18/07/2018

Escolas ainda confundem racismo com bullying

 

– Levanta a mão quem aqui já sofreu racismo. – Essa é a primeira frase que eu digo para os meus alunos antes de iniciar o tema do racismo e seus desdobramentos na sala de aula, nas turmas do ensino médio.

Muitos deles, inclusive eu, levantam a mão. Até mesmo meninos e meninas brancas.

Peço então que alguns deles se pronunciem.

– Me chamaram de gordo, baleia, orca, Nonho. – expõe um aluno.

– Me chamaram de Pinóquio por causa do meu nariz. – conta uma aluna.

– Vivem me chamando de mulherzinha, mariquinha, bichinha, gazela. – fala outro aluno.

– Prô, me chamam o tempo todo de Gasparzinho. Eu vivo sofrendo racismo porque sou muito branca. – descreve a aluna, esfregando a cútis para dar ênfase a sua branquitude.

– Me zoam o tempo todo porque eu sou manco. – intercepta outro aluno.

Eu interrompo: – Vocês estão confundindo as coisas. Estamos falando de racismo e não de bulliyng, preconceito.

Em geral, eles me olham espantados, confusos. Inclusive é muito comum os meus alunos negros permanecerem em silêncio, talvez tão confusos quanto os outros.

Racismo é diferente de bullying! Há uma linha tênue que os separa, afinal, tanto um quanto o outro agride físico e psicologicamente, ou seja, ofende, humilha, violenta, por isso em geral confundimos e as escolas tendem a colocar duas coisas díspares num único discurso, isto é, num único “conteúdo”. Mas eu insisto: bullying, preconceito é diferente de racismo.

– Levanta a mão quem aqui já foi seguido no supermercado pelo segurança, quem aqui tem medo da polícia ou quem já apanhou da polícia, quem aqui já foi humilhado, maltratado sem saber a razão ou o porquê.

De repente, um aluno negro comenta:

– Esses dias eu estava numa drogaria esperando pra ser atendido e nada. Não tinha ninguém pra ser atendido, só eu, mas ninguém me atendia. Quando perguntei ao balconista: Oh, você não vai me atender? Tô plantado aqui, cansado de esperar, não vai me atender? Ele me respondeu: – Sua raça está acostumada a esperar.

– Isso não é racismo – intercepta uma aluna – seria se ele tivesse te xingado de macaco ou encardido.

Sim, isso é racismo e prossigo:

– Vocês sabiam que um jovem negro, de 15 a 29 anos tem até 147% mais chances de ser assassinado que um jovem branco]? Vocês sabiam que há vidas que quando são perdidas, sequer são lamentadas, nem pelo Estado, nem por uma parte da população? Que há vidas supérfluas a quem os direitos básicos são negados? Vocês sabiam que 73,3% dos beneficiários do Bolsa Família são negros, desses mais de 50% tem menos de 24 anos e 60% tem apenas o ensino fundamental incompleto? Vocês sabiam que 96% dos apresentadores de telejornais e 94% dos jornalistas desse país são brancos?

Vocês sabiam que um trabalhador negro no Brasil ganha em média pouco mais da metade (57%) do rendimento recebido pelos trabalhadores de cor branca? Em termos numéricos, trabalhadores negros ganham em média R$ 1.374,79 e os trabalhadores brancos em média R$ 2.396,74? Vocês sabiam que 86,5% dos magistrados brasileiros são brancos?

Com quem nós, ou melhor, com quem a elite quer se assemelhar: ao povo que ela dirige ou àqueles, considerados superiores, dos países desenvolvidos aos quais ela tem como referência? Qual a imagem que temos de um ladrão e de um bandido? Quantos presidentes negros o Brasil já teve? Já houve algum papa na história da igreja católica negro?

– Eu não sou racista – dizem alguns alunos.

– Todos nós somos iguais. Racismo é coisa da cabeça de gente fraca.

O racismo não é uma deformação do comportamento, ou seja, não está preso ao campo subjetivo, como acontece na prática do bullying, o qual está totalmente ligado a ideia de preconceito (um juízo antecipado que não passa pelo crivo da razão, juízo este que existe na cabeça de um indivíduo ou grupo de indivíduos que rejeita ou não aceita o outro devido à cultura, sexualidade, religião, etnia, nacionalidade, idade, etc). O que acontece em relação ao racismo é que essa lógica da rejeição, da exclusão, da aversão, da humilhação evade o campo subjetivo e invade o campo objetivo, isto é, o campo da norma, normatizando-se e naturalizando-se, uma vez que é semeado e equalizado pelo campo político, jurídico, econômico, cultural e social.

Trata-se então de explicitar que as sequelas deixadas pelo racismo são muito mais profundas e sutis, embora muitas vezes olvidadas no ambiente escolar e na sociedade de um modo geral, pois ao contrário do bullying que é uma violência física ou psicológica considerada fora da norma, isto é, anormal, fora daquilo que é aceito e por isso deve ser combatido. O racismo está dentro da norma ou normalidade, uma vez que é assegurado pela própria estrutura da sociedade e do Estado.

