10/07/2018

Religião: Esses homens que se consideram Deus

 

Os cristãos estão há quase 2.000 anos esperando a volta de Jesus Cristo. “Sim, em breve voltarei”, diz o antepenúltimo versículo do Novo Testamento, que deixava a porta aberta para uma ressurreição iminente e dava um álibi possível a todos os que dizem ser o messias renascido. Não são precisamente poucos, como mostra o norueguês Jonas Bendiksen, membro da agência Magnum, em seu novo projeto, O Último Testamento, apresentado nos Encontros de Arles, festival fotográfico de referência na Europa, que até 23 de setembro reúne 35 exposições nesta cidade do sul da França.

“Cresci em um lar não religioso. Por isso a religião e a fé sempre me fascinaram. Há algum tempo, sentia uma necessidade crescente de tentar experimentar esse sentimento. Queria saber o que se sente ao acreditar”, diz Bendiksen, de raízes judaicas, mas agnóstico. Este fotógrafo de 40 anos, conhecido por suas reportagens sobre as favelas do mundo e sobre os vestígios do comunismo na antiga União Soviética, vinha investigando esses novos profetas desde 2015, até que conseguiu reduzir sua seleção a sete indivíduos de diferentes pontos do planeta. Para começar, descartou quem tivesse uma saúde mental duvidosa. “Em qualquer estabelecimento psiquiátrico há pessoas que dizem ser Jesus”, observa Bendiksen, que escolheu líderes com um discurso estruturado, uma comunidade de crentes considerável e uma clara missão de evangelização.

Entre eles se encontra Vissarion, que criou uma igreja alternativa nos bosques da Sibéria, onde vive com outras 5.000 pessoas numa comunidade idílica. Nesse lugar, o Natal é celebrado em 14 de janeiro, dia do aniversário do seu messias apócrifo. O mesmo acontece com Inri Cristo, que se rebatizou com as iniciais que Pôncio Pilatos escreveu na cruz em que Jesus morreu. Ele reside em um ponto impreciso do Brasil, junto com uma congregação abundante e formada majoritariamente por mulheres. Mas ninguém supera Apollo Quiboloy, que fundou nas Filipinas uma megachurch que já conta com seis milhões de fiéis, além de uma frota de helicópteros, uma u O resultado está exposto numa igreja gótica do centro da cidade. Na nave central e nas capelas laterais, erguem-se pequenos altares dedicados a esses líderes ressuscitados. Entre eles está também o japonês Jesus Matayoshi, que pronuncia seus sermões numa caminhonete de campanha eleitoral. O objetivo desse indivíduo de têmporas prateadas é se tornar primeiro-ministro do Japão e, mais tarde, secretário-geral das Nações Unidas, cargo no qual acredita que poderá transformar o planeta instituindo a lei de Deus. Nas últimas eleições, mais de 6.000 pessoas votaram nele.

Enquanto isso, em Zâmbia, Bupete Chibwe Chisimba ganha a vida dirigindo um táxi sem licença, um ofício tão modesto como a carpintaria foi para Jesus. Os fins de semana ele passa junto a seus dois apóstolos, fazendo proselitismo em mercados. São os dois últimos seguidores da sua doutrina. Nem sequer sua mulher confia muito em seu dogma: quando lhe confessou que era Jesus reaparecido, ela o obrigou a consultar um psiquiatra. Tampouco tem muitos fiéis David Shayler, um ex-agente da contraespionagem britânica que também está convencido de ser Deus. Às vezes pronuncia seus sermões travestido de mulher —nesse caso, usa o nome Dolores— diante de uma paróquia composta por meia dúzia de pessoas, no meio do campo. Cabe lembrar que tampouco Jesus tinha “mais de uma dúzia de adeptos quando começou a pregar”, como aponta Bendiksen.

Por que estariam loucos?

Em seu trabalho não há ironia e chacota e sim respeito e empatia, apesar de algumas fotografias causarem alguns sorrisos. “O fotógrafo entrou em cada comunidade com a intenção de acreditar. Em troca disso, lhe deram acesso a coisas surpreendentes. Reflete um período histórico em que retornou a busca da espiritualidade. Alguns a procuram na tecnologia e outros em uma atualização de formas mais tradicionais”, diz o diretor artístico do festival, Sam Stourdzé. No fundo, os relatos e as crenças que o projeto de Bendiksen reflete são tão plausíveis como as de religiões majoritárias. “É uma das coisas que estavam em minha cabeça desde que comecei a trabalhar nesse projeto. Por que pensamos que essas pessoas estão loucas, quando suas histórias são ao mesmo tempo estranhas e críveis como as da igreja da esquina? Por que uma coisa é ridícula e a outra é aceita socialmente?”, se pergunta Bendiksen.

