30/06/2018

Eleições no México: quando o vizinho é Donald Trump

 

A influência de Donald Trump nas eleições mexicanas foi escassa, por não dizer nula. Contra o que se poderia pensar, dada sua facilidade de desestabilizar com um mero tuíte a agenda do vizinho do sul, o mandatário dos Estados Unidos não emitiu nenhum sinal sobre qualquer dos candidatos que disputam a presidência do México neste domingo. Nem para se mostrar partidário nem para sugerir discordância com os aspirantes. Nada. Entretanto, todos olham de esguelha para o norte, ante a incômoda presença do inquilino da Casa Branca.

É uma obviedade afirmar que a relação com os Estados Unidos é o maior desafio para a política externa mexicana. Sempre foi, e isso não vai mudar, ganhe quem ganhar neste domingo, por mais que todos os candidatos e suas equipes de campanha, a cada certo tempo, se esmerem em desenvolver o discurso de que o México deve ampliar seus laços diplomáticos e comerciais com outros países e regiões; que deve olhar para a China e a Índia, para a União Europeia ou para a América do Sul, esquecida até que os rumos autoritários da Venezuela tornassem inevitável que todos os países voltem sua atenção para o sul, e ainda mais se, como no caso do México, isso puder servir como arma na política interna.

A grande incógnita será ver como o próximo presidente administra a relação com o vociferante Trump, que já deu fartas amostras de que não considera o México nem um sócio nem um interlocutor para nada, enquanto a renegociação do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês), com os Estados Unidos e o Canadá, continua em aberto, e os desafios em matéria de segurança e migração são cada vez maiores. No primeiro caso, todos os candidatos deram sinais de querer manter o Nafta. O esquerdista López Obrador, favorito em todas as pesquisas, já designou uma pessoa que deverá se incorporar à equipe negociadora, que continuará liderada até o final de novembro por Ildefonso Guajardo, atual secretário de Economia.

"López Obrador tem sido muito moderado, entendeu muito bem que, embora o livre comércio não seja o mundo que ele gostaria de ter construído, não convém sair do tratado", opina Carlos Elizondo, professor do Instituto Tecnológico de Monterrey, para quem "a variável Trump é muito complicada, enquanto continuar a negociação do Nafta não acredito que ninguém vá atiçar o fogo". Em matéria de segurança, o candidato que se mostrou mais taxativo foi Ricardo Anaya, que as pesquisas colocam num longínquo segundo lugar. O político condicionou uma futura colaboração migratória com os Estados Unidos a que Trump pare de menosprezar os mexicanos. José Antonio Meade, ex-chanceler, é o mais tíbio dos três candidatos, mas ainda assim mais firme que o atual secretário de Relações Exteriores.

Para outros analistas, a presença do presidente norte-americano deve ser lida em chave interna. "Peña Nieto [o atual presidente do México] poderia ter utilizado as ofensas de Trump para se fortalecer, poderia tê-las usado como um elemento de união entre todos os mexicanos. O México recebeu muitos sinais para liderar a rejeição a Trump no mundo. Não soube fazer isso, tampouco quis, suas decisões foram muito atrapalhadas", aponta Carlos Bravo Regidor, professor do Centro de Pesquisa e Docência Econômicas (CEDE). A decisão de convidar Trump quando ainda era candidato, horas antes de este lançar um forte discurso contra a imigração – e contra o México –, é algo de que Peña Nieto e seu chanceler Luis Videgaray, artífice daquela reunião, ainda não conseguiram se recompor. A mais que provável vitória de López Obrador neste domingo traria uma guinada na relação com Trump. Além das frases grandiloquentes que o candidato tem lhe dedicado, dizendo que exigirá respeito e que o México não será o saco de pancadas da Casa Branca, Bravo Regidor considera que López Obrador "poderia utilizar a figura de Trump para se reafirmar como um líder interno".

