11/07/2018

'Soberania em risco': cientista denuncia desmonte da Ciência no Brasil

 

A Ciência brasileira tem sofrido diminuição do investimento público, intensificada a partir do governo de Michel Temer. Sobre este tema, a Sputnik Brasil ouviu Ildeu de Castro Moreira, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que aponta a situação como "drástica".

No século XXI a ciência tornou-se ponto central para o desenvolvimento das sociedades, tanto para os governos quanto para as empresas. Para tal, investimentos públicos e privados no setor de ciência, tecnologia e inovação são fundamentais no desenvolvimento dos países.

O Brasil, no entanto, tem diminuído o volume de investimentos públicos no setor, seja através das universidades ou das agências de fomento à pesquisa, que atendem tanto o setor público quanto o privado.

"A situação é muito drástica. Foram muito drásticos os cortes para Ciência e Tecnologia no ano passado, em particular, e neste ano continuam. E, portanto nós estamos vivendo uma situação muito difícil", afirma Ildeu de Castro Moreira, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Moreira ressalta que a situação tem atingido as principais agências de fomento do país, invertendo um ritmo de crescimento do setor.

"As principais agências de fomento do país, como o Cnpq, a FINEP, a própria Capes, foram profundamente atingidas. E isso tem uma implicação muito ruim, porque a ciência brasileira vinha crescendo nos últimos 20 anos significativamente e agora nós estamos vivendo um momento muito complicado".

Segundo afirma o presidente da SBPC o orçamento de 2018 para o custeio para ciência, tecnologia e inovação foi reduzido a um terço do valor total do orçamento de 8 anos atrás. Ele conta que, a SBPC, a Academia Brasileira de Ciências, reunindo outras 142 entidades científicas afiliadas à SBPC, têm feito esforços através de várias manifestações contra o governo e pressão no Congresso Nacional. Porém, afirma Ildeu, "a reversão foi muito pequena".

"Todos os países desenvolvidos do mundo, inclusive países que tiveram alguma dificuldade financeira em momentos de crise apostam na ciência como uma possibilidade de reversão do quadro", aponta o presidente da SBPC, e acrescenta dizendo que "a Ciência é um instrumento, hoje, fundamental para uma sociedade. E a gente está vivendo esse momento de desmonte muito sério".

Ele ainda lamenta lembrando que medidas do atual governo federal apontam um futuro de continuidade do quadro e de permanência dos baixos investimentos, o que ele considera um risco ao desenvolvimento do país. O quadro de aridez do fomento ao setor começa a afetar jovens pesquisadores, afastando promessas da ciência no país, o que preocupa Ildeu.

"E nós temos a Emenda Constitucional 95, que congela esses valores para ciência, tecnologia e outras áreas no valor mais baixo que nós tivemos em uma década e meia. Então isso significa uma questão catastrófica para o futuro brasileiro. Compromete claramente a qualidade de vida e a própria soberania do país", conclui.

A Emenda Constitucional 95 foi aprovada em dezembro de 2016 e introduz um novo regime fiscal para o Brasil, congelando investimentos públicos por um prazo e 20 anos.

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) realizou atividade no domingo (8), no Rio de Janeiro, em que apresentou protesto contra o quadro, chamando atenção para a importância desse tipo de investimento.

A data também celebrou o dia Nacional da Ciência, o Dia Nacional do Pesquisador. Outras manifestações foram realizadas em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife.

Cortes na ciência ameaçam tecnologia e economia do Brasil, diz presidente da SBPC

O Brasil sofrerá ainda mais com a fuga de cérebros e os atuais cortes na área de ciência e tecnologia agravarão a recessão econômica. Esta é a avaliação de Ildeu de Castro Moreira, presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

"A evasão de cérebros já está acontecendo embora ainda numa escala que não é muito grande, mas ela já começa a acontecer e nos preocupa fortemente porque, com os cortes continuados de recursos para a ciência e a tecnologia, como aconteceram nesse ano, a situação se agrava. Nós temos no Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações um quarto das verbas que tínhamos em 2010", afirmou Moreira em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil.

