11/07/2018

No confuso ano eleitoral, partidos apostam no escuro

 

"Já não há razões para acreditar que terei justiça”, desabafou Lula, preso há quase três meses, em carta lida pela presidente do PT, Gleisi Hoffmann, na terça-feira 3. Na inconformada mensagem, o ex-presidente contesta a decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, de retirar da Segunda Turma e remeter para o plenário um recurso extraordinário apresentado pela defesa.

Dessa forma, o pedido para aguardar em liberdade a análise das apelações nas instâncias superiores só deve ser analisado em agosto, após o recesso da Corte. “Com mais esta manobra, foi subtraída, outra vez, a competência natural do órgão a que cabia o julgamento do meu caso”, protestou Lula. “Desafio os meus acusadores a apresentar prova até 15 de agosto deste ano, quando a minha candidatura será registrada na Justiça Eleitoral.”

Mesmo diante da apreensão causada pelo calendário eleitoral, a Executiva Nacional do PT reafirmou a candidatura do ex-presidente e desautorizou qualquer especulação sobre um “plano B”. O partido quer que o Judiciário assuma o ônus de retirar da disputa o candidato favorito nas pesquisas de opinião, líder inconteste em todos os cenários de primeiro e segundo turno.

Somente após a efetiva interdição judicial, a legenda estaria disposta a analisar outros cenários. Na bolsa de apostas, os nomes do ex-governador Jaques Wagner e do ex-chanceler Celso Amorim seguem cotados, mas avolumam-se os sinais de que o verdadeiro escolhido para suceder Lula na disputa é Fernando Haddad.

Recentemente, o ex-prefeito de São Paulo ingressou na maior corrente petista, a Construindo um Novo Brasil (CNB), da qual o ex-presidente faz parte. De perfil independente, Haddad transitava com mais desenvoltura pela tendência Mensagem ao Partido, de leve oposição ao comando petista. O movimento foi visto como uma forma de reduzir as resistências ao seu nome dentro do PT.

Não é tudo. Como antecipou o site de CartaCapital na sexta-feira 29, Haddad passará a integrar o time de advogados da defesa de Lula, o que lhe permitirá conversar com o ex-presidente diariamente, e não apenas no dia reservado às visitas.

Formado há mais de 30 anos pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, da USP, ele não construiu carreira na área jurídica. Após concluir um mestrado em Economia, dedicou-se à vida acadêmica, da qual só se afastou para assumir o Ministério da Educação no governo Lula. Com o apoio do ex-presidente, elegeu-se prefeito da capital paulista em 2012.

Quatro anos depois, não conseguiu repetir o feito. Acabou derrotado em primeiro turno pelo tucano João Doria, estreante na política. Inexplicavelmente, o fracasso não minou a confiança de amplos setores petistas, e de Lula em particular. Oficialmente, o partido nega que Haddad seja o “plano B”. A sua inclusão na lista de advogados de defesa é justificada pela formulação do Plano de Governo, do qual é responsável.

Em meio à indefinição sobre o futuro de Lula, o PT enfrenta dificuldade para ampliar o leque de alianças nas eleições. Após desistir de lançar candidatura própria, o PSB iniciou um flerte com os petistas, mas a atual tendência dos pessebistas é apoiar Ciro Gomes, do PDT.

Além disso, Manuela D’Ávila, do PCdoB, e Guilherme Boulos, do PSOL, parecem pouco dispostos a abdicar de suas candidaturas diante da falta de consenso sobre o nome que poderia unir os partidos do campo progressista. O único capaz, lamentam diversas lideranças, está preso em Curitiba.

De acordo com interlocutores do PSB, há grande rejeição dentro do partido aos petistas. Nos estados do Sudeste, nomes como Márcio França, histórico aliado dos tucanos em São Paulo, interditam o debate sobre uma possível aliança.

O PSB, convém lembrar, apoiou Aécio Neves no segundo turno das eleições de 2014 e a bancada da legenda na Câmara chancelou o impeachment de Dilma Rousseff em 2016, embora os pessebistas depois tenham engrossado as fileiras da oposição ao governo de Michel Temer.

A indefinição do cenário em Pernambuco também trava o avanço das negociações. O estado poderia ser o palco de uma aproximação, uma vez que Lula visitou, em fevereiro, o governador Paulo Câmara, do PSB, e Renata Campos, viúva de Eduardo Campos.

Os pessebistas pernambucanos não escondem o desejo de uma aliança local e nacional com o PT. O projeto de reeleição esbarra, porém, na inesperada força de Marília Arraes, neta de Miguel Arraes, que desponta nas pesquisas como forte candidata ao Palácio do Campo das Princesas, capaz de desbancar no segundo turno tanto Câmara quanto Armando Monteiro, do PTB.

