13/07/2018

A cúpula da Otan no universo paralelo de Donald Trump

 

É simplesmente necessário recapitular mais uma vez o modo como Donald Trump se comportou nesta cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). No café da manhã, ele atacou a Alemanha sem o menor pudor, declarou-a prisioneira da Rússia devido a suas importações de energia, utilizando como prova, como de costume, cifras falsas.

Na sessão plenária, de súbito exigiu que os Estados-membros dediquem 4% dos respectivos PIBs ao orçamento de defesa, em vez dos 2% acordados. Pouco depois, num encontro bilateral com a chefe de governo alemã, Angela Merkel, falou de carros alemães, migração e do presidente russo, Vladimir Putin, descrevendo a relação com ele como excelente. Uma hora mais tarde, a caminho do jantar, acabara-se o armistício, e ele voltou a atacar os parceiros de aliança no Twitter. Os critérios do comportamento político normal não servem mais, nem de longe, para explicar as mensagens totalmente contraditórias que o presidente dos Estados Unidos emite num só dia.

Trump borboleteia pelo mais importante encontro da aliança ocidental como se quisesse alternadamente representar no teatro o papel do vilão e do herói. Primeiro ele ofende a Alemanha, depois, apenas horas mais tarde, transmite saudações de sua família à chanceler federal do país. Diante de tais cenas, é difícil não recorrer à terminologia psiquiátrica.

Pois a coisa não parou por aí. Após o fim das conversas oficiais, ele lançou o próximo tuíte, renovando a acusação relativa às importações de energia russa pela Alemanha, associando-a à Otan – exatamente do mesmo modo como associa a proteção da Europa pelos EUA a supostos prejuízos comerciais bilionários. E por último exigiu que os 2% em gastos com armamentos sejam pagos imediatamente, e não só em 2024, como planejado.

A impressão que fica é que Trump não entende que as contribuições para a Otan não são como mensalidades da academia de ginástica. Não existe uma caixa comum, cada país paga pela própria defesa e, caso necessário, disponibiliza à aliança suas capacidades militares.

No entanto ele vive em seu universo paralelo, e se comporta antes como um mafioso que vai de porta em porta exigindo dinheiro de proteção e ameaçando dar uma surra nos renitentes.

Além de seus caprichos, da tão deplorada imprevisibilidade e do comportamento errático francamente traiçoeiro perante seus aliados, fica também óbvio que, para o presidente americano, segurança militar é uma mercadoria, que tem um valor de mercado e é venal.

Ao que tudo indica, ele gostaria de ser pago pelo fato de os EUA estacionarem tropas na Europa e empregarem suas armas na proteção da fronteira oriental da Otan. Nesse contexto, porém, o termo "aliado" já está errado, pois o conceito é aparentemente estranho a Trump.

Ele só conhece parceiros de negócios e o dinheiro nos próprios cofres, vendo-se numa luta global dos fortes, na qual tanto faz se os mais fracos forem pisoteados. Não é á toa que no momento a segurança dos países bálticos ou da Noruega está profundamente abalada pelas declarações do chefe da Casa Branca. Por enquanto, essa cúpula da Otan ficou poupada de uma situação extrema, pois ele se absteve de questionar a aliança diretamente ou de rasgar a declaração conjunta já na saída. Não se concretizaram os temores apocalípticos de que Trump fosse simplesmente declarar ali o fim da Otan, mas não há a menor razão para se acalmar, pois amanhã tudo já pode ser diferente.

A montanha-russa política de Donald Trump deixa marcas profundas na Otan, uma vez que agora se começa a compreender o que ele realmente pensa da aliança ocidental. Tradições ou a história comum não têm o menor valor para ele. O presidente dos EUA é capaz, a qualquer momento, de retirar os compromissos assumidos na véspera, com o próximo tuíte, de ofender aliados ou de chantageá-los com medidas econômicas punitivas, como ameaça fazer com as exportações de automóveis da Alemanha.

Apesar de tudo, esse alucinado ziguezague obedece a uma lógica. Trump mostrou uma vez mais em Bruxelas que, de fato, se empenha de todos os modos para destruir o sistema de acordos e organizações internacionais. No momento ainda lhe parece cedo demais para voltar as costas à Otan. Talvez o fim dela esteja sendo apenas adiado, já que, quer se trate da Organização do Comércio Mundial ou das Nações Unidas, o presidente pretende substituí-las por acordos bilaterais em que ele seja o mais forte. O que sobra, ao fim, é o horror em relação ao curso do governo dos Estados Unidos, e uma profunda insegurança para todos que até agora se consideravam seus parceiros de aliança.