O professor da UFRJ ainda afirmou que os cortes nos recursos estão ameaçando o trabalho dos cientistas brasileiros e que podem causar evasão destes para outros países. O cenário é de preocupação já que não há dinheiro para a manutenção de laboratórios, disponibilidade de bolsas de pesquisa e condições de trabalho adequadas, segundo Moreira.

O presidente da SBPC avalia que o investimento na ciência pode ser um caminho para superar a crise econômica.

"Os países desenvolvidos do mundo inteiro estão apostando mais na Ciência e na Tecnologia, estão investindo mais enquanto o Brasil dedica 1% do seu PIB [Produto Interno Bruto] para essa área. Outros países como Alemanha e Estados Unidos investem 3% do seu PIB, outros países da Europa também investem 3% do PIB, Japão e Coreia do Sul investem 4% do PIB. É um absoluto contra-senso. Diante de uma crise econômica e fiscal como a que estamos vivendo, a saída é apostar mais na Ciência e na Tecnologia como uma possibilidade de recuperação."

Brasil é 64º país mais inovador do planeta

O Brasil ocupou o 64º lugar no ranking mundial de inovação. O país ganhou cinco posições em relação ao ano anterior, quando ficou em 69º na listagem mundial. O índice é calculado pela Organização Mundial de Propriedade Intelectual e tem como parceiro local a Confederação Nacional da Indústria (CNI).

A liderança do ranking ficou com a Suíça. O país foi seguido por Holanda, Suécia, Reino Unido, Cingapura, Estados Unidos, Finlândia, Dinamarca, Alemanha e Irlanda. Entre os países de renda média-alta, o destaque foi da China, seguida por Malásia, Bulgária, Croácia e Tailândia. Entre os de renda média-baixa, os mais bem posicionados foram Ucrânia, Vietnã e Moldávia. Já nos países de renda baixa, alcançaram melhor desempenho Tanzânia, Ruanda e Senegal.

O Brasil foi classificado na categoria das nações de renda média-alta, ocupando a 15ª posição neste grupo. Dentro da região latino-americana, o país ficou na 6ª colocação.

Insumos e condições institucionais

O Brasil subiu no ranking quando considerados os chamados insumos de inovação, ficando na 58ª posição. Neste indicador, são levados em consideração itens como instituições, capital humano, pesquisa, infraestrutura e sofisticação de mercado e negócio. No ano anterior, havia ficado em 60º lugar.

Os melhores índices registrados no país foram nos quesitos de gastos em educação (23º colocado) , investimento em Pesquisa e Desenvolvimento (27º), dispêndio de empresas em P&D (22º) e qualidade das universidades (27º). Os autores também destacaram a capacidade de absorção de conhecimento (31º), pagamentos em propriedade intelectual (10º), importações de alta tecnologia (23º) e escala de mercado (8º).

Já os pontos fracos foram apontados pelo relatório nas instituições (82º), ambiente de negócios (110º), facilidade de abertura de negócios (123º), graduados em engenharias e ciências (79º), crédito (104º) e a formação de capital bruto (104º).

Produtos e inovação

Já nos produtos da inovação, o Brasil foi para o 70º lugar. Nessa categoria são considerados produtos científicos e tecnológicos e indicadores relacionados a eles, como patentes e publicações em revistas e periódicos acadêmicos. O índice subiu em relação ao ano anterior, quando ficou na 80ª colocação.

No índice de eficiência de inovação, o Brasil pulou para a 85ª posição. Esse indicador mede o quanto um país consegue produzir tecnologia frente aos insumos, condições institucionais e estrutura de capital humano e pesquisa. Neste quesito foi registrada a maior diferente na comparação com 2017, quando a posição conquistada foi a de número 100.

 

 

Fonte: SputinikBrasil/Tribuna/Municipios Baianos

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