Vereadora no Recife, a petista não abre mão de disputar o governo. “O plano A é registrar a candidatura e o plano B é vencer a eleição”, costuma repetir Marília. Ironia do destino, Miguel Arraes é a principal referência política do PSB de Pernambuco, e chegou a emprestar o nome para a sede do diretório estadual. Agora, a neta do lendário líder ameaça impor uma derrota ao partido. No mínimo, dividirá os votos da esquerda.

Até o início de maio, o PSB trabalhava com a ideia de construir candidatura própria. Com a desistência de Joaquim Barbosa, ex-ministro do STF e relator do processo do “mensalão”, o partido iniciou as negociações com outras siglas.

No momento, a direção nacional está fortemente inclinada a abraçar o projeto de Ciro Gomes. Discute-se, inclusive, a possibilidade de o PSB indicar Márcio Lacerda, ex-prefeito de Belo Horizonte, como vice do presidenciável do PDT, o que o deixaria “honrado”, segundo as palavras do próprio político mineiro.

Lacerda foi coordenador da campanha de Ciro em 2002, quando o ex-ministro de Itamar Franco disputou a Presidência da República pelo PPS. Desde então, estreitaram laços de amizade. Se confirmada a indicação do pessebista como vice de Ciro, Fernando Pimentel, que disputa a reeleição para o governo de Minas Gerais, seria indiretamente beneficiado.

O petista deseja uma polarização absoluta entre ele e o tucano Antonio Anastasia, uma espécie de eleição plebiscitária. Com Lacerda fora do páreo, haveria menos dispersão de votos.

Em Minas, por sinal, há uma clara tendência de nacionalização da disputa estadual. Pimentel vai lançar Dilma para a primeira vaga no Senado. A chapa governista ainda não definiu quem apoiará para a segunda cadeira.

Por ora, os nomes mais fortes são os de Jô Moraes, deputada federal pelo PCdoB, e do empresário Josué Alencar, filho de José de Alencar e presidente da Coteminas, que estava no MDB e se filiou em abril ao PR. A presença da ex-presidenta, líder nas pesquisas de intenção de voto para o Senado, deve acentuar o debate entre os apoiadores e os que resistiram ao golpe no segundo maior colégio eleitoral do País.

Além da aproximação com o PSB, Ciro esboçou uma ousada manobra de realpolitik. Na desesperada busca por alianças para ampliar o tempo de exposição no horário eleitoral gratuito, passou a cortejar lideranças do DEM, histórico aliado do PSDB e um dos principais refúgios dos ruralistas.

Recentemente, prometeu até pedir desculpas por eventuais ofensas desferidas contra demistas, caso do vereador paulistano Fernando Holiday, a quem chamou de “capitãozinho do mato”, e do deputado Pauderney Avelino, que o processa por injúria após ser apontado como “corretor de FHC” na compra de votos para a emenda da reeleição. “Falei ao ACM Neto: faça uma lista de quem você acha que eu preciso ligar, que eu ligo, sem problemas”, afirmou Ciro no fim de junho.

Roberto Mangabeira Unger, amigo e um dos principais conselheiros do presidenciável do PDT, também fez uma inusitada defesa da aliança. “Não vejo o Democratas como direita ou centro-direita. Eles são o partido dos empreendedores regionais. Têm raízes nessa estrutura produtiva descentralizada do País”, disse ao Estado de S. Paulo. Estaria o professor de Harvard interessado em uma nova carreira no Stand Up Comedy?

Seja como for, o movimento surtiu algum efeito. A maioria da bancada do DEM na Câmara dos Deputados segue na defesa de uma aliança com Geraldo Alckmin, do PSDB. Outra ala do partido, capitaneada por lideranças regionais, tem opinião divergente. Prefere Ciro Gomes, pois duvida da capacidade do presidenciável tucano de decolar na disputa eleitoral.

Nos palanques do Nordeste, em particular, Alckmin é visto mais como um peso morto do que como puxador de votos. Segundo uma pesquisa interna encomendada pelo DEM, Alckmin teria uma rejeição superior a 60% do eleitorado, algo que os analistas consideram muito difícil de superar. A esta altura, ninguém mais esconde o fato de que a candidatura do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, era apenas um balão de ensaio, uma jogada para valorizar o passe do partido.

Estagnado com 6% das intenções de voto, segundo as últimas sondagens eleitorais do Ibope e do Datafolha, o tucano tenta convencer os potenciais aliados de que sua candidatura é viável. Na quarta-feira 4, Alckmin reuniu-se em Brasília com lideranças do “Centrão”, bloco formado por DEM, PP, PRB e Solidariedade. Anfitrião do jantar com o candidato tucano, o pastor Marcos Pereira, presidente nacional do PRB, admitiu que o grupo estava dividido.