Trump põe Otan contra a parede

A pressão do presidente americano, Donald Trump, para que seus parceiros europeus elevem sua contribuição financeira à Otan levou nesta quinta-feira (12/07) a uma rara interrupção da agenda da Aliança Atlântica, que realiza cúpula em Bruxelas. O secretário-geral da Otan, Jeans Stoltenberg, se viu forçado a convocar uma reunião de emergência, em meio às repetidas acusações de Trump, que chegara a chamar os aliados europeus de delinquentes na véspera. A reunião extraordinária expôs novamente o momento delicado nas relações transatlânticas, após um primeiro dia de cúpula em que os países chegaram a assinar uma declaração conjunta. O assunto gastos parecia ter ficado para trás, com o comprometimento dos países-membros de avançar rumo a um consenso.

Mas na reunião desta quinta, Trump mostrou que ainda não estava satisfeito: interrompeu a chanceler federal alemã, Angela Merkel, e o presidente francês, Emmanuel Macron, quando eles já avançavam sobre a agenda do dia, sobre Ucrânia e Geórgia. Um cenário descrito como caótico por diplomatas. O presidente americano voltou a pressionar os europeus a elevarem seus gastos para 4% do PIB nacional, o dobro do que os países prometeram atingir até 2024, 2%. E isso forçou Stoltenberg a pedir que os líderes de Ucrânia e Geórgia se retirassem da sala, para que se pudesse discutir sobre orçamento.

Durante toda a cúpula em Bruxelas, Trump adotou um tom agressivo, questionando os valores de uma aliança que definiu décadas de política externa americana, fazendo acusações à Alemanha sobre suas relações com a Rússia e defendendo, de forma surpreendente, um aumento ainda maior nos gastos de defesa dos europeus.

Foi só ao final, nesta quinta-feira, que ele adotou um tom mais conciliatório. Os países aliados, disse, "reforçaram seu compromisso" com a despesa em Defesa "como nunca tinham feito antes". "A Otan é agora uma máquina bem afinada", assegurou Trump durante entrevista coletiva convocada de urgência. Ele disse ainda que seu comprometimento com a aliança segue "muito forte", apesar dos rumores de que teria ameaçado abandoná-la.

Trump, que um dia declarou a Otan "obsoleta", disse nesta quinta: "Eu acredito na Otan. Eu estava extremamente descontente com o que estava acontecendo, e eles aumentaram substancialmente seu comprometimento."

Merkel, por sua vez, disse ter havido um comprometimento de todas as partes na reunião de emergência. Mas também não deu detalhes sobre quando de fato um aumento de gastos poderá ocorrer. Segundo ela, Trump, na verdade, trouxe de volta à pauta um assunto que já estava sendo discutido há meses. Segundo Stoltenberg, após o fim da Guerra Fria, os países foram reduzindo seus gastos com defesa à medida que as tensões se aliviavam – agora, é necessário aumentá-los, já que as tensões voltaram a crescer, defendeu. Os gastos dos Estados Unidos com defesa foram de 3,6% do PIB nacional em 2017. A Alemanha, por outro lado, gastou apenas 1,24% e, para 2024, promete não mais que 1,5% – mas considera que assim já está se aproximando do objetivo de 2% acordado pelos aliados. Segundo a Otan, apenas oito países devem cumprir a meta dos 2% neste ano: além dos Estados Unidos, Grécia, Reino Unido, Polônia, Romênia, Lituânia, Letônia e Estônia.

Alemanha, um dos alvos preferidos de Trump

A Alemanha é um dos alvos favoritos de Donald Trump. E, durante a cúpula da Otan, que terminou nesta quinta-feira (12/07) em Bruxelas, não foi diferente. O presidente americano acusou os alemães de serem reféns do gás russo e, em tom agressivo, cobrou do país maior apoio à Aliança Atlântica.

As críticas de Trump começaram logo após o início do encontro, ainda pela manhã: "A Alemanha, pelo que me consta, é refém da Rússia porque obtém grande parte de sua energia da Rússia", disse o presidente americano logo após a abertura da cúpula. "Nós deveríamos estar nos protegendo contra a Rússia, e a Alemanha vai e paga bilhões e bilhões de dólares por ano à Rússia", disse Trump antes da cúpula, sobre o apoio alemão a um novo gasoduto de 11 bilhões de dólares no Mar Báltico. "Se você prestar atenção, a Alemanha é uma refém da Rússia. Eles se livraram de suas usinas de carvão, se livraram de seu programa nuclear, e estão recebendo boa parte do seu petróleo e gás da Rússia."

