10/07/2018

Pesquisadores baianos condenam corte de verbas para ciência

 

Na data em que se comemora o Dia Nacional do Pesquisador e o Dia Nacional da Ciência, ambos celebrados no último domingo, 8, pesquisadores e representantes de universidades ouvidos por A Tarrde afirmam que não há muito o que se comemorar.

Eles estão preocupados com os impactos dos cortes orçamentários ocorridos nos últimos cinco anos nas pesquisas científicas, que vão desde a compra de equipamentos e materiais até a diária e passagens dos pesquisadores.

A Tarde solicitou às universidades públicas na Bahia que fizessem um levantamento da situação. Nenhuma delas, no entanto, conseguiu mensurar quantas pesquisas foram impactadas, reduzidas ou até mesmo canceladas. No entanto, todas elas informaram que as consequências são negativas e ameaçam o desenvolvimento das pesquisas realizadas.

O pró-reitor de pesquisa e pós-graduação da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Aristeu Vieira, afirmou que pesquisas em diversas áreas têm sido impactadas, principalmente as que demandam equipamentos e materiais de consumo específicos como reagentes de laboratório.

“Estudos importantes sobre o semiárido, seja em sua constituição de flora, seja da fauna, pesquisas sobre o potencial biotecnológico de produtos vegetais, pesquisas sobre a saúde e controle e prevenção de enfermidades têm sido particularmente afetadas”, disse Vieira

Recurso retido

Segundo o pró-reitor, em maio de 2017, em levantamento feito com pesquisadores da Uefs foi detectado que R$ 5,2 milhões em projetos de pesquisa aprovados desde 2014 não havia sido repassados pela Fundação de Apoio à Pesquisa no estado da Bahia (Fapesb), uma das principais agência de fomento da pesquisa.

“Até hoje, alguns pesquisadores foram contatados e recursos liberados, entretanto, um passivo importante ainda está por ser vencido. Com relação às agências de fomento, seja a Fapesb, sejam as agências federais, o número de editais de apoio à pesquisa vem sendo apresentados em número incipiente, comparado com anos anteriores”.

A Fapesb foi procurada, mas não respondeu à solicitação. Ela está vinculada à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti) que também foi contatada pela reportagem, mas não houve resposta.

Mudança de cultura

Coordenador de Pesquisa da Ufba, Thierry Lobão informou que os impactos do arrocho atingem desde o estudante que está na iniciação científica até o pesquisador que está na outra ponta e que já tem um laboratório. Segundo ele, os cortes ocorrerem desde 2015 nas esferas estadual e federal.

“O que a gente precisa é de uma mudança de cultura. Entender que investimento em pesquisa não é gasto. Dá retorno em médio e longo prazo. Países da Europa, os EUA, Canadá, China investem maciçamente em ciência e tecnologia”, disse.

Lobão destacou que, a depender da agência de fomento à pesquisa, os cortes chegam a até 40%. “No caso da Fapesb, temos projetos em execução e ela tem alegado que os repasses dos recursos que vêm do Estado não estão sendo honrados. Uma vez que ela não recebe, fica sem caixa para editais já abertos e os futuros”, diz.

Corte de 34%

O reitor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (Ufrb), Sílvio Luiz Soglia, afirmou que as consequências dos cortes vão desde a aquisição de equipamentos até a restrição de diárias e passagens para pesquisadores e estudantes.

“A situação compromete o avanço da pesquisa, que fica limitada aos poucos recursos disponibilizados, o que muitas vezes não atinge todo o potencial de desenvolvimento de produtos e tecnologias de interesse direto para a sociedade”, disse.

Segundo ele, não há recursos para atender toda a demanda de manutenção de equipamentos nos laboratórios. A redução de bolsas para o Programa de Iniciação Científica (Pibic) é de 34%.

“Especificamente na Bahia, se compararmos o que tínhamos antes da criação da Fapesb e o que temos hoje, o avanço foi fenomenal em diferentes áreas da ciência. Contudo, muitas dessas conquistas estão ameaçadas”, ressaltou Soglia.