“Tudo é possível. Como já se noticiou, o PP e o Solidariedade têm preferência por Ciro. O DEM, percebo que está dividido. Na minha bancada, vou consultar a turma para ver”, afirmou o ex-ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, às vésperas do convescote. “Nós expusemos todas as nossas preocupações, sem vetos nem embargos”, resumiu ACM Neto, presidente do DEM e prefeito de Salvador, ao término do encontro.

As reticentes observações de líderes do Centrão contrastam com as declarações exultantes do presidenciável tucano no dia anterior, a contar vantagem do leque de alianças que supostamente teria construído. “Hoje, nenhum pré-candidato tem dois partidos. Ninguém.

Temos cinco, começamos com 20% do horário eleitoral”, disse Alckmin, após falar para estudantes da FGV, em São Paulo. Questionado sobre quem seriam os aliados, despistou: “No momento adequado vão se manifestar”.

Na segunda-feira 2, o coordenador da campanha de Alckmin, Marconi Perillo, havia enfiado os pés pelas mãos ao defender uma aliança com o MDB e sugerir que o ex-ministro Henrique Meirelles aceitasse ser vice na chapa tucana.

“O momento, agora, é de um líder democrático como Alckmin, mais as lideranças políticas e um expressivo representante de mercado com vivência e experiência política, como é Henrique Meirelles”, afirmou o ex-governador de Goiás, em evento realizado pela consultoria XP Investimentos.

Ao responder à provocação, Meirelles, hoje com 1% das intenções de voto, demonstrou ter uma superlativa e inquebrantável autoestima. “Teremos grande satisfação em receber o apoio do PSDB no segundo turno”, retrucou o auxiliar de Temer.

Embora figure na liderança das intenções de voto quando o nome de Lula é excluído dos questionários, Jair Bolsonaro pena para costurar uma aliança com o PR de Valdemar Costa Neto, condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no “mensalão”. Com a união, o candidato do inexpressivo PSL não ficaria restrito à campanha pelas redes sociais, como se imaginava.

Hoje com 9 segundos de exposição na tevê e nenhum palanque estadual, passaria a ter direito a 45 segundos no horário eleitoral gratuito, além de aproveitar a estrutura de um partido com mais de 40 deputados.

De quebra, poderia atrair outras siglas que relutam em abraçar a candidatura de Alckmin. Magno Malta, um dos principais expoentes do PR e da bancada evangélica no Congresso, tem sido cortejado para assumir o posto de vice na chapa de Bolsonaro.

Para tanto, o parlamentar teria de abdicar da campanha de reeleição ao Senado para a incerta aventura com o capitão da reserva do Exército. Enquanto Malta avalia o dote oferecido para o noivado, Bolsonaro já trabalha com um plano B.

Diante da eventual recusa do PR, manifestou a intenção de convidar o general Augusto Heleno, primeiro comandante das tropas brasileiras no Haiti, para assumir o posto de vice. Na quarta-feira 4, não escondeu o desejo de militarizar o governo: “Vou botar alguns generais nos ministérios, caso eu chegue lá. Qual o problema? Os outros colocaram terroristas e corruptos e ninguém falava nada!”

Nos últimos dias, o presidenciável propôs, ainda, a fusão dos ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente, a ampliação do número de juízes do STF de 11 para 21 e até mesmo a criação de um campo de refugiados para os venezuelanos. Com tantas ideias, digamos, exóticas, não causa surpresa o fato de até mesmo as legendas mais fisiológicas relutarem em apoiar o candidato com 17% das intenções de voto.

Steinbruch é o vice preferido de Ciro. Por Helena Chagas

O nome preferido de Ciro Gomes para ser seu vice é o do empresário Benjamin Steinbruch. Além de sacramentar uma aliança com o PP – um partido com boa bancada, apoios regionais e tempo razoável na TV -, Steinbruch cumpriria junto ao candidato do PDT papel semelhante ao de José Alencar na primeira eleição de Lula: traz o aval de parte do PIB a um hipotético governo Ciro.

Esse ponto é considerado fundamental pelos estrategistas da campanha do pedetista, já que Ciro é visto com desconfiança pelo mercado e por parte do empresariado -sentimento que ficou claro nas vaias que recebeu semana passada na CNI. Nada demais. Mas a partir dali a opção Steinbruch ficou fortalecida.

Ciro é amigo do presidente da CSN e trabalhou com ele na Transnordestina. É considerado um empresário de visão mais desenvolvimentista, com sensibilidade social e defensor da ação do Estado como indutor do desenvolvimento.