Ao final desse processo, o fotógrafo não encontrou a fé, mas chegou a vislumbrar “a magia e a beleza” de se acreditar em algo ou alguém. Mesmo que esse alguém seja Moses Hlongwane, um sul-africano que se faz chamar de Senhor dos Senhores. Deus apareceu para ele em um sonho em 1992, quando trabalhava como vendedor em uma pequena joalheria. Nesse dia decidiu largar tudo e mudar de vida. Agora se dedica a pregar às multidões em Johannesburgo e outras cidades, convencido de que o Dia do Juízo Final está próximo. Para tentar acelerá-lo, se casou com uma de suas discípulas em 2016, que em sua crença religiosa marca o começo do Apocalipse. Ninguém sabe o que sua esposa acha disso.

CRISTINA DE MIDDEL FAZ VODU

Outra exposição nos Encontros de Arles explora a importância de mitos e crenças na sociedade contemporânea: Meia-noite na Encruzilhada, a nova série da fotógrafa Cristina de Middel, nesse caso em parceria com o brasileiro Bruno Morais. É uma viagem ao universo de Èsù, a força que governa todos os movimentos da vida na cultura vodu, que assume diferentes aspectos em função da localização geográfica. Os autores passam por Benin, Cuba, Brasil e Haiti representando visualmente as raízes da espiritualidade da diáspora africana. Como em Os Afronautas, a série que revelou a fotógrafa espanhola, a dimensão de ficção é pronunciada. “Mas nesse caso eu não a inventei, já estava escrita”, afirma Cristina. “Apesar de tudo, não é um trabalho em formato documental e antropológico. Surge como uma vontade de preservar essa tradição diante da ação das religiões evangélicas, que estão arrasando com o patrimônio intangível dessas culturas na África e na América”, diz a fotógrafa.

Mais uma vez, De Middel se afasta dos códigos do fotojornalismo tradicional para usar outras linhagens da imagem. “Estamos em uma época de obscurantismo, onde o emocional supera o racional. Todo mundo joga com nossas emoções, do político a quem tenta te vender um iogurte”, diz a fotógrafa. “O trabalho dos artista é contrapor isso. Mas já não podemos fazê-lo a partir do estritamente documental, porque já não é tão eficaz como há 40 anos. É preciso adaptar nossa linguagem ao místico. A lógica cartesiana pouco nos serve nesse momento. A fotografia está se renovando na mesma direção. É uma casualidade? Não acho”, conclui.niversidade própria e até um canal de televisão.

Quando John Lennon acreditou que era Jesus Cristo

“Cristo você sabe que não é fácil, você sabe como pode ser difícil. Do jeito que as coisas estão indo, vão é me crucificar”, afirmava John Lennon em sua canção The Ballad of John and Yoko. Quase três anos antes, em 29 de julho de 1966, tinha começado sua “crucificação” pela imprensa dos Estados Unidos. A revista Datebook publicou uma chamativa manchete com a frase do Beatle: “Somos mais populares que Jesus”. A afirmação não era nova, fora tirada de um artigo mais extenso publicado em março na Inglaterra. John tinha declarado: “O Cristianismo vai acabar, vai diminuir e sumir. Hoje nós somos mais populares que Jesus. (...) Não sei o que vai acabar antes, se o rock and roll ou o cristianismo”

O jovem músico metido a intelectual, diagnosticava à sua maneira a secularização da sociedade e o desinteresse dos jovens pela religião. Sua declaração passou despercebida na Inglaterra, mas nos Estados Unidos foi tomada como blasfêmia e causou grande polêmica logo antes da terceira turnê dos Beatles pelo país. Houve fogueiras públicas de discos dos Beatles em cidades do cinturão bíblico e os quatro músicos receberam ameaças de morte da Ku Klux Klan. A tensão dominou aqueles shows no mês de agosto e suas entrevistas coletivas deixaram de ser festivas e hilariantes para se transformar em autos inquisitoriais do roqueiro provocador, que teve de pedir desculpas. Ao final da turnê, os Beatles decidiram deixar os shows para sempre.

