10/07/2018

Bahia: Projeto Mandinga completa 20 anos de ações sociais

 

2018 é um ano especial para os professores, idealizadores e alunos do Projeto Mandinga – Associação Integrada de Educação, Artes e Esportes, que realiza programas educacionais, culturais e esportivos desde 1998, com a missão de desenvolver ações para a defesa, elevação e manutenção da qualidade de vida do ser humano, por meio de promoção de projetos e atividades que tenham ênfase na capoeira. Após 20 anos de existência, 300 crianças são hoje atendidas pela instituição, que contabiliza mais de 10 mil diplomados.

Atualmente, o projeto atende diversas comunidades através do seu núcleo de capoeira, ministrando aulas desta modalidade esportiva e outras manifestações culturais (maculelê, samba de roda, etc) para cerca de 300 jovens de baixa renda de bairros populares. As crianças e jovens são divididos por turmas e estão na faixa etária entre 3 e 14 anos. Todos recebem diploma de graduação na capoeira após o fim de cada ciclo.

Entre os critérios para participação no projeto, os alunos devem estar matriculados na rede pública de ensino e residir em bairros e comunidades periféricas. Um equipe de 12 professores, e dezenas de outros ajudantes, todos voluntários, são responsáveis por ministrar as aulas e acompanhar os alunos.

Com o intuito de possibilitar o acesso da população carente, as aulas são realizadas de segunda a quinta-feira. Na sexta, acontecem rodas de leitura, literatura, oficinas e outras atividades em três núcleos, um em Itapuã, outro na Estrada das Barreiras, bairro do Cabula, e na própria sede do projeto no Pelourinho, onde funciona também o Museu da Capoeira. Lá, há fotografias, desenhos e pinturas dos principais nomes da capoeira na África, no Brasil e no mundo, além da exposição de objetos, como berimbaus e tambores.

Em países como França, Bélgica, Alemanha, Suíça, Portugal e Estados Unidos praticantes graduados hoje expandem a arte para o mundo.

Palavra de mestre

Em Salvador, o projeto atende ainda crianças da rede particular de ensino. À frente, o mestre Sabiá mantém a entidade com recursos próprios, doações de outros mestres, de parceiros brasileiros e estrangeiros e da venda de bens e serviços pelo projeto produzidos.

Idealizador do projeto, mestre Sabiá, que sempre trabalhou com capoeira de forma educacional, conta que resolveu criar a instituição para promover a capoeira para crianças mais carentes.

“Trabalhei durante muito tempo na rede de ensino particular e via que a cultura popular estava inserida nos lugares mais privilegiados; isso porque nas escolas particulares a maioria do seu público tem origem de classe média. Com isso, as crianças menos favorecidas não tinham às vezes a oportunidade de fazer capoeira. Eu, como educador, achava isso gritante”, explicou.

Com quase 20 anos à frente do projeto, o mestre afirma que a capoeira, além de ser um forte produto que apresenta a cultura brasileira para o mundo, tem o poder social capaz de transformar a vida de todos que conseguem desenvolver a arte.

“Eu acreditava e acredito até hoje, que a capoeira pode ser um grande veículo de transformação social”, afirma o mestre. Segundo ele, a arte está hoje em mais de 160 países e é o maior divulgador da língua portuguesa no mundo. “A capoeira leva as pessoas a superarem as barreiras e obstáculos que a sociedade impõe, e assim, conseguem ascender na vida e se transformar em transmissores da cultura e da vivência da capoeira”, analisou.

Entre os resultados destacáveis, além das seis edições já realizadas do projeto Vadeia Mundo Vadeia, por meio do Ginga Mundo, o Mandinga também assinou a produção do homônimo Ginga Mundo (2004, 2006 e 2008) e do Rede Capoeira (2013), além de outros eventos de dimensão internacional.

TRANQUILIDADE DO MESTRE É INSPIRAÇÃO

O professor Marcus Vinícius Santos de Jesus (Anu) tem 30 anos e há 18 iniciou a prática da capoeira, por meio de outro projeto de inclusão social semelhante ao Mandinga. Ele dá aulas para alunos que têm entre 6 e 14 anos. A inspiração e a forma tranquila de transmitir conhecimentos sobre a capoeira ele atribui ao mestre Sabiá.

“Tento passar para as crianças a disciplina que aprendi com o mestre Sabiá e é fundamental para a arte da capoeira; além disto, as crianças convivem com outros capoeiristas, trocam experiências e aprendem desde cedo a respeitar e conviver com as diferenças. A capoeira não difere classes”, ressalta.

Para Anu, a capoeira é uma arte cultural. “É uma herança que guardamos com muito carinho. Quem pratica sente e quem não pratica, quando escuta o som do berimbau em uma roda de capoeira, é tomado pela energia de forma contagiante”, diz.

Lucas Ferreira, conhecido como Rato, se dedica exclusivamente à capoeira desde 1997. Iniciou a prática em um projeto social no Bairro da Paz. No ano passado, disputou um campeonato mundial e foi eleito o capoeirista mais completo do mundo. Segundo ele, cada capoeirista recebe um apelido referente às próprias habilidades e características. “Antes, a capoeira estava no código penal, era crime ser capoeirista, por isso, eram usados nomes fictícios para que não houvesse identificação e prisão”, explica.

