01/07/2018

Por que existem tão poucos técnicos negros?

 

Trinta e duas seleções iniciaram a Copa do Mundo 2018, cinco eram africanas. E um só técnico negro - Aliou Cissé, do Senegal, que também tem o menor salário entre eles. Com cinco títulos conquistados, a Seleção brasileira só convocou homens brancos para comandar suas equipes em toda a história dos Mundiais.

No Campeonato Brasileiro, 20 equipes disputam a primeira divisão. Roger Machado, do Palmeiras, é o único negro no comando de um time da elite. O único negro no comando de um time da elite em um país negro (53% da população se autodeclarou preto ou pardo no último censo do IBGE) e dentro de um esporte com maioria de atletas negros. Nada disso faz muita diferença dentro dos clubes.

Lilian Thuram, ex-jogador da seleção francesa, campeão mundial em 1998, tem a resposta pronta para entender a questão: racismo. “É normal que existam muitos jogadores negros, eles podem ser atletas de alto nível porque têm capacidade física para isso. Mas para ser técnico precisa ser inteligente, disciplinado. E as pessoas duvidam que os negros podem ser isso”, disse em entrevistas anos atrás.

O futebol reflete a sociedade. E não é segredo para ninguém que a sociedade ainda guarda uma série de racismos – dos tempos escravocratas (e pós-escravocratas) em que negro era força física e nada mais. Em qualquer empresa, chefes negros são raridades.

No ano passado, o Instituto Ethos e o Banco Interamericano de Desenvolvimento avaliaram o quadro de funcionários e cargos das 500 maiores empresas do Brasil. Só 10% dos chefes (gerentes ou executivos do alto escalão) eram negros. Eles só são maioria em vagas para trainees e aprendizes.

No futebol não é diferente. “Não acham que eles têm capacidade para liderar um grupo, nem competência para traçar estratégias. É um racismo comum no futebol. Você vê uma grande proporção de jogadores negros que não se mantém no quadro de técnicos – e a maioria é ex-jogador”, explica Marcel Tonini, pesquisador da USP, que estudou casos de racismo no futebol em trabalhos de mestrado e doutorado.

Andrade, ex-jogador e ídolo do Flamengo, até conseguiu fugir da regra. Mas não por muito tempo. Em 2009, assumiu o comando do time carioca, debaixo de dúvidas de dirigentes sobre sua experiência e comentários racistas.

Tirou o Flamengo da zona intermediária e conquistou o campeonato brasileiro daquele ano. Durou só mais alguns meses – acabou demitido com 70% de aproveitamento. De lá, passou pelo modesto Brasiliense e outros times menores. Hoje está desempregado.

Lula Pereira, outro ex-Flamengo, largou a carreira de jogador e foi estudar. Fez estágios no Bayern de Munique (Alemanha), Ajax (Holanda) e Milan (Itália). Chegou a treinar o Flamengo e o Botafogo. “Uma das coisas que falo é que o negro, quando subalterno, é bem aceito. Ele se esmera para fazer tudo melhor que o branco. Mas, para chegar ao comando, a coisa pega. Aí, é seríssimo”, contou a Tonini. “É um processo sutil de eliminação. Será que nós, em um país tão grande, não temos três atletas negros com capacidade de ser treinador?”, questiona.

O preconceito não mostra as caras só entre dirigentes. Nas arquibancadas, torcedores se sentem confortáveis para falar qualquer absurdo – seja machista, homofóbico ou racista – para os profissionais que estão em campo.

Só no ano passado, o Observatório da Discriminação Racial no Futebol registro 49 casos registrados pela mídia ou em boletim de ocorrência de racismo no futebol (em 2016, foram 25) em estádios. E é um número bem menor do que a realidade.

Boa parte dos jogadores deixa a ofensa passar batida – Felipão, técnico da Seleção Brasileira em 2014, chegou a falar que “não adiantava punir racistas; babacas nunca aprendem”. Como se racismo fosse algo cultural e sem solução.

Lei do silêncio

“Já ouvi da minha própria torcida ‘vá embora, negro não sei o que’. Eles não disseram: vá embora, treinador! Disseram ‘vá embora, negro’. Como posso gostar disso?”, relata Lula Pereira. “Ninguém quer botar o dedo nesse vulcão. Está bom para quem está em cima, mas para quem sofre as consequências não está bom. Só que, se a gente abrir a boca, quem vai ouvir? Quem já foi punido? Não vejo nada”, completa.

CartaCapital tentou ouvir profissionais negros do futebol e eles preferiram não falar sobre o assunto. Tonini conta que levou um ano para negociar a entrevista com seus personagens. “Há um receio de que a porta do futebol vai se fechar. Quem fala acaba caindo no ostracismo”, conta Marcelo Carvalho, diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol.

