido com um vegetal é o tomate refogado e o espinafre dos croquetes. E a coisa mais próxima de uma fruta é a amora desenhada no pote do iogurte.

“Vegano” não significa “saudável”

É óbvio que, dada a enorme e crescente oferta, todos esses produtos não estão sendo consumidos apenas pela população vegetariana. Eu gostaria, mas não são tantos. Essas bebidas vegetais adoçadas e os hambúrgueres vegetarianos feitos de cereais refinados, óleo de girassol, 10% de verduras e míseros 5% de um alimento proteico vegetal, estão sendo levadas para casa por muitas famílias que pensam que são escolhas saudáveis. Uma salsicha vegana é amido, gordura de má qualidade, aromatizantes e sal. Mas as pessoas veem o “vê” de cor verde, algumas folhinhas desenhadas no pacote e um “100% vegetal” e acreditam que estão praticamente comprando alface.

E a indústria de alimentos está aproveitando muito essa conotação saudável que envolve o produto vegano para nos vender os ingredientes mais baratos e menos saudáveis que podemos comprar, pois os ingredientes que tornam pouco recomendáveis os produtos altamente processados não são de origem animal: açúcar adicionado em qualquer formato (sacarose, xaropes, melaço, dextrose, glicose...). Praticamente todo o açúcar adicionado é de origem vegetal, com exceção do mel. Gorduras pouco saudáveis como gorduras hidrogenadas, óleos refinados e óleo de palma. Farinhas refinadas e sal. Esse é o quarteto que inunda os produtos altamente processados e os torna insalubres, e o veganismo não está imune a nenhum deles.

Por isso é importante ter em conta uma coisa: o fato de um produto ter o selo “vegano”, o “V-label” ou qualquer outra legenda que o identifique como produto 100% vegetal só se refere à origem dos ingredientes que o compõem. Não diz absolutamente nada sobre sua salubridade.

Você sabe quais produtos veganos são saudáveis? Frutas, verduras e hortaliças, legumes e seus derivados (tofu, tempeh, soja texturizada), frutas secas, azeite de oliva, sementes, cereais integrais... E quase nenhum deles é rotulado como vegano.

Se você quiser reduzir o consumo de produtos de origem animal e comer de modo saudável, não troque o salsichão por salsichas veganas, troque-o por amêndoas. Não troque as Frankfurt por salsichas ou hambúrgueres veganos, troque-as por leguminosas. Não troque o pudim por uma sobremesa de aveia, troque-o por fruta.

  • Um alerta para os vegetarianos:

Sim, os vegetarianos também compram esses produtos. E me dá pena ver como um grupo que tinha tudo a favor para liderar o movimento por uma alimentação mais rica em frutas, verduras e legumes locais e sazonais, que é algo que se encaixa completamente com os valores que defende, está obnubilado pelos novos produtos veganos e fazendo festa nas redes sociais sempre uma novo produto vegano ultraprocessado é lançado, com a desculpa de que é ótimo que exista mais oferta, que têm o direito de escolher e pode pelo menos haver alguém que compre a versão vegana em lugar da tradicional, diminuindo assim a demanda por produtos animais.

E eu digo que estamos nos conformando com muito pouco. Estão nos conquistando como clientes com muita facilidade, nós, que somos o reservatório do consumidor crítico e que lemos os rótulos por excelência, estão nos ganhando com um “vê” verde desenhado em uma embalagem. Pense nisso.

 

Fonte: El País/Municipios Baianos

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