15/07/2018

O Brasil que veremos após as eleições de 2018

 

Não apenas o PT, mas os demais partidos no arco das esquerdas, carecem de uma dose cavalar de autocrítica. Fazê-la, nem sempre é uma tarefa agradável. Por vezes, extremamente espinhosa. A direita não carece de tal avaliação, posto monolítica diante do único objetivo que interessa aos seus adeptos, senão ganhar dinheiro com o beneplácito do governo; ocupando-o e servindo-se dele; ajoelhados diante dos conglomerados econômicos. “Os pobres que se explodam”, dizia o comediante Chico Anísio.

ara a esquerda, não. Dos comunistas, na ala extrema, aos trabalhistas ao centro e ‘costeando o alambrado’, conforme resumia o ex-governador Leonel de Moura Brizola; passando por toda sorte de divagações no éter do pensamento socialista; todos concordam que a venda indiscriminada do patrimônio público é um crime de lesa-pátria. E paramos por aí. Talvez seja esta a única intercessão capaz de impedir a completa ruptura do campo inspirado nas teorias de Karl Marx, Friedrich Engels e seus herdeiros.

No mais, a nódoa da discórdia perpassa desde as menores agremiações às maiores, entre elas o PT e suas tendências internas. A legenda, comandada por Luiz Inácio Lula da Silva — preso por demanda do grupo político que ora domina o Executivo, o Congresso e o Judiciário — tem peso preponderante na atual quadro de indigência que a verdadeira política assumiu na vida nacional. Afinal, governou o país por quase 15 anos.

Socialismo de aluvião

Ninguém sai impune após um período de gestão semelhante ao que produziu o III Reich, pela direita; ou, no outro lado da moeda, a Revolução Cubana, em seu período de plena instalação do regime comunista. Em três lustros, muda-se uma sociedade inteira; para um lado ou para o outro. Ao longo deste período, Lula, sucedido pela presidenta deposta Dilma Rousseff, ambos conseguiram avançar alguns milímetros na escala do bem-estar social; mas desceram quilômetros no lodo do pântano clientelista, que toma a maior parte do terreno político brasileiro.

A tese de que se pode construir uma sociedade com base em valores intrinsicamente opostos; na tentativa de suportar a prática nazista do lado em que se encontram, hoje, os candidatos da ultradireita; e apoiar o socialismo de aluvião, do outro, onde brotam postulantes geneticamente modificados à Presidência da República; esta construção ruiu. Implodiu. Colapsou.

Desaguou no golpe de Estado em que o país encontra-se mergulhado, há anos. Deu lugar aos sentimentos vorazes e assimétricos na destruição dos valores mais caros à Humanidade. O racismo aflorou, ao lado do discurso sexista, misógino e violento. Aumentou a distância entre as camadas mais pobres e a classe abastada. Inflou o fenômeno do “pobre de direita”. Dilapidou os principais tesouros do povo brasileiro: seja no subsolo, com a venda do pré-sal; seja sobre a terra, na reforma agrária que inexiste; ou nos céus, com o fim da Embraer. Apenas para citar umas poucas amostras.

‘Chicago Boys’

Nada disso seria possível se o partido que pretendia unir a esquerda e a direita houvesse escolhido, claramente, a trincheira dos ideais a defender. O velho Brizola, de novo ele, observou, ainda em 1994, “as contorções do PT entre suas origens históricas e sua ânsia de integrar-se e servir ao mundo das elites”. E compara as ações daqueles governos ao “um exemplo de como o tempo e o processo social dissolvem tudo o que não é intrinsecamente coerente”.

Parecia prever que a banca e o cartel da mídia monopolista receberiam incentivos bilionários. Até mesmo que a sucessora de Lula preferiria ser vaiada em um casamento na Avenida Paulista a receber os aplausos pela vitória dos aliados na II Grande Guerra; em festividades para as quais recebeu convite de honra, em Moscou. Sem contar o ridículo de bater ovos em um programa matinal da concessionária de TV que tramava sua queda ou, ainda, manter no Ministério da Fazenda um dos mais proeminentes ‘Chicago Boys’.