Esse esquecimento não vale só para técnicos. Quando jogava pelo Santos, o goleiro Aranha sofreu xingamentos racistas de torcedores do Grêmio. E não deixou quieto, falou sobre o assunto na mídia, entrou com processos judiciais. O clube e a torcida o apoiaram. No fim das contas, saiu do Santos, esquentou o banco na reserva de Fernando Prass, no Palmeiras, passou por Ponte Preta e, atualmente, joga no Avaí, da série B. 

“Em geral, é isso que acontece com quem fala sobre o assunto, vão para times menores, são esquecidos. E os jogadores sentem isso. Negro precisa ser duas vezes melhor que o branco sempre. Se falar sobre racismo, precisa ser três vezes melhor”, afirma Carvalho. “Em um primeiro momento o cara é aplaudido. Depois as pessoas se cansam, ‘de novo isso?’. Muito mimimi”, conclui. E nessa a torcida entoa o discurso do “futebol ficou muito chato” e jogam o profissional no limbo do vitimismo, no tom “agora tudo é racismo com ele também”.

Essa história toda só dá outra mostra de como as coisas funcionam – no futebol ou em qualquer lugar. Em um estudo, pesquisadores da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, pediram a 350 executivos para avaliar decisões favoráveis à diversidade no escritório.

Quando homens brancos se preocupavam com isso viravam gênios admirados. Mas se a iniciativa partia de mulheres ou homens não brancos, aí a avaliação mudava, passavam a ser julgados como menos competentes – punidas e esquecidas, como os técnicos e jogadores negros vítimas de racismo.

Em datas comemorativas, os comandantes do futebol preparam faixas e bandeiras para derrubar preconceitos em campo. Fim do dia, página virada. E os negros voltam a receber insultos e dispensados de cargos de liderança.

“O homem deveria ter as oportunidades pela sua competência, independentemente da sua cor. Ninguém é melhor do que ninguém pela cor, não é? Espero que um dia isso passe para que possamos ter negros, brancos, índios, pobres, ricos, ou seja, a sociedade de uma forma geral vivendo em paz com as mesmas oportunidades. Porque, de certa forma, a gente vive em paz, tendo o branco as melhores condições e oportunidades. O negro, não...”, afirma Lula Pereira.

Presos torceram para Argentina em 78 nos porões da ditadura

Presos políticos da ditadura argentina torceram para a seleção alviceleste dos porões onde eram torturados na Escola de Mecânica da Armada (ESMA) durante a Copa do Mundo disputada no país, em 1978, revelaram nesta quinta-feira sobreviventes, na inauguração de uma mostra em Buenos Aires.

"Torcia para você do porão", disse Ricardo Coquet, um ex-preso político que escapou com vida, a Jorge Olguín, zagueiro e campeão mundial em 78 com a Argentina.

Foi um dos momentos mais emotivos da cerimônia no Museu da Memória criado onde funcionava a Escola de Mecânica da Armada (ESMA) da Marinha de Guerra.

"Lembro que vimos a partida entre Argentina e Peru (6-0), que precisávamos ganhar por muitos gols. Eu estava com um companheiro e ficamos muito contentes, mas logo escutamos as portas se fechando, sinal de que haviam trazido outro sequestrado. Quando saímos, passamos desta pequena euforia com a Copa para ver um companheiro caído no chão, morto, e isto nos trouxe de volta à realidade", contou  Coquet.

Mais de 5 mil pessoas passaram pelos porões da ditadura argentina e apenas centenas sobreviveram. Muitos dos sequestrados pelos órgãos de repressão foram atirados vivos no mar nos chamados 'voos da morte'.

"Não sei como explicar que nós, jogadores, não tivéssemos a menor ideia do que estava ocorrendo. Sinto de coração e agradeço o convite para compartilhar este momento", disse Olguín, que conquistou uma Copa Libertadores com o Argentinos Juniors.

No dia da festa de abertura do Mundial de 1978, no Estádio Monumental, com a partida entre Alemanha e Polônia (0-0), a TV alemã iniciou sua transmissão denunciando que "a poucas quadras daqui há gente sendo torturada e morta".

"Agora que está sendo disputado o Mundial da Rússia, o que Coquet disse a Olguín serve para se refletir sobre a alegria do futebol", declarou a diretora do Museu, Alejandra Naftal.

"Jamais acusei a seleção de ser cúmplice desta situação, mas o Mundial serviu de desculpa (para os militares). Naquela época se faziam vídeos que mostravam um país ideal, fantasioso, para a imprensa estrangeira. O que não sabiam é que este trabalho era feito por prisioneiros sob tortura", recordou outro sobrevivente, Alfredo Ayala.

Ayala relatou uma experiência macabra. "Tiravam a gente da prisão para ir às partidas. Me levaram ao estádio do River Plate, do Vélez Sarsfield para ver se alguém me conhecia, se aproximava, com o objetivo de prendê-lo".

Fonte: Por Carol Castro, em CartaCapital/AFP/Municipios Baianos

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