Sua comparação com Jesus estava lhe custando caro, mas poucas semanas depois, Lennon teria sua vingança em Almería, na Espanha. Ali chegou em 19 de setembro de 1966 para participar como ator no filme Como Ganhei a Guerra, produção pacifista de Richard Lester. Em sua bagagem infiltrou-se a polêmica. Não conseguiu escapar dela porque os jornalistas a recordavam em cada entrevista no set de filmagem. “Não sou um canalha (...) Não me lembrem mais disso”, respondia John à pergunta “Estava bêbado quando disse aquilo?”, feita por Diego Segura para a revista Fans.

Foi nesse contexto e no deserto almeriense que Lennon, com a chaga do orgulho aberta, pegou um pedaço de lona e começou a exorcizar seu tormento. Não queriam blasfêmia? Pois iam ter. John desenhou a si mesmo, com uma caricatura frontal, parodiando o Santo Sudário. O Beatle levava consigo esse retalho de menos de um metro de comprimento e deve tê-lo usado nas longas esperas entre as tomadas. Ao terminar a filmagem, deu-o de presente a Ron Lacey, um jovem ator britânico com quem compartilhou confidências e alguma tragada furtiva. “Adeus Ronnie”, escreveu em espanhol sobre o tecido. Anos depois, o ator (popular por seu papel de nazista com óculos lennonianos em Os Caçadores da Arca Perdida) deu o pedaço de lona a um companheiro de farra, que o guardou até hoje.

A casa de leilões Cooper Owen assegura sua autenticidade. Tentou vendê-lo há dois anos, sem sucesso. Para a empresa de memorabilia musical mais importante do mundo, o santo sudário de John Lennon é uma inestimável peça de arte conceitual. Custa acreditar que seja verídico um pedaço de lona cáqui rabiscado com frases e traços confusos. Mas é.

Lennon se retratou como um Jesus de barba, óculos redondos e coroa de espinhos. Parecido com os bonecos que desenhava para zombar de seus professores na escola. Acrescentou a expressão Santo Batman, referência herética a seu personagem, junto ao anagrama do homem morcego, em um de seus inconfundíveis jogos de significados. Logo abaixo desenhou dois punhos com as inscrições amor e ódio. No lado do mal, John esboçou um calvário com três cruzes e um encapuzado da Ku Klux Klan. No lado oposto, outra cruz com a coroa e o nome de Elvis, que ele endeusava e que lhe abriu os olhos para o rock em 1956.

O Santo Sudário de Lennon não é só uma brincadeira raivosa de cuja ousadia o músico estava consciente. Expressa como um diário íntimo seu estado de ânimo mutável ao longo de seis semanas em uma terra que tantas vezes fez o papel de Galileia no cinema. Lennon lamentou o tratamento recebido, como voltaria a fazer no single de 1969. Em suas anotações, John mostrava nostalgia e dúvidas sobre sua a: Óculos, esposa, filho, amor, maconha e, ao lado, o desenho de um gato. O rastro de Jesus acompanhou John até o final da vida em músicas, declarações, atitude política e até em seu aspecto físico. Com a paródia do sudário feita em Almería, o músico vilipendiado se identificou com ele, e também com sua morte ao acrescentar uma frase de Gripweed, seu personagem, pronunciada diante da câmera enquanto morria na ficção: “Sabia que isto ia acontecer”. Anos depois, em dezembro de 1980, o mundo se deu conta disso e, sem necessidade de manto algum, elevou John Lennon ao altar como o primeiro messias do rock.

‘STRAWBERRY FIELDS FOREVER’, UMA CANÇÃO ESSENCIAL

A lona é parte do quebra-cabeças arqueológico musical de Strawberry Fields Forever, a canção que John compôs há 50 anos e motivo de celebração em Almería, de 7 a 9 de outubro, com música, bate-papos e uma homenagem ao professor Juan Carrión. Esse retalho joga luz sobre a origem desta obra-prima. A frase “Ninguém vive em minha lua. Talvez esteja muito alta ou muito baixa, não me importo”, é uma variação da letra final da canção, em que John mudou a lua da paisagem almeriense por uma árvore. O músico levava a lona consigo e ia acrescentando ideias com os mesmos marcadores que usou para corrigir as folhas de Carrión, e mostrando, como na canção, sua dor, dúvidas e até ressentimentos. Finalmente, surge uma esperança quando John vai a Santa Isabel no dia de seu aniversário e evoca, em Almería, o Strawberry Field de sua infância. Mas nessa altura, não o registrou em seu paródico sudário.

 

Fonte: El País/Municipios Baianos

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