Na ânsia de formar um centro de poder capaz de sustentar a geléia em que se transformava a teoria de que os ricos deveriam ficar mais ricos e os pobres menos pobres, sem qualquer viés ideológico plausível; promoveu uma política de alianças com estes seres que habitam, ou habitarão, as celas dos presídios no cumprimento das penas por furto qualificado e formação de quadrilha, entre outros crimes. Isso, claro, se o país retomar a normalidade democrática.

Adam Smith

Findas as constatações, o que se vê adiante é o deserto. Um país com margens indecentes de desemprego, mergulhado na pior crise econômica de sua História; assolado pelas nações preponderantes, que retiram nacos generosos do patrimônio público brasileiro e dividido pela força da mídia conservadora. Esta que gera movimentos pasteurizados em prol do capitalismo mais selvagem de que se tem conta, no planeta; com o apoio de fundações norte-americanas de ultradireita, desculpe o pleonasmo.

Ainda assim, Lula ocupa a liderança isolada na corrida presidencial, abastecido com os votos dos pobres que ficaram menos pobres, durante a trajetória pela Praça dos Três Poderes. A figura do torneiro mecânico eleito presidente da República paira acima de todos os obstáculos interpostos por que aqueles ricos, que usaram dos recursos abundantes na gestão do PT para tomar tudo dos pobres, que devem ficar mais pobres, e não o contrário, conforme demanda o ideário de Adam Smith.

A vitória de Lula, nas urnas, pode ser a oportunidade perfeita para que o país siga, doravante, nas trilhas abertas por Luiz Carlos Prestes e defendidas com a própria vida por Marighella e Lamarca. As pessoas evoluem. Parece óbvio que, diante tamanha privação da liberdade, degradação pública e a mais vil iniquidade; Lula saberá reconhecer aqueles que saíram em sua defesa.

Igualdade

E nenhum deles usa black tie.

Assim, garantido o seu direito de votar e ser votado, talvez eleja-se, mais uma vez, para lançar as bases de um país mais justo; no qual o pobre, agora, deixará de ser pobre. Não para que o filho da empregada possa ‘andar de avião’, como diz o líder petista; mas para fundamentar um governo que promova a igualdade econômica e social de toda uma existência.

Onde haja liberdade de imprensa, e não o arremedo criado por seis famílias que dominam a planície dos meios de comunicação.

Uma nação na qual os fascistas sejam reconduzidos aos antros e tocas, de onde nunca deveriam ter saído.

Populismo de esquerda e culto de personalidade. Por Rui Martins

Ser hoje de esquerda no Brasil e não acreditar nas verdades que o PT vai impondo, pouco a pouco, mesmo no Exterior, torna-se difícil. Mas, como nos querem impor um pensamento único, é bom lembrar não haver um monopólio da esquerda por intelectuais que, ainda ontem, justificavam governos de submissão econômica e aliança com banqueiros, empresários e pecuaristas do agrotóxico, governos exportadores de matéria prima sem se preocupar em criar infraestruturas, coniventes com desmatadores das nossas florestas, defensores das sementes geneticamente modificadas da Monsanto, fazendo vista grossa aos assassinatos de índios e negros. Sem se esquecer que antes de Temer, já aplicavam a partilha do petróleo. Esta coluna é para criticar o populismo de esquerda, a criação de um perigoso culto de personalidade, a mentira institucionalizada e a intenção de provocar o caos jurídico no país, desvios que poderão levar o país ao fascismo nas próximas eleições.

Fui um dos defensores do presidente Lula e escrevi mesmo colunas enaltecendo sua figura e muitas de suas iniciativas, responsáveis pela emergência da comunidade negra e pela melhora econômica de milhões de pessoas, principalmente com o Bolsa família, na verdade  nem um décimo do que deveriam receber, segundo a lei Renda de Cidadania, proposta pelo senador Eduardo Suplicy, aprovada pelo Congresso mas nunca regulamentada e nem posta em execução por Lula e Dilma.

Mas Lula não é um deus para mim e nem o considero insubstituível. Acho estranho e nada de esquerda essa deificação atual do Lula, típica de um populismo destinado às “massas”, e isso não é minha praia.