Cumpre, portanto, enfatizar que o racismo está no DNA do Brasil, isto é, o racismo é uma ferramenta que está na gênese do Brasil e que se consolidou estruturalmente, permitindo, inclusive, que o Brasil abolisse os escravos sem que se rompessem as hierarquias sociais engendradas durante o período da escravatura. A cidadania do negro, tão almejada durante o período colonial e escravocrata não se deu de modo pleno, pois basta olharmos a paisagem social atentamente para nos certificar que homens negros e mulheres negras perseveram em desvantagens, continuam se sujeitando as piores condições de trabalho e tratados como sub-cidadãos. Certamente, a abolição permitiu que o negro se evadisse da sua condição de objeto, de coisa, de mercadoria, entrementes, não pulverizou sua condição subalterna.

Falar em racismo em sala de aula significa destrinçar o nervo crítico da subalternização do sujeito negro brasileiro, uma vez que nesse país é a cor da pele que atua como mecanismo de diferenciação de oportunidades, significa desmascarar o mito da democracia racial e desnudar que o problema racial no Brasil não está preso ao campo individual ou a uma variação do preconceito de natureza subjetiva. Obviamente, as ações individuais devem ser combatidas e denunciadas, mas é preciso também falar nas escolas da ideologia racista e hierarquizadora da condição humana, usada para perpetuar os privilégios cada vez mais inacessíveis para a maioria da população. É inegável que é preciso elucidar as questões mais estruturais do capitalismo brasileiro que sustenta e assegura o racismo, escancarando fratura existente entre negros e brancos.

Ou seja, ser racista não significa apenas rejeitar, humilhar, ofender, aviltar física e psicologicamente alguém, como sem dúvida também acontece no bullying, mas concordar com a função assassina e excludente do Estado que ceifa a vida daqueles considerados delinquentes, degenerados, supérfluos ou semi-cidadãos. E aqui, parafraseando Foucault, tirar a vida não significa necessariamente o assassinato direto, mas também tudo o que pode ser assassínio indireto: o fato de expor à morte, de multiplicar para alguns  o  risco  de  morte  ou,  pura  e  simplesmente,  a  morte  política,  a  expulsão,  a  rejeição. Descortina-se assim, que o racismo é um mecanismo indispensável como condição para se tirar a vida de alguém ou tratar alguém como cidadão de segunda classe, numa sociedade normalizada, ou seja, o racismo não está no campo do anormal, do patológico, daquilo que deve ser prevenido e combatido.

Se a escola é a primeira arena onde o racismo deve ser discutido e combatido é urgente, portanto, que se disseque a raiz do racismo, escancarando como ele se apresenta no Brasil desde a sua formação e seus ressignificados durante o Brasil república e no neoliberalismo atual, pois só conseguiremos superá-lo no dia em que o negro for arrancado da sua cidadania restrita e for cingido com a mesma cidadania universal dos brancos, no dia em que todos os cidadãos tiverem igual acesso aos palcos da política, do trabalho digno e instâncias econômicas, sociais e jurídicas.

SUICÍDIO NA ADOLESCÊNCIA: A morte evitável. Por Mario Louzã

Segundo a Organização Mundial da Saúde, a cada quarenta segundos morre uma pessoa por suicídio, uma das principais causas de mortalidade no mundo, especialmente entre os jovens. Outro dado preocupante é o aumento significativo, cerca de 35% a 40%, das taxas de mortalidade por suicídio, especialmente na adolescência e idade adulta jovem nos últimos dez anos.

Enquadram-se no conceito de suicídio três situações de risco progressivo: o pensamento suicida, a intenção suicida (quando já há planos mais ou menos detalhados de como cometer o suicídio) e o ato suicida em si (resultando ou não em morte). Incluem-se também nesse conceito os atos de autoferimento [self-harm], com ou sem intenção suicida.

Embora muitos fatores biológicos, emocionais e sociais possam influenciar o risco de suicídio, o principal deles é a depressão. Depressão aqui deve ser entendida como algo muito diferente da tristeza normal. Trata-se de um transtorno mental caracterizado por tristeza profunda e contínua, dificuldade de sentir prazer nas atividades cotidianas, pensamento negativo, ansiedade e falta de esperança, além de sintomas físicos como insônia e diminuição do apetite e da libido. Nos casos graves, o pensamento negativo e de culpa e a falta de esperança desembocam no pensamento suicida; este pode evoluir para o planejamento e o ato em si.

Além da depressão, fatores de risco para suicídio incluem: tentativas prévias de suicídio, ser do sexo masculino, condições desfavoráveis do ponto de vista pessoal, familiar, social e econômico (separação dos pais, experiências adversas na infância, como abuso físico ou sexual, transtorno mental ou história de suicídio na família, bullying, dificuldades interpessoais, baixa autoestima, impulsividade, abuso de álcool e drogas, entre outros). Estresse, competitividade e pressão por resultados e alto desempenho escolar parecem ter um impacto importante no risco de suicídio entre adolescentes.