Independentemente de como administre a relação com o inquilino da Casa Branca, se há algo em que todos os analistas concordam é que, caso López Obrador vença, a política externa não será uma das suas prioridades. "A lógica dominante nele é ter o mínimo de sua atenção fora do México, ele não gosta das viagens nem de se relacionar com líderes estrangeiros", aponta Elizondo. No ano passado, fez a única viagem internacional de que se tem lembrança no caso dele. Em um eclético périplo, reuniu-se com Michelle Bachelet, então presidenta do Chile, com Lenin Moreno, mandatário do Equador, e com o líder dos trabalhistas britânicos, Jeremy Corbyn. Finalmente, parou na Espanha, onde foi recebido por Miguel Ángel Revilla, presidente da Cantábria, a região onde nasceu o avô de López Obrador.

"A melhor política externa será uma política interna forte", afirmou o líder do Morena, insistindo também, ao ser perguntado sobre a crise na Venezuela, que não é partidário de ingerências em países estrangeiros. No último ano e meio, o Governo de Peña Nieto encabeça as críticas da América Latina ao autoritarismo de Nicolás Maduro, recuperando, de certa maneira, uma liderança que o México tinha deixado de lado desde os processos de paz na América Central. Não dá a impressão de que López Obrador irá seguir esse caminho, não tanto por sintonia política com Maduro, algo que parece cada vez mais longínquo, e sim por sua convicção de que deve mudar o México em primeiro lugar.

A tenacidade do esquerdista que deve chegar ao poder no México

Sua teologia foi a conspiração. Um poder invisível e absoluto lhe arrebatava repetidamente a vitória que merecia. A máfia do poder ditava seu capricho em todos os âmbitos. Controlando meios de comunicação, mercados, pesquisas e votos, os poderosos teimavam em obstruí-lo. Hoje o México contempla uma sintonia de acontecimentos que apontam para a eleição de Andrés Manuel López Obrador como presidente. Os planetas e os mosquitos se coordenam não só para dar um triunfo esmagador ao candidato do Morena, mas também para refazer o mapa político do país. Há uma conspiração lópez-obradorista no sentido que Cornelius Castoriadis recordava: todos respiram o mesmo ar e ao mesmo compasso, tudo sopra numa mesma direção.

A iminente vitória de López Obrador é o testemunho de uma tenacidade assombrosa. Há décadas está no centro da atenção nacional. Suas frases, seu sotaque, seus dardos e seus tiques se tornaram parte do pão nosso de cada dia. Feita mais de derrotas que de vitórias, o homem que veio do trópico sempre acreditou na sua causa e, acima de tudo, em si mesmo. É o político mais temido e o mais amado. Um fator de polarização e, ao mesmo tempo, uma tocha de esperança. Já o demos várias vezes por morto, e está mais vivo que nunca. Acreditou-se que sua radicalização após perder as eleições de 2006 seria seu fim. Teve uma segunda chance em 2012, e voltou a perder a presidência, agora com uma margem clara. Poucos acreditaram que tinha um futuro pela frente. Quando as portas do seu partido se fecharam para ele, saiu para formar uma nova agremiação política. Parecia um salto no vazio, a obstinação de um homem que não admite seu ocaso, o capricho que voltava a dividir a esquerda. Sua aposta acabou sendo acertada: aquela aventura quixotesca tem tudo para conquistar a maioria. López Obrador é um homem de fé porque viu além do razoável, porque é um crente no inacessível.

O fascínio e o temor que suscita podem ser explicados por sua extravagância. López Obrador não se fez na política das panelinhas nem na das linhagens. Não ascendeu ostentando diplomas nem apostando nas recompensas da disciplina. Não é filho do centro, e sim da periferia. Mais do que isso, é filho da periferia da periferia. Fez-se, literalmente, durante o caminho. Como ninguém, percorreu o país de ponta a ponta. Há anos, viajava horas para se reunir, num povoado muito remoto, com uma dezena de simpatizantes. Hoje enche as praças. Curtiu-se com o caráter tosco da luta política, ali onde se rompem os limites do possível, onde se questiona o aceitável. Sua singularidade é relevante. No horizonte mexicano, representa a aparição de uma liderança radicalmente diferente, ao mesmo tempo autêntica e indômita, profunda e desbocada. Será o primeiro líder social a ocupar a presidência do México. Isto é López Obrador: um esplêndido dirigente social. Homem de instinto, teimoso, perceptivo, audaz, imaginativo, misteriosamente eloquente. Nisso podem estar arraigada a intensidade da devoção e do temor que provoca. O político mais inusitado e também o mais talentoso que o México conheceu em muitas décadas.