Até hoje não entendi essa história de que não há provas contra Lula, imagino que também não há contra Gleisi, nem contra Dirceu, tudo gente inocente e presa ou ameaçada pela maldade de alguns juízes.

Isso me lembra o livro que escrevi para a Geração Editorial, Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre o Maluf, dedurado por um procurador suíço que estranhou o movimento nos bancos suíços de seus duzentos e tantos milhões de dólares.

Quando dei por telefone para o Heródoto Barbeiro, naquela época âncora da  CBN, o número do processo penal na Justiça suíça contra Maluf por ter contas secretas nos bancos suíços que cheiravam desvio do dinheiro público, minha mãe, que ainda era viva, ouviu o Maluf gritar (tinham deixado o microfone aberto) Mentiroso!

Sim, porque Maluf negava e ainda nega até hoje ter contas bancárias na Suíça. Em síntese, ele é inocente! Tão inocente quanto o Lula.

Você poderá dizer que as delações contra o Lula, inclusive de seus antigos amigos do peito, são falsas, mas tem gente que já devolveu centenas de milhões de dólares, em consequência dessas delações.

Eu nunca soube de casos na Justiça de devolução de dinheiro não subtraído. Só um cara muito maluco iria devolver dinheiro que nunca pegou.

Existem dezenas de pessoas envolvidas nas propinas da Petrobras, muitas delas já julgadas e presas, só que são “inocentes”, os extratos bancários enviados daqui da Suíça são “falsos”!

Vivemos num regime de exceção? Mas porque o Lula e a Dilma aceitaram jogar o jogo da Justiça brasileira e não pediram asilo num país amigo para denunciar a ditadura brasileira?

Por que denunciam a Justiça e depois tentam obter dessa mesma Justiça um habeas-corpus com um juiz desembargador amigo, dos bons, que recebe salário da “ditadura” mas é contra a “ditadura”?

Imagine se eu, que não acredito nem em Papai Noel e nem em Deus todo-poderoso, posso beijar o catecismo de uma história da carochinha de que existe um país onde o presidente não sabia e nem tinha a mínima suspeita de que seus auxiliares andavam levando para seus amigos a prata da casa.

Mas é claro que com esse tipo de brincadeira feito no domingo, por um desembargador plantonista, a Justiça acabaria se descredibilizando se a jogada não tivesse sido interceptada.

E fico arrepiado ao ver que até a revista Carta Capital decidiu defender o desmbargador Rogério Favreto! (bom ela já defendeu a extradição do Cesare Battisti!). Quem se desmoraliza com isso? O petismo e por redundância a esquerda brasileira. E o resultado dessa esculhambação do Judiciário? A ascenção do nazifascista Bolsonaro. Mas dizem que ele não é o perigo, é um mito.

Então, peço para o leitor ler o artigo do Vladimir Safatle, que é de esquerda (ou não é?) publicado na Folha e transcrito pelo Celso Lungaretti (esquerda ou não?) no seu site Naufrago da Utopia, antes que morramos todos afogados.

A idéia era a de incendiar o circo no domingo

Assim que o desembargador plantonista Rogério Favreto assinou o habeas-corpus em favor de Lula, todos os petistas cadastrados receberam um pdf ou uma foto do documento. Não me perguntem quem fotografou ou transformou em PDF o documento e enviou ao plantão petista. Gleisi Hoffman, imediatamente, imitou o movimento concorrente VemPraRua e começou a convocar o povo para ir às ruas receber o Lula. Alguns blogueiros mais excitados, imaginando a libertação imediata do líder, iam cronometrando a libertação – “neste momento, Lula foi liberado pelos guardas, está na porta do presídio. Lula já está no carro que o leva a São Bernardo do Campo” e assim por diante.

Já pensaram na confusão armada se Favreto tivesse realmente posto o Lula na rua e o líder tivesse ido para São Bernardo, onde Gleisi mandava o povo acolhê-lo? Quem iria lá buscá-lo para levar de volta a Curitiba, assim que o habeas-corpus fosse revertido? Estaria criado o caos.

 

Fonte: Por Gilberto de Souza, no Correio do Brasil/Municipios Baianos

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