Segundo ele, os mais importantes ensinamentos, além da disciplina, são: o companheirismo, o carinho e a igualdade. “Aqui fazemos de tudo para que as crianças e adolescentes sintam-se acolhidos e abraçados”, destaca.As oportunidades e experiências vividas por Lucas através da capoeira são incontáveis. Conquistas antes inimagináveis foram possíveis com dedicação e disciplina. “Sou prova viva da transformação social que o projeto proporciona. Hoje conheço 17 países, viajei por quatro continentes, mostrando ao mundo a minha arte. Ano passado conquistei o título mundial e me orgulho dessa trajetória”, disse. Ele afirma que vários amigos que passaram pelo projeto moram na Europa e nos Estados Unidos, onde vivem bem e conseguem sustentar suas famílias no Brasil.

“Muitos dos que hoje estão homens e buscando a profissionalização na capoeira tiveram acesso ao mundo da criminalidade e das drogas. Já estive em lugares nos quais resgatei alunos nestas situações e hoje podemos observar a transformação deles. Contribuímos com o fazer social e exportamos a capoeira”, afirma.

Edson Pereira de Oliveira é pai dos gêmeos Samuel Vitor e Samile Vitória de Oliveira, de 8 anos, alunos do projeto Mandinga. Entre os benefícios da capoeira estão a disciplina e o comprometimento. “Eles ficaram mais disciplinados, dispostos e a prática trouxe benefícios para a saúde e aprendizados inúmeros pela convivência com outras crianças. Vejo com otimismo essa evolução e percebo que multiplicam o que aprendem, passando conhecimentos para colegas da escola e primos. Eles adoram”, orgulha-se.

Samuel diz que gosta de aprender, brincar e estar com os colegas do projeto. “Aprendo muito com as aulas e já consigo fazer bastante coisa. Adoro fazer o AU (conhecido como estrelinha)”, disse. Já Samile contou que aprende bastante sobre ser disciplinada, educada e a se defender. “Gosto muito de fazer aulas e quero aprender cada dia mais e ser como meu professor”, prevê.

O Candomblé e a esquizofrenia político/religiosa p Jolivaldo Freitas

Dois fatos chamaram a atenção nestes últimos dias, envolvendo a questão da religiosidade de matriz africana. O vídeo em que o deputado federal irmão Lázaro joga duro contra o Candomblé, falando coisas absurdas, destratando, desqualificando e atacando mais que carcará no Raso da Catarina. Ele querendo fazer média com sua religião, que é a evangélica, fazendo papel de inquisidor e trator sem freio.

Outro fato é a intolerância que parte também de outros setores evangélicos e de grupos organizados de marginais, que agora por aqui na Bahia, como o fazem nas favelas do Rio de Janeiro, querem impedir a manifestação religiosa afro-brasileira. Tolher e aniquilar o culto. Terreiros têm sido alvo de intolerância em Juazeiro, por exemplo.

Um foi o Oyá Gnan no bairro do Quide, onde seus integrantes denunciam que vêm sofrendo ameaças e agressões há mais de três anos, seja com apedrejamento ou pichações. Recentemente outro terreiro, o Abassá Caiangô Macuajô, que fica no bairro Sol Nascente, sofreu agressão com equipamentos do culto destruídos. Os agressores dizem que na próxima vez vão derrubar a casa.

Parece que os agressores estão copiando cena da novela “Malhação” da TV Globo, onde em alguns capítulos anteriores ocorreu a luta de uma família de negros praticantes do Candomblé, que sofreram ameaças, não detorcer e foram vítimas de ações agressivas, inclusive com o terreiro sendo incendiado.

Na Bahia, além de Juazeiro, existem, queixas formalizadas na polícia dando conta de problemas assemelhados em Valença, Ilhéus e no Litoral Norte. Mesmo a Igreja Católica sofre com a intolerância, como aconteceu há algum tempo em que uma igreja de São Francisco, em Arembepe, foi invadida e todos os objetos e imagens quebradas.

Interessante é que, tanto na novela “Malhação” como em outros casos, chama a atenção a participação de afrodescendentes na prática da intolerância, como se ao optar por uma religião a outra ofendesse ou, na boa parte dos casos, são afrodescendentes em que o Candomblé em algum momento fez parte da sua vida, da sua família, dos seus antepassados, fosse por uma questão de autopreservação ou por unicidade da raça.

O Irmão Lázaro, do PSC é negro, tem parentes negros, tem análogos na religião afro-brasileira, mas é intolerante com a própria origem religiosa, pelo que se demonstra. Mas não é só ele. Hoje temos muitos fundamentalistas.

Portanto é preciso vigiar de perto qualquer um, de qualquer religião que não respeite a fé do outro. Nenhuma religião é superior à do vizinho. E olha que quem vos fala é um agnóstico que só não tolera a barbárie entre irmãos. E olha que São Lázaro, Obaluaiê, é protetor dos doentes. Até da cabeça.

 

Fonte: A Tarde/Bahia Já/Municipios Baianos

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