30/06/2018

A Copa do Mundo como uma metáfora da vida

 

Eu torço pelos times latinos em primeiro lugar, em segundo pelos africanos. Algumas vezes coincide dessas seleções terem tradição e títulos, mas na maioria das vezes não. Tudo bem. Pra mim serve para pensar que eu sei de que lado eu quero estar e esse lado nunca será do lado dos ricos, dos colonizadores e dos imperialistas.

A experiência como espectadora da Copa é minha e eu torço para quem eu quiser. Mas sempre eu digo isso um especialista em futebol – que coincidentemente costuma ser homem – sai do bueiro pra me dizer que estou torcendo errado. Que eu deveria ver o futebol, a tradição das seleções, a técnica, a campanha feita na fase de classificação. Eu conheço as variáveis que importam para vocês, meus caros. Só que pra mim elas não dizem nada.

A beleza do futebol é que se trata de um esporte que pode, como diria L.F. Veríssimo a respeito do futebol de rua, ser praticado por times que variam de um a sei lá quantos de cada lado. Um esporte que precisa apenas de um par de chinelos ou tijolos/pedregulhos para marcar a trave, e qualquer objeto vagamente redondo que sirva de bola. E é um esporte em que algumas vezes um pequeno pode vencer um gigante.

A Copa do Mundo é um evento milionário e pouco acessível e, evidentemente, os times de países menores, não raro, mais pobres, não possuem a mesma chance de os grandes. Mas vez por outra surge um azarão, como a Costa Rica na copa passada, que foi só pela zuêra e indo mais longe do que se poderia imaginar.

Eu sempre soube que eles não tinham chance de vencer, mas eu torci mesmo assim. É bom ver que mesmo entre os que não tem chance diante dos gigantes, saber se comportar com dignidade estando no grupo de morte pode te levar longe. Porque muitas vezes a vida te coloca em situações em que você sabe que não vai vencer jogando no jogo que eles dominam. Mas você vai, você luta, você sangra. Na maioria das vezes você perde. Mas como diria Rocky Balboa, não se trata de bater, e sim o quanto você aguenta apanhar e permanecer na luta.

Fernando Pessoa dizia que o mundo é para quem nasce para conquistar, não pra quem pensa que pode (ainda que tenha razão). Conquistar o mundo é pros grandes, pra quem foi feito pra isso, em que pese estarmos tecnicamente em condições iguais de disputa. Eu olho pros pequenos como força e resistência diante do que é hegemônico e que parece impossível de vencer. Porque mesmo que a guerra seja algo feita por eles e para eles, algumas vezes é possível ganhar algumas batalhas.

Na Copa e na vida eu torço pelos pequenos. Vibro com eles por cada alegria pequenina, como a único da Panamá e uma celebração que poderia parecer desmedida para quem está acostumado com as vitórias. Quando você não está entre os grandes e vitoriosos, cada furtivo momento de glória tem sabor de conquista histórica. Quem torce por você sabe disso e vibra junto, porque está junto no mesmo barco.

Porque como dizia Clarice Lispector, a única salvação é a alegria. Num mundo que nos deprime e paralisa, alegria é resistência. As seleções que não tem chance mostram que vencer não é só ganhar o jogo, mas resistir altivo, sem servidão. Isso vale mais moralmente do que os três gols de uma potência habituada a vencer. Na Copa e na vida eu sou quem enfrenta adversários maiores e não perde a alegria guerreira. Usa vestes coloridas, dança e não perde a capacidade de sonhar. Porque eu creio que um dia iremos ter certeza da nossa força. Seremos capazes de nos auto-organizar de modo a não precisar mais dos grandes – de seus campeonatos e de suas regras – para sermos campeões.

Por que Toni Kroos nunca será um Neymar

Depois que Toni Kroos marcou um golaço de falta, decretando a virada da Alemanha sobre a Suécia, nos acréscimos, explodiram comparações entre sua conduta e a de Neymar, que desabara em lágrimas assim que o árbitro apitou o fim da partida do Brasil contra a Costa Rica. Os alemães haviam demonstrado enorme frieza em uma situação adversa. Os brasileiros quase perderam o controle em um cenário de pressão. De repente, Kroos representava o único modelo possível de jogador, enquanto Neymar personificava tudo aquilo que um atleta profissional deve evitar. Kroos era o cérebro do time, calculista e objetivo. Neymar, o ponto de desequilíbrio emocional, firulento e individualista. Nada de novo no universo de vereditos imediatistas do futebol. Mas as analogias entre Kroos e Neymar, que no fundo insinuam um paralelo entre Brasil e Alemanha, atestam somente a impossibilidade de equiparar realidades edificadas em condições desiguais.