Não por acaso, em seu artigo quinzenal na Folha, nesta terça, Steinbruch disse que a austeridade fiscal, por si só, não leva automaticamente à expansão da economia. É tudo o que um candidato de centro-esquerda gostaria de ouvir de um empresário: “Há anos batemos nessa tecla de que a prioridade número um do país deve ser a promoção do crescimento com a criação de empregos. Espanta a frieza de autoridades publicas e formadores de opinião, que pouco se lixam com essa causa e simplesmente chamam de populistas aqueles que tentam sensibilizar a nação para a gravidade do problema”, escreve ele.

Apesar de Ciro e Steinbruch estarem prontos para o casamento, ele ainda dele de dos acertos finais do PDT com o PP e, sobretudo, com o PSB. Para ter o apoio emblemático dos socialistas, bem mais vistoso do que o dos pepistas, é possível que Cirotenha que lhes oferecer a vice. O nome citado tem sido o do ex-prefeito de Belo Horizonte Marcio Lacerda, hoje pré-candidato ao governo de Minas. Ele também é bastante próximo de Ciro, com quem já trabalhou em Brasília.

Até por isso, dizem os defensores da escolha de Steinbruch, não seria difícil um acordo com o PSB sem necessariamente dar a vice ao partido. Lacerda, em qualuer circunstância, seria nome certo no Ministério de num hipotético governo Ciro Gomes. Há, porém, outros nomes no bolso do PSB, e se essa condição – a vice – for colocada na mesa, não há, por parte do PDT, como recusar.

Os corruptos e criminosos estão bem protegidos no colinho da deusa Têmis. Por Percival Puggina

Cada vez que, em viagem, passo pelo guichê da PF, saúdo o agente que ali está com a exclamação: “Polícia Federal, orgulho nacional!”. Digo o que penso para expressar reconhecimento e falo alto para ser ouvido. Recolho o sorriso do policial e manifestações de aprovação ao redor. É o mesmo conceito que tenho dos procuradores de justiça da operação Lava Jato, do juiz Sérgio Moro, do TRF4 (com a exceção que recentemente se expôs aos holofotes) e do STJ.

Já o STF… Ele é institucionalmente tão necessário que, durante anos, o levei a sério. Os indicados, afinal, atendiam às exigências de caráter e cultura jurídica. Eu respeitava aquele poder do Estado mesmo quando as ações penais contra inquilinos das penthouses do poder hibernavam, e veraneavam, e voltavam a hibernar entre ácaros e fungos nas suas empoeiradas prateleiras. Era um poder lento, muito lento, mas honorável. E assim foi até o advento do petismo, cujo legado acabou com a credibilidade e a dignidade do poder.

O QUE É PIOR

O Supremo de hoje, que breve será presidido por Dias Toffoli – imaginem só! – junta o que de pior é pensado pela “esquerda do Direito” com os produtos cada vez mais numerosos da magistratura militante, a escancarado serviço de suas causas ideológicas. Como regra, estão do lado do bandido e contra a sociedade.

Se não, vejamos. Em poucos meses, a Lava Jato desmontou o esquema de corrupção organizado em torno dos negócios da Petrobras. Os inequívocos crimes começaram a ser confessados, valores foram devolvidos, as quadrilhas se desfizeram em delações e foi o que se viu. A sociedade exultou. E o STF? Aparelhado pelo PT, num crescendo de manifestações individuais que evoluiu para decisões colegiadas, passou a inibir a eficiência da operação e a proteger os bandidos. Marco Aurélio Mello (o primo de Fernando Collor) foi o primeiro a denunciar os “julgamentos de cambulhada”.

DE CAMBULHADA

Depois vieram as restrições às algemas e às conduções coercitivas, os fatiamentos dos inquéritos, as críticas às colaborações premiadas, as tentativas de restaurar a impunidade eterna com o fim da prisão após condenação em segunda instância e, por fim, as inacreditáveis solturas de cambulhada.

Para assegurar a renovação dos mandatos dos quadrilheiros do Congresso Nacional, nada melhor do que impedir o financiamento privado das campanhas eleitorais. Assim, mediante decisão que atropelou o poder legislativo, o STF, em nome da “ética”, preparou o caminho por onde bilhões de reais, em recursos públicos, chegarão aos corruptos para usarem de modo privado, antagonizando os anseios nacionais por renovação nos parlamentos.

Temos um STF desafinado, a proteger a bandidagem endinheirada enquanto a sociedade se exaspera em vão, impotente, vendo esvair-se a possibilidade de higienizar a cena política do país. Os grandes bandidos brasileiros estão bem cuidados, aconchegados e acarinhados no colo da deusa Têmis. E nós?

 

Fonte: CartaCapital/Tribuna da Internet/Municipios Baianos

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