Esta não foi, no entanto, a primeira vez que Trump se voltou contra o país europeu. Já durante sua campanha eleitoral, o então candidato republicano fez duras críticas à política de refugiados na Alemanha, chegando a afirmar, em dezembro de 2015, que a chanceler federal alemã, Angela Merkel, estava "arruinando" o país.

Desde que assumiu o cargo, ele parece ter elevado ainda mais o tom.

Janeiro de 2017: Trump criticou a política de Merkel de abrir as fronteiras para os refugiados, especialmente numa ampla entrevista publicada em conjunto pelo jornal alemão Bild e pelo britânico The Times. "Acho que ela cometeu um erro muito catastrófico e que estava aceitando todos esses ilegais, você sabe, recebendo todas essas pessoas de onde quer que elas venham", disse Trump. "E ninguém sabe de onde vêm. Então, eu acho que ela cometeu um erro catastrófico, um erro terrível."

Maio de 2017: O presidente americano afirmou que os alemães são "muito maus", acusando Berlim de adotar políticas de comércio exterior injustas e renovando ameaças de aumento de tarifas. "Os alemães são maus, muito maus", teria dito o presidente, segundo reportagem da revista alemã Der Spiegel. "Vejam os milhões de carros que eles vendem nos Estados Unidos. Terrível! Nós vamos parar com isso", afirmou Trump, segundo fontes citadas pelo site do semanário.

Junho de 2018: Por meio do Twitter, o presidente americano contestou as estatísticas oficiais do governo alemão referentes aos índices de criminalidade e afirmou que o crime cresceu no país devido à chegada de refugiados. "O crime na Alemanha subiu 10% (as autoridades de lá não querem relatar esses crimes) desde que os migrantes foram aceitos. Outros países estão, inclusive, pior. Sejam espertos, Estados Unidos", escreveu. Ele disse ainda que os refugiados "mudaram de forma forte e violenta" a cultura europeia e que o continente cometeu um "grande erro" ao dar abrigo aos que fogem dos conflitos no Oriente Médio e na África. Sem citar a chanceler, ele culpou sobretudo a "liderança alemã". "O povo da Alemanha está se voltando contra sua liderança enquanto a migração está abalando a já tênue coalizão de Berlim". Ao contrário do que Trump afirmou, porém, as estatísticas oficiais alemãs revelaram os menores índices de criminalidade em mais de 25 anos.

Julho de 2018: Em uma série de tuítes de Bruxelas, Tump também criticou o que aponta como uma baixa participação da Alemanha na aliança militar. Ele alegou que os Estados Unidos "pagam dezenas de bilhões de dólares em excesso para subsidiar a Europa" e exigiu que os países-membros cumpram a promessa de gastar 2% do PIB e que, no futuro, a elevem a 4%.

Encontro entre Putin e Trump deve ser a maior preocupação do mundo ocidental?

Em 16 de julho, a capital finlandesa sediará uma longamente esperada reunião bilateral entre os líderes russo e estadunidense, que decorrerá em meio à tensão contínua entre o país eslavo e as potências ocidentais. A Sputnik explica por que Trump enfrenta tanta crítica em relação a isso e que temas serão abordados no encontro. Esta não será a primeira vez em que os dois políticos vão falar face a face — já aconteceu duas vezes no ano passado. Porém, não se tratou de negociações verdadeiras, mas meramente de conversas rápidas nas margens de eventos internacionais de que os dois líderes estavam participando, o que se costuma chamar na diplomacia de "conversas em pé".

Encontros anteriores

O primeiro encontro aconteceu quase um ano após a eleição de Donald Trump nas presidenciais estadunidenses de 2016. Foi uma reunião muito esperada, especialmente no contexto das então decorrentes investigações norte-americanas em relação aos "laços russos" do mandatário republicano e seus elogios feitos a Putin no decorrer da campanha eleitoral. A reunião aconteceu um pouco mais de um ano atrás, em 7 de julho, durante a cúpula do G20, ou seja, das vinte maiores economias do mundo, na cidade de Hamburgo. A primeira negociação entre os dois "líderes pragmáticos", que se prolongou por mais de duas horas em vez da meia hora agendada, provocou sensação na mídia, tendo as fotos dos políticos dando seu primeiro aperto de mão circulado por todo o mundo.

Mesmo tomando em conta que os dois presidentes estavam bem ocupados com suas agendas lotadas, eles conseguiram fazer um avanço significativo no diálogo, que havia estado paralisado por muito tempo até aquele momento, inclusive a respeito do regime de cessar-fogo em várias regiões da Síria. Desse jeito, muitos especialistas e jornalistas, inclusive aqueles que estavam presentes no evento, concluíram que Trump e Putin conseguiram encontrar uma "linguagem comum" muito rápido.