Na esfera federal, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações informou que reduziu o orçamento em 12% de 2017 para 2018. Saiu de R$ 5,2 bilhões para R$ 4,6 bilhões.

INSTITUIÇÕES SE MANIFESTAM CONTRA “PENÚRIA GENERALIZADA”

No último 2 de julho, pesquisadores, professores e estudantes ligados à ciência e à tecnologia lançaram um manifesto “em defesa de um maior apoio para as atividades científicas no País, particularmente na Bahia”. Segundo eles, a situação é de “penúria generalizada”.

Liderado pela Academia de Ciências da Bahia, o ato de lançamento ocorreu antes do início do cortejo pela Independência do Brasil na Bahia e reuniu instituições como a Ufba, Uneb, Uesc, Ufrb, Fiocruz, entre outras.

No manifesto, essas entidades destacam que as pesquisas são atividades “complexas e continuadas, que necessitam de infraestrutura, planejamento e financiamento continuados e de longo prazo”. “Nosso objetivo é despertar na consciência da população o valor da ciência, da educação e da cultura”, diz a nota da ACB.

Nota de repúdio

Em nível nacional, cerca de 60 entidades assinaram, no último 4 de junho, um manifesto contrário aos cortes que têm ocorrido nos orçamentos de pastas federais. No documento, as entidades informaram que “repudiam” novos cortes em  Ciência, Tecnologia, Educação e Saúde, o que, segundo elas, “atingem a qualidade de vida da população e ameaçam o futuro do País”.

Segundo as entidades, os orçamentos para estas áreas já estavam reduzidos devido a cortes ocorridos nos últimos anos. “Agora é atingido por cancelamentos de recursos, que já haviam sido aprovados pelo Congresso Nacional, por meio da Medida Provisória 839/2018 do governo Temer”, ressaltaram, no manifesto, as organizações.

Criada há quatro anos, UFSB diz ser uma das mais prejudicadas

Em nota, a Universidade Federal do Sul da Bahia (Ufsb) informou que, por ter iniciado suas atividades em 2014 é uma das mais impactadas porque o quadro de docentes está sendo formado com aumento gradual de pesquisadores doutores que desenvolvem pesquisa.

 “Com pouca verba é impossível investir adequadamente em todas as frentes, logo os setores de pesquisa são obrigados a diminuir o passo. As universidades federais novas têm o agravante de não poderem competir em pé de igualdade por investimentos da Capes e CNPq, por exemplo, com instituições já consolidadas, com reconhecido histórico de produção de ciência e tecnologia”, ressaltou, em nota, a Ufsb.

Comemoração e luta

Para o professor da Faculdade de Educação da Ufba e conselheiro da SBPC Nelson Pretto, o crescimento dos números de pesquisas nos últimos anos é um dos motivos de comemoração na data que celebra a Ciência e o pesquisador. “Nossa comemoração tem que ser com muita luta, pois não podemos aceitar os ataques que estamos tendo em todas áreas”, lamentou o docente da universidade.

Procuradas por A Tarde, a Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz-Bahia) não responderam até o fechamento desta edição. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) também não respondeu aos e-mails enviados pela reportagem.

Pesquisa revela que brasileiros se importam com a ciência

A ciência pode não oferecer a salvação, mas oferece a possibilidade das pessoas viverem livres do medo do desconhecido. Além disso, ela permite que o indivíduo tenha a autonomia de pensar por si mesmo e dá a liberdade da escolha informada. Com o objetivo de estimular o gosto dos jovens por essa disciplina e divulgar o saber cientifico para a sociedade, neste domingo (8), comemora-se o Dia Nacional da Ciência. Instituída pela Lei nº 10.221, de 18 de abril de 2001, a data também é uma homenagem à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), fundada em 8 de julho de 1948.

Os brasileiros acreditam na ciência. Porém, alguns indivíduos ainda possuem dificuldade em reconhecer, no dia a dia, aquilo que é produzido nos laboratórios – duas em cada três pessoas acreditam que a ciência tem pouco ou nenhum impacto no cotidiano. Essa afirmação foi comprovada na primeira edição do Índice Anual da Situação da Ciência, organizado pelo instituto norte-americano 3M em 14 países, entre junho e agosto de 2017.