Neymar nunca será um Toni Kroos, assim como Toni Kroos jamais será um Neymar – e o mesmo se aplica a Brasil e Alemanha, seja como time, seja como nação. Embora tenham histórias semelhantes no futebol, os craques se desenvolveram em contextos bem diferentes. Kroos nasceu na parte oriental de uma Alemanha recém-unificada. Influenciado pela família de classe média repleta de esportistas, logo se destacou no futsal de sua cidade. Era treinado pelo pai, Roland, no pequeno, porém tradicional clube de base Hansa Rostock. Para afastar as suspeitas de que Toni só integrava o time por ser “cria” do técnico, Roland se empenhava em tratá-lo como apenas mais um. Em certos momentos, a rigidez o fazia pegar pesado com o filho, que chegou a abandonar a escola por não conseguir conciliar as aulas com a rotina de treinamentos.

Na Baixada Santista, Neymar Junior, dois anos mais novo que Kroos, também começou cedo no futsal. Seu pai, um ex-jogador de times pequenos, não fez fortuna com a bola, mas, depois de pendurar as chuteiras, se esforçou para fazer do rebento um craque consagrado. Por sua obstinação, conseguiu bolsas de estudos para o filho em colégio particular e um contrato milionário no Santosquando ele tinha apenas 14 anos. Antes, já ganhava salário quase 20 vezes maior que a maioria de seus colegas na base. Era exaltado a cada ocasião em que driblava meio time adversário e empilhava gols. Naturalmente, acostumou-se a ver o clube curvar-se diante de seu talento. Sempre foi tratado como estrela da companhia, sobretudo depois de passar por um período de testes no Real Madrid.

O caminho de Kroos antes de chegar ao Real foi mais longo. Aos 16 anos, ele se transferiu do Hansa Rostock para o Bayern de Munique por cerca de 7 milhões de reais. Com a mesma idade, Neymar já valia mais de 100 milhões de reais. Ambos contaram com acompanhamento psicológico e escolar em seus clubes. Estrearam no time principal com 17 anos. A diferença é que, seguindo a cartilha de formação alemã, que defende a evolução gradual dos jovens talentos, Kroos foi emprestado ao Bayer Leverkusen para ganhar experiência antes de deslanchar, ao contrário de Neymar, que se firmou como titular no segundo ano como profissional do Santos.

Trajetórias parecidas que mudam de curso ao se arvorar em um ecossistema peculiar. O futebol alemão passou por um processo de reestruturação a partir do início dos anos 2000. Uma revolução com foco nas categorias de base, que têm como referência uma ideia de jogo coletivo e solidário. O time geralmente está acima da figura do craque. Nesse sentido, Kroos se tornou o fruto mais bem acabado dessa escola. Um meia organizador, que faz a equipe jogar e tem o passe como principal fundamento. Neymar foi lapidado em uma cultura de base que ainda prioriza a ascendência do mais talentoso. A figura do craque geralmente está acima da equipe. Desde o Santos, com exceção de seu período no Barcelona, à sombra de Messi, o camisa 10 da seleção se habituou a ter equipes jogando em função de seu raro talento.

Pelo histórico de craques que vestiram a camisa amarela, o imaginário brasileiro espera sempre que, nos momentos difíceis, o craque tire um coelho da cartola e jogue por terra todo esforço coletivo do adversário para brecá-lo. Neymar cresceu sob essa expectativa. Um atacante implacável, com o poder de arrebatar artilharias e prêmios individuais. Para evitar as pancadas dos zagueiros que o caçavam, aprendeu na base, por influência do pai e de treinadores, que encenar e se jogar era uma forma de proteção. Na Alemanha, condutas como simulação e cai-cai são desestimuladas desde as escolinhas, por questões culturais e para que atitudes individuais não se sobreponham ao coletivo. Especialmente no caso de Toni Kroos, sua frieza ao lidar com a caça dos marcadores foi potencializada pelo pai-treinador, que fazia vistas grossas a muitas faltas que ele sofria nos treinos como forma de blindá-lo do rótulo de filho protegido do técnico.