A adolescência é um período de transformações significativas do ponto de vista biológico, psicológico e social. O adolescente é particularmente vulnerável às avaliações e aos julgamentos de seus pares, algo que se multiplicou com a internet e as mídias sociais. O cyberbullying tornou-se um fator a mais de risco para o jovem; em poucos minutos, mensagens, fotos ou vídeos “viralizam” e expõem o adolescente mais fragilizado de forma devastadora. Muitos se veem sem saída, humilhados e expostos, e reagem com um ato suicida.

O suicídio é a morte evitável. Detectar precocemente que uma pessoa está em risco de suicídio – ou seja, quando ela apresenta ainda “somente” ideias suicidas, mas nenhum plano concreto de executá-lo – é a principal “janela de oportunidade” para preveni-lo. Esse é o momento ideal. Na situação já de planejamento suicida, é importante estar atento aos indícios de que a pessoa começa a procurar saber como cometer o suicídio, qual método usar. Ela pode ir em busca de armas de fogo ou começa a estudar quais são os venenos ou os medicamentos mais perigosos. Há nessa situação um aumento da impulsividade da pessoa, em parte pelo fato de que ela vê no suicídio a única saída para si, o que a leva a ter “forças” para o ato.

Alguns sinais de que a pessoa tem pensamentos suicidas são: falta de esperança, angústia, sentimentos de vergonha, humilhação e culpa, falta de perspectiva futura e sofrimento intenso (muitas vezes por algum fato marcante da vida, recentemente acontecido). Eventualmente a pessoa verbaliza “gostaria de dormir e não acordar mais”, “não vejo mais sentido em viver”, “a vida está muito difícil, insuportável”, “sou um peso para as pessoas, não quero mais isso”, “quero me livrar deste sofrimento todo”, “nada mais importa”, “a vida não vale a pena”. Nem sempre os sinais são claros; frequentemente o adolescente busca o isolamento, reduz o contato com os familiares, busca a privacidade de seu quarto e substitui o contato com amigos e colegas “reais” por contatos “virtuais”. Esse isolamento muitas vezes pode ser confundido com a “crise da adolescência”, sendo relevado pelos familiares.

Em geral, familiares e amigos são os primeiros a perceber que a pessoa não está bem e tem pensamentos suicidas. Nessa situação, devem conversar com ela e levá-la a um médico psiquiatra para uma avaliação mais detalhada. O risco de suicídio é uma indicação formal para internação psiquiátrica. No hospital psiquiátrico, a pessoa é acompanhada 24 horas por dia, seus atos são monitorados e introduz-se o tratamento necessário para alívio do sofrimento psíquico. Em casa é muito difícil conseguir vigiar a pessoa o tempo todo; em contrapartida, é muito fácil o acesso a potenciais métodos de suicídio, que pode ser cometido de forma abrupta, sem que haja tempo de evitá-lo.

Vivemos numa época de grande influência das redes sociais na vida das pessoas. Muitos questionam sobre os prós e contras de falar ou não sobre suicídio. Alguns acham que isso encoraja o ato, outros dizem que é um meio de prevenção. A questão principal é a forma como o assunto é tratado. Muitas vezes a mídia aborda o tema com certo “glamour”, dando a impressão de algo parecido com um ato de heroísmo ou de conquista, que fará os outros admirarem a pessoa que se suicidou. Essa abordagem evidentemente é negativa e muitas vezes “incentiva” o suicídio (o chamado “contágio social”, ou “efeito Werther”, em referência ao personagem do romance Os sofrimentos do jovem Werther, de Johann Wolfgang von Goethe). O tema deve ser tratado com um enfoque de prevenção, visando auxiliar o reconhecimento do risco de alguém cometer suicídio. Muitas pessoas com pensamentos suicidas se sentem constrangidas em falar sobre isso, pois receiam ser estigmatizadas por familiares ou amigos. Nesse contexto estão inseridas as campanhas do Setembro Amarelo e mesmo a divulgação do Centro de Valorização da Vida (CVV), que tem um papel importante no auxílio a pessoas com risco suicida. Do mesmo modo que há sites que abordam o suicídio de modo negativo, “ensinando” métodos e criando “jogos” que podem levar seus participantes à morte, estudos mostram que sites ou fóruns que promovem a prevenção do suicídio têm um papel importante no auxílio a pessoas em risco. Especialmente os jovens procuram apoio e aconselhamento com maior frequência entre seus pares do que com profissionais especializados.

O suicídio é um problema médico-social complexo e uma grande preocupação na atualidade. É importante estar atento e antever essa possibilidade diante de uma pessoa que apresente depressão e esboce pensamentos negativos, desesperança e outros. Agir nesse momento pode ser a diferença entre a vida e a morte.

Fonte: Por Luanda Julião, em Justificando/Le Monde/Municipios Baianos

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