Entretanto, de todos os países entrevistados, o Brasil foi o que mais apresentou otimismo em relação a ciência – 52% dos brasileiros gostariam de saber mais sobre o tema, um índice muito superior à média mundial (34%), inclusive entre os mais jovens. Os brasileiros também acreditam que essa área impulsiona a inovação e que o mundo é um lugar melhor graças aos avanços trazidos por ela.

Apesar de toda crença, os brasileiros não veem o país avançando na área. Para 74% dos entrevistados, o Brasil está ficando para trás em relação a ciência e para a maioria dos entrevistados – o equivalente a 42% - a causa disso é o financiamento inadequado para a pesquisa científica no país. Quando se trata de gênero, as mulheres são as menos envolvidas nessa área e acreditam que essa não é uma carreira propicia para elas.

Ronaldo Paesi, professor do curso pré-vestibular Me Salva! concorda que as pessoas se importam com a ciência. “Elas percebem que essa área transforma a sociedade e traz mais benefícios do que prejuízos”, avalia. Segundo ele, da mesma forma funciona em sala de aula. “É muito fácil fazer com que os alunos se interessem por essa disciplina, principalmente, quando utilizamos exemplos que fazem parte do nosso próprio cotidiano. O único problema, principalmente no Ensino Médio, é que os professores só se importam em passar o conteúdo e os estudantes em decorar para passar no vestibular”, explicou o professor.

Ronaldo leciona a disciplina desde 2014 e foi a sua facilidade em absorver os assuntos de ciência durante a escola que fez com que ele optasse por essa graduação. “Não tem como imaginar a sociedade sem o conhecimento científico. Nem consigo imaginar como seria a sociedade sem a ciência. Para o bem ou para o mal, ela revolucionou a forma como estudamos o mundo e produzimos conhecimento e esse conhecimento adquirido traz a revolução”, assegurou.

Família produz biogás com esterco animal reaproveitado no Piauí

A família do pescador José Maria do Nascimento mudou de realidade ao iniciar o reaproveitamento do que antes era descartado. Com a aplicação do projeto Sisteminha, da Embrapa, o esterco de animais vira combustível para a criação do biogás e depois adubo na horta que abastece a família.

“Já teve dias em que minha mulher nem queria acordar, por causa da fome, não tinha o que comer. Hoje estamos como se fosse no paraíso”, conta o pescador José Maria.

O Sisteminha é explicado pelo zootecnista da Embrapa, Luiz Carlos Guilherme, que conta como funciona o processo.

“É um sistema simplificado onde o esterco de galinhas e outras aves, além de de porquinhos da índia e suínos entram no biodigestor e ocorre a produção do gás gerando economia. O resíduo é melhorado para complementar a compostagem, serve para a criação das minhocas, que geram o húmus e esse adubo é usado no sistema”, diz.

A economia acontece porque o gás produzido no biodigestor é o metano, que é canalizado e abastece o fogão da família. A última vez que o pescador comprou um botijão de gás foi em dezembro de 2017, quando ainda não fazia parte do projeto.

A família explica ainda a importância desse processo para a geração de alimentos, já que a produção de húmus de forma natural no meio ambiente leva cerca de 500 anos e, no sistema, não ultrapassa 90 dias.

“É ótimo porque o adubo precisa ser tratado dessa forma no minhocário, já que não podemos usar o esterco cru direto na horta, porque queima o solo e as plantas”, diz o pescador.

Com isso, o que a família come vem da própria horta. O próximo passo é a instalação de um sistema mais sofisticado, que vai utilizar a água dos tanques de criação de peixes para ser reaproveitada após passar por um tratamento.

“Será usada pela família, por visitantes e para a criação dos animais”, diz o zootecnista Luiz Guilherme.

 

Fonte: A Tarde/G1/Municipios Baianos

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