12/07/2018

EUA redobram pressão sobre a China com novas tarifas

 

A batalha comercial entre os Estados Unidos e a China entrou numa zona de cifras graúdas, que vão além da gesticulação —por si só perigosa para a confiança dos investidores— e começam a apontar para uma guerra comercial em grande escala. Donald Trump ordenou nesta terça-feira ao Escritório do Representante de Comércio Exterior dos EUA que ative o processo para fixar novas tarifas de 10% sobre mais de 6.000 produtos chineses, cujo valor de importação ronda os 200 bilhões de dólares (763,3 bilhões de reais) por ano. É a resposta à represália de Pequim da sexta-feira passada, ao adotar novas alíquotas para produtos norte-americanos num valor de 34 bilhões de dólares, horas depois de Washington fazer o mesmo.

A escalada tarifária entre as duas maiores potências econômicas do mundo vem seguindo a mesma sequência desta semana. A Administração Trump ameaça com tarifas, e o regime chinês faz o mesmo, com as idênticas tarifas e o mesmo volume econômico afetado. Depois de negociações infrutíferas, os EUA ativam as tarifas e ameaçam impor outras se a China responder. E a China responde, então os EUA lançam uma nova rodada de tarifas alfandegárias. Assim ad infinitum, ou melhor, até superar os 500 bilhões de dólares, que é a quantidade total de exportações que serão afetadas pelas taxas se todas as ameaças sobre a mesa forem cumpridas. A cifra é vertiginosa: o intercâmbio de produtos entre ambos os países beirou os 600 bilhões de dólares em 2016 (com 115,6 bilhões exportados para a China, e 347 bilhões para os EUA).

Pequim considera que a nova lista é “totalmente inaceitável” e prometeu responder “com as contramedidas necessárias” se estas tarifas afinal entrarem em vigor. “Com esta atitude, os Estados Unidos ferem a China, o mundo e a si mesmos”, disse o Ministério de Comércio em um comunicado, informa Xavier Fontdeglòria. Será impossível para o país asiático devolver um golpe da mesma intensidade, simplesmente porque suas importações procedentes dos EUA não alcançam os 200 bilhões de dólares. É provável, segundo especialistas, que Pequim abra a torneira das medidas não tarifárias: ao ter um controle considerável sobre a economia, as autoridades podem facilmente dificultar a atividade das empresas norte-americanas em território chinês, ou mesmo promover um boicote encoberto ao país, deixando de comprar seus produtos ou restringindo o turismo chinês nos EUA, por exemplo.

A lista adicional de bens aos quais o Escritório do Representante de Comércio Exterior dos EUA propõe aplicar a tarifa, divulgada na noite de terça-feira, ocupa 205 páginas e inclui uma grande variedade de produtos (do carvão ao tabaco, passando por produtos químicos e pneus). O embaixador Robert Lighthizer argumentou em nota que a reação de Pequim “não tem base legal nem justificativa”, e que a tarifa de 10% que ele propõe para os novos produtos é uma “resposta apropriada” a políticas industriais “nocivas” por parte da China. Washington mira desta vez nos produtos que se beneficiam da nova política industrial para 2025, o grande plano econômico de Pequim.

A lista será submetida a uma fase de consultas entre os dias 20 e 23 de agosto, e uma decisão deve ser tomada no dia 25. No caso da última rodada de tarifas, a que foi ativada na sexta-feira passada, a fase de consultas reduziu o impacto de 50 bilhões para 34 bilhões de dólares, enquanto os restantes 16 bilhões continuam em estudo. A aplicação das tarifas anunciadas nesta terça-feira deve demorar, e, enquanto isso, a Administração de Trump e o regime de Xi Jinping podem tratar de aproximar suas posições. Até agora, isso não foi possível: os EUA criticam o enorme déficit comercial com relação à China (na ordem de 400 bilhões de dólares) e acusam o regime de competir de forma desleal e de criar um marco regulatório de associação com investidores locais que favorece o roubo de propriedade intelectual dos investidores norte-americanos.

“Há muitos anos a China recorre a práticas abusivas que vão em detrimento da nossa economia, nossos trabalhadores e nossas empresas”, reitera Lighthizer em seu comunicado, qualificando a conduta chinesa de “ameaça existencial”. “Durante mais de um ano pedimos pacientemente à China que ponha fim a estas práticas injustas, que abra seus mercados e que se comprometa com uma concorrência real”, argumenta. “Fomos muito claros em relação às mudanças que eles deveriam fazer. Mas em vez de resolver uma preocupação legítima reprimiram nossos produtos.”

Senado dos EUA aprova lei que limita poder de Trump para tarifas

Após o governo de Donald Trump anunciar uma nova lista de produtos chineses que devem ser alvo de tarifas de 10%, o Senado dos Estados Unidos deu um passo nesta quarta-feira no sentido de afirmar seu poder sobre as barreiras comerciais. A votação foi vista como um indicador sobre se o Congresso controlado pelo Partido Republicano teria apetite para conter o presidente americano.