A segunda reunião aconteceu alguns meses depois, durante a sessão de fotos na cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico, em 11 de novembro, porém, mal pode ser caracterizada como um verdadeiro encontro bilateral. De fato, os líderes apenas trocaram algumas frases e acabaram partindo sem falar cara a cara, o que, a propósito, tinha sido esperado e repercutido na mídia nas vésperas da cúpula. Desta vez, os políticos vão se juntar para uma cúpula de larga envergadura, que muitos comparam com a que houve entre Kim e Trump em 12 de junho, além de traçar paralelos históricos com as negociações entre o então líder da URSS, Mikhail Gorbachev, e seu homólogo estadunidense, Ronald Reagan, em 1986. E há pelos menos duas semelhanças evidentes: o ambiente, parecido com o da Guerra Fria que se travava na época, e o local, sendo este a cidade de Helsinque, capital de um país tradicionalmente considerado como neutro.

Indignação do establishment estadunidense

Enquanto a elite política russa prefere se expressar de modo bem cauteloso sobre o próximo evento, avisando que este não servirá para "ultimatos", mas para um diálogo em pé de igualdade, a maioria da classe política estadunidense, até da própria administração, manifesta toda a gama negativa de emoções, desde pânico evidente até acusações duras contra seu presidente. É verdade que para Trump o melhoramento das relações com Moscou tem sido uma das questões mais dolorosas na política externa, não por mera ausência de desejo, mas, em primeiro lugar, devido a investigações incessantes relacionadas com o ciclo eleitoral de 2016, que muitos consideram ter sido solapado por uma "intervenção de hackers russos".

Nessa situação, o presidente estadunidense de fato foi colocado em uma armadilha, não podendo avançar sem que o acusem de alguma "ligação especial" com o Kremlin.

Desse modo, os dois líderes passaram quase dois anos sem se encontrarem em um ambiente de negociação adequado, contudo, mantendo um contato através de telefone em torno de várias questões, inclusive a síria. Afinal das contas, quando um encontro bilateral foi anunciado na mídia internacional, a reação do establishment e da mídia estadunidenses não demoraram. Há numerosos relatos de que Trump, de fato, promoveu este encontro a despeito de numerosos protestos, tanto por parte de parlamentares norte-americanos, quanto dos próprios membros do seu gabinete.

A situação fica ainda agravada pelo fato do encontro acontecer logo após a cimeira dos países-membros da OTAN. Trump é conhecido por suas declarações duras quanto ao funcionamento deste bloco, nomeadamente na área de contribuições financeiras, e como se fosse pouco, ainda planeja se reunir com o principal "agressor" da Aliança Atlântica.

Claro que isso é visto como uma ameaça séria pela OTAN, que parece ter montado toda sua estratégia das últimas décadas na "salvação" da Europa dos russos. Somando isto às declarações de Trump nas vésperas da cúpula, inclusive sobre o possível reconhecimento da Crimeia por Washington, o que contradiz completamente a postura tomada pelo mundo ocidental em relação a Moscou.

Pauta de negociação

De acordo com os pouco numerosos depoimentos feitos por altos funcionários das duas partes, o leque de temas que serão discutidos em 16 de julho em Helsinque será mais que vasto. Assim, deverá incluir assuntos internacionais, particularmente os conflitos sírio e ucraniano, vários aspetos das relações bilaterais e, segundo assegurou o chanceler russo Sergei Lavrov, "todos os assuntos que os presidentes acharem necessário". De acordo com especialistas, as sanções podem ser um dos focos das negociações entre Trump e Putin, sendo que o primeiro por várias vezes expressou a esperança de um dia acabar com as medidas restritivas contra Moscou e começar um diálogo aberto. De fato, uma estratégia semelhante foi escolhida no processo de conversações com a Coreia do Norte, só que no caso da Rússia, esta dificilmente fará algum tipo de concessões por ser uma potência de dimensão completamente diferente.

Evidentemente, a Síria não escapará à atenção dos dois mandatários, tomando em conta que a guerra no país está em sua fase final e logo será seguida por um período de recuperação. Nesse âmbito, surgem aspetos importantes de regulação pós-guerra e de reorganização da vida do povo sírio em um panorama completamente renovado. Além disso, há prognósticos de que os líderes dediquem um tempo especial às questões de caráter estratégico, incluindo a provável celebração de novos acordos para substituir o Tratado de Redução de Armas Estratégicas, que provou sua ineficiência, e o futuro do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, assinado em 1987.

Fonte: Deutsche Welle/Sputinik News/Municipios Baianos

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