Reconhecer o evidente é, talvez, o mais estranho. López Obrador deu nome ao nosso elefante. Ele está diante de nós todos os dias. Ocupa todos os cantos do país, todos os escritórios, todas as praças, e poucos se atrevem a vê-lo. É o privilégio que destrói o país. Se todos os políticos, se todos os candidatos registram a desigualdade, só López Obrador aponta o dedo para a ordem oligárquica e não teme nomeá-la. Seu discurso se vincula ao espírito contemporâneo do México (e do mundo), porque reflete uma sincera paixão antielitista. O dirigente do Morena registra como ninguém o abismo do México. A polarização que o país vive não provém da linguagem nem da estratégia política de um líder: provém de um longo acúmulo de ofensas. López Obrador os expressa e os direciona. Poderá repará-los? Suas denúncias exibem a captura do poder político, sua utilização para o serviço dos interesses privados, a falta de vergonha pela corrupção, a atrocidade da nossa guerra, a falta de oportunidades para milhões. Diagnóstico irrepreensível. Seus remédios são outra coisa.

López Obrador se fez a si mesmo, e quase se poderia dizer que sozinho. Se não tem padrinhos em sua biografia, tampouco tem companheiros. Um insubmisso não reconhece pares. Idólatra de si mesmo, está convencido de que é a solução para o México. Tem a convicção de que, para acabar com a corrupção, basta sua presença. Se o presidente for honesto, todos serão honestos, diz. A aura onipotente do líder transformará magicamente a realidade. A fé em si mesmo contrasta com a suspeita contra todo o resto: as instituições são joguetes da máfia, as leis são irrelevantes, a sociedade civil é suspeita. Só ele e o povo que ele encarna merecem confiança. Quem fez López Obrador foram seus adversários. Contra eles se formou, contra eles cresceu. Não é estranho que a política seja para ele a permanente construção de adversários. Manter-se em pé é brigar. A política não é a praça das conciliações, e sim a condensação do conflito. Ao decretar a inimizade, ao listar as ofensas, ao enfatizar a ameaça do inimigo, dá corpo a uma legião combatente. Seus seguidores são muito mais que eleitores. Não acompanham momentaneamente um candidato, não procuram apenas comparecer certa manhã às urnas para colocar uma caneta sobre o papel. São parte de um movimento social do qual não há precedentes na história contemporânea do México. Ninguém cultivou essa lealdade de forma tão veemente quanto López Obrador.

Convocando ao que ele chama de Quarta Transformação do México, esculpe para si uma estátua do tamanho das do pai da pátria (Hidalgo), do criador do Estado laico (Juárez) e do mártir da democracia (Madero). Mas esse desejo de glória parece moderado, em sua terceira tentativa de chegar à presidência, por um chumbo pragmático. López Obrador será um populista de manual, mas é também um político pragmático. Como prefeito da Cidade do México não foi um radical. Encabeçou um moderado governo de esquerda. Manteve um diálogo fluido e frutífero com os empresários da capital. Seu governo foi eficaz, opaco, disciplinado. A equipe que se antecipou em nomear como parte de seu gabinete tem esse perfil. Não há indício algum de radicalismo, e sim, pelo contrário, gestos visíveis de moderação. Às vezes deixou entrever que a grande reforma deve ser, na verdade, uma recuperação da modéstia. O renascimento do país, disse, citando Francisco J. Múgica, surgirá “da simples moralidade e de algumas pequenas reformas”.

Já foi acusado de ser o grande perigo para o México. Depois de 12 anos de sangue e imundície, de violência e corrupção, é claro que para os eleitores mexicanos não há maior perigo que a continuidade do existente. Por isso é preciso dizer que o terremoto provocado pela vitória de López Obrador será o grande desafio do México. Colocará todos à prova.

 

Fonte: El País/Municipios Baianos

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