A medida, aprovada por 88 votos a 11, instrui os senadores a resolver divergências com a Câmara sobre um projeto de gastos. Além disso, ela inclui uma disposição que dá papel ao Congresso quando o poder Executivo decidir impor tarifas com base em preocupações de segurança nacional. A votação marcou a primeira vez que o Senado controlado pelo Partido Republicano entrou em vigor sobre as tarifas que atingiram fabricantes de aço e de alumínio na União Europeia, no Canadá e no México e potencialmente ameaçam também as montadoras de automóveis estrangeiras.

"Temos de conter o abuso da autoridade presidencial e restaurar a autoridade constitucional do Congresso nesse sentido", disse o senador republicano Jeff Flake (Arizona), um dos autores da medida.

A votação também expôs a turbulência entre os congressistas republicanos sobre a agenda comercial do governo Trump. Os defensores da medida, que também incluem o senador republicano Bob Corker (Tennessee), haviam anteriormente tentado introduzir na legislação obrigatória uma disposição que limitaria o poder de Trump de usar a legislação para aplicação de tarifas com base em preocupações de segurança nacional.

China se diz 'chocada' com novas tarifas dos EUA e promete resposta

Nesta quarta-feira (11), o porta-voz do Ministério do Comércio da China afirmou que Pequim tomará medidas retaliatórias impondo tarifas adicionais nos produtos dos EUA.

O ministro chinês revelou estar chocado com as ações comerciais dos EUA e declarou que o país responderá caso Washington imponha tarifas adicionais de US$ 200 bilhões (R$ 763 bilhões) nos produtos chineses.

"O lado chinês está chocado com as ações dos EUA. […] A fim de proteger os principais interesses do nosso país, bem como os interesses fundamentais do nosso povo, o governo, como sempre, tomará medidas necessárias", lê-se no comentário do ministro.

"As ações dos EUA prejudicam a China, o mundo inteiro, bem como eles mesmos, tal comportamento irracional não pode ter apoio e confiança", continuou.

Na terça-feira (10), a administração de Trump anunciou início do processo de imposição de tarifas aduaneiras de 10% sobre produtos chineses totalizando 200 bilhões de dólares (R$ 763 bilhões) a partir de setembro.

Na semana passada, entrou em vigor a primeira parte das tarifas de 25% que os EUA aplicaram sobre US$ 34 bilhões (R$ 130 bilhões) em produtos chineses. O governo chinês respondeu com medidas idênticas.

China lamenta anúncio sobre tarifa dos EUA, mas mostra cautela sobre retaliação

O anúncio dos Estados Unidos de que podem impor novas tarifas deixa a China em uma posição de retaliar de maneira que pode gerar dúvida sobre seu compromisso com as regras do comércio global. O governo do presidente americano, Donald Trump, anunciou que pode impor 10% em tarifas sobre mais US$ 200 bilhões em produtos chineses. Como Pequim não conseguiria impor o mesmo patamar de ação, revisa planos para contra-atacar de outro modo, afirmaram autoridades chinesas ligadas aos planos.

As medidas em discussão incluem segurar licenças para companhias dos EUA, retardar a aprovação de fusões e aquisições que envolvem empresas americanas e reforçar inspeções de produtos americanos nas fronteiras, disseram as fontes. Um comunicado do Ministério do Comércio chinês disse que o país estava "chocado" com a ação americana e que "não havia opção a não ser adotar contramedidas necessárias".

Em privado, porém, autoridades mostram mais cautela. Graduadas autoridades chinesas avaliam o quão longe podem pressionar com a retaliação sem prejudicar outros interesses nacionais, segundo as fontes. As medidas retaliatórias são o tipo de barreiras não tarifárias que os EUA e a Europa lamentam há tempos. Além disso, uma fonte lembrou que há desafios comuns com Washington, como a mudança climática, o terrorismo e outros problemas, e a disputa tarifária ameaça a economia local, que já desacelera.

A China estuda se as barreiras já adotadas afetam negócios americanos em seu território, disseram as fontes. Em particular, busca sinais de que companhias dos EUA podem deixar o país, o que seria um revés no esforço para atrair capital estrangeiro e manter empregos. Internacionalmente, a China busca aparecer como um parceiro comercial responsável.

"O governo chinês entende que uma guerra comercial em larga escala causa mais prejuízo econômico para a China e trabalha duro para evitar isso", afirmou Wang Tao, economista-chefe para China do UBS Group. Tanto Washington como Pequim deixam a porta aberta para o diálogo para resolver a disputa, embora não existam negociações em andamento neste momento.

 

Fonte: El País/Sputinik News/Dow Jones Newswires//Municipios Baianos

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