De repente, nesta Copa do Mundo, a fria e calculista Alemanha que se impôs sobre a Suécia se transformou em um time burocrático e estéril contra a Coreia do Sul. Entre tanta organização, tantos jogadores nivelados por cima, os alemães ressentiram-se justamente de um ponto fora da curva, a figura do craque que, num rompante de genialidade, pudesse tirá-la da atrofia. E, com a mesma rapidez, o Brasil, de refém do individualismo de Neymar, passou a ser reverenciado por fazer o astro se curvar ao jogo coletivo na vitória em cima da Sérvia. Coisas do futebol. Por ironia do destino, Kroos esteve sob holofotes na eliminação alemã não por seu talento, mas pelos erros incomuns para um jogador de atuações tão regulares. Saiu de seu pé esquerdo o passe acidental para a Coreia abrir o placar. O suficiente para brasileiros engasgados não só com sua exibição de gala na partida que eliminou a seleção da última Copa, mas também com o deboche sobre o 7 a 1 que o meia havia compartilhado nas redes sociais há algum tempo, o destituíssem do altar de referencial para Neymar e o atirassem à fogueira como o craque desmoralizado.

Em que pese o vexame, os alemães continuam sendo um exemplo de organização e formação de talentos no futebol. Toni Kroos fracassou na Copa. Como qualquer ser humano, comete erros e deslizes. Mas, ainda assim, se mantém entre os principais jogadores de sua geração. Da mesma forma, comparar sua maturidade e sangue frio com os destemperos de Neymar é tão injusto como confrontar os IDHs de Brasil e Alemanha, sem levar em conta fatores históricos, sociais e econômicos, ou medir o talento de ambos exclusivamente pelo número de dribles e gols. Cada um pode desequilibrar uma partida à sua maneira, com personalidade e estilo preservados. A hipótese de combinar as melhores virtudes de cada jogador em um só corpo existe apenas no videogame. O futebol do mundo real vive de imperfeições, que costumam vir à tona ou desaparecer de acordo com o resultado. Por isso, vale frisar, um eventual título brasileiro na Copa não apaga a humilhação do 7 a 1, muito menos faz da CBF o reduto de excelência e boa gestão que seus dirigentes, alheios à realidade, julgam comandar.

Como teriam sido as oitavas da Copa se o VAR não existisse?

A tecnologia de videoarbitragem chegou para ficar. A Copa de 2018 demonstrou que a aplicação dessa inovação tecnológica ajudou a eliminar alguns erros arbitrais importantes. No entanto, nem todos os grupos foram afetados no campo russo. Em somente três deles (B,C e F) haveria alteração das posições ao término da fase de grupos, mas em nenhum deles uma seleção eliminada teria passado para a fase seguinte. São os liderados pelas seleções da Espanha, França e Suécia, respectivamente. Se o VAR não tivesse sido aplicado, a Espanha teria ficado em segundo lugar e enfrentaria o Uruguai –no lado mais complicado das oitavas de final– em vez da Rússia. A França também teria baixado para a segunda colocação e teria pela frente a Croácia, evitando a Argentina de Leo Messi. A Suécia também não encabeçaria seu grupo e por isso iria jogar com o Brasil.

O VAR evitou que Portugal somasse sete pontos e se tornasse o primeiro em um grupo repleto de polêmica por conta das vezes em que o árbitro teve de recorrer à nova tecnologia. A equipe de CR7 teria vencido o Irã, já que o paraguaio Enrique Cáceres não teria apitado pênalti por causa da mão do meia português Cédric dentro da área. Sem a videoarbitragem no meio, a Espanha só teria somado 4 pontos, passando em segundo, já que teria perdido do Marrocos por 2 gols a 1. O gol do atacante Aspas não teria entrado no marcador, pois seria considerada válida a decisão num primeiro momento do bandeirinha. Desse modo, a Espanha iria enfrentar o Uruguai e os portugueses lutariam contra os russos para chegar às quartas de final.

O grupo da Dinamarca e França também teria sofrido mudanças. Sem a decisão da videoarbitragem, os dinamarqueses tirariam o primeiro lugar dos franceses. Somariam sete pontos, o mesmo que Portugal. A Dinamarca teria vencido a Austrália em vez de empatar. A França teria feito o mesmo com os australianos em sua primeira partida. A falta sobre Griezmann dentro da área nunca teria sido marcada. Os franceses enfrentariam nas oitavas a Croácia, no lado menos duro do torneio. Por sua vez, a Dinamarca jogaria contra a Argentina.

Por último, no grupo F o México veria recompensadas suas duas vitórias transformadas em um primeiro lugar solitário e não com um difícil segundo lugar. Além disso, a Suécia passaria para trás, com quatro pontos –empatada com os coreanos–, graças à diferença de gols com a seleção que mandou os alemães para casa. Desse modo, o Brasil teria pela frente a Suécia e o México jogaria com a Suíça.

Assim ficariam os encontros das oitavas por completo, se o VAR não tivesse sido aplicado. Os jogos marcados em negrito são os que seriam alterados em comparação com os que serão realizados de fato:

 

Fonte: Por Fhoutine Marie, no Justificando/El País/Municipios Baianos

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